sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

 Tom 


  



 

 


 




 


Livros de Hal Leonard

Uma marca da Hal Leonard Corporation

7777 West Bluemound Road

Milwaukee, WI 53213

Escritórios Editoriais da Divisão de Livros

Comerciais 33 Plymouth St., Montclair, NJ 07042

© 1996 Helena Jobim

Tradução para inglês © 2011 Dário Borim Jr.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida de qualquer forma, sem permissão por escrito, exceto por um revisor de jornal ou revista que deseje citar breves passagens em conexão com uma resenha.




Publicado em 1996 como Antonio Carlos Jobim: Um Homem Iluminado pela Editora Nova Fronteira Edição em inglês publicada em 2011 pela Hal Leonard Books

Design do livro por FL Bergesen

Os dados de catalogação na publicação da Biblioteca do Congresso estão disponíveis mediante solicitação.

ISBN: 9781458429421

www.halleonardbooks.com

 


Para meu irmão,

Esse amor fiel,

Na vida e na morte




 


Cada vez que uma árvore é cortada aqui na Terra, acredito que ela crescerá novamente em algum outro lugar –

em algum outro mundo. Então, quando eu morrer, é para esse lugar que eu quero ir, onde vivem as florestas paz.

Antonio Carlos Jobim




 


Conteúdo

Dedicação

Epígrafe

Prefácio

Nota do Tradutor

Vida, Morte e Criação

Introdução





 

Abertura

Trajetórias





 

Ancestralidade

Infância

Estréia

Liberdade

Estrelato

Dificuldade

Renascimento

Perda





 

Desfecho

Inserção de foto

 


Prefácio

QUALQUER PESSOA QUE AMA MÚSICA, principalmente músicas boas, provavelmente

se lembra do momento em que ouviu “Garota de Ipanema” ou “Desafinado” pela primeira

vez. Para mim, foi algo como o verão de 1962. Quando adolescente e músico iniciante, eu

estava em órbita em torno da música da Motown, dos Beatles e do DJ de jazz da rádio de

Chicago, Sid McCoy.

Aí ouvi o compositor Jobim e encontrei uma parte de mim. Os mistérios das melodias

longas e moldadas e das complexas estruturas harmônicas ressoaram completamente em




mim. Praticamente tudo que compus, ou que gostei de ouvir desde então, teve alguma raiz

naquele momento de descoberta.

Os anos se passaram e deixei minha marca como músico e, talvez por motivos

emocionais e espirituais, no início dos anos 1990, comecei a ouvir novamente toda a obra

de Jobim. Só agora eu estava muito mais preparado para reconhecer qualidades que não

conseguia compreender quando era criança.

Também embarquei em explorações casuais de toda a música brasileira a partir da

década de 1950. Isso incluiu ler tudo o que pude encontrar, em inglês, sobre o

desenvolvimento de Jobim, sua história, sua vida. Havia muito pouco sobre o próprio

homem, seus desafios pessoais, demônios, triunfos. O que ele estava pensando?

Obviamente, nunca saberemos.

Aí veio a minha descoberta, na internet, de Antonio Carlos Jobim: Um Homem Iluminado,

de Helena Jobim (disponível em português, e talvez em japonês, mas não em inglês). Que

preciosas pepitas de insight estavam frustrantemente fora do meu alcance ignorante?

Na leitura de artigos na Internet, me deparei com a escrita erudita e divertida do

professor Dário Borim, que compartilhava comigo o amor pela música, e principalmente

por Jobim. Aproveitei a oportunidade e escrevi para ele, e assim comecei um trabalho de

amor para levar o encantador livro de memórias a uma enorme população de amantes da

música que lêem inglês. O Sr. Borim reservou um tempo de suas ocupadas atividades

como professor, escritor e personalidade do rádio para assumir a tradução. Sou eternamente

grato a ele.

Roberto Lamm




 






 

Nota do Tradutor

AO OUVIR RENDIÇÕES ANTOLÓGICAS de clássicos da bossa nova de Ella Fitzgerald,

Stan Getz, João Gilberto, Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e Sarah Vaughan, entre outros,

li a elegante prosa portuguesa de Helena Jobim sobre a gênese de verdadeiras joias da

música do século XX . A cada dois minutos, fiquei ainda mais entusiasmado em recriar,

em inglês, histórias tão fascinantes que explicavam a escrita de “Dindi”, “Desafinado” ou

“A Garota de Ipanema”.

Momentos de tal felicidade sensorial e intelectual foram extremamente raros em minha

vida como escritor, crítico literário, tradutor e produtor de rádio.

Mas nem sempre foi um período fácil. Antonio Carlos Jobim era alguém que conhecia

muito bem os perigos e os poderes da tradução. Ele sempre buscou os profissionais mais

competentes do ramo, como os letristas Ray Gilbert, Norman Gimbel e Gene Lees, para

fazer suas músicas brilharem em significado e elegância na língua inglesa. Ele próprio

trabalhou diligentemente em várias das novas versões propostas para suas letras. Ele

compreendeu as luzes e as sombras, especialmente os aspectos culturais e linguísticos,

da tradução literária, que exige cortes e acréscimos, acolhe semelhanças e diferenças,

mas não pode evitar ganhos e perdas. Como resultado, muitas estrofes de “Águas de

março” e “Águas de Março”, por exemplo, não são iguais. Embora difiram consideravelmente

até mesmo em extensão, os dois poemas apresentam muito mais em comum do que as

imagens literais que transmitem. Mais significativamente, nenhum é superior ao outro.

Traduzir este livro foi tão difícil quanto qualquer outra tarefa de tradução, exceto pelo

fato de Helena Jobim ser uma escritora premiada e seu irmão ser considerado por muitos

críticos como um dos maiores compositores do século XX. Então, eu definitivamente dei

meu coração e alma a esta missão, mas não sem o apoio da Universidade de

Massachusetts Dartmouth e de vários indivíduos. Meus agradecimentos a John Cerullo,

por confiar neste projeto, além de Iris Bass, Jessica Burr, Mike Edison e todos os demais

funcionários de Hal Leonard que ajudaram a tornar este volume o que ele é visualmente e




de outra forma. Por vários atos de gentileza e expertise estou em dívida com a própria

Helena Jobim, seu marido (Manoel Malaguti, in memoriam), Marco Feitosa, Thereza Otero

Hermanny, Ana Lontra Jobim e Cristina Rocha, no Brasil; e Ann Fifield, Maureen Hall,

Kassandra Hartford, Rick Hogan, Janet Homer, Christopher Larkosh e Charles Perrone,

aqui nos Estados Unidos. Acima de tudo, estou grato pelo

 


generosidade e inspiração do pianista e cantor e compositor Robert Lamm, um

dos membros fundadores do lendário grupo Chicago.

Dário Borim Jr.

Universidade de Massachusetts Dartmouth e WUMD




 


Vida, Morte e Criação

FALAR DE UM OU DUZENTOS ANOS no futuro é imprudência neste mundo onde tudo

acontece muito rápido e as mudanças são galopantes. Dentro de alguns anos, tudo é

imprevisível. Penso, porém, que o futuro exigirá uma visão mais espiritual das coisas, o

que talvez aumente o interesse pela obra de um Antonio Carlos Jobim. Muitas vezes,

quando converso com amigos, eles me perguntam o que estou fazendo. Estou

acostumado a responder: “Estou escrevendo para a posteridade.

Estou trabalhando para merecer aquela estátua de bronze do Jobim num parque em algum lugar.”

A criação é um ato de amor, algo que se comunica com toda a humanidade. Um artista

não deveria fazer nada que pudesse contribuir para a queda do mundo. Acho que tenho

um senso de responsabilidade por aqueles com quem convivo.

A vida tem um significado oculto, certamente. Nasci num ambiente cético, de forma



agnóstica. Antes da natureza, porém, sinto que toda negatividade é ingênua, que Deus

não nos teria criado para nada.

As pessoas hoje são muito mais rudes e agressivas do que eram há alguns anos.

Numa rua deserta, numa zona tranquila da cidade onde as crianças brincam, um carro

pode passar demasiado rápido para o puro prazer de acelerar ou por qualquer outro

motivo indiferente a tudo e a todos. Bem, se pelo menos eles estivessem com pressa

para chegar a algum lugar. Aprender é difícil. Temos que nos reeducar para não

abusarmos dos outros e não permitirmos que abusem de nós. Apesar de tudo, a vida

pode ser agradável para quem gosta do que faz. Ali naquele piano estão músicas não

editadas que precisam ser trabalhadas. Se tudo correr bem, se o avião não cair, vamos

gravar e escrever músicas para os jovens, para quem quiser e puder melhorar no futuro.

Isto é o que quero dizer.

Antonio Carlos Jobim

Rio de Janeiro, 1982

 




Introdução

ENTREGUEI OS ORIGINAIS de Antonio Carlos Jobim: Um homem iluminado ao meu editor.

Atravessei ruas engarrafadas e pontes sonhadoras em uma cidade enevoada sob uma

chuva leve – parecia que atravessei o mundo inteiro para chegar à praia.

E me contive por um momento para olhar o mar, esse mar coberto de cristas brancas

pelo vento, esse mar que é meu, que é seu, Tom, que é de todos nós - águas que me

carregaram no peito da primeira à última página deste livro.

Ao meu lado, Manoel Malaguti foi insubstituível.

Trabalhamos juntos neste livro, noite e dia, entre risos e lágrimas. Foi difícil. Foi fácil.

Muitas vezes beirava o impossível, mas de repente era também esplendor, iluminação, uma

viagem fantástica.

Agora, aí está. Não tive a intenção de esgotar um assunto tão vasto. Esta foi a minha

abordagem, o meu foco, uma redenção involuntária que busquei inconscientemente.

Existem passagens íntimas narradas em primeira pessoa. Em outras ocasiões, precisei

recuar, usar a terceira pessoa e olhar de cima aquela fabulosa paisagem.

Um homem iluminado não termina com o último ponto final da última página.

Nem conclui com a última palavra que deixo aqui. Vai se escrevendo, se fazendo e crescendo

por si mesmo.

Helena Jobim




 


Abertura

ERAM DEZ HORAS da manhã de uma quinta-feira e o dia estava muito claro. As

primeiras brumas haviam desaparecido dos morros e das vidraças. Aquele dia ensolarado

parecia extraordinariamente claro, depois de várias semanas de chuva. Era primavera

no Brasil — 20 de outubro de 1994. Estávamos em nossa casa de campo e Oziel plantava

buganvílias vermelhas para preencher as lacunas na cerca viva em frente ao jardim. Foi

nesse momento que recebemos a ligação. Nossa cachorrinha vira-lata, Funny, corria de

um lado para o outro em êxtase, tentando pegar com a boca a água que jorrava da

mangueira de borracha. Manoel, meu marido, lavou o chão escorregadio da varanda,

repleto de folhas encharcadas grudadas no chão de cimento. Descalço e com as calças

arregaçadas até os joelhos, ele assobiou.

Lembro-me bem de quando o caminhão chegou. Subiu a rampa de pedra e ladeada



por canteiros e parou em frente à casa. Era dirigido por José Alonso, filho do dono da

mercearia local, Amador. Ele trouxe uma mensagem da minha sobrinha Elizabeth, filha

mais velha de Tom. Ela nos pediu para ligar para a casa do meu irmão antes do final do

dia. “Mas não é grande coisa”, dizia o pós-escrito da mensagem manuscrita.

Enquanto meu marido entrava em casa para trocar de roupa, pedi à nossa criada Diná

que trouxesse café e ali mesmo, na varanda, continuei minha conversa com José Alonso.

Mas ele logo se despediu, dizendo que precisava ir para Teresópolis. Momentos depois,

Manoel e eu estávamos no carro em direção a Valverde, cidade com telefone mais

próximo disponível na região de Poço Fundo, onde ficava nossa casa de campo. Em

menos de dez minutos chegamos à loja do Amador: um empório típico das pequenas

cidades brasileiras, com araras azuis pintadas na fachada do prédio. No balcão, um

telefone moderno contrastava com as antiquadas prateleiras com garrafas e alimentos

para vender a granel em grandes sacos de maconha. Bonecas de celulóide nuas e cor-

de-rosa pendiam do teto, empoeiradas, ao lado de pares de tênis coloridos e botas com

sola feita de pedaços de pneu. Manoel comprou algumas fichas telefônicas e conseguimos

nos conectar com o Rio em pouco tempo.

Elizabeth respondeu: “Terei que levar Maria Luiza para Nova York. Ela sente muita

falta dos pais. Elizabeth também me contou que Ana, minha cunhada, havia me convidado

para passar alguns dias lá no Rio, com João Francisco.

Os filhos mais novos de Tom, Maria Luiza tinha sete anos, e João

Francisco, quinze.




 


"Meu irmão está bem?"

“Sim, sim, ele está terminando seus testes de laboratório. Parto para Nova York com Maria

Luiza sábado à noite.”

Sábado de manhã descemos a montanha. Chegamos ao Rio antes do meio-dia.

A viagem foi rápida. Manoel buzinou em frente à palafita. O porteiro Nivaldo apareceu, alto e corpulento em seu uniforme branco. Ele não conseguia tirar o sorriso do rosto.

A rampa, o pequeno lago, o ipê em flor – essas foram as primeiras imagens. Subi as escadas, atravessei a sala e entrei no estúdio do meu irmão. Parecia estranhamente deserto. As janelas abertas emolduravam a vista familiar: o morro rochoso, a estátua do Cristo Redentor, a lagoa

ensolarada e um pequeno e distante pedaço de mar. Um silêncio pesado me envolveu. O ar

abafado e sem vento persistia. Os pássaros foram silenciados pelo forte calor. Lá fora, nenhuma folha ousava se mover. Fiquei imóvel por um tempo, apenas olhando. Dois pianos de cauda

permaneciam em silêncio, um deles com a tampa levantada e o marfim das teclas amarelado.




No sofá, jornais empilhados. Nas prateleiras, livros desarrumados, deixados como sempre Tom

fazia.

Aproximei-me dessas coisas sem pressa: em cima de um dos pianos, uma coleção de óculos

e óculos de sol, um copo com canetas e lápis e partituras bem limpas.

Havia também caixas de charutos ainda fechadas e fotografias emolduradas.

Não sei quantos minutos fiquei ali, tocando seus objetos, mas Manoel me chamou em

determinado momento. Ouvi suas risadas e as vozes dos empregados domésticos na cozinha.

O aroma doméstico dos salteados despertou em mim algumas recordações remotas. Então a

cozinheira da família, Tilde, comemorou minha chegada. Nós nos abraçamos e nos beijamos.

Eu disse: “O que há com Elizabeth? E Maria Luiza?”

“Dona Elizabeth saiu ontem à noite com Maria Luiza. Ela escreveu um bilhete para você.

“Mas não era esta noite que eles iriam para Nova York?”

“Bem... é que dona Elizabeth de repente conseguiu encontrar passagens aéreas para o último noite. Maria Luiza estava muito chorosa…” – Tilde parecia muito confusa.

“Que tal João Francisco?”

“O João está em Itaipava, na casa dos pais do amigo Zeca. Mas ele estará de volta amanhã.

Subimos. Abri nossa mala, pendurei algumas roupas na do meu irmão

 




armário, entre os casacos. Às duas, sentamos à mesa para almoçar. Elizabeth tinha-nos deixado

alguns envelopes com cheques, dinheiro e contas para pagar, além de várias listas descrevendo

os horários diários de atividades extracurriculares de João Francisco.

Naquele dia, ligamos várias vezes para Nova York. Ninguém atendeu no apartamento do

meu irmão. Ligamos para casa do nosso sobrinho Paulo. Ele concordou em vir nos ver naquela

noite. Uma chuva fina começou a cair. As luzes do jardim permitiam ver flashes de água caindo em ângulo. Eles me transmitiram uma vaga tristeza. Às nove chegou meu sobrinho.

O Paulo conversou comigo e com o Manoel até bem tarde. Fumando muito, Paulo parecia

perturbado, mas não pude acreditar no que ele dizia. Em nossa família não houve nenhum caso

de câncer.

“Cigarros”, o médico lhe explicaria mais tarde. “E charutos também. Eles

atacam mais os pulmões e a bexiga.”

Não consegui dormir naquela noite. Quantas vezes eu levantei? Eventualmente, desisti de

tentar dormir. Passei muito tempo debruçado sobre a grade da varanda, olhando a chuva que

caía. Fino e incessante, fazia o aroma da terra encharcada espalhar-se por todo o jardim.

Quando o primeiro brilho do dia surgiu acima do mar, estava bastante frio. Manoel acordou e

me viu ali: “Vem deitar. Seu irmão ficará bem.

"Eu sei."

"Mas venha... ou você vai pegar um resfriado."

Só então, os tons vívidos de outro céu ao amanhecer entraram no quarto.

Naquela manhã de domingo João Francisco chegou de Itaipava. Ele havia perdido algum peso.

Ele parecia mais bonito, mais alto, muito parecido com seu pai. Ele me abraçou com seu estilo rude, mas terno, exclamando: “Que bom que você veio!”

Ele deixou a mala no chão e subiu correndo as escadas. Ele então ligou seu sistema de

música e, ao mesmo tempo, tentou entrar em contato com amigos pelo telefone.

Lembrei-me de uma frase da minha mãe: “Adolescentes: rápidos e insensíveis”.

Essa lembrança me fez sorrir. Já tínhamos estado lá e feito isso, Tom e eu, quando adolescentes.

Pudemos conversar com Tom todos os dias. Meu irmão parecia bem, cheio de esperança.




 


Durante o tempo que passou em Nova York foi submetido a uma angioplastia: “o pequeno

balão”, como ele chamava. Uma de suas artérias estava encolhendo após o cateterismo.

Arriscaram-se a pensar que se tratava de algum factor genético — mas a verdade é que

todas as artérias do seu corpo estavam obstruídas até certo ponto. Segundo seus médicos,

não havia chance. Não adiantaria nada operar seu coração. Dias depois, ele foi submetido

a um procedimento microcirúrgico na bexiga. Com anestesia peridural removeram pólipos

e realizaram novas biópsias.

Num fim de semana em Poço Fundo, dois meses antes daquela viagem a Nova York, ele

me revelou: “Minhas carótidas estão quase fechadas. O perigo é que alguma placa de

gordura se desaloje e se instale no cérebro. Se isso acontecer…” – ele se interrompeu,

com o rosto virado de lado em direção à lareira.

Eram dez da manhã e estava muito frio. Estávamos sozinhos na sala de sua casa em



Poço Fundo e dali ouvíamos as risadas das crianças lá fora. Sentado no sofá, meu irmão

estava inclinado para frente, seu corpo iluminado pelas chamas brilhantes. Também era

mantido aquecido por um sobretudo de lã por cima do pijama. Seus ombros caídos e

mãos abertas revelavam uma poderosa sensação de desânimo. Ele continuou, em voz

baixa: “Senti uma dor no peito”. Levantando-se abruptamente, concluiu com uma vaga

observação: “Mas tudo isso não importa”.

Tentei falar sem demonstrar minhas emoções, mas minha respiração estava paralisada

pelo medo de perdê-lo e pela noção de que não suportaria aquela dor. O que consegui

dizer foi simplesmente: “Você viverá muito. Tenho certeza."

Ele virou os olhos para mim. “Preciso criar a Maria Luiza. E ser mentor do João

Francisco. Ele já terá quinze anos.

“Mas você vai criar seus filhos! Você vai dançar no baile dos quinze anos da Luiza.”

Ele sorriu, meio amargamente, meio ironicamente, porque o que eu acabara de dizer

era muito antiquado e, àquela altura, ele já havia previsto um fim precoce para sua vida.

Saímos para a cozinha e nos sentamos em frente a uma longa mesa coberta com uma

toalha xadrez. O armário de madeira escura deixava ver, através do seu vidro, as chávenas

azuis penduradas no seu interior. Este mobiliário fazia parte de um cenário antigo, uma

paisagem de outras épocas. Num gesto típico dele, Tom estendeu a mão para mim por

cima da mesa. Ele então segurou minha mão levemente. No momento seguinte, Nininha,

empregada de Ana, entrou na cozinha, empurrando a porta de tela para dentro: “Quer

suas sardinhas agora?”




 


Tudo parecia perfeito, como se a nossa conversa sobre a vida e a morte nunca tivesse

acontecido. A pele do rosto, ainda lisa, conservava alguns resquícios de juventude. Abriu a

garrafa de cerveja que Silas acabara de trazer da barraca de Joel. Ele então me serviu um

pouco em um copo de gargalo longo, controlando a cabeça. Carinhosamente notei as manchas

brancas nas costas de suas mãos. Ele era como eu, sem rugas. À medida que envelhecemos

gradualmente, as forças dos nossos genes acentuaram o quão parecidos éramos.

Mais uma vez participamos juntos daquele ritual do Poço Fundo sem saber que seria a

última vez: antes do almoço, alguns petiscos e algumas bebidas. Os seus dedos hábeis

separaram a espinha dorsal das sardinhas e depois, com uma faca, esfarelaram e misturaram

o tenro peixe com cebola picada. Sua bebida agora era cerveja engarrafada ou cerveja de

pressão. Quando sua cerveja não estava fria o suficiente, ele acrescentou cubos de gelo. Ele

não tinha mais permissão para beber uísque.



Há quanto tempo? Já se passaram alguns meses, mas agora pareciam séculos. Depois que

os resultados da segunda biópsia chegaram, ele sabia que teria que se submeter a uma

segunda cirurgia. Desta vez seria necessária uma incisão profunda no abdômen. Muito

provavelmente, eles teriam que remover um pedaço da sua bexiga.

Devido ao seu estado emocional tenso e ao seu sistema circulatório precário, os médicos

deram-lhe três semanas para descansar antes da segunda operação.

Então ele voltou para o Brasil.

Vários de nós fomos buscá-lo no aeroporto. O avião estava previsto para pousar no Galeão às

dez horas, após escala em São Paulo. Meu marido levou o carro do meu irmão. Os filhos mais velhos de Tom, Paulo e Elizabeth, já haviam chegado lá.

Não esperamos muito. Através das paredes de vidro avistei meu irmão entre um grupo de

pessoas dentro da alfândega. Ele claramente havia perdido algum peso. Seu jeito de andar

continuou o mesmo, porém, muito peculiar, balançando um pouco o corpo. Ele usava calças

de flanela e um suéter amarelo por cima da camisa. Ele também carregava uma jaqueta

pesada com apenas um zíper no meio. Na cabeça, ele usava um chapéu de feltro marrom em

vez do habitual panamá de cor clara. Com ele estavam sua esposa, Ana, Maria Luiza, e sua

empregada Marleide. Ainda recolhendo as malas ele nos viu e acenou, sorrindo.

Quando as portas de vidro se abriram e os viajantes saíram com seus carrinhos de

bagagem, pude ver seu rosto de perto. Ele parecia estar de bom humor. Por um tempo,

continuamos nos abraçando, nos beijando e olhando um para o outro. Tom, no entanto, queria




 


para casa logo.

Na volta, ele pareceu se surpreender, repetidas vezes, com a vista do mar, das ilhas da baía, do Pão de Açúcar e da lagoa que encontramos logo após sair do túnel. Ele estava falante,

animado. Quando o carro parou no portão de sua casa, ele apontou para uma árvore. “Olha só, o ipê está florescendo! É amarelo... meu Deus!

Assim que entrou em casa foi direto para o estúdio. Ele notou o vaso de rosas amarelas que colocamos em cima do piano em sua homenagem. Era sua cor favorita. Ele inspecionou tudo,

como se tivesse passado muito tempo longe.

Tilde nos trouxe café e queijo branco. Os criados Nivaldo e Assis apareciam na porta e meu

irmão era o mesmo de sempre com eles: conversava com seus empregados com muito interesse

e humor, ansiando por se atualizar sobre o que havia acontecido com cada um deles enquanto

ele estava fora. Eu não me cansava de olhar para seu rosto, suas expressões vivazes e seus

olhos curiosos. Ele não parecia nem um pouco cansado. Ele me observou por um instante e




depois repetiu uma frase habitual: “Então, quais são as novidades, minha irmã?”

Mais tarde, ele foi para o piano. Apoiou os dedos nas teclas, mas antes de pressioná-las

pousou os olhos na esplêndida paisagem que se estendia pela janela.

Ele apontou para a estátua de Cristo: “Lá está Ele...”

Tom tocou acordes esparsos. A família agora estava reunida. Nós o ouvimos

de todo o coração.

Durante três semanas estivemos juntos no Rio. Manoel e eu tínhamos pensado em visitar Poço

Fundo. Tom nos pediu, porém: “Fique aqui. É agora que preciso tanto de você...”

Não fomos a lugar nenhum. Quando penso naqueles vinte e um dias em que nos divertimos

(ao contrário de tudo, em muitos meses), imagino que o destino tenha reservado esse tempo

para nós. Ter Antonio Carlos Jobim como irmão foi um privilégio, e aqueles dias foram ao mesmo tempo uma despedida e um renascimento da nossa encarnação como irmãos.

Mais uma vez, fico pensando nisso. Li no dicionário: “Encarnação: cada uma das existências

do espírito enquanto materializado, segundo as crenças espíritas”.

Era nisso que eu acreditava?

 




Memórias, tantas memórias. Às vezes eles doem muito. Naquela época eu acordava cedo,

deixava Manoel dormindo e fechava a porta com muito cuidado, pois Ana, Maria Luiza e João

Francisco também continuavam dormindo. Eu descia a escada principal e parava no último degrau.

A porta do estúdio estaria aberta. O sol banhou tudo e fez calor ali. Por alguns segundos, antes que meu irmão pudesse me ver, eu fixava meus olhos nele enquanto ele permanecia absorto na leitura de seus jornais. Eu me aproximava e ele sorria ao me encontrar na sua frente. Ele largava os papéis e nós nos beijávamos.

Esse era o nosso costume. Quão vívidas são, para mim, as imagens daqueles últimos dias!

"Você dormiu bem?" Eu perguntava a ele todas as manhãs.

“Dormi muito bem, mas quanto mais envelhecemos, mais cedo saímos da cama. Aproveito para

ir buscar o pão e o jornal, para que os nossos empregados não fiquem estressados.”

Nós riríamos. E eu perguntava, mesmo sabendo a resposta: “Tenha

você tomou café?

E ele respondia da mesma forma, dia após dia: “Sim. Mas vou lhe fazer companhia e ter um

pouco mais com você.”

Sentávamos um de frente para o outro à mesa de mármore da cozinha, como fazíamos quando

éramos crianças. A porta do quintal já estava aberta e de repente percebemos uma rajada de vento soprando em volta das folhas do pé de feijão, que ele mesmo havia pedido para plantar. Nós dois podíamos até imaginar nossa mãe chegando lá. Daquela amada aparição, ouviríamos novamente o

seu riso.

Mas logo os cachorros chegavam pelos fundos da casa, pulando em nossas pernas, implorando

para serem acariciados. Mesmo assim, o encantamento não foi quebrado. No jardim, Panto, o gato preto, observava-nos com os seus enigmáticos olhos verdes.

Mais tarde aparecia Ana, Manoel, em seguida. E comentaríamos vários artigos de jornais. Meu

irmão se interessava pela atualidade do Brasil e do resto do mundo. Suas observações sempre nos obrigaram a pensar um pouco mais.

Nossos dias começaram assim. A atmosfera da casa comandava vozes, gestos e pensamentos.

João Francisco e Maria Luiza desceriam para tomar café da manhã. As netas do Tom, Chloe e

Isabel, também chegavam ocasionalmente, assim como minha neta Marcela, de Belo Horizonte.

Logo João Francisco se juntaria aos amigos Zeca e Lucas para um passeio de bicicleta pela Lagoa Rodrigo de Freitas.




 


O telefone continuaria tocando. Jornalistas estavam solicitando entrevistas. Tom

reclamava às vezes, mas sempre lhes concedia a oportunidade de falar com ele.

Manoel marcou um encontro para nós no Centro Espírita Padre Luiz. O cantor Danilo

Caymmi e seu amigo Otto também ajudaram. Diariamente, Danilo se comunicava com

o músico Márcio Ramos, que frequentava o centro.

Otto defendeu a causa de Tom ao amigo Dr. Gazolla, que dirigia aquele local de cura.

Tom era um patrono especial. No entanto, havia filas de pessoas esperando para

serem atendidas. Através de alto-falantes espalhados pelo jardim, um homem pediu:

“Silêncio, por favor. Os Espíritos estão descendo.”

Era a voz do ator Carlos Vereza, que ali havia sido curado. Subimos de elevador e

logo passamos por uma sala, onde Manoel ficou nos esperando – Tom, Ana, Paulo e

eu. Atravessamos uma sala um tanto escura com dezenas de cadeiras e uma segunda



com camas de hospital. Esses eram os locais para tratamentos, cirurgias espirituais

e, se possível, curas. Pessoas vestindo roupas brancas se reuniram ao redor. Eles

falaram em voz baixa. Luzes azuis esparsas mal iluminavam a alcova. Homens,

mulheres e, às vezes, crianças, eram encaminhados para essas camas, um após o

outro.

Nós quatro ficamos juntos. Tom segurou a mão de sua esposa e a minha. Um

espírito encarnado num médico aproximou-se dele. Ele fez vários passes sobre o

corpo de Tom e tocou-o em diversas partes dele. A médium falou com Tom, perto de

seus ouvidos. Não consegui ouvir o médico, mas percebi que Tom lhe fez muitas

perguntas. O médico se aproximou de Ana e de mim. Ele também passou por cima

de nós, enquanto batia palmas. Um dos alto-falantes começou a tocar a música

“Sabiá” do Tom: “Eu voltarei...sei que voltarei...” Ana e eu acabamos chorando.

Na volta para casa, Manoel dirigiu o carro. Enquanto Tom ocupou o banco da

frente, minha cunhada e eu sentamos no banco de trás. Tom zombou de tudo, nos

fazendo rir. Depois ele chamou nossa atenção para gaivotas mergulhando no oceano.

Foi uma noite tranquila, com a primeira estrela já brilhando no céu. Todos podíamos

sentir o hálito do meu irmão embutido no cheiro pantanoso do mar. Ele, por um tempo,

certamente havia esquecido sua doença, seu medo e sua dor. Logo ele virou a cabeça

para trás, quando estávamos perto de Ipanema, e desenhou no ar o Morro Dois

Irmãos que havia à frente: “Sabe, mana, sempre pensei que aqueles dois irmãos

éramos eu e você”.




 


Naquela noite ouvimos algumas vezes seu álbum Antonio Brasileiro . A capa, desenhada pela Ana, ficou linda. Além dele, ela havia fotografado muitos de seus pertences pessoais e usado

essas fotos. Mais tarde curtimos o CD em que ele gravou “Fly Me to the Moon” com Frank

Sinatra. Essa foi a última música que ele gravou. Foi eleito o melhor do álbum e recebeu

excelentes críticas em jornais de todo o mundo. Tom comentou, porém: “Eu gravei aquela

música nas piores condições… eu já sabia que estava doente. Eu apenas improvisei quando

disse: 'Francis, vamos voar!'”

Ele estava feliz naquela noite. Ele se levantava da cadeira e voltava para ela, tomando sua

cerveja, que saboreava muito com Manoel. De repente, ele movia os braços como se estivesse

regendo uma orquestra. Outros compartilharam o bom humor. Maria Luiza, por exemplo, dançou.

João Francisco estava saindo com amigos e Marcela, sua prima, apenas deu uma risadinha.

Eles ficaram bastante surpresos com o êxtase de Tom.




Manoel pediu para Tom tocar o choro “Bate-Boca” e depois disse: “Você

tenho que registrar isso.

"Eu vou. Chico Buarque está escrevendo a letra.”

Foi bom ver meu irmão assim. Já fazia tanto tempo…Ficamos juntos até tarde, conversando

sem parar, no estúdio.

No dia seguinte, o neto mais novo de Elizabeth e Tom, André, veio curtir a piscina. Eles ficaram para almoçar. Meu sobrinho Paulo e sua esposa, Elianne, chegaram com os filhos. Eduardo e

Marilena, primos de Ana, também estavam lá, como em qualquer outro dia.

Meu irmão tocou piano a manhã toda. A sua música enchia os quartos, toda a casa, como o

vento, como o perfume. Até os criados ficaram cheios de euforia. Ana, por sua vez, planejou

uma festa surpresa para João Francisco, que completou quinze anos enquanto os pais estavam

em Nova York.

Tilde preparou o almoço do jeito que Tom mais gostou: arroz branco, feijão preto com forte

tempero de alho, carnes grelhadas, farofa e salada mista com alface, agrião, rúcula, tomate e rabanete. Mais vinho tinto – para Tom, “Apenas um copo para combater o colesterol”. Era raro comermos alguma sobremesa. Naquele domingo, porém, Ana pediu um cupê camargo, uma

saborosa lembrança da nossa infância: purê de abacate, com um pouco de açúcar, misturado

com licor de chocolate.

 




Depois do almoço, o Tom deitou-se no sofá e a Célia chegou. Ela trabalhava para nossa família há vinte anos. Tom costumava dizer que ninguém fazia uma massagem melhor do que ela.

Já com bastante sono, ele me implorou: “Nena, recite aqueles versos de Sá-

Carneiro, desses que eu gosto tanto.”

“Um pouco mais de sol e eu viraria uma brasa / um pouco mais de azul e iria ainda mais além / tudo que eu precisava para chegar lá era o bater de uma asa / se eu pudesse permanecer forte...”

Célia me interrompeu. Sempre aconteceu assim. Todos os dias ela tinha um sonho para contar –

sonhos longos, cheios de cores e detalhes: “Sonho muito com a sua mãe. Ela sempre parece bem…

com as unhas pintadas de vermelho. O dia em que fui à casa do irmão dela preparar alguns pratos e congelá-los…”

Mas Tom não esperou que ela terminasse a anedota: “Doce Célia…Deixe-me

vire meu corpo, para que você possa massagear minha barriga.”

Nesse ponto ela havia esquecido seu sonho e Tom voltou a conversar. Eu sabia o que ele iria me perguntar em seguida: “Recite aquele seu texto sobre a bailarina. Quero ir para Nova York com isso em mente.”

“Minha alma é uma bailarina que atravessa constantemente um abismo na corda bamba. Mas meus

pés se agarram às lembranças da terra firme.”

“É lindo, Nena. É igual a você. Acho que são essas memórias que salvam você.”

“Mas nem sempre estou seguro.”

Célia levantou-se, dizendo que ia buscar uma loção para a massagem. A sala parecia mais escura agora, já que o fim da tarde havia caído repentinamente. Ao anoitecer, meu irmão adormeceu com o braço dobrado para fora do sofá.

Durante essas semanas, jornalistas, fotógrafos e equipes de televisão chegavam de manhã e ficavam muito tempo trancados no estúdio com Tom. A casa também estava lotada de amigos. Meu irmão e eu conversávamos até tarde no estúdio, sob o forte zumbido de dois aparelhos de ar condicionado. Sentimos falta um do outro e agora podíamos satisfazer nosso anseio depois de um ano de pouco contato entre nós. Ele estava viajando e eu estava me recuperando em Poço Fundo de um acidente de carro em que quase perdi a vida. Tom estava muito preocupado com o progresso da minha fisioterapia e com a continuação da minha dor. Poucos dias antes de voltar para Nova York para sua segunda cirurgia, ele me disse: “Não entendo isso




 


acidente seu. Vou dar a Deus o que penso.”

A festa do João foi muito animada. O velho amigo de Tom, Alberico, trouxe uma caixa de vinho branco alemão e acabei bebendo vários copos. Meu irmão ficou radiante quando me viu

dançando. “Nena, você já está bem de novo!”

Eu fingi que estava. O que eu mais desejava naqueles dias era torcer por ele

e ajudá-lo a mitigar sua ansiedade antes daquela cirurgia em Nova York.

Voltamos pela segunda vez ao centro espírita, dias antes de sua partida para os Estados

Unidos. Novamente penetramos naquele mesmo quarto escuro e mais uma vez nos demos as

mãos. Tom falou com a médium como havia feito antes, sempre em voz baixa. Depois que o

médium passou as mãos sobre o corpo de Tom, descansamos um pouco antes de nos levarem

para fora. Fiquei imóvel, não senti dor, mas notei que minhas roupas, até a altura do abdômen, estavam ficando molhadas. Meu irmão também estava quieto e quieto. Ao sair daquela sala para




o ar livre, notamos manchas de sangue em nossas roupas, na região do abdômen. Fomos

operados espiritualmente. Uma mulher anônima, naquele momento, nos abordou dizendo que

havia sido curada naquele centro após ser declarada paciente terminal por vários médicos.

Meu irmão foi ao banheiro, onde expeliu coágulos sanguíneos. O médio

explicou que o Dr. Frederick havia removido todas as partes ruins de sua bexiga.

A viagem de carro de volta para casa foi semelhante à nossa primeira visita, muito alegre. Pegamos novamente a estrada à beira-mar. Fazia muito tempo que eu não via meu irmão agir de maneira tão divertida.

Ele estava em êxtase. Ele contou uma série de histórias engraçadas e nós rimos impotentes.

De repente, ele disse: “Meu Deus, estou nesse estado e ainda estou rindo assim”.

"Você é como aquele Tom dos velhos tempos."

“A razão é que, agora, tenho esperança...”

À noite ligava a TV, para assistir ao noticiário e um pouco das novelas do horário nobre. Um tanto distraído, às vezes atento, ele continuou conversando conosco. Ele não sentia mais dor –

também não estava sangrando.

À medida que o dia da partida se aproximava, porém, ele foi ficando cada vez mais ansioso. Ana tentou convencê-lo a tomar um calmante, algo que ele sempre evitava. Desta vez ele acabou

concordando em fazer isso.

Dois ou três dias antes da viagem, ele me mostrou um bando de saíras, pequenos

 




pássaros canoros que sempre pousavam ao pé de uma curindiba . Era uma noite clara e

estávamos sentados na varanda atrás da casa, esperando o momento em que a estátua de Cristo

se iluminasse. Tom percebeu naquele momento o início de um incêndio florestal na Serra da

Guarda, no lado oposto da Lagoa Rodrigues de Freitas (a Lagoa, como os vizinhos a chamam).

À medida que o fogo aumentava, ele era capaz de prever para onde estava indo. Ele tinha um profundo conhecimento

natureza.

“Como você sabe dessas coisas, Tom?”

Ele balançou sua cabeça. “Tudo que você precisa fazer é prestar atenção. As pessoas não são

mais preocupado com o que é realmente importante.”

No dia seguinte, de manhã cedo, ele me chamou ao piano. Continuamos relembrando músicas

americanas que cantávamos juntos quando éramos jovens: “The Man I Love”, “Night and Day”,

“I've Got You Under My Skin”, “Love Letters” e outras.

Seu rosto foi subitamente ofuscado, enquanto a tristeza crescia em seus olhos.

“Eu e Ana decidimos que Maria Luiza não vai conosco para Nova York. João

não ia de qualquer maneira. Você acha que eles poderiam ficar com você?

"Sim claro. Você vai e logo voltará. Vamos esperar por você.

A melancolia em seus olhos se aprofundou: “Aconteça o que acontecer comigo...” – interrompeu-

se – “não quero que Maria Luiza sofra. Não quero que ela me veja sofrer. Nem quero que ela passe por qualquer situação embaraçosa.”

O dia escureceu lentamente. Manoel tinha acabado de voltar de alguns afazeres: “Eu vi essa

lua enorme começando a subir. Podemos ir lá para vê-lo nascer?”

De repente, meu irmão era outra pessoa. Era típico dele conseguir se recuperar, tornar-se

múltiplo ao mesmo tempo: Tom respondeu: “Vamos”.

Olhando as luzes acesas à beira da Lagoa, combinamos de ir almoçar na churrascaria

Plataforma no dia seguinte. Meu irmão não tinha vontade de viajar sem antes ver seu grande

amigo, Alberico. Ana juntou-se a nós nesse plano.

A franja de uma lua prateada começou a aparecer atrás do Morro do Corcovado.




Churrascaria Plataforma – lá estávamos nós, na véspera de sua partida, no

 


mesma mesa onde meu irmão sempre se sentava. Alberico nos serviu vinho. Tom trouxe um

peixe branco que comprou em um bar do Leblon. Pareceu-me que ele nunca tinha comido

outro peixe tão delicioso como aquele.

À tarde, a massoterapeuta Célia voltou a ver Tom. Meu irmão estava bastante nervoso. Os

cachorros entraram em casa e ele ficou bravo com o Engraçado, meu cachorrinho, que insistiu

em subir no sofá para ficar perto de mim. Com raiva, ele me disse: “Você precisa dar alguns tapas nesse cachorro”.

Protestei: “Eu nunca bati nela. Ela me ajudou durante todo esse ano, quando eu estava

sozinho com Manoel em Poço Fundo.”

Naquele momento, Tom ligou para Nivaldo e disse: “Diga ao Nilde e ao Assis que nenhum

cachorro além do Engraçado pode entrar em casa. Informe Marleide também. Engraçado




ajudou minha irmã.

Naquela noite, Tom abriu a porta do nosso quarto e se deparou com uma cena que já era

familiar para todos nós: João dormindo em um colchão fino; Maria Luiza, Manoel e eu na cama; e Engraçada dentro de sua cestinha no chão.

Sem dizer uma palavra, fechou a porta bem devagar.

O conflito interno de meu irmão o torturava: se ele deveria ou não retornar a Nova York para se submeter novamente a uma cirurgia na bexiga. Ele se perguntou muitas vezes: “Devo ir ou

não? Eles mexeram demais comigo.

Estou cansado." Os médicos americanos disseram que precisavam dissecar outro pedaço de

sua bexiga para garantir que não restassem vestígios da doença. Era a única maneira de saber que seu câncer havia desaparecido. Mas meu irmão insistiu em não usar a palavra

Câncer.

Ele nos contou que durante sua primeira cirurgia o médico raspou tanto o tecido da bexiga

que ele, paciente, não pôde deixar de expressar seu medo: “Cuidado, doutor! Não acabe

esfaqueando minha bexiga.

E o cirurgião respondeu sem rodeios: “Já esfaqueei dois desses antes”.

De volta ao Rio, ele explicou mais sobre aquela primeira operação: “Recebi uma epidural.

Conversei com os médicos o tempo todo. Não senti nada. Ana me disse que até voltei meio

radiante para o meu quarto.

Tom confiava que faria outra epidural em Nova York. Nós também pensamos assim. Ele

lembrou: “No centro, as pessoas me garantiram que eu não tinha nada disso




 


'coisas ruins' deixadas na minha bexiga.”

Eu estava quieto. Eu não sabia o que dizer. Tom me ligava para ficar perto dele o tempo todo.

Passamos três semanas assim. No final daquela última tarde ele estava sentado em sua poltrona preferida, com camisa desabotoada, calça de linho branco e meias de algodão.

“Coloque a mão em cima da minha barriga, Nena.”

Ele gentilmente segurou minha mão – esse era seu jeito típico – e moveu minha palma em

direção à parte inferior de seu abdômen. Eu podia sentir o calor de sua pele.

“Você ainda acha que há algo ruim aqui dentro?” — e sem me dar tempo para falar, ele

continuou: “Você acha que eu fiz algum mal a alguém no passado?”

“Você sempre foi um bom homem. Você não causou mal a ninguém. Muito pelo contrário:

você sempre ajudou os outros.”

Seus olhos escaparam para um lugar distante, além do Cristo iluminado, além da Lagoa




escura e além de todas as luzes que podíamos perceber no mar.

“Recebi um bom número de cartas ao longo da minha vida. Houve pessoas que eu nunca

conheci que disseram que se abstiveram de se matar por causa de algumas das minhas músicas.”

Virei de lado. Eu não queria que ele visse minhas lágrimas.

“Você acha que eu deveria ir para Nova York? Há uma espada acima da minha cabeça. Não

posso viver com uma espada acima da cabeça.”

“Então...” – mas ele me interrompeu. Ele viu minha expressão angustiada e não

deixe-me terminar minha frase.

“Eu sei que sou só eu que tenho que tomar a decisão.”

Então perguntei a ele: “Você acreditou no que aconteceu no centro?”

“Experimentei muita paz lá.”

“Para mim, todas aquelas pessoas pareciam estar muito sérias.”

Esse foi o penúltimo dia que passaríamos juntos. A noite desceu lentamente. A escuridão caiu

sobre a casa, o jardim e todos nós. Apagou nossos rostos, pois escondeu nossas próprias

expressões. E mesmo que eu gritasse, gritasse ou soluçasse, o destino de alguém estava inscrito nas linhas de suas mãos — as mãos dele e as minhas, na verdade, muito parecidas.

Meu irmão se levantou e tirou a camisa dizendo que estava muito quente. Ele andou de volta

 




e avançou e acendeu novamente o charuto que havia apagado no cinzeiro.

“Não entendemos nada. Por que peguei essa doença e por que você sofreu um acidente tão

grave?” Ele então apontou para minha foto no piano e comentou: “Quando você estava entre a

vida e a morte, eu orei. Eu rezava todas as tardes. Acendi um bom número de velas. Pedi aos baianos para tocarem os tambores. Eu implorei aos protestantes, aos católicos, aos médiuns.

Implorei a Deus que salvasse você.”

Foi assim que meu irmão falou. Ele acreditou em tudo isso com muita fé! Poderia ser uma

entidade de um centro espírita, uma sacerdotisa do candomblé ou Jesus Cristo sangrando na

cruz afirmando que estava morrendo por nós.

À luz de todos os seus medos, ele orava algumas vezes por dia, implorando por sua própria

vida e lendo salmos em voz alta em seu apartamento em Nova York.

Mais tarde naquele dia, vi meu irmão novamente, mas apenas mentalmente, assim como

quando ele nadou pela Lagoa Rodrigo de Freitas uma tarde e saiu da água sob fortes aplausos.

Agora eu o via como antes, iluminado. E as minúsculas gotas de água da Lagoa voltaram. Eles o cercaram mais uma vez.

Eles o envolveram novamente. Ele se transformou naquele jovem que me acompanhou durante

toda a minha vida. Testemunhei seu rosto transfigurado – avistei aquele jovem excepcionalmente

bonito. Seus olhos brilhavam penetrantes (aquele par de olhos castanhos muito ricos) e seu

corpo perdia a flacidez e a palidez da velhice. Ele mais uma vez possuía uma figura esbelta e bronzeada, aquela que eu considerava imortal. E então ele falou comigo como antigamente:

“Você gosta de ir para o mato?”

Eu deixei ele falar. Não se passaram muitos anos, de qualquer maneira. Por um breve

instante, éramos ambos muito jovens novamente. Ele repetiu: “Você gostou?”

O silêncio de repente desceu sobre a sala. Eu estava sonhando? Seria possível que eu

também me visse assim, na juventude brilhante? Ele continuou: “Eu entro em uma floresta e às vezes fico quieto lá dentro... apenas ouvindo, mas mesmo quando caminho eles vêm”.

“Eles quem?”

“Músicas – elas chegam até mim totalmente escritas. Ouço músicas inteiras na floresta.”

Ele me revelou esse dom quando começou a compor.




Ele agora fez um gesto inesperado com a mão, como se jogasse fora um pedaço de sua

memória. O feitiço foi desfeito. Ele era novamente aquele homem ansioso e sombrio que sabia

muito bem sobre sua doença. Mais uma vez houve aquela maturidade e

 


olhar atento por trás das lentes dos óculos. Calados, ouvíamos o vento passar, lá fora, por

entre as folhas da curindiba , onde os saíres descansavam. Vozes de crianças vinham da rua.

Ele estendeu a mão direita e agarrou a minha, gentilmente. “Foi tão rápido, minha irmã. Há

pouco tempo éramos nós que brincávamos na calçada.”

As primeiras luzes brilharam do outro lado da lagoa. Projetavam cores naquela seda lisa e

escura.

Nunca mais.

No último dia – bem cedo pela manhã, fizemos o mesmo ritual das semanas anteriores. Tom

foi meu companheiro em sua segunda xícara de café. Ele disse que quando voltasse de Nova



York descansaria um mês em Poço Fundo e faria um churrasco de frango.

Em seu estúdio ele parou na estante e pegou um livro. Foi um com

poemas de Paulo Mendes Campos. Ele abriu em uma página marcada:

“O cavalo Joaquim era vermelho / Com duas rosas brancas na barriga; / À noite eu

o vi comer um girassol; / Era um cavalo estranho como um humano.”

"Quão belo! Leve o livro com você, para que possa lê-lo depois de sair do hospital.”

"Não, fique com você mesmo."

Maria Luiza entrou na sala e correu em sua direção. “Podemos ir, pai?”

"Sim, vamos lá."

Eles concordaram em passar um tempo no Jardim Botânico do Rio. Já na porta,

meu irmão se virou para mim. Ele sorriu e disse: “Tchau”, com um pequeno aceno.

Eu perguntei a ele: “Você sabia que está realmente ótimo hoje?”

Ele pareceu surpreso, como se já tivesse deixado a vaidade de lado há muito tempo. “Eu?”

Depois, fixando os olhos no livro que eu segurava, acrescentou: “A literatura é a mais bela

de todas as artes. Mas também é o mais solitário.”

Tom e sua filha demoraram muito para voltar. Eles exploraram caminhos sombreados e verdes.

Alimentavam as carpas com pedaços de pão francês no lago mais conhecido pelos seus

nenúfares, tal como o nosso pai costumava fazer. Entretanto, Ana preparou as malas, que

ainda estavam abertas em cima da cama, e João chegou de um passeio de bicicleta por

Lagoa. Não foi antes da uma da tarde que pai e filha chegaram




 


lar.

O almoço foi tranquilo. Bebemos à saúde de todos com um vinho tinto escuro e muito

seco.

Lá em cima, Zezé, o poodle preto de Ana, se desesperou porque seus donos estavam

saindo. Em protesto, ele deixou poças de xixi pela casa.

O dia passou muito rápido. A noite caiu de repente sobre nós. As pererecas, na

escuridão do jardim, emitiam pequenos sons verdes que lembravam os gorjeios de

alguns pássaros. Então, Tom desceu depois do banho. Seu cabelo, ainda molhado,

estava penteado para trás. O avião partiria às dez horas.

Ele atravessou a porta nos fundos da casa. Os criados formaram uma fila para a

despedida. Eles nunca tinham feito isso antes. Achei estranho. Impacientemente, meu

irmão entrou no carro. Ana estava atrasada. Ele saiu do carro, apertou a mão de cada



um dos criados, me abraçou com força e depois me beijou uma segunda vez.

Ele comentou sobre alguns de seus músicos favoritos: “Se Ary Barroso e Villa-Lobos

morrerem, eu também posso morrer”. Eu congelo. Ana chegou lá, então. Eles entraram

no carro. Tom inclinou a cabeça para fora da janela e disse ao meu marido: “Cuide dos

meus filhos”.

Continuei olhando para o carro que passava sem pressa pela calçada. O

grande portão abriu e fechou novamente. Ana acenou em despedida.

 


Trajetórias




 






 

Ancestralidade

ANTONIO CARLOS BRASILEIRO DE ALMEIDA JOBIM descende de três

gerações de Emílias: tataravó Emília Eduarda (também conhecida como Loló),

bisavó Emília Henriqueta (também conhecida como Emilie) e avó Emília Aurora

(também conhecida como Mimi). Sua própria mãe, porém, era Nilza.

Emília Eduarda tinha pele morena, olhos pretos e cabelos lisos, como um ameríndio

brasileiro. Ela foi educada em casa. Naquela época, a educação formal era proibida para

as mulheres. Seu pai, um homem à frente de seu tempo, trouxe-lhe os melhores instrutores

de línguas e artes. Ao longo da vida teve sua própria oficina, com piano e cavalete. Ela se casou três vezes. O primeiro marido foi apresentado a ela pelo pai: “Venha conhecer seu

noivo”.

Sem que o pai soubesse, porém, Loló, aos dezoito anos, já namorava um belo homem

por meio de encontros rápidos e bilhetes furtivos trocados com a ajuda de uma criada. A

decisão do pai de ela se casar trouxe muitas lágrimas a Loló, mas ela o obedeceu. Apesar

de seu pensamento progressista, o pai dela ainda achava que os maridos das filhas

deveriam ser escolhidos por ele e que o amor viria mais tarde.

Vasco de Freitas, primeiro marido de Loló, era um português muito rico. Ele viajava

frequentemente para a Índia e trazia joias de lá. Na família ainda existe um pequeno baú

feito de casco de tartaruga com acabamento em prata, que ele trouxe cheio de pérolas.

Foi desse casamento que nasceram os três filhos de Loló. Ela ficou viúva muito cedo e se

casou novamente. Desta vez ela se casou com a maior paixão de sua juventude, que por

acaso também era viúva.

Mas a felicidade deles durou pouco. Viúva novamente, casou-se pela terceira vez aos

cinquenta anos.

Sua filha Emília Henriqueta (Emilie), bisavó de Antonio Carlos, encantava a todos com

sua fina educação e elegância, mesmo não sendo bonita. Ela era casada com Afonso Luiz

Pereira da Silva, de Aracati, no estado do Ceará, cidade que leva o nome de índios




brasileiros locais.

Apesar da formação em farmácia, Afonso Luiz nunca trabalhou nessa área. Dedicou-

se ao comércio e acumulou grandes riquezas. Ele sempre viajava para o Rio de Janeiro.

Foi lá que ele conheceu e se casou com Emilie. Foram morar em Aracati. Ele era um

homem ambicioso. Ele gostava de usar roupas finas e passear pela cidade só para ser

reconhecido e cumprimentado por todos.

 


Em certas tardes, atravessava a praça principal da cidade para ser saudado por políticos

protegidos que lhe davam o tradicional beijo de mão. Oferecer a mão para ser beijada era o

sinal de que os demais homens deveriam ir ao seu escritório, em frente à sua loja, para fechar acordos políticos. Seu comportamento rude escondeu suas emoções.

Histórias sobre sua generosidade circulavam pela cidade, embora ele não permitisse que

ninguém falasse sobre suas ações ou sentimentos na sua frente.




Aracati foi gradualmente se tornando pequeno demais para seu negócio. Ele voltava para

casa às sete e meia em ponto, todos os dias, e depois do jantar contava a Emilie todas as façanhas do dia. Somente para sua esposa ele abriu seu coração. Os dois ficaram sentados

na varanda, no escuro, enquanto as redes de palha balançavam ao sabor da brisa e os vaga-

lumes piscavam na penumbra da rua ladeada por coqueiros.

Numa dessas noites, Emilie confessou que sentia muita falta da cidade do Rio de Janeiro,

de seus parentes e do mar. Ela queria que seus três filhos estudassem nas melhores escolas

da capital. Esse argumento foi suficiente para Afonso Luiz, seu marido fiel e incrivelmente

amoroso, providenciar a mudança. Em dois meses embarcaram no barco a vapor, junto com

os filhos e empregados domésticos.

Eles se mudaram para uma grande e bonita casa de estilo colonial no bairro carioca da

Tijuca. A construção era famosa por suas dezessete janelas apenas em um corredor. Naquela

época, meados de 1800, a Tijuca era o bairro elegante da capital brasileira. Emilie então

informou ao marido que estava grávida novamente.

“Se for menina, ela vai levar o seu nome”, decidiu Afonso Luiz na hora.

Assim nasceu Emília Aurora (Mimi) Pereira da Silva, avó de Antonio Carlos. Ela foi tratada

com os melhores cuidados e privilégios que a cidade grande poderia oferecer. Ela veio a este mundo pelas mãos de uma parteira. Foi um parto fácil e rápido e o bebê não chorou muito. Ela nem precisava do quase inevitável tapa nas costas. Tornou-se uma criança bonita, uma

verdadeira loira de olhos verdes e pele de querubim.

Caminhando por uma rua tranquila da Tijuca com Mimi, ainda bebê no carrinho, Emilie foi

parada por um pedestre que ficou impressionado com a beleza da criança: “Nunca vi bochechas

tão rosadas. Eles se parecem com a aurora.” Quando sua mãe providenciou sua confirmação,

ela adicionou o nome do meio Aurora.

Mimi foi criada pela avó, Loló, depois que a mãe brigou com




 


a ama de leite da criança. Aquela ama de leite foi rude com um dos convidados da família

e foi demitida imediatamente. Ao perceber que a neta estava privada dos seios que a

alimentava, Loló conseguiu levar a enfermeira e o bebê para sua própria casa. Loló

concordou que devolveria o neto assim que o problema fosse resolvido. Ela nunca fez isso.

Mimi foi criada em meio a grande luxo e riqueza. A educação dela foi rigorosa com extras:

aulas de francês, bordado e piano. Ela provaria possuir um ouvido absolutamente

extraordinário. Ela aprendeu a tocar piano e cantar em voz soprano.

Aos quinze anos, foi oferecida a Mimi uma criada responsável por todos os aspectos da

vida desta jovem. Mimi nunca precisou colocar uma peça de roupa no armário. Fiinha, a

empregada, fazia tudo: encerava e polia o piso de madeira do quarto de Mimi até que

refletisse as imagens como um espelho, e trocava diariamente as roupas de cama de linho.

Ela foi a única pessoa a tirar o pó dos abajures opalescentes de cabeceira e guardar as



joias na penteadeira. Suas funções também incluíam afrouxar os corseletes e passar as

fitas de cetim dos vestidos de Mimi.

Infalivelmente, todas as noites a empregada levava para o quarto de Mimi uma tigela de

prata com pétalas de rosa flutuando em água cristalina, com a qual a menina tirava

qualquer partícula de poeira de seu rosto de porcelana.

Mimi tinha vinte e dois anos quando conheceu seu futuro marido: Azor Brasileiro de

Almeida, avô materno de Antonio Carlos. Ao contrário de Pereira da Silva, Azor vinha de

uma família modesta. Nascido em Capivari, interior de São Paulo, foi criado em Dois

Córregos, cidade vizinha. Registrado como Azor de Almeida Leme, mudou seu nome já

adulto para Azor Brasileiro de Almeida pelo amor que tinha à sua terra natal e pela

influência do positivismo, ideologia muito popular da época.

Maria Umbelina, mãe de Azor, teve apenas seis meses de educação formal.

Segundo muitas pessoas, ela era muito inteligente. Quando seu marido morreu de varíola,

aos 26 anos, ela era muito jovem, desamparada e sozinha.

Mesmo assim, ela tinha três filhos para criar sozinha. Ela lutou ferozmente para sobreviver.

Ela mandava seus dois escravos às ruas para vender os doces que ela fazia. Um parente

aconselhou-a a vender os escravos e comprar uma casa com o dinheiro. Foi isso que ela

fez. Ela alugou parte da casa para os correios. Ela conseguia viver desse aluguel e de seu

parco salário como escriturária daquele estabelecimento federal.

Azor começou a trabalhar aos doze anos. Foi pioneiro no serviço de entrega de

correspondência em domicílio em Dois Córregos. Ele acordava muito cedo e caminhava

até a estação de trem antes do amanhecer para poder pegar a mala postal.




 


Com a primeira renda comprou um par de botas. Muitos anos depois, ele contou à

família como ficou entusiasmado com isso. Ele marchou de uma ponta a outra da

loja, sem resistir à tentação de pedir ao vendedor “que acrescentasse algo às suas

botas que as fizesse chiar”.

Azor estudou muito. Ele freqüentou escolas de ensino fundamental e médio e,

nesse ínterim, deu aulas para colegas que ficaram para trás. Aos quatorze anos,

ele fez os exames e venceu o concurso para um cargo de escriturário no correio

local. Ele foi classificado em primeiro lugar entre todos os candidatos, mas outra

pessoa com um parente rico e influente recebeu o que deveria ser seu cargo por

direito. Sozinho, ele viajou de São Paulo ao Rio. Na capital conseguiu marcar um

encontro com o diretor daquele órgão federal. Explicou o seu problema de forma

serena e resoluta e apelou para o emprego a que tinha direito. Ele foi contratado



imediatamente.

Azor continuou morando com duas tias por algum tempo. Um deles negava-lhe

comida se ele chegasse tarde em casa. A outra, porém, preparou e escondeu um

prato para o sobrinho trabalhador.

Ao ingressar no exército, pôde visitar vários estados do país. Lutou na Guerra de

Canudos (1893-1897), no Nordeste, contra o lendário líder messiânico Antônio

Conselheiro. Nas trincheiras perdeu um companheiro enquanto conversava com

ele. Aquele soldado havia acendido um cigarro e seu brilho serviu de mira para o

inimigo. Depois de ter sido morto a tiro, o corpo do soldado caiu sobre Azor, que

ainda tentou salvá-lo na linha de fogo e acabou atingido por fragmentos de granada.

Ao regressar a casa, após a batalha, Azor recebeu uma medalha pelo seu

heroísmo. Mudou-se para o Rio aos vinte anos, onde estudou no colégio militar. Foi

sua oportunidade de continuar seus estudos.

Azor também participou na Revolução Constitucionalista de 1932. Foi preso no

navio de guerra Mocanguê por se recusar a abrir mão de seus princípios

democráticos. Na ocasião adotou o nome do meio Brasileiro.

Ao longo de sua longa vida, ele foi professor ou mentor. Ele era formado em

engenharia e direito. Descendente de holandeses (Lemle), Azor era bem preparado.

Ele tinha uma coloração clara e olhos que pareciam avelãs. Liso e de pele clara

como um estrangeiro carioca, ele dizia ter “pernas brancas de mandioca”.

O avô Azor (cuja grafia subiu ao contrário no português antigo) se tornaria muito

importante na vida de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida




 


Jobim.

Num encontro de amigos na confeitaria mais famosa do Rio, a Confeitaria Colombo, na rua

do Ouvidor, no Centro, Azor conheceu Emília Aurora, que por acaso era irmã de um amigo

de colégio militar, Raul Emílio Pereira da Silva. Convidado a sentar-se com eles, Azor não se esforçou e juntou-se a eles na hora.

As vistas dentro da loja eram inspiradoras. O grande salão era cercado por altos espelhos

que refletiam e desdobravam imagens por todos os lados. Garçons, bem vestidos, carregavam

bandejas de prata com iguarias finas. Enquanto balcões reluzentes com tampo de mármore

de Carrara serviam para atender os pedidos de comida da clientela, enormes armários

cobertos com espelhos de cristal francês davam ao elegante templo uma marca de brilho e

sofisticação. Na parede posterior, uma escultura em carvalho representando uma caravela

lembrava as viagens de Cristóvão Colombo às Américas. Para completar, uma claraboia com




vitrais coloridos feitos por artistas europeus decorava toda a cúpula.

Mimi, ao contrário da maioria das mulheres de sua época, era sociável e educada. Azor

ficou favoravelmente surpreso. Além disso, ela era muito bonita. Ele mergulhou em seus

olhos verdes sem reservas. Foi uma paixão ardente e exigida.

Logo se casaram sem qualquer oposição da avó rica de Mimi, pois Azor era um homem

encantador. A exigência era apenas uma: fossem morar com ela no casarão colonial. E foi

isso que eles fizeram. Azor trabalhou muito. Além de lecionar na escola militar, ele dava

aulas particulares em casa. Ele não queria que faltasse nada a Mimi. Desse casamento feliz

nasceram quatro filhos: Nilo, Yolanda, Nilza e Marcello.

Além de extremamente espirituosa, Mimi tinha uma personalidade forte e respondia

rapidamente a todas as perguntas. Sua presença de espírito era famosa. Certa vez, ela

estava indo para o centro da cidade com os filhos quando Marcello, o mais novo deles, que

estava sentado na beirada do assento, mexia os pés com tanta insistência que um dos

sapatos acabou saindo voando do bonde e caindo na calçada.

Mimi se inclinou imediatamente, tirou o outro sapato de Marcello e jogou-o na calçada.

Totalmente surpresa, Nilza perguntou à mãe por que ela havia feito aquilo. Mimi simplesmente

respondeu: “Dessa forma, quem encontrar os sapatos poderá usá-los”.

Outra história que as pessoas contaram sobre ela também mostra a velocidade de seu

pensamento. Uma amiga que estava com ciúmes do casamento feliz de Mimi inventou um

boato e teve a coragem de perguntar: “Você acha que seu marido é fiel? Bem, você deveria saber




 


que já por duas vezes ele tentou acertar alguma coisa com Rosilda a caminho do trabalho.

Mimi conhecia Rosilda, uma mulher muito pouco atraente. Fingindo estar atordoada e

furiosa, Mimi rejeitou: “Ah, é mesmo? Huh, espero que ele tenha sucesso, como punição

para ele.”

A casa onde moravam tinha um quintal amplo e era repleta de plantas: mangueiras,

ameixeiras e goiabeiras, por exemplo. Nilza e Marcello se empoleiravam no alto daquelas

árvores, enquanto Yolanda ficava na oficina onde ajudava a mãe na costura. Ela era tão

quieta que Azor às vezes lhe oferecia um centavo para ela subir em uma árvore. Nilo, o

mais velho, estava pálido e fraco. Ele tinha um problema cardíaco congênito que o impedia

de correr e brincar com os irmãos. Ele morreu aos sete anos.

Após este triste acontecimento, Mimi revelou uma faceta desconhecida de sua

personalidade. Durante dois anos ela não abriu o piano e nunca deixou ninguém cantar



em casa. Seus dias foram consumidos entre a igreja e o cemitério. Yolanda, Nilza e

Marcello acompanharam a mãe enquanto ela levava flores para o túmulo de Nilo. As

crianças se acostumaram a correr pelos túmulos. A depressão de Mimi era tão grave que

Nilza certa vez lhe perguntou: “Mãe, por que você não nos vende para dona Afonsina?”

Dona Afonsina era amiga íntima da família e adorava crianças. Mimi não foi capaz de

deixar aquela dor para trás até o dia em que Padre Alberto a advertiu: “Deus agradece a

lealdade de seus devotos e todas as horas que você passa trabalhando aqui na igreja.

Mas creio que seria mais útil e agradável a Ele se você ficasse em casa cuidando de suas

obrigações de mãe e esposa.

Não se esqueça de que você tem três filhos que não têm culpa de estarem vivos.”

Essas palavras a despertaram para a vida novamente, e quando Nilza surpreendentemente

tirou o cabelo, vestiu a calça de Marcello e foi jogar futebol com os meninos na esquina,

Mimi pôde sorrir novamente.

Essa é a história inicial da mãe de Antonio Carlos Jobim, Nilza. Numa família de

mulheres fortes e bonitas, ela era sem dúvida a mais bela, a herdeira natural do matriarcado de Emília.

O ano era 1775. A família portuguesa Jobim logo se expandiria para o exterior.

Por ordem de D. José I, o jovem José Martins da Cruz Jobim (nascido na freguesia de

Santa Cruz de Jobim, na diocese do Porto) chegou ao Brasil como tenente dos dragões

do rei. Ele veio para defender as fronteiras do país




 


em torno do Rio Grande do Sul, um posto avançado português. Como recompensa pelos

serviços prestados durante a Guerra do Prata, José Martins recebeu do governo uma doação de terras.

Assim, estabeleceu instalações agrícolas e pecuárias e sua própria moradia à beira da bacia do rio Pardo, tornando-se um dos primeiros agricultores na conquista da região Sul do Brasil e um dos fundadores da sociedade de plantation do Rio Grande do Sul.

Ele fez uma fortuna. Ele conseguiu possuir mais de dez léguas quadradas. Ele teve um total

de quatro filhos e três filhas de seus dois casamentos. O filho mais velho, o vereador José Martins da Cruz Jobim Filho, era médico formado em Paris. Fundou e dirigiu a primeira escola de medicina do Brasil e serviu como médico da família imperial e senador do império.

Pela sua preocupação com os assuntos familiares, o Dr. José Martins pesquisou as suas

origens. Ele traçou a história europeia da família Jobim, um clã de nobreza militar originário da França. Um de seus brasões dizia: “Em um campo azul, um cavaleiro é abastecido de prata: o

líder, em ouro, possui uma cruz vazada, de um vermelho brilhante”. (Este brasão foi registrado no Cartório Notarial da Nobreza da França, livro número seis, p. 2, em 2 de abril de 1862). Essa é a insígnia da família Jobim (ex-Joubin, Jovim), radicada no Rio Grande do Sul desde o século XVIII.




Durante os anos imperiais do Brasil, os Jobim foram representados principalmente por quatro

irmãos: Antônio Martins da Cruz Jobim, Barão de Cambahy; Dr. José Martins da Cruz Jobim,

vereador e senador do império; além dos magistrados Francisco Martins da Cruz Jobim e Manuel

Martins da Cruz Jobim, ilustres barões da terra.

José Martins da Cruz Jobim, primeiro colono da família a vir para o Brasil, teve três filhas, do segundo casamento. Eles eram Maria Joaquina (também conhecida como

Maricota), nascida em 1815, e Ana Maria e Isabel (de datas de nascimento desconhecidas).

Maricota era bisavó paterna de Antonio Carlos. Casou-se com um rico agricultor português,

Bento José de Oliveira. Desta união surgiu Francisco Martins de Oliveira Jobim (avô paterno de Antonio Carlos), que, por sua vez, casou-se com Antônia Cândida da Trindrade. Criaram oito

filhos: Maria Cândida, Luiz Augusto, Tereza, Francisca, Urbana, Julieta e Eliezer. Onze anos

mais novo que o irmão seguinte, nasceu o último filho: Jorge de Oliveira Jobim, pai de Antonio Carlos. Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim foi, portanto, membro da sexta geração

Jobim no Brasil.

Jorge de Oliveira Jobim nasceu em São Gabriel, Rio Grande do Sul, em abril

 




23 de outubro de 1889. Lá iniciou seus estudos. Cursou o ensino médio em Porto Alegre

e formou-se em Direito pela Escola Livre, no Rio de Janeiro, em 1910.

Seguiu carreira diplomática, na qual se tornou primeiro secretário dos escritórios do

Brasil em importantes cidades sul-americanas: Quito, Buenos Aires, Lima e Valparaíso.

Também foi responsável pelos negócios da Embaixada do Brasil no Peru, seu último

cargo no exterior. Certa vez, por licença médica do embaixador, Jobim assumiu ele

mesmo o cargo. Porém, ele não suportou nem a solidão nem a saudade do Brasil.

Assim, Jorge de Oliveira Jobim retornou a Porto Alegre, onde se tornou professor

assistente de direito internacional. Conheceu Nilza Brasileiro de Almeida em Porto

Alegre, onde seu pai, Capitão Azor, seguindo ordens militares superiores, trabalhava

como gerente de operações de mineração de carvão. Eles estavam bem estabelecidos

financeiramente, mas continuaram morando com Mimi, que continuou sendo a mesma

mulher de gostos e hábitos refinados. Ela nunca perdia a oportunidade de usar uma

toalha de mesa de linho branco, os melhores talheres de porcelana e prata ou as melhores taças de cristal.

Apesar das finanças confortáveis da família, Azor colocou o seu filho Marcello como

vendedor numa mercearia local imediatamente depois de o jovem ter decidido que não

queria mais terminar a escola. Foi uma cena inédita no bairro quando, no final da tarde,

um Chevrolet dirigido pelo motorista da família parou para buscar o jovem trabalhador

Marcello e levá-lo para sua luxuosa casa. Dois meses depois, Marcello optou por voltar

a estudar.

Jorge aprovava a forma como o futuro sogro lidava com a atitude do filho em relação

à escola e desfrutava de longas conversas com Marcello sobre música e poesia. Jorge

gradualmente se aproximou daquela casa. Ele era um sujeito bonito, de trinta e seis

anos; enquanto Nilza, aos quinze anos, possuía os mesmos olhos verdes brilhantes de

sua mãe, Mimi. Nilza tocava violão e cantava com elegância em saraus familiares e

diversos eventos culturais. Foi aí que começou o turbulento relacionamento de Nilza com

o namorado (e futuro marido) Jorge Jobim.



Após concluir sua missão no Sul, Azor e família estavam prontos para voltar ao Rio de

Janeiro. Já apaixonado por Nilza, Jorge a pediu em casamento.

Casaram-se em 1926, em Porto Alegre. Foi uma celebração impressionante aos olhos

daquela sociedade sulista, às vésperas da mudança da família da noiva para a capital.

Jorge se juntaria a eles em breve.

Havia uma incompatibilidade óbvia naquele casamento: a enorme diferença de idade

entre marido e mulher. Jorge Jobim era um homem profundamente angustiado:

 


possessivo, desconfiado e ciumento. Ele possuía vasto conhecimento e

talento, mas devido às suas deficiências emocionais estabeleceu-se como

funcionário do Ministério da Educação. Quando solteiro, ele era um boêmio;

recém-casado, já estava cansado de qualquer vida social. Diziam que ele

voltou da lua de mel já chateado com Nilza por causa do ciúme. Ele então



não compareceu ao grande jantar que Azor e Mimi planejaram para

homenagear o casal. Altamente elegante e vaidoso, Jorge tinha vários hábitos

peculiares. Antes de começar a andar, olhava ao redor, como se temesse

obstáculos ou armadilhas. Ele possuía uma mala cheia de remédios e adorava

ler suas instruções. Também gostava de ler dicionários, que consultava com

frequência. (Algumas dessas atitudes seriam imitadas por seu filho, Antonio Carlos, aliás.)

Poeta, contista, crítico e jornalista, Jorge deu palestras sobre temas

literários e colaborou na imprensa carioca e de Porto Alegre. Ele deixou livros

inéditos de poesia e outras obras. Bardo parnasiano (preferindo a forma

poética à emoção), apreciou Olavo Bilac e tornou-se um dos autores

preferidos do poeta Alberto de Oliveira. Jorge Jobim foi condecorado com a

Ordem do Rei Leopoldo, concedida a ele por Alberto I, monarca da Bélgica,

em sua visita oficial ao Brasil.

Jorge e Nilza tiveram dois filhos: Antonio Carlos e Helena Isaura. Jorge

faleceu de infarto súbito e grave, aos quarenta e sete anos, no Rio, em 19 de

julho de 1935, na Casa de Saúde Dr. Eiras, um hospital psiquiátrico.

 




Infância

O PRIMEIRO BEBÊ DE NILZA E JORGE nasceu na casa deles, na Rua Conde de Bonfim,

634, na Tijuca. Eram onze e quinze da noite. A casa, com um vão na fachada, lembrava

vagamente uma igreja. Uma cerca e um portão de ferro fundido protegiam o pequeno

jardim em frente à residência. Uma alta árvore frutífera oiti inclinava-se sobre as janelas.

O novo menino veio a este mundo com a ajuda da Dra. Graça Mello. Foi um parto longo e

desafiador. Numa curiosa coincidência, esse mesmo médico fez o parto do lendário

sambista Noel Rosa.

Naquela época moravam todos juntos: Azor, Mimi, Yolanda, Marcello, Nilza e Jorge.

Como os trabalhadores municipais estavam consertando os encanamentos em suas ruas,

não havia água corrente em casa. Assim, o irmão da nova mãe, Marcello, então com

quinze anos, foi encaminhado de táxi para a casa de tia Sinhá, carregando panelas e

baldes. Aturdido, o jovem tropeçou e tomou banho com um dos baldes.

A Dra. Graça Mello pediu repetidamente mais café, mas a família acabou. A seu último

pedido, Yolanda coletou, disfarçada, todos os resíduos que encontrou em todas as outras

xícaras. Ela acrescentou água e reaqueceu o novo copo, que levou ao médico depois de

desenterrar uma pequena mariposa que flutuava ali.

Antonio Carlos nasceu pesando cerca de quatro quilos, mas era um menino esguio. Ele

media quase vinte e quatro polegadas. Logo após o nascimento, as pessoas o enrolaram

em uma toalha para que Nilza não visse que um lado do queixo do bebê estava um pouco

afundado e uma parte do crânio era mais alta que a outra. O médico explicou: “Ele deve

ter mantido a parte esquerda da mandíbula pressionada contra a pélvis da mãe. Mas isso

será corrigido no devido tempo.” Nilza chorou ao olhar para aquele bebê que nasceu com

os olhos abertos e os cílios retos. Dois meses depois, Antonio Carlos já estava gordinho

e perfeito.

A mãe tinha muito leite e o bebê, muito apetite.

O bebê foi batizado como Antonio Carlos em homenagem à mãe de Jorge,




Antônia. Seus padrinhos foram tia Yolanda e tio Marcello.

Jorge queria ir imediatamente para o Rio Grande do Sul mostrar o filho às irmãs.

Seus pais já haviam falecido. Nilza concordou e as três saíram do Rio de barco. Alguns

meses se passaram; Jorge não queria voltar para o Rio. Aquilo foi

 


não o que foi acordado. No final, todos voltaram para sua casa na Tijuca. Quando o

menino completou um ano, eles seguiram a tradição brasileira de organizar uma grande

festa para crianças e adultos.

Dentro de algum tempo, a família mudou-se para Ipanema, por questões financeiras.

Jorge não ganhava muito dinheiro e o número de alunos de Azor diminuía. Naquela

época, o novo bairro de Ipanema era apenas uma grande extensão de areia. Ao longo

de toda a praia deserta, ventos livres açoitavam as cerejeiras pitanga. Ali existiam muito

poucas casas (e nenhum prédio de apartamentos). A família se instalou em uma casa



alugada na rua Barão da Torre, ainda sem pavimentação, próxima ao Bar Vinte, próximo

à última parada do bonde municipal.

Os Jobim costumavam caminhar até o Ponto Seis, em Copacabana, numa época em

que não havia postos de salva-vidas na praia de Ipanema. Antonio Carlos, montado no

pescoço do tio Marcello, estaria acompanhado da mãe e da tia Yolanda. Jorge acabou

ficando chateado com Nilza. Ele não gostava do hábito dela de ir a lugares públicos sem

ele. Mas Nilza, então com apenas dezoito anos, era obstinada.

Ela continuou indo à praia com o filho e os irmãos.

Nilza não gostou da bola e da corrente e fez algo a respeito.

Muitas vezes, quando Jorge chegava em casa, ela imediatamente começava a costurar.

Jorge tirava o casaco, tomava banho, ia para o quarto e vestia o pijama. Era seu hábito

ficar de pijama em casa. Quando ele decidia sentar no sofá, Nilza, por despeito, dizia

que precisava de linha ou algo assim para costurar. Ele então teria que se vestir

novamente para acompanhá-la até a loja. De volta a casa e novamente de pijama, ela

disse a ele que havia esquecido de comprar broches. Jorge foi obrigado a vestir-se mais

uma vez. Essa situação não poderia durar muito. Ele informou que iria ficar alguns dias

em Petrópolis. Ele fez e nunca mais voltou. Jorge desapareceu assim, sem carta nem

notícias, deixando mulher e filho.

Angustiada e nostálgica dos melhores momentos com Jorge, Nilza recebeu total

apoio de Azor e Mimi. Meses depois de deixá-la, Jorge mandou alguém buscar seus

livros. Nilza deu a essa pessoa um recado brutal para Jorge (supostamente escrito por

sua mãe): “Tratada como uma vagabunda lá fora, vendi seus livros pelo dinheiro que

você me devia. Não foi muito. Meu preço é muito mais alto que isso.”

Jorge ficou longe de casa por quase dois anos – anos de sério sofrimento para ele

também. Nesse ínterim, os sintomas de seu colapso nervoso aumentaram gradualmente.

Um dia ele apareceu, após perguntar se Nilza aceitaria




 


ele voltou. Ela respondeu com uma frase típica da época: “A mesma porta que você

deixou aberta ao sair continua aberta”.

A família mudou-se para o Trianon, rua sem saída com casas apenas de um lado,

perpendicular à Siqueira Campos, em Copacabana. Eles moravam na última dessas

moradias. Tinha apenas um andar, mas era espaçoso, com vários quartos. A ausência

de Jorge fez com que Antonio Carlos se aproximasse ainda mais da mãe, dos avós, dos

tios e das tias. Um Jorge ciumento, por sua vez, não conseguia entender a distância do

filho. Ele nunca aprendeu a cativar aquela criança. Pelo contrário, Jorge desassociou-se

do próprio filho.

Vovó Mimi era louca pelo neto. Ele era o foco das atenções em casa e se tornou

travesso. Com um ano aprendeu a cuspir e depois decidiu cuspir na avó. Nilza o criticava,

mas Mimi aceitava qualquer coisa dele: “Em mim ele pode cuspir. Isso é algo entre nós



dois.”

Aos três anos, Antonio Carlos ganhou um carro de brinquedo que dirigia e impulsionava

com pedais. Ele puxou-o para dentro de casa uma vez e começou a martelar as laterais

de lata do brinquedo. Quando sua mãe reclamou, ele contra-argumentou com muita

lógica: “Esse carro é meu, não é? Se for meu, posso martelá-lo.”

Desde muito cedo, Tom já possuía uma boa noção de ritmo. Estava então na moda

encorajar as crianças a mostrarem os seus talentos. As pessoas recitavam versos

folclóricos rimados para ele e ele os repetia na frente dos convidados em casa. Errou

nas palavras, trocando as sílabas, mas manteve o ritmo certo.

Nilza ainda era uma adolescente e às vezes transformava o próprio filho em uma

espécie de marionete. Uma vez no Carnaval, ela o vestiu de “moça holandesa” e o

fotografou na cozinha. Ela até criou o nome “Jandira” para o filho. Muitos anos depois,

Antonio Carlos olhava aquela foto e comentava, brincando, que foi pela pele dos dentes

que não havia se tornado gay. Devido ao hábito (talvez profético) de sua mãe de tirar

fotos do filho, agora existem fotos dele de todas as fases de sua infância, desde o

nascimento.

Quando criança, Antonio Carlos dependia da música para adormecer, mesmo balançando-

se numa cadeira de balanço. A Mimi ou a Nilza cantavam e o tio Marcello as acompanhava

no violão. Certa noite, quando tio Marcello não estava presente, Nilza começou a cantar

e o menino reclamou: sentia falta do violão.

Vovô Azor – que por acaso era muito desafinado e dizia que não conseguia assobiar

nem o hino nacional – teve que pegar o violão do Marcello e dedilhar




 


cordas para produzir qualquer tipo de som. Só assim o menino poderia adormecer.

Em outras ocasiões, Antonio Carlos fazia questão de ouvir músicas às quais se referia,

reproduzindo (com algumas distorções fonéticas) algumas palavras do meio de um

determinado verso. Ele também gostava de escolher canções de ninar específicas para

fazê-lo dormir. Alguns dos títulos dessas músicas em português eram “A cabocla”, “Casinha

pequenina” e “Minha terra”.

O tema dessas músicas era quase sempre um romance entre um homem e uma mulher

em contato próximo com a natureza. As florestas, os pássaros, os rios, os ameríndios, o

mar e o vento eram elementos recorrentes. Ele era um menino extraordinariamente

contemplativo. Ele passava horas intermináveis na porta da cozinha olhando para o céu e

para o quintal, que era densamente coberto por uma variedade de árvores. Ele se isolou de

todos os outros. Se o chamassem para dentro de casa, ele não os ouviria. Era como se ele



fixasse silenciosamente os olhos na passagem do tempo. Uma prima de Mimi dizia que

gostaria de poder ver “as coisas incríveis que o pequeno Antonio Carlos vê”.

Um mês depois de completar quatro anos, nasceu sua única irmã. Ela se chamava

Helena Isaura. Antonio Carlos não demonstrou ciúmes. Pelo contrário, ele se sentia atraído

por ela e a protegia em todas as circunstâncias. Esse carinho e cuidado por ela foram

inflexíveis durante toda a sua vida.

Antonio Carlos ainda não tinha completado cinco anos quando, em 17 de agosto de

1931, Mimi morreu em decorrência de uma infecção adquirida após uma cirurgia de hérnia

abdominal. Ela tinha cinquenta e três anos. Antonio Carlos sentiu muita falta dela. Ele

perguntava constantemente: “A vovó nunca mais vai voltar?” Até que ele esqueceu aquela

avó que ele simplesmente adorava, eles continuaram lhe contando que ela estava sendo

tratada em um hospital.

Após a morte de Mimi, Azor passou algum tempo nas profundezas da melancolia.

Ele nunca pensou em outra mulher. Nilza, na tentativa de diminuir a dor do pai, decidiu se

mudar daquela casa que lembrava a todos a mãe.

Transferiram-se para o número 68 Constante Ramos, no mesmo bairro de Ipanema. Era

uma bela casa de dois andares com janelas verdes, não muito longe da costa. Antonio

Carlos continuou mais próximo do avô do que do pai. O vovô foi de fato a figura masculina

mais importante na vida daquela criança.

Antonio Carlos já tinha idade suficiente para ficar sozinho lá fora. As ruas não estavam

movimentadas. Ele ia à praia ou a uma matinê em um cinema próximo. Ele recebeu e usou

muito bem essa liberdade, mas às vezes revelava muita insegurança. Ele ficou ansioso por

ser excluído de qualquer ação.




 


Quando a mãe começava a falar sobre algum plano, ele interrompia: “E eu? E quanto a mim?

Ele até falou sobre ter estado presente em situações impossíveis. Por exemplo, ele alegou

que compareceu ao casamento de seus pais. A mãe não concordava: “Meu filho, você ainda

não tinha nascido. Você não poderia estar lá.

Ele respondeu angustiado: “Eu estava, mãe, estava vestido de azul marinho”.

Antonio Carlos começou a desenhar e se desesperava quando as pessoas não conseguiam

entender suas imagens. Ele corria em direção à mãe com o papel: “O que é isso? O que é isso?"

Ela respondia: “É uma montanha. Não, não é uma montanha. Então é um chapéu?

Antonio Carlos se emocionava: “Também não é chapéu. É uma casa!

Ela concordou: “Ah, é isso. Mas sem portas ou janelas?

Ele ficava irritado: “Aqui nesta casa ninguém sabe nada de desenho”.

Certa manhã, o menino decidiu fugir. Ele preparou um sanduíche com queijo e biscoitos e



colocou-os em uma lancheira. Ele ficou muito chateado e repetiu para tia Yolanda sua reclamação sobre seus desenhos mal compreendidos: “Nesta casa nada funciona e ninguém entende de

desenho”.

Quando perceberam que ele estava desaparecido, ele já havia chegado perto da rua da praia.

Nilza correu e logo o alcançou. Caminhando logo atrás dele, ela tentou convencê-lo a voltar:

“Então o que você vai fazer quando ficar sem comida?”

Antonio Carlos respondeu dramaticamente: “Vou continuar andando e andando… até cair em

pedaços!”

De repente, porém, ele percebeu que sua mãe parecia chateada e sentiu pena dela.

Ele desacelerou seus passos. Antes que ele percebesse, ele já segurava a mão dela e os dois estavam indo para casa.

O pai de Antonio Carlos tinha como amigo íntimo o famoso pintor Oswaldo Teixeira. Teixeira

costumava presentear Jorge com alguns de seus quadros. Certa vez, ele pintou Antonio Carlos

dormindo no sofá de sua casa. Suas dedicatórias eram exageradas, e esta dizia: “A Jorge Jobim, pai de um príncipe da Toscana, grande alquimista das palavras e vigoroso escultor de ritmos”.

Outra dedicatória, que a família mantém até hoje, diz: “Ao poeta e amigo

 




JJ, feiticeiro oriental da prosa e xamã sutil da poesia voadora.”

Antonio Carlos tinha sete anos quando seu pai decidiu abandonar a família pela

segunda vez. Nilza e Jorge já dormiam em quartos separados há algum tempo. O sistema

nervoso de Jorge estava profundamente debilitado. Ele pôde levar seus filhos para passear

apenas mais uma vez. Isso foi no final do ano seguinte, o último de sua existência.

Jorge acabou sendo confinado na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo, zona sul do

Rio. Sua angústia tornou-se intolerável. As pessoas disseram que podiam ouvir seus

gritos. Naquela época, os procedimentos médicos não podiam lhe oferecer ajuda suficiente.

O pintor Oswaldo Teixeira o visitava constantemente. Foi a ele que Jorge confidenciou:

“Há algum tempo que observo a minha própria condição. Vejo que meu carinho por tudo

está diminuindo. Se você viesse aqui e me dissesse: 'Sr. Fulano foi atropelado, seu amigo,

eu não sentiria nada. As únicas ligações que ainda tenho com a vida são você, que vem

aqui todos os dias, e meus filhinhos, Antonio Carlos e Helena.”

Ele pegou algumas folhas de papel em cima da mesa e as entregou ao amigo,

acrescentando: “Estes são versos que escrevi para eles. Guarde-os.

E quando eu deixar este mundo para trás...”

Oswaldo Teixeira o interrompeu: “O que é isso, Jorge? Ainda vamos ficar por aqui por

muito tempo.”

Jorge sorriu tristemente. “Não posso viver com Nilza e não posso viver sem ela.”

Jorge teve ataques alucinatórios. Eles eram tão poderosos que a equipe médica teve

que lhe aplicar injeções de morfina. Seu coração ficou mais fraco. Ele reclamava

constantemente de sua solidão e abandono.

Às vésperas de sua morte, seu amigo Oswaldo Teixeira conviveu com ele.

Jorge disse: “Acabei, Oswaldo”.

Ele faleceu enquanto dormia.

Dias antes, porém, o amigo profundamente emocionado de Jorge havia parado no

calçada em frente ao hospital para ler o poema que Jorge acabara de lhe entregar:




Felicidade

Logo acima do meu quarto

 


É a alcova dos meus filhos.

Fortes e doces, eles dormem em paz E prosperam

durante seu sono mais profundo.

Ele, cansado de tantas batalhas Com seus

soldadinhos de chumbo, E ela,

cansada De rodeios

rosados

E doces músicas infantis.

Ambos, então, buscando o toque felpudo De

suas tocas adormecidas, À



medida que a noite cai.

E porque se deitam cedo, Levantam-se muito

cedo, Para que, às vezes,

Quando a madrugada

mal ilumina as vidraças, A liberdade chega aos meus filhos A

menina, ainda descalça, dá passinhos

de boneca de corda, Indo e vindo , Falando sem parar pela sala.

O menino, porém, Com

os pés mais firmes e pesados, já É capaz

de fazer tremer as tábuas do piso

de madeira.

Às vezes ouço algo cair, Uma gargalhada

irrompe, Ou uma porta boba bate em

meus ouvidos.

O que me enche de maior alegria, porém, é quando mais

um fresco nascer do sol dourado surge, E fico emocionado ao

ouvir as duas crianças cantando lá em cima, Cantando e pulando

naquele transbordamento saudável e saudável de

vitalidade e vigor, Para grande

orgulho de seus pais, homem e mulher

eternamente apaixonados um pelo outro.

E daqui de baixo, do meu espaço escasso e vago,

Eu tenho a sensação estranha, mas feliz

Que eu sou a raiz,

Doloroso e obscuro,

De uma árvore poderosa,

Com galhos cobertos de orvalho ou lágrimas,

Onde dois pássaros ocupados e encantados




 


Zumbido e zumbido.

Pulando, eles afofam as penas, E

celebram a Vida.

Há manhãs assim, Quando

não sou mais um humilde barqueiro do Volga.

No assento de uma carruagem viajo em vestes de

seda roxa, Como um príncipe feliz das Mil e Uma Noites.





 

Jorge Jobim

(24 de outubro de 1933)

O avô Azor chamou o neto para conversar. Os dois estavam sozinhos em casa e chovia muito.

Pela manhã, Antonio Carlos ficou surpreso ao ver a mãe chorando. O menino sentou-se na velha poltrona de couro, na frente do avô. Aquela tarde cinzenta estava escura, mas ainda permitia ver a água escorrendo pelas vidraças. O menino sentiu frio. Ele sentiu que estava prestes a ouvir algo triste naquele momento. Ele nunca tinha visto seu avô tão chateado. Numa torrente, Azor contou a António Carlos tudo o que tinha acontecido. Ele buscou as palavras mais adequadas para um

menino de oito anos, mas achou bastante difícil conversar sobre a morte. Antonio Carlos, de olhos arregalados, disse: “Não me importo muito”, e para consolar um pouco o avô, acrescentou: “Quase não o conhecíamos, não é?”

Naquela noite, porém, Antonio Carlos teve pesadelos e gritou. Azor o ajudou, já que Nilza

normalmente dormia profundamente para acordar. O menino ficou muito tempo agarrado às mãos

do avô. No dia seguinte ele contou à mãe que as mãos do vovô eram confortáveis e peludas como as de Kala, o macaco que criou Tarzan.

Após a morte de Jorge, Nilza lutou contra uma grave depressão. Apesar da pouca idade e da

boa aparência, ela achava que sua vida havia acabado. Ela enchia cadernos de poemas amargos

e acabou procurando um psicanalista.

A casa dos Jobim na Constante Ramos estava em reforma. Bem em frente havia uma pensão com

um grande jardim frontal. Pertenceu a dona Josefina e dona Adelaide, tias solteiras de João Lyra Madeira, futuro marido de Yolanda, irmã de Nilza. A família mudou-se para aquela pensão por um tempo. Para Antonio Carlos e Helena foi um momento de muita alegria. Eles




 


esqueceram a tragédia de serem órfãos – ou pensaram que sim. Antonio andava de

bicicleta muito rápido pelas ruas sombreadas e arborizadas. Helena gostava de subir nas

mesmas árvores para colher sapoti e carambola. Ela usaria seu triciclo para tentar

alcançar o irmão. Ela o adorava. Ela ainda não sabia dizer “Antonio Carlos” e ficava

chamando-o de Tom-Tom, que mais tarde virou apenas Tom.

Nesse mesmo ano, Antonio Carlos ingressou no Colégio Mallet Soares, em

Copacabana. Rapidamente foi ensinado a escrever e a ler pelos talentos de Fabíola

Araújo. Ele era um estudante inquieto. Ele nasceu canhoto e, mais tarde, tornou-se

ambidestro. Naquela época e idade, os adultos obrigavam as crianças a usar a mão

direita, aconteça o que acontecer. Então, ele aprendeu. Ao longo de sua vida, Tom usou

ambas as mãos sem falta de autoconfiança – por exemplo, a mão direita para escrever,

a esquerda para pintar.



A propensão ao perfeccionismo era uma característica evidente nele desde muito

jovem. Na escola, suas redações eram impecáveis, a ponto de um de seus professores

suspeitar que ele não as havia escrito. “Autobiografia de um Falcão” foi um deles, em

que um menino foi transfigurado em uma águia-gavião voando para longe de assassinos

humanos. Em seus cadernos escolares, Antonio criava e ilustrava histórias completas,

sempre utilizando temas associados a animais.

A vida animal e a natureza em geral sempre interessaram a Tom. O irmão de sua avó

Mimi, Paulo Emílio, e sua esposa, Isaura, eram donos de um grande hotel em Javari,

próximo a Miguel Pereira, no interior do Rio de Janeiro. Paulo Emílio e Isaura (padrinhos

de Helena) convidavam frequentemente ela e Tom para passar as férias de verão na sua

paradisíaca pousada. Na área havia um lago considerável. Ao mesmo tempo adorável e

misterioso, era cercado por eucaliptos. Suas águas refrescantes guardavam uma

surpresa secreta no fundo. Isso é o que as pessoas costumavam dizer naquela região.

Tom atravessava aquela floresta de eucaliptos, sentindo prazer em seus próprios passos

sobre folhas secas e quebradiças. Ele brincou com um pião passando-o sobre as cascas

das sementes que encontrou sob as árvores e se esforçou para encontrar o maior

número possível de ninhos de pássaros nas proximidades.

Segundo a população local, os pássaros não faziam ninhos naquele local por causa

do forte odor que emanava de algumas daquelas árvores altas, um tipo de cheiro que

Tom mais tarde descreveria como “aroma de sauna”. Pássaros de cauda longa, porém,

podiam ser vistos pulando nas árvores, como macaquinhos, e os saíres empoleirados

ficavam extasiados com o néctar da flor branca. Outros saíras e guacharos pretos foram

vistos no alto das copas. Claro, houve o zumbido azul de




 


as abelhas quando, no final da tarde, um pássaro jacu também apareceu para descansar.

Celso Frota Pessoa era amigo íntimo de Marcello, irmão de Nilza. Ele passou a frequentar regularmente a casa de Jobim. Ele tinha vinte e cinco anos, a mesma idade que ela.

Ele era um matemático agnóstico com ideias socialistas. Bastante brasileiro, tinha pele morena, olhos pretos e cabelos escuros. Sem ser bonito, ele possuía muito fascínio, inteligência e equilíbrio emocional.

Excelente jogador de xadrez, ele ficava de costas para o tabuleiro enquanto jogava com duas pessoas ao mesmo tempo. Ele quase sempre vencia suas partidas.

Alguns anos se passaram até que Nilza e Celso revelassem a paixão um pelo outro. Passo a passo ele conquistou o amor dela. Aquele amor tranquilo que não conhecera com Jorge, descobriu agora com Celso, maravilhada. Ele era agradável e gentil.

Ele nunca a ofendeu ou desconfiou dela. Então, eles decidiram se casar. Nilza perguntou a Antonio Carlos se ele aprovava. Ele fez.

Nilza foi feliz neste segundo casamento. Celso acabou amando muito Tom e Helena. Em cada




etapa de suas vidas, Celso os motivou e os compreendeu. Vários anos depois seria ele, Celso, quem acreditou no extraordinário talento musical de Antonio Carlos Jobim e o apoiou na difícil decisão de se tornar músico profissional.

A família viajou para Javari de trem. Foi necessário trocar de trem. Bastante ansiosos, Tom e Helena observaram os pais manusearem as sacolas e colocá-las apressadamente nas prateleiras. Eles corriam atrás deles, temendo perder o próximo trem, e muitas vezes se assustavam com o barulho estridente do vapor quente escapando da locomotiva. As luzes fracas e os cheiros noturnos da estação se misturavam aos sons agudos das vozes vendendo “Creme de Vassouras! Creme de Vassouras!”

– queijo branco guardado em caixa redonda de madeira. Os vendedores também vendiam bananas

pequenas e douradas em cacho. Uma vez acomodados no segundo trem da viagem, as crianças

desfrutaram da paz e das delícias daquelas bananas pequeninas e muito doces.

A própria Nilza visitava Javari com muita frequência. Primeiro ela foi lá com Jorge; mais tarde, apenas com as crianças; e por último, com o Celso também. Ela foi bastante criativa. Sem dúvida ela também era uma artista. Além de tocar violão e escrever músicas, ela pintou e escreveu poesia. Mas ela realmente não se dedicou a nenhum desses dons. Outra parte de sua personalidade — um dom também — era o hábito de zombar de si mesma. Ela dizia que era “a baiana falsa, tipo Carmen Miranda”. Na realidade, ela era uma autêntica empreendedora e tudo o que fazia, fazia bem. Ela tinha prazer em decorar a casa, costurar,

 





tricô e culinária (uma arte que ela realmente domina). Acima de tudo, Nilza era mãe de

Antonio Carlos e Helena Isaura, e esposa de Celso. Dado o seu amor ilimitado por todas

as crianças, foi definitivamente uma professora brilhante e fundadora do Colégio Brasileiro

de Almeida, ao qual se dedicou totalmente, de corpo e alma.

A distração de Nilza era famosa na família. Num evento social, ela apresentou sua irmã,

Yolanda, a uma amiga, dizendo: “Esta é Nilza, minha irmã”, fazendo com que todos rissem.

Ela confundia os nomes das pessoas o tempo todo.

Ela parecia andar nas nuvens. Certa vez, quando levou Tom a um médico que conhecia

há anos, ela primeiro o chamou de Dr. Agrião (que significa “agrião”).

Surpreso, o médico respondeu: “Aragão, senhora”. Totalmente distraída, ela voltou a

chamá-lo de Dr. Agrião, ao que ele respondeu mais uma vez: “Aragão!”

Só depois de saírem do escritório Tom pôde rir. Ela fez o mesmo com um famoso sapateiro

a quem chamou de Pacelli. “Spinelli, senhora”, ele a corrigia, sem sucesso. Ela continuou

confundindo o nome dele durante todos os anos que o viu na cidade.

Em Javari, as pessoas acordavam muito cedo. Ao amanhecer, Tom estava pronto para

pular da cama. Ele pegava uma xícara na cozinha e corria em direção ao curral atrás do

estábulo. Ele bebeu o leite que acabara de ser tirado. Às vezes ele andava a cavalo

sozinho, antes do amanhecer, só para observar o nascer do sol por trás da montanha.

Durante as comemorações do Carnaval, o adolescente Tom dançou com a irmã no meio

do salão de baile.

Uma noite ele foi ver os hóspedes do hotel jogarem bilhar. Já era tarde e havia poucas

pessoas na sala. De repente, o gerente do hotel entrou. Cambaleando, ele manteve as

duas mãos na barriga, de onde se projetava uma grande faca de trinchar. Ele deu mais

alguns passos e caiu no chão. Uma mulher começou a gritar. Um homem disse: “Era o

chef, Angelo. Pegue ele! Tom fugiu. Ele chegou ao nosso chalé ofegante e assustado.

Celso obrigou-o a beber um copo de vinho do Porto. Ele estremeceu.

Helena acordou e foi para a sala. Ela queria saber o que havia acontecido. Celso




controlou suas emoções e disse a ela: “Por favor, vá para a cama… não aconteceu nada”.

Tom, porém, vomitou naquela noite e teve febre por três dias seguidos.

Outra experiência traumatizante da adolescência aconteceu em Garça, cidade do

interior de São Paulo, onde o irmão de Azor tinha uma grande fazenda. tom e

 


Helena adorava ir para lá. A velha cama de casal de seus tios-avôs e tias-avós tinha

um colchão enorme com travesseiros feitos de penas de ganso. Brincavam naquela

cama pulando e quando ficavam cansados simplesmente deitavam e dormiam ali,

num colchão que afundava e quase se fechava em volta deles.

Um dia chegou o primo Paulo (que mais tarde seria o primeiro marido de Helena).

Ele havia trazido uma espingarda de caça. Ele deixou Tom tentar. Mesmo

chuviscando, eles se dirigiram ao quintal para praticar tiro.

Paulo chutou algumas vezes e, sendo bom nisso, acertou quase todas as vezes no



centro do alvo. Então ele passou a arma para Tom. Hesitando, ele tentou imitar o

primo mais velho. A chuva caía com mais força agora e uma névoa branca subia do

chão. Suas roupas estavam molhadas e grudadas na pele. Paulo disse: “Atire”.

Sem enxergar muito bem, Tom atirou, após tentar mirar no alvo pendurado em

uma árvore. Eles ouviram um uivo alto. Bastante assustados, eles correram em

direção ao local de onde o som parecia ter vindo. Debaixo do alvo encontraram o

cachorro de Paulo deitado perfeitamente imóvel no chão. Por alguns momentos,

Tom permaneceu imóvel, silencioso, em estado de choque. Paulo se ajoelhou para

examinar seu cachorro. Contendo-se, ele disse em voz baixa: “Ele está morto. A bala

atingiu-o na cabeça.” Após uma pausa, ele acrescentou: “Acontece”.

Algum tempo depois, quando Paulo voltou com o lavrador, Tom estava caído no

chão, soluçando. Foi impossível para Paulo convencê-lo de que deveria levantar-se

e voltar para casa. A chuva estava ficando mais forte. Tom estava chorando e

dizendo: “Eu matei Valente… eu matei Valente”.

Apesar da dor que sentiu pela morte de Valente, Paulo ficou comovido com o

sofrimento do primo: “Vai ficar tudo bem.…A culpa não é sua. Fui eu quem disse

para você atirar.

O choro de Tom piorou gradualmente. Paulo tentou levantá-lo: “Vamos entrar.

Você tem que beber um café quente.

Tom não faria isso, entretanto. Imóvel, sob forte chuva, ele continuou a soluçar.

Então o Paulo entrou e chamou o Celso, que saiu na hora e conseguiu trazer o Tom

de volta para dentro de casa.

Na Rua Sadock, 276, entre a Lagoa e o mar do Rio, havia um sobrado cinza com

acabamento em cascalho, bem em frente a uma árvore de fogo e ao lado de diversas

amendoeiras. As crianças muitas vezes começavam uma briga na calçada jogando




 


amêndoas uma para a outra. No último andar moravam a tia de Tom, Yolanda, seu marido,

João, e seus dois filhos, Marcello e Lúcia. No térreo, Nilza morava com o segundo marido,

Celso, além de Tom, Helena e vovô Azor.

Foi com o avô que Tom fez as primeiras explorações nas matas da cidade do Rio.

Subiram o Morro do Cantagalo, acessível no final da rua onde moravam. Com o vovô Azor

Tom aprendeu sobre o vento, a água e a vida animal, incluindo nomes e cantos de pássaros.

Ele também aprendeu muito sobre plantas e árvores. Foi aí que começou sua identificação

com a natureza e seu hábito de fazer longas e solitárias caminhadas pelas montanhas ao

redor da cidade. Ele sempre carregava sua pistola de ar comprimido e caçava rolas para

se alimentar.

Como um pássaro, Tom fixava os olhos na cidade lá de cima. Do interior da floresta

avistou a fantástica Lagoa, o banco de areia branca cortado pelas ondas, o mar de safiras,



as ilhas e os grandes navios transatlânticos que pareciam imóveis no horizonte. Todos

esses elementos tornaram-se parte de si mesmo.

Após várias caminhadas, Tom percebeu que algumas pessoas daquele bairro estavam

assustadas por causa da arma que ele carregava. A cidade crescia rapidamente e, com o

passar do tempo, ele precisou andar com a arma no ombro por mais ruas, novas que antes

não existiam. Então, ele escolheu um local na floresta para enterrar a arma. Ele subiu o

Morro Dois Irmãos e parou perto de um jequitibá , no local conhecido como Sétimo Céu, e escondeu a arma debaixo das raízes profundas da árvore. Sem realmente saber disso, ele

já sentia que talvez nunca mais quisesse caçar novamente.

Um bonde percorria toda a orla de Copacabana. Tom voltava da escola para casa olhando

o mar e absorvendo a brisa salgada no rosto.

Sempre que aquele ônibus sobre trilhos chegava a Ipanema e se preparava para se

aproximar da Praça General Osório, seu entusiasmo aumentava. Lá estava — seu mar,

sua praia. Ele prestava muita atenção nas ondas para saber se elas seriam adequadas

para nadar mais tarde. Sua identificação com o oceano o transformou em um escoteiro

marítimo. Ele e seus colegas se reuniam todos os domingos para treinar sobre maneiras

de manter as praias e a vida marinha em boa forma.

A vida era boa. À tarde, uma mesa repleta de petiscos e bebidas aguardava Tom e

amigos. A mãe gritaria quando chegasse a hora. Tom amarrava a linha de sua pipa na

goiabeira que crescia no terreno de frente para a Lagoa, em frente




 


seu quintal. Enquanto fazia seu lanche no meio da tarde, ele podia espiar pela janela sua

pipa no céu. Ele mesmo fez suas pipas. Ele comprou linhas Urso no bazar Enigma. Ele

usou dois guinchos, para que sua pipa subisse bem alto, e papel de seda de todas as

cores, para torná-la mais visível.

Para construir suas próprias pipas, Tom subiu no Cantagalo em busca de taquaruçu .

Ele pegou grandes galhos de bambu e sentou-se à mesa com todos os materiais

necessários para sua delicada montagem. Com um canivete afiado preparou as costelas

da pipa. Mais tarde cuidou do equilíbrio entre a estrutura e a linha. Por fim dirigiu-se para a cozinha, onde preparou a cola com farinha de trigo. Ele certificou-se de que o papel

estava bem esticado para evitar que a pipa fizesse barulho. Enquanto voava, ele adorava

sentir o vento nas próprias mãos. O ar constante soprando contra a pipa fez com que ele

experimentasse uma relação estreita com o espaço ao ar livre, espiralando para cima,




muito além do nível do solo.

O Natal e o Ano Novo foram bem comemorados na família de Antonio Carlos e Helena.

Nilza foi a uma feira livre e comprou um pinheiro vivo que chegou à casa deles plantado

em uma lata grande. Ela embrulhou a lata em celofane vermelho e colocou ao lado da

janela que dava para a rua. Com os filhos implorando para ajudá-la, ela pegava as caixas

de enfeites no armário do corredor, onde estavam guardadas desde o Natal do ano

passado. Essas caixas foram abertas na mesa da sala de jantar, e com a mãe os dois

filhos penduraram as bolas brilhantes e outros enfeites. Mais tarde, a mãe trouxe um rolo

de enchimento de algodão que ela rasgou em pedaços e deu às crianças para colocarem

nos galhos verdes como neve falsa. Finalmente, eles cercaram a árvore de Natal com uma

série de luzes piscando. Na escada de madeira para o segundo andar penduravam

serpentinas de papel colorido e outros pequenos itens decorativos. Na porta suspenderam

uma grande, alegre e sorridente máscara de Papai Noel.

Quando Tom estava chegando em casa ele pôde ver, da rua, as pequenas luzes

coloridas acendendo e apagando nas janelas. Ele corria para a cozinha para espionar a

mãe e a empregada dela, Bolão, que estavam ocupadas preparando comida especial para

a ceia de Natal. Faziam lombinhos e coxas de porco em calda de cana com abacaxi

fatiado, e peru com farofa de farinha de mandioca e arroz com molho de cereja. Eles também tinham castanha de caju, passas, figos, tâmaras, nozes, amêndoas e avelãs.

Todos na família esperaram durante todo o ano por aquela festa. Veio com champanhe

para os adultos e guaraná para as crianças.

Os presentes, embrulhados em papel festivo, foram empilhados junto ao pinheiro decorado.

Celso, apesar de todo o seu agnosticismo, colocaria “Noite Silenciosa” na vitrola.




 


No Ano Novo também havia um jantar especial, e quando Antonio Carlos e Helena estavam

cansados demais para esperar e adormeciam, seus pais os acordavam pouco antes da meia-

noite, para que pudessem presenciar a contagem regressiva do Ano Novo.

Havia também um ritual familiar rigorosamente seguido desde a época de Mimi. Quando o

relógio na parede estava prestes a dar as doze badaladas, houve um momento de suspense.

Em cada prato nas mãos de cada pessoa havia um cacho de uvas. A superstição era que

comer uvas no limiar do ano novo trazia prosperidade. Esse hábito que Tom preservou por

toda a vida.

Na rua Marquês de São Vicente, bairro carioca da Gávea, a grande família de João Lyra

Madeira (marido de tia Yolanda) possuía uma grande casa em estilo colonial com diversas

jaqueiras no quintal. Tom adorava ir àquela casa para ouvir o tio tocar Bach, Tárrega e Villa-Lobos.

Ele adorava observar a destreza do tio João em dedilhar as cordas do violão com tanta



precisão. João estudou música com Isaías Sávio, que também ensinou Luiz Bonfá, outro

destacado violonista brasileiro. João tinha onze irmãos, uma família que veio da cidade

nordestina de Recife. Ele era atuário, engenheiro e presidente da Sociedade de Astronomia.

Em casa ele tinha um telescópio com o qual mostrava os anéis de Saturno aos filhos,

sobrinhos e sobrinhas. Robusto e vibrante, sua aparência era marcada pela barba preta,

maçãs do rosto proeminentes e olhos brilhantes e ligeiramente oblíquos que lembravam os

dos ameríndios. Seu físico contrastava com o de sua esposa, Yolanda, uma mulher muito

loira e frágil, com sinceros olhos verde-azulados.

Aquele tio era louco por fogos de artifício, como a maioria dos nordestinos. Sendo o mais

rico de sua família, ele frequentemente comprava uma enorme quantidade de fogos de artifício.

Nos feriados de São João e São Pedro convidava todos para ajudá-lo a fazer uma exposição

deles à beira da lagoa. Tom gostou de ver as luzes coloridas se abrirem em padrões

surpreendentes no céu e depois se transformarem em gotas cintilantes que caíam direto na

água – uma chuva de pedaços de ouro e prata.

Os tios João e Marcello pegavam então seus violões e tocavam músicas tradicionais

brasileiras associadas às festas de meio de ano. Todos cantaram juntos.

Eles também cantaram composições populares em francês antigo, peças de quadrilha em

que as letras originais foram gradualmente adquirindo pronúncias adulteradas.

A maioria das pessoas ali reunidas falava francês fluentemente, como a maioria dos membros

da intelectualidade local. Paris, a Cidade Luz, ainda define os padrões com as suas vastas

influências culturais.




 


Naquela época, tio Marcello era o festeiro da família. Durante o dia ele era um agrônomo

que amava e trabalhava muito em projetos agrícolas. À noite, ele ia aos bares. Entusiasta

do whisky, também tinha um profundo conhecimento de literatura e adorava recitar poesia.

Marcello era atraente tanto no rosto quanto na alma e herdou muitas características de

seus pais. De Mimi, sua mãe, ele herdou os lábios carnudos e sensuais e a inclinação

para a ironia. De Azor, seu pai, herdou uma atitude inabalável, compaixão por todos os

seres vivos e alegria pura por simplesmente estar vivo. Tom gostava de ouvir seus

comentários sobre grandes poetas e seu repertório de música popular. Marcello compunha

suas próprias canções adoráveis, criando tanto suas músicas quanto suas letras. Ele

coletou anexes. Seu trabalho e sua vida de bebedeira apresentavam conflitos de interesses

que exigiam sua dedicação. Tentar acordar de manhã era uma luta para ele. Um dia, ainda

com bastante sono, saltou do bonde da Praça 15 de Novembro para embarcar na balsa



que atravessava a Baía de Guanabara. Ele achou que estava muito atrasado e que o

barco já estava saindo do cais. Então, ele pulou na água depois de esbarrar em várias

pessoas que caminhavam ou estavam no caminho. Ele fez papel de bobo, pois o barco

estava chegando ao porto.

A Lagoa Rodrigo de Freitas era azul e conhecida por ter muitos peixes em suas águas.

O banco de areia à beira da água era compacto, cinzento e frio. As conchas eram brancas

ou descoloridas. Garças, gaivotas, biguás, martins-pescadores e martins-pescadores

permaneciam por perto. A estrada que circunda a lagoa ainda era estreita e um tanto

ociosa. A superfície sedosa da água refletia os picos e montanhas ao seu redor: Cantagalo,

Sacopã, Cabritos, Da Guarda e a maciça alvenaria do Corcovado.

Nilza não gostava quando os filhos nadavam na lagoa. Ela tinha ouvido relatos

dramáticos de crianças presas no musgo e nas plantas aquáticas do fundo. Mas Tom iria

de qualquer maneira. Sem ser visto, ele saía furtivamente pelo quintal, pulando o muro e

atravessando o terreno baldio que dava para a calçada em direção à lagoa. Ele se reunia

e continuava conversando com amigos nas sombras amigáveis das árvores. De repente,

uma brisa suave fazia arrepiar a pele lisa da lagoa. À luz do sol, um punhado de estrelas

do mar mergulhou naquelas águas. Lantejoulas cintilavam e pedrinhas brilhavam a ponto

de machucar os olhos.

Num dia inesquecível, Tom conseguiu atravessar a lagoa inteira a nado pela primeira

vez. Foi um feito impressionante. Os amigos estavam muito entusiasmados – esperando

e torcendo. Tom conseguiu chegar ao outro lado da lagoa e




 


voltou nadando, ao mesmo tempo tranqüilo e ritmado. Alto para a idade, robusto e magro, ele

saiu da água sentindo-se vitorioso e todos bateram palmas.

Por um momento o sol iluminou toda a sua figura e iluminou as gotas de água ao seu redor –

fazendo-as brilhar na forma de um halo. Um sorriso aberto e claro agora era realçado pela sua pele bronzeada.

Muitas vezes Celso acordava Tom e o resto da família no meio da noite para ir à praia da

Barra da Tijuca. Eles se deitariam na areia fria. Então, aquele pai carinhoso começou a apontar e ensinar sobre constelações. Incentivada por Celso, Nilza criou Tom e Helena em um clima

de liberdade, sem preconceitos. Essas características incomuns da formação de Antonio

Carlos Jobim certamente o ajudaram a desenvolver sua verve criativa. Talvez por causa dessa

história familiar ele fosse destemido e capaz de dizer: “Posso ir a qualquer lugar, contanto que tudo de mim esteja envolvido”.

Numa daquelas noites serenas e tranquilas de Ipanema, uma estrela cadente desceu do




céu em altíssima velocidade. Irmão e irmã fecharam os olhos e sussurraram alguns desejos

um para o outro. Enquanto isso, vovô Azor, com seus olhos transparentes e cor de avelã,

estava sentado à mesa de jantar jogando paciência. Celzo e Nilza, por sua vez, montavam um

quebra-cabeça de mil peças representando uma cena de moinho de vento holandês. O vento

soprava suavemente e as cortinas de voile branco inchavam como velas. Podia-se até sentir –

ou imaginar – que o cheiro pantanoso que evaporava do oceano negro chegava à sua casa,

depois de percorrer as ruas nos seus véus húmidos. Entrelaçado com aquele aroma irresistível

do mar estava o perfume do casto jasmim, que entrava na casa através do telhado de cerâmica.

Num dos primeiros tempos da Segunda Guerra Mundial, o sobrinho de Celso, Paulo, veio do

interior de São Paulo para estudar e morar com a família de Nilza. Ele queria se tornar um piloto. Fascinado por essa ideia, ele acompanhou as notícias sobre as batalhas aéreas da

Segunda Guerra Mundial e foi ficando cada vez mais entusiasmado com seus planos futuros de carreira.

Ele era muito jovem e ainda não sabia sobre morte, derramamento de sangue e dor. Ele era

um esportista ávido. Ingressou na Força Aérea Brasileira e, posteriormente, na renomada

Esquadrilha da Fumaça. Ele se tornou o primeiro marido de Helena e, durante sua curta vida,

permaneceu sempre um amigo próximo de Tom.

Aos quatorze anos, Tom teve apendicite aguda. Ele foi internado no Hospital Arnaldo de

Moares, em Copacabana. Sua condição era fatal.




 


Os antibióticos ainda não estavam facilmente disponíveis. Ajudando Nilza e Celso,

Paulo ficou com Tom durante quatro dias e quatro noites. Paulo não saiu do hospital

até que Tom estivesse livre do dreno e do risco de infecção. Aquelas horas de

medo da morte e do ambiente hospitalar seriam para sempre materializadas na

cicatriz oblíqua, fina e persistente que nunca desaparecia do abdômen de Tom.

Em 1940, Nilza inaugurou o Colégio Brasileiro de Almeida, nome com o qual

homenageou seu falecido pai. A nova escola ficava ao lado de sua casa. Ela

também construiu um segundo andar em cima da garagem de sua casa, alugou

um piano e colocou-o ali, para que um pianista produzisse música para os alunos

que faziam educação física num pátio abaixo. A escola começou oferecendo uma

educação infantil que seguia abordagens modernas baseadas no lema de Celso

Frota Pessoa: “A escola deve estar disponível para todas as crianças, 24 horas por



dia”.

Um bom exemplo da forma como essa filosofia desempenhou um papel veio

anos depois, quando um pai desesperado pediu a Nilza que aceitasse o filho na

escola. Arruaceiro, o menino já havia sido expulso de diversas escolas. Nilza

aceitou o desafio. Ela convidou o menino para uma entrevista. Ele então disse a

ela que tudo o que importava era geografia. “Então, tudo bem. Você estudará

apenas geografia, mas terá que aprender muito.” Algum tempo depois, aquele

aluno percebeu que precisava da matemática para fazer as escalas de seus mapas.

Foi assim que ele próprio desenvolveu interesse pelo assunto. Mais tarde, esse

estudante tornou-se um economista de sucesso.

Quando adolescente, Tom sentiu-se terrivelmente envergonhado por sua casa também ser uma escola.

Porém, foi naquele cômodo acima da garagem que ele se aproximou do piano. Ele

chegava da praia e, vestindo maiô, se dirigia até aquela sala para tocar o

instrumento. Seus dedos buscavam combinações de notas e harmonias. Ele ficou

lá por várias horas seguidas. Quando não estava brincando, aquele lugar ficava

muito quieto, e ele costumava se deitar no chão frio e esquecer o resto do mundo

lá fora.

Apesar de todo o seu fascínio pela música e de todas as horas que passava

debruçado sobre o piano, Tom ainda não estava convencido do seu futuro. Ele

dizia à mãe que tocar piano era para ele uma distração, como empinar uma pipa.

Ele não sabia, então, que seu passatempo musical se tornaria uma forma de

adoração.




 


Antonio Carlos Jobim teve, de fato, uma infância privilegiada. Podia contar com a biblioteca do avô ali mesmo, ao alcance das suas mãos. Além disso, havia muita música para ouvir: o violão clássico de João Lyra Madeira e as populares cordas de Marcello Brasileiro de Almeida, que

tocava seus instrumentos de ouvido.

(Marcello, aliás, já havia se casado com Maria Lydia Lima e Silva, colega de trabalho de sua irmã Yolanda.)

Houve noites maravilhosas, então. Muitas vezes Yolanda e Nilza cantavam e eram muito

talentosas nisso. Cantaram os padrões de samba e choro de Pixinguinha, Bororó, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Lupiscínio Rodrigues, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Ataulfo Alves. Aos

sábados, a festa continuava.

O vovô lia em voz alta romances de Monteiro Lobato para os netos. Também leu poetas

parnasianos e românticos, como Olavo Bilac, Castro Alves, Gonçalves Dias, Vicente de Carvalho,

Raimundo Corrêa, Guilherme de Almeida e Guerra Junqueira.




Nilza servia licor de chocolate e biscoitos de farinha de mandioca.

A rua simplesmente dormia.

No verão, Celso chegava do trabalho mais cedo do que de costume. A família inteira ia à praia com seu cachorro, Toy. O sol mergulhou lentamente naquele mar de safiras. O pôr do sol tendia a pintar a água rosa enquanto a cor do céu ficava carmesim. Todos pegaram tatuís (minúsculos caranguejos) escavadores enquanto enfiavam os dedos nos pequenos buracos criados pela

espuma da costa arenosa antes que a água voltasse ao mar. A família continuou nadando até

escurecer e a primeira estrela aparecer. Quando a noite caiu completamente e todas as lâmpadas da cidade foram acesas no ar enevoado, eles voltaram para casa.

Os pés descalços caminhavam pelo asfalto morno. Passaram pela igreja e atravessaram a Praça

da Paz. A última rua os levou a um enorme aglomerado de árvores oiti amarelas e verdes .

A empregada negra e pesada cozinhava os tatuís com arroz. A família comeu aquela refeição deliciosa, que também lhes presenteou com ocasionais grãos de areia que caíam de suas roupas.

O rádio em cima da geladeira tocava Glenn Miller.

Nas noites muito quentes, Tom e Helena deitavam-se no chão da varanda, espiando a corrida

eletrizante de lagartos no teto. Mudos e imóveis, os jovens notaram como, num instante, os

insetos agarraram pequenas mariposas e hipnotizaram insetos com a boca. Olhando para as

barrigas transparentes dos lagartos, irmão e

 




a irmã descobriu as sombras da presa que as criaturas tinham acabado de devorar. Eles riram

de tudo. Eles deram nomes próprios aos insetos e outras criaturas, inventando semelhanças e

associando-os a pessoas reais que conheciam: Zulmira, a mosca; Osório, o sapo; Pânfila, a

borboleta; Aristides, o bode; e Narcisa, a garça. Os lagartos eram Kita, Lita e Zita.

Eles trocaram segredos em um jogo de Verdade ou Desafio: “Você

acha que ela é bonita? Você a beijou?

E haveria um sorriso malicioso na escuridão da varanda. "E você-

com aquele pirralho?”

De costas, foram tocados pelos frios ladrilhos de cerâmica vermelha do chão da varanda.

Duas redes penduradas nas paredes. Enquanto o portão permanecia firme perto da cerca viva

da figueira, a lua se movia rapidamente acima de uma nuvem solitária, e então chegou a hora da chamada da mamãe: “É hora de dormir”.

Quando Tom e Helena voltaram para dentro, eles se beijaram e desejaram boa noite ao

vovô. Apesar de agnóstico, Azor dava-lhes a sua bênção: “Que Deus os ressuscite pelo bem”.

Quando voltava dos passeios pelos sebos ou das aulas, dizia solenemente na soleira da

porta de entrada da casa: “Que Deus esteja nesta casa”.

E o resto da família respondia em coro, brincando: “E, o Diabo, na casa do padre!”

Os meninos e meninas que moravam na mesma rua costumavam se reunir sob os postes

de iluminação na calçada. Da luz amarela surgiram cupins alados em um grande jorro. Dentro

de casa, Nilza colocava um banquinho na mesa da cozinha, logo abaixo da luminária da sala.

Em cima do brilho refletido ela colocou um balde de zinco cheio de água. Os cupins viram a luz refletida na água e caíram nela, onde se afogaram. Ela explicou que fez isso para que os

cupins não roíssem todos os móveis da casa quando perdessem as asas.

Tom e Helen costumavam sentar-se lado a lado à mesa da sala para estudar.

Às vezes guardava escondido debaixo da camisa um livro de poesia infantil de Olavo Bilac. Ele então leu em voz alta: “Preto de olhos brilhantes / Bom, leal e brincalhão / Ele era a alegria da casa / Aquele Plutão corajoso…” Este poema contava a história muito triste de um menino e

seu cachorro. No final, o menino morreu e o cachorro, dias depois, foi encontrado morto em

cima do túmulo do menino. Helena correu em volta da mesa




 


cobrindo os ouvidos com as mãos e gritando. Tom corria atrás dela, com o livro aberto, lendo cada vez mais alto para ela. A mãe aparecia, irritante. As crianças então voltaram aos estudos.

Sentado na areia fria, Tom ouvia atentamente as histórias contadas por Isaías, um velho

pescador que sempre aparecia naquela parte da praia não muito longe da casa do adolescente:

“As ondas do mar vêm e vão. Existem conchas com interior de cor rosa profundo. Outros são

tão abertos que parecem borboletas. Certas correntes de água fria chegam às nossas praias no

verão. Existem espécies de peixes que voam. Outros são cegos e vivem nas profundezas

escuras do oceano. Há ventos que sopram da terra. Outros fazem isso do mar. Existem grandes

baleias. Uma delas levou Jonas na barriga. Tem gente que diz ter visto de perto sereias de

cabelos verdes.”

Perto do final da orla, a mata se aproximou bastante da água junto ao Morro Dois Irmãos e

ao Encosto da Gávea. E Tom pôde ver à sua frente, apesar do crepúsculo da hora, as ilhas




onde os biguás faziam ninhos.

Eles voariam em direção a sua casa em formas geométricas perfeitas quando a noite caísse.

Aquele pescador também falou sobre o homem que vivia no horizonte, na última ilha que

conseguiam contemplar. Ele comentou sobre sua solidão e a importância de seu trabalho:

acender o farol – duas vezes as lâmpadas brancas, depois uma vez a vermelha; as lâmpadas

brancas duas vezes, depois a vermelha uma vez; sem parar... para manter os barcos longe dos

penhascos.

De repente, os postes de iluminação que margeavam a praia de Ipanema foram acesos.

Tom sentiu-se enfeitiçado pelo mar e alarmado pela escuridão à sua frente, além da única linha de luzes ao longo da costa. Ele então correu para casa. Angustiada, Nilza esperou por ele no portão.

Em 1942, quando Tom tinha quinze anos, o Brasil entrou na guerra contra as potências do Eixo.

À noite, haveria exercícios de blackout. Nilza colocou pedaços de pano preto nas janelas.

Quando as sirenes soaram, todas as luzes da casa e da rua foram apagadas.

Tom correu em direção à área sob a árvore de chamas vermelhas. Ele ficou ali, inocente,

pensando no que estava acontecendo no mundo. Ele não entendia a guerra. Ele ficou chocado

quando apedrejaram a casa de dois de seus vizinhos, os pequenos alemães Babete e Beatriz.

Eles eram como ele. Eles voaram ao longo do mesmo

 




calçadas em patins e bicicletas. Eles pertenciam ao clube local. Dançavam nas festas, que

ofereciam sanduíches de presunto e suco de laranja. Então, o que foi tudo isso? A guerra

estava, então, nos nervos de todos - era o que causava os gritos que todos na rua podiam

ouvir à noite. Veio da casa verde, onde uma mãe muito nervosa discutia com os filhos. A

guerra também foi o que fez uma mulher estranha, da casa cercada por um muro muito

alto, jogar água nas crianças porque não suportava suas brincadeiras barulhentas. Como

forma de vingança, as crianças adquiriram o hábito de apertar a campainha e fugir.

Em muitos outros aspectos, a cidade parecia continuar alheia à guerra. O alegre afiador

de facas itinerante continuou cantando “Cidade maravilhosa”.

O vendedor de frutas ia de porta em porta pesando cachos de uvas nos pratos da sua

balança antiquada. Zé Meladeiro, por sua vez, foi apregoando suas mercadorias em voz

cantante: “Doces de caramelo, balas de coco e quebradiços de amendoim, todos os tipos

de guloseimas brancas e pretas...”

Tom, porém, teve ataques de ansiedade. No rádio ele ouviu notícias sobre navios

brasileiros afundados e muitas pessoas mortas. Ele começou a comer demais e engordou.

Às vezes ele comia tanto que era difícil sair da mesa. Resolveu ir regularmente à casa de

Sinhozinho. Era um boxeador famoso que morava ali perto, na esquina da Sadock de Sá.

Tom decidiu trabalhar lá para ficar mais musculoso. Ele fez levantamento de peso. Ele

ficou muito orgulhoso quando conseguiu levantar 198 libras. Mais tarde ele começou a

lutar boxe, mas desistiu. Ele não foi agressivo o suficiente. Optou então pela arte marcial

afro-brasileira, a capoeira.

À tarde, um realejo passava rotineiramente pelo bairro, tocando músicas tradicionais.

Ele também carregava um periquito verde que escolhia cartas da sorte para ele ler para

seus clientes: “Você viverá muito até os noventa e três anos e ganhará na loteria com o

bilhete número 5.840”. À noite, quando a escuridão envolvia a casa, misteriosos bilhetes

de loteria de animais apareciam presos em postes de luz próximos. Eram bilhetes cujos

números, segundo um peculiar sistema lotérico brasileiro, os definiam como Cobras,




Aranhas ou Cavaleiros Alados... Quem poderia ter feito isso? Foi o altamente imaginativo

Tom, o Cavaleiro Alado. Havia um forte elemento de asa nele: seu signo do zodíaco era

Aquário, para começar. Além disso, ele adorava pássaros e também pipas que podiam

voar muito alto e desaparecer no céu. Havia também a conexão de Tom com o vento no

topo das altas montanhas e o vento nas mãos, enquanto ele manejava suas pipas—

 


esses foram os berços de sua música.

Em dias nublados, ele subia no telhado da casa. Sob uma pequena marquise, ele fixou

furtivamente os olhos nas copas das árvores que cresciam na rua. Naquele esconderijo ele

mergulhou em seus pensamentos mais secretos. No seu semblante sério estava o enigma; aos

seus olhos, dúvidas de uma pessoa cujos pensamentos vagavam livremente. Podia-se ver,

porém, como ele ainda era bastante inexperiente em um mundo cheio de surpresas.

Quando chovia forte, sua mãe permitia que ele tomasse banho ao ar livre, em movimento.



Seus pés descalços escorregavam na calçada molhada e escorregadia. Numa dessas ocasiões,

ele correu tão rápido que escorregou e cortou o queixo. O remédio com iodo queimou sua pele e sua mãe bufou diligentemente.

Quando Tom percebia que a água do mar entrava em Lagoa pelo canal do Jardim de Alá e que

tainhas e robalos botavam ovos, ele ia até lá ver. As redes circulares dos pescadores voaram, como nuvens rápidas, ou véus repentinos.

Uma boa multidão se reunia e parecia que uma festa estava acontecendo.

Em uma praia deserta de Ipanema, areia fina e ultrabranca rangia sob os pés de Tom. Na

beira daquela faixa de areia, ao mesmo tempo longa e escaldante, cerejeiras do Suriname,

matagais de flores roxas e espinhos de bardana esfaqueavam seus dedos dos pés. Na água

transparente verde e azul ao lado, cardumes de minúsculos peixes nadavam rapidamente por

entre suas pernas. Tom escalou as ondas, radiante e livre de qualquer dor. Ele caminhou por

aquelas areias em direção ao Arpoador, subiu pelas pedras e, lá de cima, mergulhou nas ondas.

Ele então viu sombras ocasionais de tubarões.

Ele acordava um pouco antes do amanhecer para chegar ao Posto Salva-vidas Seis, na praia

de Copacabana, para presenciar o movimento das redes, quando peixes prateados saltavam

para cima e para baixo. O cheiro pantanoso do mar inflou seu peito e deixou um sabor salgado em sua boca. Enquanto isso, espuma branca rolava de um lado para o outro naquele mar

encantado de safiras.

Algo parecia errado naquele cenário, no entanto. Tom não gostou dos enormes canhões

fixados em velhos trilhos de trem na calçada. Eles quebraram a harmonia da paisagem com

suas grandes bocas de aço preto apontando agressivamente para o mar. “Eles desonram a

praia”, reclamou em casa. Teve longas conversas com o avô sobre o que considerava

inexplicável: homens sempre lutando contra homens em guerras constantes. O avô tentou

esclarecer o neto com argumentos nos quais ele próprio não acreditava muito.




 


Estréia

NILZA PERCEBEU QUE SEU FILHO precisava de um instrutor de piano. Hans-Joachim

Koellreutter era um alemão que fugiu do seu país durante a guerra. Da Europa trouxe para

o Brasil a novidade musical da atonalidade. Foi com Koellreutter que Tom começou a

estudar piano com perseverança, passando longas horas nas teclas de marfim, praticando

escalas e aprendendo a ler partituras. Ele estudou os clássicos.

Ele queria ser solista. Às vezes, ele trabalhava dez horas seguidas com aquela tenacidade

que permaneceria como o tom constante de seu temperamento. Ele abordou, com

coragem, uma profissão mágica, mas bastante desafiadora. Com Debussy, Chopin, Bach,

Ravel, Stravinsky, Rachmaninoff e Villa-Lobos em mente, ele se retirou para recantos

musicais isolados que construiu para si mesmo e que mais tarde chamaria de “os cubos

das trevas”.



Foi à sua segunda professora de piano, Lúcia Branco, que Tom revelou a sua

preocupação com a extensão limitada das mãos. “Dedões presos”, explicou ele à família.

Ele ficou obcecado com isso. Lúcia Branco questionou-se: “Porque queres ser solista?

Pelas músicas que você já me mostrou, acredito que seu talento seja para a composição.

Você pode ser um compositor magnífico se quiser.” Ela também comentou sobre o toque

suave que ele possuía – seu touché.

Tom não acreditou muito no que seu mentor havia dito. Continuou estudando,

determinado a ser recitalista. Passou ao estudo da harmonia com o professor Paulo Silva,

um negro que sempre se arrumava e parecia nunca dar folga à gravata vermelha. Tom

admirava esse estudioso de música clássica, embora não gostasse das regras rígidas que

Silva lhe impunha. Durante seus anos de desenvolvimento, Tom também teve outros

mentores: Tomás Terán, Léo Peracchi e Alceu Bocchino.

Enquanto ouvia rádio, Tom procurava os títulos de músicas populares que ouvia tantas

vezes durante a infância. Não era muito comum as rádios brasileiras dedicarem sua

programação ao que era considerado uma música brasileira agradável na época. Estilos

estrangeiros como guarânias, rumbas e boleros melodramáticos foram as escolhas

veiculadas no rádio. Dos artistas nacionais, tudo o que queriam era música carnavalesca.

Uma enorme quantidade de cultura norte-americana invadiu o país naqueles anos –

literatura, revistas e cinema, principalmente. Tom gostava de assistir filmes produzidos

nos EUA. Ao voltar para casa cantava para amigos e familiares o




 


músicas da trilha sonora que ele acabara de ouvir. Também surgiram ondas exuberantes

de consumismo, como celebridades fumando cigarros luxuosamente em comerciais

charmosos e automóveis enormes e confortáveis. Da mesma forma, a música norte-

americana conquistou as rádios sul-americanas, consagrando a magia do foxtrot, do jazz

e do blues. Os ritmos quentes, a espiritualidade e a liberdade de improvisação dos artistas

afro-americanos deixaram sua marca em toda uma geração de brasileiros. Compositores

notáveis, como Glenn Miller, Cole Porter e George Gershwin, alcançaram fama notável lá.

As orquestras foram inspiradas a trabalhar em arranjos harmônicos com perfeição. O

álbum Chet Baker Sings, por sua vez, exerceu profunda influência sobre Tom e todos os demais artistas da bossa nova, até mesmo em seus estilos vocais.

Muitos anos depois, ficou evidente que foi Antonio Carlos Jobim quem se tornou uma

fonte de influência no jazz. A bossa nova, movimento ao qual pertencia, invadiu a América




do Norte e conquistou o mundo inteiro.

Às vezes Tom tocava violão enquanto ele e seu amigo Kabinha iam pescar. Tom também

aprendeu a tocar gaita. Ele tocava qualquer um desses instrumentos na Praça General

Osório com amigos. Entre esses amigos estava seu futuro parceiro de composição Newton

Mendonça. Muitas vezes Tom brincava em casa, acompanhando os tios Marcello e João.

Mas ele estava com medo. Dizia-se que “seguir a carreira musical fazia com que alguém

passasse fome e morresse na sarjeta”.

Na Praça General Osório ele se reunia com Eutichio Soledad (vulgo

Tico), um velho amigo dele. Ele era instrutor de educação física e caçador experiente.

Duas irmãs de Tico eram musicistas: uma tocava piano, a outra tocava violoncelo. Vários

anos depois, Tom gravaria com eles. Nas águas límpidas do Arpoador, então muito

povoado de peixes, Tico capturava tubarões e raias com arpão. Ele era um contador de

histórias e as pessoas o chamavam de “o mestre do absurdo”. Seu humor era surrealista.

Ele dizia, do nada: “Tinha um homenzinho com um casaco curtíssimo e sapatos da mesma

cor”. Ou apontou para um local próximo, mas obviamente fora do seu corpo, e reclamou:

“Está doendo lá desde ontem”. E Tom inventou sua própria história sobre a safra de milho

que ele cultivava no asfalto e como esse milho amadureceu muito bem. Tom acrescentaria

que quando chovia ousava lançar a rede para o maior roedor do mundo, a capivara, como

se fosse um peixe nas águas




 


em torno do perigoso ponto do litoral carioca conhecido como Espeto do Leblon.

Os dois rapazes olhavam para as meninas que passavam na calçada do outro lado da rua,

em frente ao Cine Ipanema. Ali acontecia o famoso “footing” do bairro: machos passeando em

uma direção e fêmeas em outra. Com Tico, Tom aprendeu a tocar o canto dos pássaros que

cantava para a perdiz conhecida como tinamou. O próprio Tom construiu esses cantos de

pássaros e trouxe os melhores para a praça. Ele foi brincar e ensinar outros a usar esses

instrumentos de caçador. Foi uma cena incomum. Tom e Tico passavam horas e horas

cantando na praça. Transeuntes intrigados pararam para observá-los. Tom era o perfeccionista

e Tico Soledad, seu parceiro exigente. O tinamou de Ipanema…até os policiais já conheciam

os dois jovens que estavam ali há horas. Os oficiais também sabiam que ambos os indivíduos

eram considerados loucos gentis.

À noite, o adolescente Tom orgulhava-se de poder entrar no salão de sinuca da Rua Teixeira



de Mello, próximo à Praça General Osório. Ele começou a desvendar os mistérios da vida

noturna e a fazer parte dela. Ele jogou sinuca até bem tarde da noite.

Certa vez, durante suas aventuras noturnas, ele conheceu uma mulher negra bonita que

logo começaria a convidá-lo regularmente para ir à casa dela. Ela era uma pessoa humilde e

carinhosa, uma senhora madura e experiente. Tom subiu a favela da Catacumba (que ele já

conhecia bem) para chegar até a casa dela. Muitas pessoas locais se acostumaram a vê-lo por

perto. Foi um relacionamento discreto, mas que teve efeitos duradouros, pois o ensinou a

enfrentar o sexo sem medo ou preconceito.

Sua segunda experiência sexual foi catastrófica, entretanto. Uma linda mulher loira, apenas

alguns anos mais velha que ele, chamou-o para conversar com ela na praia. Ele percebeu que

de perto ela era ainda mais deslumbrante, com enormes olhos verdes e um corpo esculpido.

Eles concordaram em se encontrar mais tarde naquela noite na casa dela, do outro lado da

lagoa. Ele escolheu suas melhores roupas e saiu correndo, um pouco nervoso com a aventura.

Dias depois foi obrigado a procurar o médico, que diagnosticou um caso de sífilis. O padrasto Celso cuidou da doença de Tom aplicando-lhe injeções de bismuto.

Também foi o papel difícil (se não quase impossível) de Celso tirar Tom da cama de manhã

cedo, após uma de suas noites sem dormir. Certa vez, Celso não pôde fazer nada além de

levantar Tom à força. Depois de ajudá-lo a se levantar, ele o soltou e Tom acabou caindo no chão. Nilza ficou brava com Celso. Fora




 


apesar de tudo, ela fez Tom usar um terno nada atraente, todo branco, para ir a uma festa, o mesmo terno que Celso iria usar no dia seguinte.

Amigos, romances inócuos e trabalhos escolares preenchiam os dias de Tom, mas

todos os dias e todas as noites tinha que haver tempo para o piano. Já seria bastante

desafiador para um pai normal ajudar seu filho a equilibrar essas atividades, mas era muito

pior para um padrasto. E Tom passou pelas andanças tipicamente dolorosas de estudantes

que não sabem ao certo o que querem ser na vida. Assim, frequentou e abandonou

diversas escolas de ensino fundamental e médio: Mallet Soares, Mello e Souza, Paula

Freitas, Rio de Janeiro, Jurema e Andrews.

Quando cursava o ensino médio em Jurema, Tom presenciou um acidente de avião.

Com uma explosão tremenda, dois aviões colidiram em pleno ar praticamente acima




daquela escola. Era hora do recreio e o corpo de um dos pilotos (o que pilotava a aeronave menor) caiu no meio do pátio da escola.

Daquele vasto conjunto de escolas, Tom guardou lembranças especiais e falou com

carinho sobre alguns de seus professores. Eram Malba Tahan, pseudônimo do professor

de matemática Júlio César de Melo e Souza; seu irmão João Batista, que lecionava

geografia e história; Carlos Flexa Ribeiro, que admirava os mapas geográficos que Tom

desenhava para sua aula; e Crespo, seu professor particular.

Para Tom, dona Estefânia, que dirigiu Mallet Soares, era uma figura extravagante e

intimidadora. Seus alunos faltavam às aulas para ir ao cinema no Roxi, um local próximo.

Ao saber disso, foi ao cinema e obrigou o técnico a interromper a projeção do filme em

andamento e acender as luzes.

Com um pequeno sino ela ordenou que todos os alunos formassem uma fila e os levou

para a escola imediatamente. Entre eles estava o agitado e brincalhão Antonio Carlos Jobim.

Aos dezesseis anos, Tom já havia saído com Thereza, que se tornaria sua primeira

esposa. Morena deslumbrante, ela tinha olhos verdes, como a cor do mar. Seu pai era

alemão e sua mãe descendia de espanhóis. Ele a conheceu na praia de Ipanema, na rua

Montenegro (hoje Vinicius de Maraes). Soube que ela morava perto dele, no Barão da

Torre. Essa história de amor começou com Tom mexendo com ela. Com apenas doze

anos, ela era amiga de escola de Helena, e Tom a tratava da mesma forma que tratava a

irmã – para ele, apenas “uma pirralha”.

Seu interesse por ela se aprofundou gradualmente. Quando a única coisa que acontecia

entre eles era a excitação da conversa, o pai alemão dela, Arthur Hermanny, esbarrou com

eles uma vez na casa dele. Ele imediatamente percebeu que ela havia se apaixonado

perdidamente por aquele jovem. Sem uma palavra sobre




 


por que ele estava fazendo isso, o pai dela agarrou seu braço e a levou para dentro de

casa. Foi uma cena bastante assustadora para Tom. Suas reuniões continuaram, no

entanto. Ele já conhecia muitos poetas, mas ela não. Então começou a ler poesia para ela

num banco de parque: Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Alceu Wamosi

e Raul de Leoni. Ele até traduzia TS Eliot e Rimbaud. Quem seria capaz de resistir a isso?

Nos bailes ela era sua única parceira – seus corpos se tocavam suavemente. Ele

cantava junto, no ouvido dela, enquanto dançavam. A voz dele lembrou-lhe a de Frank

Sinatra. A paixão entre eles logo se tornou inevitável.

Tom e Thereza eram muito jovens e tinham todos os conflitos comuns que os adolescentes

enfrentam. Quando completou dezoito anos, Tom sentiu desespero. Ele e Thereza haviam

terminado o romance e ela agora estava namorando outra pessoa.

Preocupada com ele, Nilza teve longas conversas com o filho. Ela o convenceu a consultar



o psiquiatra mais famoso da cidade naquela época. Três vezes por semana ia ao

consultório da Dra. Myra y Lopes, onde desabafava seus problemas. Tom interrompeu o

tratamento e optou por buscar a cura sozinho. Só muito mais tarde na vida é que ele teve

plena consciência da necessidade de fazer psicoterapia.

Na tentativa de fugir das dificuldades emocionais, aumentou sua ligação com a natureza.

Só assim ele se acalmava naquela época: pescando, ou simplesmente contemplando o

próprio mar; e caçar, ou simplesmente caminhar na floresta. Na floresta ele cantava de

prazer ao ver o tinamou se aproximando dele. Ele tinha os padrões de chilrear perfeitos

para o homem ou para a mulher.

Ao ouvir os sons das folhas sendo amassadas pelos pés leves do pássaro, seu coração

disparou.

Com o objetivo de ajudá-lo a esquecer Thereza, os primos de Celso convidaram Tom

para passar as férias na fazenda deles em Leopoldina, Minas Gerais. Eles o avisaram que

ele deveria estar preparado porque eles iriam penetrar em florestas densas e ele deveria

estar armado. Emprestaram-lhe uma espingarda para caçar pássaros, uma espingarda

espanhola com cabo maravilhosamente acabado em madrepérola. Tom ficou fascinado

com isso, mas o que ele realmente desejava era entrar na densa floresta em direção às

gigantescas catedrais verdes formadas por árvores centenárias. Aquelas árvores

proporcionavam múltiplos degraus para grandes símios, e sob suas sombras coexistia

uma grande variedade de animais: tamanduás colossais, veados, pacas, preguiças, antas,

capivaras, tatus-poyou e lagartos-teju. Uma vez dentro da selva, Tom procurou, acima de tudo, o silêncio úmido




 


e penumbra que proporcionava relíquias ocasionais de luz, como aquelas que iluminavam um lagarto petrificado.

Certa manhã, Tom acordou muito cedo, quando ainda estava bastante escuro. Ele espiou pela

fresta da janela. Uma última estrela brilhou no céu roxo. O ar frio o acordou completamente agora.

Ele se vestiu rapidamente e jogou os cantos dos pássaros na bolsa. Depois esquentou um café, com o qual logo encheu uma garrafa de vidro tampada com um pedaço de sabugo de milho. A casa ainda dormia. Sem fazer barulho, atravessou o amplo quintal e o curral até chegar a uma estrada de terra vermelha.

Ele caminhou um quilômetro e meio, observando o sol nascer lentamente. Ele sabia que dentro

da mata ouviria temas musicais completos. Ele sabia que os sons o procuravam e naquele momento acreditava ter nascido e sido criado para isso: tornar-se vulnerável no corpo e no espírito, tornando todo o seu ser simplesmente sensível, sem medo de uma entrega fatal. Era o seu destino. Foi o seu veredicto.

Ele não podia mais fugir. Ele chegou ao portão invisível da floresta. Antes de dar o primeiro passo naquele reino natural, porém, Tom experimentou novamente um “medo corajoso” ao qual mais tarde se referiria na letra de uma música chamada “Matita Perê”.




Com os sentidos prontos para agir a qualquer momento, ele caminhou até chegar a um local onde seus poderes pareciam ganhar vida. Ele descansou sua bolsa com os cantos dos pássaros no chão suavizados por camadas de folhas. Ele então se acomodou até certo ponto em um esconderijo,

contra um pequeno forcado de três pontas feito de um galho quebrado. Por um longo tempo ele gorjeou, mas não houve resposta. Intrigado, ele se virou para pegar a garrafa de café da sacola e naquela direção viu o rosto feio de uma onça. Ela chegou perto enquanto hipnotizada pelo canto dos pássaros. Ela se moveu na direção de Tom com os passos tipicamente suaves de um gato.

Rapidamente, ele apontou o cano da arma para o felino que se aproximava. Ela se assustou e fugiu.

Ele esperou, imóvel e assustado também, por algum tempo.

Horas depois, deitado na cama, ele escreveu sobre aquele incidente à luz de uma pequena

lamparina a óleo.

O ritmo de vida doméstica de Tom ficou paralisado quando ele caiu dos ombros de um amigo

enquanto fazia exercícios físicos na praia. Seus companheiros o levaram para casa todo arenoso e lívido. Ele havia fraturado a apófase de uma vértebra. A cura demorou muito. Deitado de bruços na grande cama dos pais, ele teve que tomar diversas injeções dolorosas. Muito mais tarde, Nilza confessou que a única maneira de ela mesma suportar a dor do filho era se ocupando com os

trabalhos escolares. Escola de Nilza, Faculdade

 




Brasileiro de Almeida, havia crescido e esperava-se que continuasse sua expansão.

A família agora morava na Rua Redentor, 307, em Ipanema. O piano de Tom foi

transferido da garagem para a sala. Seu som permaneceu um elemento constante

na casa. Com a ferramenta que comprou aos quatorze anos, Tom se divertiu

afinando aquele instrumento e desafinando-o novamente. Ele procurou aperfeiçoar

sua afinação.

Ao longo de sua vida, Tom discutiu essas questões com seu afinador de piano

pessoal, Gutemberg Padilha, e com seu amigo íntimo, o maestro Radamés Gnatalli.

Quando já era maestro, disse ao jornalista e escritor João Máximo, da Rádio

Cultura:

Certa vez, encontrei Koellreuter, que foi meu primeiro mentor, e conversamos por muito tempo. Eu disse a ele que não estava mais trabalhando com doze sons. Estou trabalhando com trinta e cinco, que são os tons da música ocidental, ou seja, sete brancos, sete naturais, sete bemol, sete sustenidos e sete sustenidos duplos. Estas são responsáveis pelas trinta e cinco notas que o ouvido ocidental pode discernir.…

Koellreuter olhou para mim um tanto incrédulo, porque eles, os atonalistas, reduziram tudo para doze, o que também foi uma atitude arbitrária. Eles cortaram na quinta e o piano ficou todo desafinado.

Os quartos estavam desafinados para cima. O quinto estava desafinado para baixo. Os terceiros foram esticados. Você poderia tocar um Dó no cravo e, quando tocava uma música em Ré, os intervalos eram diferentes. Não houve consistência. Então pegaram os oitavos e os dividiram em doze partes iguais. E o que sobrou foi essa música que conhecemos – essa música desafinada.

As únicas coisas justas no teclado são as colcheias. Eles são apertados e o resto das tonalidades você precisa afinar recorrendo às quintas. De lá vem o sol harmônico. E então, de do para sol, sol para re, re para la, mi para si, e daí para fa sustenido, para sol sustenido, para re sustenido, para la sustenido, para mi sustenido e para si sustenido. maneira, si afiado não é nada parecido com isso. Não fecha a escala harmônica. Vai sem limites. Você não pode produzir doze tons porque a escala continua mudando. Sai da espiral de tons, vai para o espaço sideral e não volta mais. Você nunca mais volta ao tom original, nunca mais.…

Então, eles desafinaram o piano. Bach, o responsável pelo “Cravo Bem Equilibrado”, foi quem

equilibrou tudo. Fiquei muito curioso sobre essas questões que não entendi muito bem. Eu tinha comprado um diapasão para meu piano. Eu era um menino, de apenas quatorze anos, e passava

grande parte do tempo afinando e desafinando meu instrumento. Mais tarde, li sobre como Debussy também fazia isso. Se você realmente fizer um bom trabalho na afinação, isso não corrigirá a escala.…




Hoje em dia converso com sintonizadores sobre isso. Eles afinam o centro do piano com a ajuda de uma máquina que recria sons com mais de quatrocentas vibrações. Eles têm vibrações suficientes para cada nota. Então, eles afinam o centro do piano. A parte mais alta, porém, eles desafinam para cima, e a parte mais baixa, para baixo – para você pensar que a coisa toda está afinada. Isso significa que há distorção nos tons mais baixos e nos tons mais altos.

É assim que os sons agudos ficam mais tensos do que deveriam.

 


Tom muitas vezes procurava a solidão. Ele caminhou descalço pela faixa de areia da praia que margeava a espuma. Ondas verdes vieram e partiram sem qualquer consideração de tempo ou

lugar. Ele sabia que eles obedeciam às marés, governados pela lua, pelas forças da natureza.

Aquelas ondas cobriram a areia à frente com seu barulho suave e rugido. Deixaram ali tudo o que o mar podia trazer para a costa, os aparentes passos do oceano. Seus pés levantavam

pedaços de madeira morta, ou flores amassadas, ou algas. Encontrou garrafas vazias, pontas de

velas ou um anel azul que pertencia a Iemanjá. O barulho do oceano de alguma forma aqueceu

a costa deserta. O vento deslizava sobre a areia, e em seus ouvidos ele captava esse vento.




Às vezes carregava dentro de si a palpitação das velas inchadas de um barco em alto mar.

Impressos na areia ele descobriu marcas de garras de gaivotas, rastros de pombas, pegadas de

pessoas e lembranças de infância. Ele se deitava e ficava quieto enquanto olhava para o céu.

Sua solidão se aprofundou ao ouvir o barulho distante de um avião prateado flutuando naquele

aquário azul lá em cima, mas não conseguia deixar de lado seu amor por Thereza.

Mais uma vez, familiares o convidaram para ir caçar, desta vez na fazenda dos tios do primo Paulo, no Leme, interior de São Paulo. Um mês depois, Tom voltou ao Rio. Ele havia decidido ter uma conversa definitiva com Thereza. Ele ligou e a convidou para sair. Nessa ocasião ele contou que havia conhecido um primo seu no Leme, alguém por quem estava se interessando. Ele queria saber se ainda existia alguma coisa entre eles. Thereza ficou abalada com aquela conversa. Ela foi até o homem com quem estava namorando e contou-lhe sobre aquele encontro com Tom. Ele

simplesmente respondeu: “Olha, se vocês dois querem saber se ainda resta algo entre vocês, é

porque algo existe”.

Ele então acrescentou: “Sinto pena de você”.

Tom e Thereza logo voltaram a ficar juntos. Eles ainda discutiam com bastante frequência,

mas o amor e os momentos de alegria ocorriam com mais frequência do que as brigas. Como

eram um casal bonito, as pessoas não podiam deixar de notá-los pela aparência.

Tom começou a frequentar os bares de Ipanema com bastante frequência. Eram o Zeppelin,

o Jangadeiro (na época chamado de Renânia) e o Lagoa (anteriormente conhecido como Berlim).

Certa noite, na Lagoa, um velho negro vendedor de rosas aproximou-se da mesa de Tom, onde

ele bebia cerveja com uma roda de amigos. Sem hesitar, o homem tirou uma rosa do balde e

ofereceu-a a Tom, que recusou educadamente. "Não posso. Não tenho dinheiro para comprar

rosas.




 


O mascate insistiu: “Mas isso é especial. Dê para sua namorada. Qual o nome dela?"

Tom sorriu. Curiosos a essa altura, seus amigos voltaram os olhos para o velho. Embora

a situação parecesse um pouco estranha, Tom respondeu: “Thereza. Quem é você?"

O vendedor de rosas tinha olhos antigos. Eram olhos azuis nebulosos que olhavam para

Tom com ternura. Seu cabelo encaracolado era grisalho, a pele do rosto sedosa e macia,

de um veludo escuro. O velho usava um smoking puído e uma gravata com pássaros

pintados de azul. Tom nunca se esqueceu dele - sua aparência única, olhos clarividentes e

as últimas palavras que pronunciou enquanto apontava para o copo de cerveja de Tom:

“Este não é o seu lugar. Sua vida está predestinada. Não se perca.”

Tom estava profundamente apaixonado por Thereza – ele queria se casar. Ele decidiu fazer

o vestibular para uma escola de engenharia. Nesse ínterim, sua mãe montou um escritório

na garagem para o avô de Tom. O abajur de pergaminho iluminava suavemente a sala.



Várias estantes com muitos livros cobriam as paredes. A mesa grande e escura tinha

fotografias de muitos entes queridos sob a tampa de vidro. O tinteiro, o mata-borrão em

forma de canoa e um pequeno crocodilo em bronze com uma mulher dourada nua dentro

de seu suporte ficaram ali. Um sofá, uma poltrona e uma cadeira de balanço estavam sobre

um tapete retangular estampado com pequenos pavões azuis. Os vizinhos acharam muito

estranho que o Chevrolet de Celso estivesse parado na rua enquanto sua garagem era um

cômodo abarrotado de livros.

Era naquela garagem onde Tom, depois da escola, estudava com amigos que também

faziam vestibular. Foram eles Eduardo Sued, que optou pela pintura e se tornou um artista

renomado; Marcos Konder Netto, que mais tarde atuaria como arquiteto, o primeiro entre

eles a alcançar destaque profissional; e Marcelo Behring, também arquiteto, que voltou para

Minas Gerais e Tom nunca mais ouviu falar dele.

Todos se dedicaram durante longas horas, noite após noite, com o professor Righetto.

Quando finalmente chegaram as datas dos exames, Tom estava exausto, mas foi aprovado

com a sexta melhor nota entre milhares de candidatos. Nas áreas de design de perspectiva

e matemática ele alcançou a pontuação mais alta possível. Como a maioria dos músicos,

ele achava muito fácil lidar com números.

Tom optou pela arquitetura, porém, após considerar uma carreira em engenharia, embora

a música já tivesse se tornado a maior vocação de sua vida. Ele




 


na verdade acabei conhecendo muitos arquitetos que mais tarde se tornariam músicos.

O pai de Thereza decidiu se mudar com a família para Petrópolis. Além de algumas razões

económicas, tinha preocupações especiais sobre a relação da filha com aquele jovem bonito mas

bastante estranho que passava muitas horas a tocar piano em vez de fazer algo mais “útil” para ganhar a vida. Todo fim de semana, porém, Tom subia a montanha até a cidade de Petrópolis para ver a namorada. Diversas vezes, Thereza foi pressionada pelo pai para encerrar o romance.

Somente o piano ajudou Tom a contornar aquela angústia infinita. Helena pensava que, se aquela mulher era o motivo de seu irmão sofrer tanto, ela, Thereza, estava fadada a ser a mulher da vida dele.

Tom e Celso combinaram de se encontrar no escritório do padrasto de Tom, no centro do Rio. Foi naquele fim de semana que Tom tomou uma decisão sobre sua vida. “Quero trabalhar e ganhar

algum dinheiro.”

“Você está estudando música e arquitetura. Para que você precisa trabalhar?

Tom respondeu: “Para ganhar dinheiro”.




Celso entendeu. O jovem queria se casar. “Se você quer se casar, então case; nós vamos ajudá-

lo. Vou ampliar a casa e construir um quarto para você e Thereza. Você deve continuar estudando e se preparando para o trabalho.

Se o que você quer é música, que seja música!”

Quando Tom abandonou a arquitetura, Arthur Hermanny ficou ainda mais preocupado.

Evidentemente, Tom não era o noivo que imaginara para a filha: um estudante de música apoiado pelo pai. Sem ressentimento, a família de Tom compreendeu as preocupações do Sr. Hermanny.

Mesmo assim, Celso combinou de conhecer Arthur e propôs o casamento dos filhos, que

morariam com a família de Celso por cinco anos, até que Tom se formasse. Ele, Celso, havia

adquirido um seguro que apontava Tom como seu beneficiário. A única exigência que ambos os

homens fizeram foi que o jovem casal não engravidasse durante esse período de cinco anos. Foi fácil prometer.…

Em sua casa, na Rua do Redentor, Celso e Nilza ampliaram o quarto antes reservado à

empregada, ampliando-o em um trecho da área da cozinha.

Esse novo cômodo passou a ser o quarto de Tom e Thereza. O amigo de Tom, Marcos Konder,

desenhou os móveis. As empregadas ocuparam o quarto acima da garagem.

 




Tom então assinou um contrato pré-nupcial. Renunciou a todos os seus direitos sobre os

bens pertencentes ao patriarca da família de Thereza, Sr. Otero Hermanny.

O casamento deles foi em 1949, na casa de uma das tias de Thereza. Tom tinha vinte e dois anos e Thereza dezenove. Muitas fotos foram tiradas e os noivos estavam animados. Foi uma

cerimônia simples, apenas um casamento civil, mas Thereza usou vestido de noiva. As famílias

estavam unidas e muitos amigos também. A quantidade de flores espalhadas pela casa falava

do clima alegre daquele momento.

A lua de mel foi em Petrópolis, a cidade das hortênsias, numa pousada situada na rua que

leva o nome do poeta Casimiro de Abreu.

A casa da Rua Redentor ficava lotada de amigos: Mário Saliva e sua esposa, Thereza Garcia,

Regis e Enir França, Carlos Madeira, Tico Soledad e Marcos Konder. Também aderiram muitos

artistas de vanguarda: Newton Mendonça, Evandro Rosa, o pintor Eduardo Sued e os poetas

Thiago de Melo e Moacyr Felix. Thiago de Melo e o colega poeta Geir Campos abriram uma

pequena editora chamada Hypocampo. Com recursos limitados, teve sede na casa de Tom,

onde publicou a primeira edição de um livro de Carlos Drummond de Andrade. Naquela época

de contracultura, os poemas individuais tinham de ser embrulhados e dobrados um por um para

serem enviados pelo correio. Uma noite, Thereza e Tom passaram longas horas até de manhã

ajudando pacientemente seus amigos a dobrar poemas individuais.

Às vezes Tom ia pescar à noite com o amigo Kabinha, só para relaxar. Ele subia nas pedras

do Arpoador e ficava ali, quieto, olhando o mar e a espuma explodindo ao seu redor. Certa

noite, Kabinha chegou um pouco mais tarde, quando Tom já havia desligado. Ele perguntou a

Tom: “Os peixes estão mordendo a isca?”

Tom respondeu: “Não sei”.

Normalmente era Kabinha quem trazia a isca, então ele achou estranho o Tom estar com a

linha na água. Ele fez novamente a mesma pergunta e Tom respondeu como antes.

“Mas você não está com a linha na água?”

Indiferentemente, Tom simplesmente respondeu: “Sim... isso é verdade. Mas não tenho

nenhuma isca.”



 


Três vezes por semana, a grande amiga de Tom, Sonia Herklotz, aparecia em casa.

Ela era alta, magra e robusta. Nascida em uma família inglesa, ela tinha pele brilhante

e olhos azuis. Estudou piano com Tomás Terán. Sonia lia muito bem música e

acompanhava Tom ao piano, tocando juntos a quatro mãos. Eles se divertiram tocando

e cantarolando Bach. Quando o entusiasmo aumentou muito, chamaram Evandro

Rosa, também pianista, que estudava com Lúcia Branco e morava perto. Era difícil

tocar o mesmo instrumento a seis mãos, mas eles tentaram enquanto liam as partituras

de um concerto para piano de Rachmaninoff.

O que Tom mais gostou foi assistir aos recitais no Teatro Municipal. Ele iria para lá

com a Sônia e a Thereza. Quando voltaram para casa, Sonia e Tom fizeram duetos

das peças que ouviram no teatro. Eles então conversavam sobre as características

dos diferentes pianos desta ou daquela marca. Eles concluíram que seus próprios



pianos eram feitos para iniciantes.

Celso resolveu surpreender Tom no aniversário dele. Ele estava satisfeito com o

progresso do filho. Então ele comprou um baby grand novinho em folha, um Pleyel, e

mandou entregá-lo na casa deles. Foi construído em madeira fina e de cor clara. O

som, porém, não era bom e Tom não sabia como conversar com o pai sobre aquele

assunto estranho. As mulheres da casa resolveram o problema. Thereza conversou

com Nilza, que depois conversou com Celso. Então, Celso disse ao Tom que poderia

trocar aquele piano por um que ele gostasse. Tom passou vários dias indo às lojas

com Abraão Medina – na época vendedor de pianos – até que avistaram um piano de

cauda médio, muito feio, que Tom apelidou de “Leopardo”. Mas tinha um som

maravilhoso. Celso teve que pagar a diferença de preço a crédito, pois o instrumento

feio custava muito mais que o instrumento bonito.

Em 4 de agosto de 1950 nasceu o primeiro bebê: Paulo Hermanny Jobim. Tom

ficou perturbado. Ele pensou na responsabilidade de criar aquela criança. Tico Soledad

foi visitá-lo. Conversaram muito e Tico ficou chocado com o estado geral de saúde de

Tom: ele tinha um problema de fígado e parecia bastante debilitado.

Os dois juntos passaram horas sozinhos na sala da casa de Tom até o cair da noite.

Tom estava muito quieto. Ele mal falou. Bebia várias xícaras de café com uma das

mãos e fumava alguns cigarros com a outra. Tico planejou uma caçada para setembro,

início da temporada. Ele pressionou Tom para acompanhá-lo. Thereza, de forma

altruísta, apoiou a ideia porque achou que seria benéfico para ele acampar na floresta

por alguns dias. Celso e Nilza também pensaram assim. Ambos estiveram sempre

presentes para ajudar em qualquer circunstância. Portanto, no início de setembro,

Tom e Tico partiram para o




 


Mata Mambucaba, nas proximidades do município litorâneo de Angra dos Reis.

A viagem foi uma aventura e tanto. Além de terem seus equipamentos de caça a bordo, eles

tiveram que lidar com a falta de conforto do velho ônibus em uma estrada extremamente

acidentada. Bem ao lado de Tom estava sentado um médico, amigo de Tico. Depois de perceber

que Tom era jovem, o médico decidiu dar-lhe um longo sermão sobre os perigos da caça: As

armas devem ser carregadas com o cano voltado para o chão. Um caçador poderia facilmente

se perder, e outro caçador, confundindo-o com caça, poderia atirar nele. Essas e outras dicas estavam fazendo Tom perder a paciência.

Após a viagem de ônibus, eles viajaram em uma traineira de pesca por algumas horas. O

barco balançou cruelmente em mar aberto. Todos agradeceram a Deus quando conseguiram

chegar à praia e, logo, ao sopé da serra de Mambucaba, onde os esperavam os companheiros

de Tico: três silvicultores e um preto velho, cozinheiro cuja especialidade eram animais selvagens.




Foram necessários dois dias para subir a montanha até encontrarem um local adequado para

o acampamento: era perto de uma pedra grande e plana, com uma cachoeira de águas cristalinas.

Os silvicultores foram à procura de galhos e palha firmes e finos para camuflar sua cabana.

Depois de pouco tempo, tudo estava arrumado e a cozinheira serviu café aos caçadores. Tico

pediu que todos esperassem até que ele demarcasse as diferentes áreas para cada caçador. Ele

então partiu para a floresta para cumprir essa missão.

Todos os outros estavam ocupados preparando seus equipamentos quando o médico se

sentou no topo da grande pedra com a arma no colo. Atrás da rocha ele notou uma sombra

escura em movimento que lembrava um guaxinim comendo caranguejo. O médico disparou

apressadamente. Ele acidentalmente atingiu a cabeça do velho cozinheiro com suas balas de

chumbo, normalmente usadas para pássaros. O caçador confundiu a cabeça do pobre homem com a do guaxinim.

Ofegante, Tico voltou ao acampamento para saber o ocorrido. Alguns caçadores levaram o velho

para dentro da tenda. Seu couro cabeludo foi aberto e penetrado por vários projéteis.

Enquanto era atendido pelo médico, o velho reclamou: “Doutor, como

você fez isso comigo?

A situação era crítica. Sem recursos, com as mãos trêmulas e suando profusamente, o médico

limpou o ferimento e extraiu cada uma das bolinhas de chumbo. Ele se ressentiu por não ter

trazido sua bolsa com antibióticos. Tom lembrou-se de que havia trazido uma enorme quantidade

de sulfa, que tomava diariamente para tratar sua pseudobrucelose. Ele ofereceu os comprimidos

de sulfa ao médico, que os triturou e transformou em pó para ajudar a desinfetar aquela ferida.

Os homens levaram três dias para descer a encosta da montanha com o homem ferido em uma




 


maca improvisada. Tom também ajudou e sabia que seu remédio havia salvado a vida do

velho cozinheiro.

Em paz, ele voltou para casa para se juntar à esposa e ao bebê de enormes olhos

azuis. Tom ficou intrigado ao perceber que a falta de remédios durante vários dias não lhe

causou nenhum problema. Pela primeira vez ele começou a se perguntar se a causa

principal do seu problema de saúde não seria um fator emocional.

Mais tarde na vida recordaria o diagnóstico do Dr. Deolindo Couto, segundo o qual todas

as suas desgraças eram “psíquicas”. Tom reavaliou seu tratamento, sentiu-se melhor em

geral e pensou mais seriamente em como lidar com suas emoções.

Nos anos seguintes, Tom continuou com o hábito de passear pelas matas próximas

com seus amigos caçadores Mário Saliva e Sérgio Vahia.

Visitariam a Rocinha carioca, a Maravilha de Poço Fundo, além dos arredores de Rio



Bonito e Macucos.

Um dia, em Poço Fundo, seu amigo Otto Reis e Silva, piloto de avião como seu primo

Paulo, viu Tom partir cedo para a mata com Narciso, um silvicultor. Eles conversaram,

mas Tom logo estava na trilha para a selva. Já estava escuro quando Tom voltou.

Percebendo que Tom não tinha nenhum jogo contra ele, Otto perguntou sobre isso. Um

caçador experiente e astuto, Tom respondeu: “Eu cantei pedindo o tinamou macho, mas a

fêmea veio. Eu cantei para a fêmea e o macho apareceu.

Então eu escapei. Eu os deixei namorando.

A casa do Redentor tinha dois andares, mas era pequena para a família. No térreo, tinha

uma sala de estar dupla, uma pequena varanda, uma sala de jantar, um banheiro, o quarto

de Tom e Thereza e a cozinha. No outro andar havia quatro quartos e um banheiro grande.

Ali moravam Nilza, Celso, Azor, Helena, seu marido Paulo, sua filha Sônia, Tom, Thereza

e seu filho, o bebê Paulo. Duas empregadas os ajudaram: Almerinda, que viveria com a

família durante toda a vida, e sua irmã Penha, com seu próprio filho de três anos, Luizinho.

Para cuidar de todos eles estava Ula, um Doberman. Um extra da casa era a gatinha

Zizinha, que sempre entrava na cerca viva da propriedade para tentar pegar pássaros.

Quase todas as manhãs recebiam a visita de dez minutos de Yolanda, irmã de Nilza,

que geralmente trazia consigo os filhos, Lúcia e Marcello. Nilza achou engraçado como

Yolanda era tão metódica. Nilza sabia, por exemplo, que todos os dias sua irmã saía para

trabalhar no Ministério da Fazenda às 10h45 em ponto.




 


Quase todo mundo na casa da Rua Redentor tinha agenda lotada em algum outro lugar.

Nilza frequentava diariamente sua escola, onde Helena dava aulas e Thereza trabalhava

como escriturária. Celso trabalhava na prefeitura. Paulo viajou para a Escola de

Especialistas da Aeronáutica, onde foi instrutor de voo. Azor ficava em casa jogando

paciência ou lendo. Tom tocou piano o dia todo. Almerinda cuidou das crianças. À noite,

amigos apareciam. A conversa continuava até altas horas da madrugada, com muita

cantoria e nenhuma bebida, exceto café.

Dias e noites se fundiam dessa forma, e o piano ficava mudo pela manhã.

Os vizinhos nunca reclamaram. Eles aprenderam a apreciar a música daquele jovem

educado e charmoso. Celso e Nilza, porém, sentiam que estavam ficando sem espaço

naquela casa; eles se cansaram da intensa atividade sob seu teto. Tom estudou muito,

mas continuou ansioso com sua situação de desemprego. Seus problemas digestivos



retornaram.

Então, Tom e Thereza decidiram se mudar para um apartamento no Bairro Peixoto, em

Copacabana, que Celso alugou para eles. Estava localizado no térreo de um prédio de

três andares. O tio Marcello e a tia Maria Lydia moravam no primeiro andar. Na pequena

sala de estar reservaram espaço para o piano de cauda médio manchado e um pequeno

sofá – nada mais. Um dos quartos foi transformado em sala de jantar.

Tom não tinha dinheiro suficiente para terminar de pintar o apartamento. Amigos

passaram por lá e, entre copos de cerveja, ajudaram-no a pintar uma das paredes. O

trabalho parecia interminável, e a cerveja também. Preocupado com sua saúde, Tom não

bebia.

A certa altura, amigos e familiares decidiram unir forças não só para finalizar a pintura,

mas também para fornecer móveis e eletrodomésticos. O sofá, duas poltronas e um

guarda-roupa vieram da casa dos pais de Thereza. Uma mesa com conjunto de cadeiras

foi doada por uma prima dela e assim o apartamento foi ficando cada vez mais habitável.

Nilza e Yolanda sentaram-se com um caderno “histórico” especialmente reservado para

as despesas domésticas de Tom e Thereza. Eles elaboraram uma lista completa dos itens

que ainda faltavam. Aquelas irmãs compraram tudo e mandaram entregar.

Thereza ficou atordoada. Tudo o que precisavam estava ali: dos talheres à cafeteira com

filtro de pano, do abridor de garrafas à escovinha de unhas. As mulheres eram detalhistas.

Eles não deixaram nada de fora.

Preocupado com as dificuldades do sobrinho, Marcello conseguiu para ele um emprego como pianista na




 


Rádio Club (dirigida pelo amigo de Marcello, Victor Costa), com a ajuda do maestro e diretor musical Alceu Bocchino, que mais tarde se tornou mentor de piano de Tom.

A Rádio Clube também foi dirigida pelo dramaturgo Dias Gomes. Foi o primeiro emprego de Tom.

Tom já estava interessado em fazer um acordo. Ele era um aprendiz natural e se esforçava

para aprender tudo ao seu redor. Ele não hesitava em perguntar e sempre encontrava pessoas

generosas que lhe ensinavam o que podiam fazer e o ajudavam a tirar suas dúvidas. Ele nunca teve paciência suficiente para frequentar cursos formais de música, embora todos recomendassem

que ele os fizesse. Quando a gravação era feita no trabalho, ele gostava de fornecer aos maestros não apenas suas partituras para piano, mas também sugestões de arranjos. Ele não se intimidou em perguntar se esta ou aquela parte era viável. Dessa forma, ele aprendeu muito – e rapidamente

– sobre o comércio. Outros artistas não cooperaram, no entanto.

Tom percebeu que apesar de sua personalidade agradável e gentil, Lyrio Panicalli, por exemplo, nunca revelaria seus truques secretos. Tom diria que “Lyrio é um homem sábio. Ele mora em

Niterói e não tem telefone.”




Foi nessa fase que começou a repetir comentários estranhos sobre certas pessoas: “Este mora

longe e não tem telefone”. Tornou-se uma expressão simbólica de como ele percebia esses

indivíduos.

Lyrio montou um gráfico no qual registrava a extensão de cada instrumento de suas orquestras.

Isso resultou de seus anos de experiência na Rádio Nacional. Ele aprendeu e notou as limitações técnicas de todos os músicos que gravaram com ele. Era um gráfico da verdade. Tom observou

que “Lyrio escondeu seu prontuário. Tentei ver, mas ele me disse: 'Tom, demoramos muito para

aprender essas coisas...'” Mas mesmo que isso tenha acontecido de forma restrita, Lyrio acabou ensinando algumas coisas sobre música para aquele jovem. pianista. Foi exclusivamente através

de perguntas e respostas.

Tom também começou a trabalhar à noite. No Bar Michel tocou música no

sala de jantar das seis às dez. Foi lá que conheceu o pianista Bené Nunes.

Tom permaneceu um tanto atormentado, no entanto. Embora Celso arcasse com quase todas

as despesas, a conta do aluguel era um fantasma que ainda pairava sobre sua cabeça e perturbava seu sono. Tom não comia bem e fumava demais. Ele perdeu muito peso, quase dez quilos. Seu

amigo Tico Soledad foi visitá-lo novamente e disse a Celso: “O Tom está ficando transparente. Ele está murchando.

Algo tem que ser feito imediatamente. Venda o piano e mande-o para a Clínica Mayo.”

Celso ficou apavorado. Ele começou a pensar em como mandar seu filho buscar

 




tratamento naquele hospital norte-americano. Tom fez vários exames médicos e

começou a tomar mais medicamentos prescritos. Nada funcionou até que o Dr.

Dauro Mendes, que se tornara médico da família, percebeu que todos os males

decorrentes das reações somáticas de Tom provinham de sua preocupação e

constrangimento pela ajuda que recebeu e do obstáculo extra que ela impunha ao

padrasto. O médico receitou uma dieta rica. Ele tinha que comer a cada duas horas.

Tom protestou e argumentou que iria vomitar tudo. Dr. Mendes não o levou a sério:

“Comer é um ato voluntário. Se você vomitar, volte para a mesa e coma novamente.”

Outro dia, no centro da cidade, Tom se deparou com o lendário compositor

Pixinguinha, que percebeu em seu rosto a tristeza de Tom. Pacientemente,

Pixinguinha dirigiu a conversa de forma que revelasse o que estava acontecendo na

vida de Tom. Aos poucos, Tom reclamou da carreira musical. Não foi suficiente para

pagar o aluguel. Ele não possuía nada e não podia proporcionar nenhum conforto à

sua família. Foi um rosário de reclamações. Aquele velho e carinhoso segurou o

braço de Tom e lhe disse carinhosamente: “Antonio, o que importa não é isso. O

importante é ser feliz.”

O medo da morte agora o dominava. Eles o assediaram em pesadelos horríveis.

Exausta, Thereza voltou para a casa de Nilza e Celso com o marido doente e o filho.

Ela disse aos sogros: “Preciso da sua ajuda. Tom está sofrendo de 'morte noturna'.

Fico acordada com ele a noite toda e durante o dia não consigo cuidar do Paulo.

Almerinda também não aguenta mais.

Ontem ela quase colocou fogo na casa. Ela adormeceu em pé e o ferro estava

queimando a tábua.”

Mais uma vez, Nilza e Celso abrigaram Tom, Thereza e o filho. Tom largou o

emprego na estação de rádio e continuou trabalhando apenas à noite. Durante o dia,

ele continuou estudando. Foi um trabalho difícil. Os olhos de Tom foram queimados

pela fumaça de seus próprios cigarros e por toda a fumaça que nublava toda a boate.




Havia também a bebida que ele escolheu e a bebida que lhe foi imposta pelos outros.

E havia aquelas numerosas mulheres que se debruçavam sobre o piano. Eles

simplesmente se apaixonaram por aquele jovem bonito. Mas ele continuou muito

apaixonado por Thereza e fugiu do cerco. Sua fidelidade a ela era famosa e muito

comentada.

Existiam outros riscos, como brigas de bar. Ainda assustado quando tudo acabou,

Tom disse uma vez a Thereza: “A bala passou por mim – bem perto da minha

barriga, na lateral do baço. Penetrou no terno do garçom e ficou preso em sua gravata.”

 


No entanto, ele não teve escolha senão continuar com aquela vida.

Em 1952 já recebia convites para tocar em vários locais: Drink, Bambu Bar,

Arpège, Sacha's, Monte Carlo, Night and Day, Casablanca, Tasca, Alcazar, Tudo

Azul, Bon Gourmet, entre outros. Nao foi facil. Tocava rumba, bolero, foxtrot, baladas



francesas e tango. No intervalo das apresentações, músicos atarefados afluíam a

um pequeno bar na esquina da Avenida Copacabana com a Rua Princesa Isabel –

um refúgio estratégico em meio a um grande número daquelas boîtes, casas

noturnas que eram chamadas de “pequenos infernos” na época. daquela vez. Lá

eles puderam relaxar, conversar e rir do que passaram naquelas noites.

Um desses artistas foi Bené Nunes, um pianista autodidata único em dois

aspectos: sua personalidade agradável e sua habilidade virtuosa fácil e bem-

humorada. Ele até brincava com os cotovelos e sempre inventava algum tipo de

brincadeira. Ele era o pianista favorito contratado para funções da alta sociedade.

Eclético, apreciava músicos de todos os estilos e idades. Amigo e admirador das

habilidades de Tom no piano, ele convidou todos para irem ver seu amigo tocar

onde quer que Tom estivesse programado: “Vocês precisam ver esse novo pianista:

Tom. Ele é muito bom. Só há um problema: ele é meio paraplégico.”

Nunes aludiu ao estilo econômico de Tom. Talvez por causa dessa estranha

forma de publicidade, Paulo Serrano decidiu ir conhecer Tom, o que o levou a

convidar Tom para gravar a música de Serrano. Luiz, irmão de Paulo Serrano,

trabalhou com produção musical em Hollywood.

Em 1953, outra figura importante do cenário musical foi ouvir Tom: Paulo

Soledade, compositor. Foi ao Club da Chave, do Ponto Seis, em Copacabana, para

conferir aquele jovem que tocava, como diziam, “um piano diferente”. O que ele

ainda não sabia era que o piano diferente aliado ao violão singular de João Gilberto

engendrariam novos caminhos na estrutura da música brasileira e mundial: a bossa

nova.

O Clube da Chave foi um espaço extremamente original. Patrocinada pelo

Ministério Federal da Educação e idealizada por Humberto Teixeira, o “Rei do

Baião”, era uma associação com número limitado de associados. A maioria deles

eram artistas e intelectuais. Cada membro possuía uma chave da entrada principal.

Instrumentistas e cantores tinham total liberdade. Eles podiam tocar ou cantar o que




quisessem. Músicos dos mais variados estilos brasileiros possíveis – e não importava

se eram nomes consagrados ou emergentes – costumavam aparecer. Do Nordeste,

as músicas vieram através do renomado

 


talentos de Sivuca, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Catulo de Paula, João do

Vale, Luiz Vieira e Carmélia Alves. O público associado ao samba romântico, ou

samba-canção, por sua vez, incluía Lúcio Alves, Dick Farney, Johnny Alf, Bill Farr,

Bené Nunes, Dolores Duran, Ivon Cury, Luiz Bonfá, Billy Branco, Braguinha, Paulo

Soledade e Antonio Maria.

Foi uma excelente oportunidade para Tom mostrar, de forma espontânea, suas

próprias composições e estilo de piano. Tocava o que queria, sem ter que atender

aos pedidos dos clientes, alguns dos quais não lhe agradavam em outros locais. Foi

lá que conheceu pela primeira vez o renomado poeta e cantor e compositor Vinicius



de Moraes. O grande poeta andava com seus amigos mais ligados à música. Com

vinte e poucos anos, Tom ainda era muito jovem e muito tímido para abordar Vinicius.

Ele manteve distância, mas também de olho nele.

Em casa, Tom contou a Thereza sobre aquele encontro. Ele não imaginava que

num futuro próximo aquele “demônio incrível” chamado Vinicius de Moraes se tornaria

seu mais assíduo parceiro de composição.

Thereza e Tom se moveram novamente. Desta vez se estabeleceram na Francisco

Otaviano, rua que termina na divisa entre as praias de Ipanema e Copacabana. O

amigo de Celso, Ângelo Fróla, era dono da Veneza, empresa de mudanças. Ele ficou

surpreso com a quantidade de vezes que a família Jobim se mudou.

A próxima casa seria um apartamento de dois quartos no edifício Einstein. As pessoas

acharam que era um edifício tão impróprio que o apelidaram de Frankenstein.

Coincidentemente, Vinicius de Moraes era vizinho da mesma rua. Tom o via com

frequência, mas sempre à distância.

Agora era possível para Tom pagar o aluguel sem a ajuda de Celso. Os cantores

e compositores Billy Blanco, João Donato e João Gilberto eram convidados constantes

na casa de Tom. Thereza e Tom, por sua vez, costumavam visitar em sua casa um

simpático e acolhedor casal, Bené e Dulce Nunes. Muito em breve esta casa tornou-

se um local atraente para uma infinidade de artistas, compositores e outros amantes

da música. Os compositores mostravam seus novos títulos e ouviam as novidades

que outros ofereciam. Em algumas ocasiões, cantores famosos escolhiam — ali

mesmo — as músicas que iriam gravar. Essas confraternizações chegaram ao fim

quando o casal se separou e Bené decidiu cursar Direito.

O pianista Scarambone também frequentava o apartamento de Tom. Ele

impressionou Tom por poder jogar por dinheiro à noite e trabalhar como dentista durante o dia.




 


para que ele pudesse manter um padrão de vida de classe média. Aos poucos, Tom

percebeu que só o turno da noite não era suficiente para sustentar sua família. Ele teria

que mergulhar no estudo da harmonia e da orquestração para ter diferentes

oportunidades no futuro.

Ele ligou para Celso, revelou seu problema e pediu ajuda. Celso concordou: por um

tempo voltaria a pagar o aluguel e algumas despesas de alimentação. Com seu próprio

dinheiro, Tom fazia compras uma vez por semana.

Artista autodidata, Tom comprou vários livros sobre orquestração e mergulhou no

material. Ele estudou principalmente dois compositores. Primeiro, foi Nicolay Rimsky-

Korsakov. Em suas rondas noturnas, porém, Tom ouvia muitos de seus amigos

reclamarem de seus últimos padrões de orquestração: eles eram muito difíceis e

atendiam apenas ao gosto dos russos. De dona Elizabeth, sua sogra, recebeu um livro



com orquestração de Glenn Miller. Tom tinha uma opinião positiva sobre o volume.

Continha um grande número de partituras completas de arranjos feitos para a famosa

orquestra de Miller. Tom recomendou essa obra a todos os compositores iniciantes e

depois adaptou alguns estilos para mitigar as limitações que percebia na música

brasileira da época.

Mais tarde, Tom optou por ter outro mentor particular, que seria Léo Peracchi. Foi

nesta altura que Alcides Fernandes arranjou emprego para Tom na editora Euterpe,

onde também trabalhou. Era músico da favela do Pavãozinho. Ele era casado com a

faxineira de Tom e Thereza e acabou se tornando seu parceiro de composição. Tom

estava, então, escrevendo para pequenas bandas, que na época eram chamadas de

“combos”.

Para relaxar antes de dormir, Tom leu o livro Caçando e pescando por todo o Brasil .

As histórias deste volume o divertiram enormemente. Enquanto lia na cama, ele ria e

dizia para Thereza: “Esse cara é um mentiroso...”, mas adorava.

Tom também gostava de pescar sozinho à noite. Sentado na enorme pedra do

Arpoador, ele segurou o molinete e esperou o grande puxão da linha. Nessas ocasiões

ele começou a ouvir vozes em sua cabeça. Principalmente de uma mulher específica

que discutiu e importunou enquanto lhe dizia o que fazer e as decisões a tomar em sua

vida pessoal. Essa voz o perturbou por meses. Nada do que ele fez o ajudou a parar

de ouvi-la.




 


Seu filho, Paulo, já tinha quatro anos quando Tom encontrou um bom emprego e a

oportunidade de trabalhar durante o dia. Ele queria acordar com o sol da manhã

brilhando em sua cama. Precisava ver a luz do dia, contemplar o mar e sentir seus

aromas.

Com a ajuda de Sávio Carvalho foi contratado pela gravadora Continental, com

sede no Centro da cidade. Era um prédio antigo com móveis antigos e mesas grandes.

O ano era 1954. Tom transcrevia em pautas musicais as partituras de canções

escritas por quem não conhecia teoria musical. Agora todos o procuravam nos

estúdios de gravação. Como disse a um repórter da Editora Rio :

Decidi mudar minha vida, de repente. Para poder me tornar um diurno, consegui um emprego na

Continental Records. Eu levaria minha pasta com algumas partituras.

Alguém cantava uma música enquanto marcava a batida numa caixa de fósforos, e eu colocava



essa melodia no papel. Naquela época não existia gravador portátil, nada. Foi no ouvido. Os

gravadores que tínhamos eram como peças de mobília, verdadeiros monstros pré-históricos.

Minha pasta era como a de um despachante, com papel manuscrito, lápis, borracha e uma lâmina de barbear dentro. Lembro do Monsueto chegando lá com aquele samba “Mora na Filosofia”. Logo

eu estava transcrevendo a música para ele, marcando toda a pauta com muito cuidado. Esse

samba fez um grande sucesso.

Na Continental, Tom ouvia quase tudo de novo que aparecia. Estaria em contato

com os melhores compositores do Brasil: Monsueto, Pixinguinha, Assis Valente, Ary

Barroso, Jacob do Bandolim, Braguinha, Dorival Caymmi, Antonio Maria, Ismael Neto

e Evaldo Rui. Fascinado pela música daqueles compositores destacados, ele ainda

percorria a cidade em busca de outros, compositores astutos que produzissem

verdadeiras obras-primas, apesar de não conhecerem teoria musical. Essas

experiências acabaram sendo excepcionalmente educativas para ele.

Naquela época, Radamés Gnatalli era o arranjador sênior da Continental. Excelente

pianista, maestro e compositor, trabalhou no departamento de música clássica da

emissora, mas também apareceu com muito conforto no domínio da música popular.

Apesar de todo o prestígio que Radamés tinha, sempre que Tom lhe pedia ajuda ele

a oferecia pacientemente, como um bom pai faria com seu próprio filho.

Foi lá também, na Continental, que Tom conheceu Luiz Bonfá, um senhor que

conheceu quando era pescador nas pedras do Arpoador. Ele nunca soube o nome

daquele homem até que se encontraram novamente, no Continental Studios. Tom se

lembrou daquele primeiro encontro, quando ele próprio já pescava há muito tempo e

não havia pescado nada além de um peixinho, um pampinho-ganhudo. Tom esperava que ele




 


pegaria algum outro peixe, mas ele já estava ansioso para fritar seu pequeno

pescado. Seu colega pescador, que estava por perto, perguntou a Tom se ele se

importaria de lhe dar um pedaço daquele peixe para usar como isca. Aquele pescador

anônimo acreditava que as anchovas chegariam em breve. Um tanto sem jeito, Tom

passou-lhe o pedaço de peixe e nunca mais esqueceu o rosto do homem, que agora

via naquele ambiente profissional. Agora, na gravadora, ambos riram ao relembrar

aquele primeiro encontro. Eles passaram a se conhecer e respeitar uns aos outros como músicos.

Além de pescarem e gravarem juntos, eles gradualmente se tornaram parceiros na

composição musical.

Bonfá foi criado em Jacarepaguá, região do Rio com casas de campo e mata

fechada naquela época. Houve uma empatia notável entre eles no desenvolvimento

de temas associados à natureza. Como resultado, surgiram músicas como “A chuva



caiu”, “Correnteza” (Rapids) e outras.

Tom foi convidado a fazer alguns arranjos para a gravação do álbum Canção da

volta da vocalista Elizete Cardoso , que incluía uma peça de Evaldo Rui, ex-namorado

da cantora. Durante uma das gravações, sem conseguir suportar a dor da separação,

Evaldo se suicidou.

Um tanto timidamente, Tom começou a revelar suas próprias músicas, temas que

vinha escrevendo desde os anos na Rua Sadock de Sá, entre eles “Solidão”

(Solitude), co-escrita com Alcides Fernandes. Conseguiu então gravar sua primeira

música em 78 rpm no Sinter: o samba-canção “Pensando em você”, com melodia e

letra de sua autoria, que foi interpretada por Ernani Filho. No final da partitura daquela

primeira música ele escreveu: “Ao meu anjo Therezinha, com um beijo do pequeno

Tom. Novembro de 1952.” Por outro lado, esse primeiro disco trazia “Faz uma

semana”, que Tom co-escreveu com João Batista Stockler. Logo foi gravada

“Incerteza” – composição que ele compartilhou com seu amigo de infância Newton

Mendonça. Foi interpretado por Maurício Moura.

Seu primeiro sucesso, porém, foi “Thereza da praia”, que ele co-escreveu com

Billy Branco quando Tom ainda namorava Thereza. Foi gravada em dueto por Lúcio

Alves e Dick Farney, ambos excelentes cantores, com características vocais e gostos

musicais semelhantes, que, curiosamente, se declararam rivais. Essa música foi

transmitida por todas as rádios do país. Os arranjos e harmonias de Tom estavam

agora sendo reconhecidos pelo grande público.

Thereza ficava constrangida quando as pessoas comentavam que ela havia inspirado

aquela música. A letra falava do seu bronzeado e da sua charmosa pinta do




 


lado, a pequena mancha preta que ela tinha no queixo.

Na verdade, foi o primeiro dos numerosos sucessos populares de Tom, um após o outro. Nesta

fase inicial teve vários parceiros: Dolores Duran, Marino Pinto, Paulo Soledade e Luiz Bonfá.

Mais uma vez, o caminhão do proprietário da empresa de mudanças, Ângelo Fróla, foi colocado

em serviço. Novamente perplexo, o Sr. Fróla mudou então a família Jobim para um apartamento

na Rua Nascimento, 107. Esse discurso ficaria muito famoso através de uma alusão a ele no

samba “Carta a Tom” de Vinicius de Moraes. Os Jobim residiriam em mais um pequeno

apartamento. Com dois quartos e duas salas, ficava num prédio sem elevadores. De suas janelas era possível ver o Morro do Corcovado e a bela estátua do Cristo Redentor no topo dele. Naquela época, as construtoras brasileiras ainda não tinham adquirido o hábito de colocar enormes

barreiras de concreto na frente dos prédios de apartamentos por questão de segurança. Sentado

ao piano, Tom gostava de contemplar a estátua, principalmente quando ela era iluminada ao




entardecer e os braços abertos de Cristo abençoavam toda a cidade do Rio de Janeiro.

Seu primeiro parceiro de composição fantástico e duradouro foi Newton Mendonça, com quem

Tom produziu “Brigas” (Disputas), “Meditação” (Meditação), “Foi a noite” (Foi a Noite), “Incerteza”

(Incerteza), “Discussão” (Argumentos), “Caminhos cruzados”, “Desafinado” (Off Key) e “Samba de

uma nota só”. Eles escreveram peças sentados lado a lado, com Newton tentando chegar o mais

próximo possível do piano. Tom frequentemente comentava que Newton era um especialista e

amante da música. Eles trocaram opiniões sobre diversos assuntos, além dos acordes que

estavam desenvolvendo. Ao trabalharem juntos e discutirem as obras de Beethoven, Liszt, Chopin

e Shostakovich, eles desfrutaram de uma grande afinidade.

A casa de Thereza e Tom continuou sendo local de muitas reuniões. As longas festas noturnas

eram um elemento constante em suas vidas. Nessas ocasiões, Tom frequentemente convidava a

irmã para cantar com ele, não apenas suas próprias canções, mas também as de outros

compositores.

Certa manhã, depois de mais uma longa noite, o telefone tocou e Thereza atendeu. Era da

associação dos músicos, aquela que pagava os royalties.

Ela não tinha certeza se deveria acordar Tom. Como a ligação poderia ser algo importante, ela decidiu ligar para ele. Ainda sonolento, ele pegou o fone e disse: “Se tiver dinheiro suficiente para eu pagar o táxi, vou buscá-lo... caso contrário,

 




deixe aí.”

Daquele apartamento o Tom ia a pé até o Veloso Bar. Nas tardes luminosas de Ipanema ele

caminhava lentamente pelas largas calçadas apreciando a brisa e o perfume que vinha daquele

mar de safiras. Escutava o zumbido familiar dos gafanhotos e o chilrear interminável de tantos pardais escondidos nas copas dos oiti . Naquela época ele já havia adquirido o hábito de usar roupas confortáveis e de cores claras. Num desses dias, Tom ouviu um pedreiro suspenso na

fachada de um prédio daquela região da cidade fazer uma piada sobre a aparência descolada

do compositor: “Na minha próxima encarnação quero voltar à terra assim: branco , bonito e

rico...”

O Veloso Bar ficava na esquina das ruas Montenegro e Prudente de Morais – a apenas uma

quadra da praia de Ipanema. À noite, Tom costumava passar por lá e sair com vários amigos.

Quase sempre mantinham conversas inteligentes e animadas. Ele gostava de chegar cedo e

sair cedo. Ele tendia a ser muito paciente com aqueles que exageravam na bebida. No entanto, se alguém o incomodasse, ele se aposentaria imediatamente. Ele abominava o maniqueísmo,

os rótulos e o comportamento intimidador daqueles que exigiam, como ele disse, “atenção

papilar”. Também não gostava daqueles que, sucumbindo aos imperativos do álcool, o

provocavam e falavam em voz alta por causa do ciúme que sentiam diante de pessoas criativas

e bem-sucedidas.

Até mesmo um amigo próximo de Tom, Ronald Chevalier (também conhecido como Roniquito), às vezes provou ser irritante: “Tom… você conhece Beethoven?”

"Sim eu faço."

“Bem, então você sabe que sua música é uma porcaria.”

Outras vezes, Tom reagiu de maneira diferente ao abuso do amigo, mas tudo acabou nesse

tom:

“Você conhece Beethoven?”

"Não."

"Bem, você deveria. De qualquer forma, sua música é uma porcaria.”

Tom nunca refutou provocações ou insultos. Quando ele sentou no Veloso foi para

relaxar do estresse do dia a dia, de suas dúvidas e crises existenciais.




Ele seguiria em direção ao aeroporto seguindo a beira da água ao redor da baía de

Guanabara. O pretexto para ir até lá foi comprar revistas estrangeiras e

 


jornais. Do Aeroporto Santos Dumont pôde observar sua paixão, o avião. No entanto,

ele ainda manteve alguma distância dessas máquinas. Ele tinha medo de voar, mas

adorava seu poder, seu esplendor e sua aerodinâmica — a conquista do homem sobre

a máquina.

Tom também gostou de outro bar, o Alcazar. Foi também frequentado por artistas e

intelectuais que se reuniam pelo seu ambiente festivo. Do alto de um pátio no andar

superior avistava-se toda a Praia de Copacabana. Em claro contraste com a atmosfera

relaxante, certa vez um homem abordou Tom e amigos para compartilhar suas

preocupações sobre os baixos lucros que estava obtendo com investimentos financeiros.

Um dos colegas bebedores de cerveja de Tom brincou com ele: “Ouvi dizer que os



tokens telefônicos ficarão 30% mais caros em breve. Faça o que eu digo: fale com seu

corretor e diga-lhe para comprar toda a sua fortuna em tokens telefônicos. Assim você

ganhará muito dinheiro.”

Todos começaram a rir.

 






 

Liberdade

PERTO DO FINAL DE 1954, a Continental, a gravadora onde Tom trabalhava, começou

a produzir discos long-play de dez polegadas. Naquela época ele tinha aulas de

instrumentação com Léo Peracchi. Enquanto Tom criava os arranjos, ele contou com

a ajuda do maestro Radamés Gnatalli, um colega que o incentivou muito. Radamés

costumava lembrar ao Tom que o principal era sentar e escrever música e que o resto

acontecia naturalmente.

Foi quando a Continental lançou um álbum com a Sinfonia do Rio de Janeiro de

Tom . Com letra de Billy Blanco, era composta por onze movimentos com arranjos de

Radamés Gnatalli. A peça exaltava a antiga capital do país: o litoral, o sol, as

montanhas e o cotidiano normal dos cariocas. Foi o trabalho mais importante que ele

fez. Numa espécie de ironia amorosa, ele o chamou de “Symphonech”. Em suma, fez

sucesso com a crítica e decepcionou nas vendas. Não demorou muito, porém, para

que as músicas de Antonio Carlos Jobim se multiplicassem nas rádios. Sua produção

foi tão grande que o músico e jornalista Antonio Maria argumentou que Antonio Carlos

Jobim estava competindo com Antonio Carlos Jobim.

Tom foi então convidado a participar do programa Quando os Maestros se Juntam,

da Rádio Nacional, que contou com a maior audiência de estúdio de todo o país. Lá

Tom regeu pela primeira vez uma composição de sua autoria: “Lenda”, que

homenageava seu pai, Jorge Jobim.

Em 1956 Tom foi convidado pelo empresário norte-americano Harold Morris para

trabalhar como diretor artístico da gravadora Odeon. Ele aceitou o trabalho, mas logo

percebeu que estava desperdiçando seu talento por não trabalhar em suas próprias

músicas. Ele ficou por um curto período e então decidiu sair e se tornar freelance.

Morris insistiu para que ele mantivesse o emprego, mas não adiantou. Resignado,

Morris lembrou-se de um ditado do seu país natal: “Bem… não se pode mudar as

manchas do leopardo”. Aloysio de Oliveira, que acabava de voltar de morar nos




Estados Unidos, o substituiu. Aloysio mais tarde se tornaria um dos parceiros de

composição e amigo de longa data de Tom.

Depois de deixar a Odeon, Tom não teve outro emprego além de intérprete e

compositor. Nos primeiros dias de liberdade do horário fixo daquele trabalho, ele

escreveu um poema:

 


Fui beber água onde o tigre bebeu.

A água era escassa, pura e gelada, Ali, à

sombra de algumas árvores antigas.

Acolhai as manhãs enevoadas,

Quando o sol se arrastava E

não se importava em nascer novamente.

Fui beber água onde o tigre bebeu.



A água era escassa, pura e gelada, Ali, à

sombra de algumas árvores antigas.

Tom estava feliz em seu casamento. Ele e Thereza conversavam por telefone por horas a

fio, como namorado e namorada. Nessa fase da vida, a cerveja era a única bebida que ele

bebia no final do dia – apenas mais um motivo para se reunir com os amigos. Ele acordava

tarde pela manhã e trabalhava no piano a tarde toda. Ele desenvolveria os temas que lhe

viessem à mente. No meio desse processo, às vezes ele se perdia nas harmonias. Ele

pediria ajuda a Thereza. “Qual era exatamente esse tema, querido?”

E Thereza conseguiu trazê-lo de volta ao tema, cantando: “É assim?”

Contente, ele sorriu para a esposa: “Perfeito”.

Thereza costumava ficar apreensiva; ela gostaria que Tom escrevesse cada tema assim

que surgisse. Tom, entretanto, tinha seu próprio método criativo peculiar. Ele elaborou

primeiro os fios harmônicos, depois desenvolveu a melodia através da ênfase no tema. Só

então ele iria desenvolver e aperfeiçoar o “monstro”, como ele o chamava – isto é, as letras.

Só então ele finalmente anotaria tudo na pauta.

Em outras ocasiões, ele seguiu seus devaneios enquanto escrevia em uma pauta a

linguagem secreta de suas notas, claves e temas que eventualmente poderia seguir.

Quando Thereza perguntava sobre a natureza de suas façanhas, ele respondia, sorrindo:

“É apenas um 'prelúdio de desperdício de papel'”. E eles riam juntos.

Porém, imperativamente, às 17h , ele fechava o piano, esticava os membros, reclamava

das dores nas costas e culpava a queda que sofrera na praia há muito tempo. Bastava:

“Trabalhei muito hoje. Preciso de um copo de chope para relaxar.” Ocupada com o filho e

com as tarefas domésticas, Thereza cederia.

Depois das sessões de gravação nos estúdios do centro da cidade, músicos e




 


os intelectuais costumavam se reunir em um local chamado Vilarino. A nata dos jornalistas

e músicos da cidade estavam entre eles: Sérgio Porto, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Lúcio

Rangel, Silvio Caldas, Vinicius de Moraes e muitos outros.

Tom foi apresentado formalmente a Vinicius em uma daquelas confraternizações

espontâneas. Curiosamente, a vida boémia de Vilarino adiantou o destino de muitas pessoas

quando estas, supostamente, paravam apenas para evitar os autocarros e eléctricos lotados

nas horas de ponta.

O local em si não passava de uma mercearia, de fachada estreita, que oferecia as

melhores marcas de whisky e iguarias. Escondidas lá dentro havia algumas mesas com

tampo de mármore reservadas para provadores de comida e bebida. Tom costumava dizer

que os clientes mais jovens continuavam bebendo cerveja até ficarem sem nada além do

dinheiro para a carona para casa. Os abastados, por sua vez, escolheram o uísque.



Desde os tempos em que frequentava o Clube da Chave, Tom se surpreendia com a

extraordinária humildade de Vinicius de Moraes. Esse notável poeta e diplomata era de fato

um homem culto e inteligente, de notável gentileza e inteligência. Era impossível não gostar

dele.

Numa ocasião histórica, o crítico musical Lúcio Rangel chamou Tom de lado e disse-lhe

que Vinicius precisava de alguém para compor temas para sua nova peça, Orfeu da

Conceição. Era a história da figura mítica grega Orfeu colocada em uma favela carioca. Tom se perguntou em voz alta: “Há algum dinheiro para mim?”

Lúcio riu e respondeu: “Claro, é Vinicius de Moraes!”

Tom ficou envergonhado e aquela breve conversa com Lúcio tornou-se uma história

lendária em sua história de vida. Ele encaminhou Tom até a mesa de Vinicius. Pela primeira

vez, esses futuros parceiros conversaram entre si. Imediatamente eles se conectaram muito

bem, e Vinicius foi direto ao ponto: “Tínhamos pensado em convidar o Vadico. Você conhece

esse Vadico?

“Eu sei quem ele é. Escreveu 'Feitiço da Vila' com Noel Rosa. Ele é muito bom.”

“Certamente bom. Mas ele tem medo de aceitar um projeto grande. Ele tinha um coração

ataque não muito tempo atrás.”

Tom ficou muito sério. "Eu entendo. Existem tarefas que podem matar um homem se

ele não está em boa forma.”

Vinicius tirou os óculos e começou a limpar as lentes com um guardanapo. Isto




 


foi então que Tom notou seus olhos verdes claros.

Dias depois, Tom comentou sobre Vinicius: “Nunca esquecerei aquele rosto humano

único, o poeta dos grandes olhos de jade – aqueles olhos vazios, ocos, mas obedientes,

feitos especialmente para o conhecimento e a compreensão”.

Naquele primeiro encontro no Vilarino, Vinicius fez a Tom a pergunta que ele

esperava depois de um comentário tão sombrio. "E você? Você está em boa forma

para o trabalho?

Tom sorriu. Ele ainda era tão jovem e cheio de vigor. Eles saíram imediatamente do

local e foram para a casa de Tom, onde começaram a trabalhar juntos assim que

chegaram. Com inevitável cerimônia entre eles, Tom mostrou a Vinicius alguns de seus

temas. No início, suas ideias não combinavam muito bem. Sambas ruins surgiram –

segundo eles – e não pertenciam à peça. Eles trabalharam na melodia e na letra quase



ao mesmo tempo. Muito em breve essa parceria – a mais importante na carreira de

Tom – começou a dar bons resultados.

O Vinicius de Moraes de carne e osso tornou-se uma verdadeira fonte de força para

Tom. Vinicius ainda evocou uma imagem positiva do pai do compositor, o falecido

Jorge Jobim. Três vezes na vida, Tom precisou negar a existência do pai para poder

enfrentar a realidade: quando Jorge abandonou a mãe de Tom, quando Jorge voltou

para ela e quando Jorge morreu. Vinicius, assim como Jorge, foi poeta e diplomata.

Além disso, Jorge era poeta parnasiano, e Vinicius despertou em Tom o apreço pelo

Parnaso e pela Grécia antiga com a peça Orfeu.

“Se todos fossem iguais a você” (lançado em inglês como “Somebody to Light Up

My Life”) foi a primeira música que escreveram juntos. No Club Marimbás, em

Copacabana, Vinicius fez uma leitura de seu drama ao som da música de piano de

Tom.

Apresentado no esplendoroso Theatro Municipal do Rio, o Orfeu da Conceição foi

um grande acontecimento. A transposição do mito de Orfeu para uma favela carioca

com personagens negros foi quase atemporal. Mantendo intacto o clima mítico da

tragédia grega, a produção revelou-se deslumbrante. O cenário foi desenhado por

Oscar Niemeyer, os roteiros pintados por Carlos Scliar, a orquestra dirigida por Léo

Peracchi e os solos de violão executados por Luiz Bonfá. Tom era o diretor musical.

Ele também tocou piano e escreveu arranjos para oitenta instrumentos.

Meses antes, quando Vinicius de Moraes trabalhava no roteiro da peça em




 


Paris, ele ficou impressionado com o tema “Valsa de Eurydice”. Foi uma dádiva de Deus,

pois aquela valsa como fundo musical de uma favela evocava a atmosfera de uma época

“antiga”. Tom usou esse tema em sua abertura. Tudo começou quando as cortinas foram

fechadas. À medida que a música avançava, as cortinas se abriam para desvelar lentamente

o cenário: uma favela moderna, quase abstrata, saída diretamente da prancheta de Oscar

Niemeyer.

O público do Teatro Municipal ficou tão instantaneamente cativado pelo cenário que

irrompeu em aplausos antes de qualquer ação acontecer no palco. Essa resposta fez com

que o jornalista Sérgio Porto escrevesse: “Talvez tenha sido a primeira vez no Brasil que um cenário é aplaudido antes de a peça começar”.

Então foi assim que a parceria do Tom com o Vinicius teve uma estreia tão marcante. Foi

uma produção poderosa com uma reunião de músicas maravilhosas: “Se todos fossem




iguais a você”, “Mulher, sempre mulher”, “Lamento no morro”, “Eu não existo sem você”

(Eu Não Existo Sem Você) e “Eu e o meu amor”.

Compostos especificamente para a peça, esses títulos se tornaram sucessos por si só. Com

eles, Vinicius de Moraes elevou a fasquia das letras da futura música popular brasileira.

Houve um aumento nas gravações. Tom não tinha tempo para nada além de trabalhar.

Ele modificou suas canções para se adequarem aos estilos particulares de seus intérpretes.

Ele foi extremamente bem recompensado por esse trabalho, mas parecia que se sentiu

excepcionalmente celebrado quando o astro do rádio Vicente Celestino gravou “Se todos

fossem iguais a você”. Ele andava dizendo para todo mundo: “Até o Vicente gravou a minha

música!”

Depois do Orfeu da Conceição, surgiu uma nova atitude entre os músicos.

Tradicionalmente, os intérpretes tinham direitos exclusivos sobre as músicas que gravavam.

E é justo dizer que o público normalmente não sabia quem eram os compositores.

Dessa forma, eram os cantores que prestigiavam as músicas. Nos seus famosos programas

de rádio dedicados à descoberta de novos cantores talentosos, a voz de Ary Barroso era a

única que se perguntava em voz alta: “Quem são os compositores desta música?”

Aos poucos tornou-se importante que os cantores incluíssem títulos de Tom e Vinicius em seus

repertórios. Eles começaram a gravar as músicas mais conhecidas independentemente de quaisquer

reivindicações de direitos exclusivos.

Para Orfeu, Vinicius também pediu a Tom que escrevesse um pequeno texto introdutório

para constar do projeto. Nele, Tom argumentou que a história de Orfeu de Vinicius poderia,

na verdade, ter sido ambientada em outras esferas da sociedade, além da favela. Ele também




 


afirmou que além de ser um poeta conhecido por todos, “Vinicius era um homem de

rara musicalidade”. Ao final daquela nota introdutória Tom ponderou: “Depois de ver

o Orfeu de Vinicius, devemos nos questionar: o que realmente sabemos sobre arte?”

Tom demonstrou modéstia, mas ele sempre soube o que queria e o que havia

conseguido. Ele ficou muito orgulhoso de ver seu nome nas paredes frontais de um

teatro pela primeira vez. Ele lutou para chegar lá.

Alguns anos depois, os cineastas franceses transformaram essa peça no longa-

metragem Orfeu Negro, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de

Cannes de 1959, bem como o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1960 e o Globo

de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1960. Filme estrangeiro. Buscando maiores

royalties para si próprios, os produtores europeus daquele filme exigiram novas

músicas para a trilha sonora.



Na verdade, criações imortais resultaram da próspera parceria desenvolvida entre

Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Anos depois de Orfeu, os dois estavam

sentados no Veloso Bar, numa típica manhã ensolarada de verão carioca.

Vinicius lembrou-se de Marcel Proust ao falar sobre jovens florescentes.

Tom, então, notou a silhueta alta e esbelta de uma mulher que passou por eles a

caminho do mar. Ele a mostrou para Vinicius. Ela era, talvez, como muitas outras que

passeavam por aquela parte da cidade.

Foi ela, Heloísa Eneida, porém, quem encarnou a fase criativa especial pela qual

Tom e Vinicius estavam passando. Afinal, ela era “A Garota de Ipanema”.

Tom continuou a tocar em bares e boates, mas agora podia se dar ao luxo de fazer

isso com mais conforto. Ele escolheu onde tocar e, como principal atração nesses

locais, tinha mais dinheiro do que antes. Aloysio de Oliveira o incentivou a cantar em

público, algo que Tom fazia exclusivamente em casa. Acabou acontecendo pela

primeira vez, na boîte Arpège, quando Aloysio dirigiu o show de Tom. Tom cantou

“Só tinha que ser com você” (lançado em inglês como “This Love That I've Found”).

Em 1957, a gravadora Festa, do amigo de Tom, Irineu Garcia, o convidou para

compor a música de O Pequeno Príncipe, disco com a clássica história de Saint-

Exupéry narrada pelo ator Paulo Autran. A gravação alcançou um sucesso tão grande

de crítica e público que a cópia master ficou inutilizada depois de muitas novas

edições.




 


Em 26 de agosto do mesmo ano, nasceu Elizabeth Hermanny Jobim, filha de Tom e Thereza.

O irmão de Elizabeth, Paulo, tinha então sete anos. Algumas das circunstâncias daquele parto

foram incomuns. Quando Thereza teve as primeiras dores de parto, ela não contou ao marido.

Por um lado, ela lutou com as lembranças do parto de seu primeiro bebê, quando estava prestes a ter um colapso nervoso. Ela escondeu os primeiros sinais de que sua hora havia chegado

novamente e continuou com seus negócios. Ela até montou as roupas (incluindo um smoking)

que Tom precisava usar naquela noite em um programa semanal da TV carioca intitulado Noite de Gala. Algumas das fotos dos episódios anteriores desse programa mostravam Tom parado, de smoking, entre quatro palhaços. Ele sempre comentava que era o único verdadeiro palhaço

ali.

Tom regeu a orquestra na Noite de Gala por cerca de um ano, mas as lembranças daquela noite seriam incomparáveis. Seu sogro, Arthur Hermanny, estava exultante. Ansioso para dar a




boa notícia sobre o bebê a Tom, ele foi até os bastidores e contou tudo ao pianista Bené Nunes: Tom era pai de uma morena linda, como a mãe dela. Assim que começaram os aplausos no final do show, Bené gritou: “É uma menina! É uma menina!

Ainda de smoking, Tom correu para o hospital. Surpresas, as enfermeiras diziam agora que

o novo bebê devia ser filha de uma pessoa muito importante, pois era a primeira vez que viam um pai tão bem vestido.

A vida de Tom além da música continuou a passos largos. Ele agora era o pai grande, trazendo todo mundo à noite para a praia da Barra da Tijuca, assim como Celso havia feito ao longo dos anos com ele e Helena. Eles carregavam varas de pescar, frigideiras, azeite e violão. Tom e

Helena passearam pela faixa de areia em busca de lascas de madeira para alimentar o fogo. O

filho de Tom e Thereza, Paulo, e seu amigo André caçavam tatuís e moluscos pequenos

chamados coquinas, como isca.

As crianças então pescavam pequenos peixes com linhas curtas que seguravam com as próprias

mãos. Os peixinhos serviam de isca para peixes maiores que não chegavam perto da costa até

o anoitecer. Os meninos também construíram iscas com tripas de peixe. Eles colocaram essas

iscas na areia sob correntes estreitas que se moviam para o interior. Com essas armadilhas, as crianças esperavam atrair peixes maiores para onde os adultos lançavam as linhas.

Tom ensinou Paulo sobre os diferentes ventos. Do leste, o vento não trazia umidade e, no

inverno, fazia tanto frio que alguns chamavam de “cortador de galo”. O tipo que soprava à noite, acrescentaria Tom, era o “vento terrestre”.

 




Depois de enfiar as varas de pescar na areia, era hora de acender o fogo e

aguardar a ação nas linhas. Enquanto isso, Tom tocava violão e todos cantavam

juntos. De vez em quando, as linhas mais apertadas sobre a água sugeriam que

os peixes estavam mordendo as iscas e tentando evitar os anzóis. Podem ser

anchovas, raias, robalos ou algum robalo perdido. Tom chamava o filho para

segurar a vara e sentir o poder e a luta do peixe até que ele fosse puxado para fora da água.

água.

A frigideira ao lume e o cheiro a azeite eram os mesmos de décadas atrás,

assim como a alegria que todos sentiam, independentemente do tamanho ou da

quantidade de peixe (se houvesse) para cozinhar. O aroma do mar, o ar fresco à

beira da água e a escuridão da noite fizeram tudo valer a pena. Tom às vezes

lembrava do poeta Paulo Mendes Campos: “Se o peixe não vier, não tem problema.

Não gosto de peixes que chegam assustados às terras dos humanos. Procuro a

luz ilimitada que me acalma.”

“Aquele que me acalma”, repetiu Tom. Se Paulo estivesse com sono, Thereza

estendia uma manta na areia. Depois de contemplar a vastidão do céu estrelado,

o menino adormecia.




 






 

Estrelato

EM 1958, TOM FOI CONVIDADO PELA FESTA para gravar o disco Canção do amor

demais . A gravadora queria os bons sambas-canções de Vinicius e Tom naquele projeto.

Garcia, dono da gravadora, acreditava que seriam sucessos garantidos. Com Elizete

Cardoso responsável por todos os vocais principais, o disco contou com arranjos

excepcionais de Tom para trompa, oboé, clarinete e flauta. João Gilberto tocou violão na

lendária música “Chega de saudade”. O álbum foi um dos mais vendidos da época.

Tom já conhecia a voz descontraída e o estilo singular de guitarra de João Gilberto.

Admirava aquele jovem recém-chegado da Bahia, o artista obsessivamente perfeccionista

que cantava muitas vezes com a banda Garotos da Lua.

Tom, então, decidiu fazer um álbum com ele. Na casa de Tom, eles trabalharam juntos

por meses a fio, até considerarem o trabalho completamente concluído. Porém, nenhuma

gravadora parecia interessada no estilo revolucionário de vocal e guitarra de João Gilberto.

Obstinado, Tom não desistia. As circunstâncias ideais para a confiança da indústria

fonográfica em seus talentos ainda não existiam.

O tempo passou, mas a ideia de fazer aquele disco com João Gilberto nunca saiu da

cabeça do Tom. Finalmente chegou o momento que ele tanto procurava. Tom conseguiu

convencer Aloysio de Oliveira a produzir o disco pela Odeon. Os três queriam que tudo

naquele projeto fosse absolutamente perfeito. Os artistas repetiram cada solo, uma e outra

vez, até considerarem a saída de cada instrumento como ideal. Um dos cortes foi gravado

dez vezes, mas, por mais irônico que possa parecer, acabaram escolhendo o primeiro

take que fizeram para o disco.

Seus esforços valeram a pena. O álbum Chega de saudade lançou de vez a “bossa

nova”, gíria criada pela mídia impressa que sugere “a coisa nova e melhor que existe”.

Esse foi o conceito por trás das anotações de Tom na contracapa do disco, nas quais

elogiava João Gilberto, “esse bossa nova baiano”. Os críticos aprovaram o lançamento.

Elogiaram não só as novas composições, o violão e o estilo de João Gilberto, mas também




as qualidades técnicas da gravação, muito superiores a quaisquer outras já feitas no país.

Apenas um dos diretores da Odeon não gostou do disco. Ele disse que era só “lixo” que

os cariocas queriam impor a todo mundo. Ele quebrou o disco em um dos joelhos enquanto

exclamava: “É isso que o Rio nos manda?”

 


Com uma abordagem bastante distinta daquela música, João esclareceu os trunfos do

novo conceito musical: no samba-canção, a orquestra acompanhava o vocalista, enquanto

na bossa nova, cantor e instrumentos tinham que se integrar.

Além disso, João Gilberto fez entender como ele, sozinho no violão, reproduzia ou criava

as linhas melódicas de um solo de violino, trombone ou outro instrumento. Com sua

técnica ele conseguia sugerir sons de orquestra nas cordas de seu violão.

Na verdade, os especialistas acreditavam que havia uma forma pré-bossa nova mais

claramente definida por algumas das músicas escritas por Chiquinha Gonzaga, Custódio



Mesquita e Dorival Caymmi, que legaram um caminho de liberdade para mentes criativas

mais jovens. O nível de harmonia desses músicos era excepcional e eles acabaram

estabelecendo sua própria escola.

Antes desprezada por muitos artistas, com o advento do Chega de saudade a música

popular passou a influenciar uma nova geração de músicos de destaque. Como movimento,

a bossa nova deu confiança aos jovens, para que pudessem acabar com os velhos

preconceitos contra a carreira musical. Duas das noções anteriormente defendidas eram

que os músicos estavam destinados a sofrer de alcoolismo e pobreza.

Nesse ambiente inovador, as universidades abriram as portas à nova música. A

juventude foi instantaneamente afetada. Depois de um longo período de tempo, surgiu

uma música brasileira inteiramente original, com uma estética nova que combinava com

seus sentimentos embutidos de angústia, sua verdade e seus apelos. Acompanhando e

potencializando a tendência, os músicos de classe média também foram capazes de se

manifestar artisticamente em todo o país. A Bossa Nova era como um fusível aceso.

No Rio, inicialmente grupos amadores, como os de Nara Leão, Oscar Castro Neves,

Roberto Menescal, Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, aprenderam o ritmo da bossa nova. Na

escola de música que abriram, Menescal e Lyra já ofereciam aulas de violão que incluíam

o novo ritmo. Esse grande grupo se reunia no apartamento de Nara Leão, na Avenida

Atlântica, em Copacabana. Com sua voz delicada e seu violão, Nara foi proclamada a

“musa da bossa nova”.

Ainda em 1959, com voz refinada, estilo de música de câmara e arranjos de Léo

Peracchi, Lenita Bruno gravou “Por toda a minha vida”, de Tom e Vinicius, e outras

gerações mais jovens seguiram o exemplo. A passagem para o futuro estava aberta. Era

quase como se tivessem recebido permissão e apoio dos pais. A segunda geração de

artistas da bossa nova, por sua vez, abriria novos caminhos para seus admiradores. Na

linha de frente disso




 


geração foram Chico Buarque de Hollanda, Edu Lobo e Francis Hime, do Rio, além de

Caetano Veloso e Gilberto Gil, da Bahia. Todos acabaram por declarar que as suas vidas

mudaram depois de ouvirem Chega de saudade. Eles moravam em diferentes partes do país

quando foram atingidos pelo novo estilo e um marco foi estabelecido em sua jornada musical.

Vários anos depois do Chega de saudade, Chico Buarque discorreria sobre a intersecção

de sua própria história com a de Tom Jobim e de outros pioneiros da bossa nova:

Foi assim que ele nos chamou: “meus meninos”. Antes de conhecê-lo, ele já estava no

meu pedestal. O primeiro disco que comprei na vida foi um daqueles que ele fez em

parceria com Vinicius de Moraes. Apesar de minha família viver com um orçamento

apertado, consegui convencer meu pai dizendo que queria comprar um disco com a música

do Vinicius, já que o Vinicius era amigo dele. Em casa, antes de eu fazer isso, minha irmã Miúcha cantava e organizava coros com nossas irmãs. Aí, no início da minha carreira




como compositor, conheci o Tom através do Vinicius. Essa conexão entre nós ficou tão

forte que duraria para sempre. Tom nunca foi didático, mas deu muitas pistas – nada

formal, no entanto. Ele não quis nomear seus acordes, por exemplo. Ele sentou e tocou.

Nossa conversa foi “barroca”. A linguagem foi codificada. Ele falou de enigmas. Eu tendia

a não perguntar nada a ele porque se eu perguntasse, ele não responderia. Ele falaria

sobre outra coisa. Muitas vezes só fui capaz de entender o que ele havia dito alguns dias

depois. Ele e Vinicius quebraram um grande obstáculo na música brasileira. Antes deles,

os músicos eram tratados como cidadãos de segunda classe. Sua influência foi além da música e abrangeu o cinema, o teatro, e literatura.

Quando os primeiros discos de bossa nova chegaram aos Estados Unidos e essa música

foi tocada e gravada com sucesso aqui, no início dos anos 1960, Tom ficou abalado com a

trágica e repentina perda de seu amigo de infância e primeiro grande parceiro, Newton

Mendonça.

Na noite anterior à sua morte, Newton esteve em uma reunião íntima no apartamento de

Tom. Num determinado momento, Newton voltou do banheiro, onde viu que alguém havia

jogado um cinzeiro cheio de pontas de cigarro e cinzas no vaso sanitário. Ele comentou

brincando que alguém estava comendo muitos cigarros.

Foi um grande choque quando, no dia seguinte, todos souberam que Newton tinha tido um

ataque cardíaco fatal. Ele tinha apenas trinta e dois anos.

O padrasto de Tom, Celso, havia se mudado para Poço Fundo. Ele havia vendido seu

apartamento no prédio Brasília, no Centro do Rio, e o antigo piano de Tom (o Leopardo).

Celso comprou um terreno adjacente à fazenda do cunhado. Ele e




 


Marcello tornou-se então sócio de uma empresa de criação de frangos. Situada no meio de matas densas e em clima temperado de montanha, a pequena fazenda foi construída em uma estrada de

terra entre Petrópolis e Persépolis, a apenas duas horas de carro do Rio.

Do lado do terreno de Celso, um grande rio cortava a paisagem com sua superfície espelhada e pequenas cachoeiras. Como não havia energia elétrica, Celso acendeu lamparinas de querosene

que davam às salas de jantar e de estar uma iluminação bem branca. Nos quartos havia castiçais. A casa de Marcello era grande: seis quartos e uma enorme lareira, entre outros cômodos e

comodidades. O estilo geral era rústico – não extravagante, mas certamente aconchegante.

Como a casa ficava perto das instalações das galinhas, havia moscas. À noite, besouros e mariposas eram atraídos pelas luzes e entravam na casa.

Apesar do desconforto causado pelos insetos, as telas só seriam instaladas posteriormente.

Outras prioridades relativas ao bem-estar dos funcionários tiveram que ser atendidas. Celso, por exemplo, prestou atendimento odontológico a eles. Muitas vezes ele os levava ao dentista da cidade em seu velho caminhão apelidado de “Toulouse”, em homenagem ao pintor francês Toulouse-Lautrec.




Essa atitude e ação benevolente demonstraram quem eram Celso e Nilza.

Quando soube que muitos funcionários não tinham cobertores, não conseguiu mais dormir em paz.

Celso a levou imediatamente para uma fábrica de cobertores em Petrópolis, onde compraram uma

grande carga de agasalhos. Nilza também montava um conjunto completo de roupas, lençóis e

acessórios para cada recém-nascido esperado. Ela ensinou as mães locais sobre como cuidar dos

bebês. Na verdade, ela lhes ofereceu treinamento abrangente, desde cuidados pré-natais até

cuidados de higiene e educação em saúde das crianças. Celso, por sua vez, tornou obrigatório que todos os funcionários pertencessem a uma cooperativa de saúde criada por um ilustre médico

residente na cidade, Dr.

Eugênio Ruótulo – um idealista, um homem muito à frente de seu tempo.

Em Poço Fundo, Nilza teve um prazer especial em receber amigos de Tom e Helena. Nos fins de semana, sempre que podia, Tom fugia da cidade grande para o interior. A estrada para Poço Fundo ainda era a mesma que nos anos 1700 levava o ouro de Minas Gerais ao mar. Quando os Jobim subiam a montanha por ali, paravam num povoado chamado Pedro do Rio para comprar pão. Mais

tarde, virariam à direita e percorreriam mais de trinta quilômetros por uma estrada de terra precária, às margens da represa da Barrinha, passando pelos municípios de Contendas e Jaguara. Também

atravessaram as ruas de São José antes de finalmente chegarem a Poço Fundo.

 




Nas férias, Tom foi para Poço Fundo com Aloysio de Oliveira e sua nova esposa. A jovem

era muito simpática, mas Celso não entendia como Aloysio havia se casado novamente tão

rápido. Num momento de descontração, Celso comentou o histórico de casamentos múltiplos

e inconsistentes de Aloysio. Aloysio não pareceu incomodado. Ele disse que, pelo contrário,

era consistente.

Ele sempre se casou com mulheres de vinte anos. Quando alguém envelhecia, ele, contra

a sua vontade, tinha que procurar outra mulher de vinte anos.

Certa vez, Tom pegou carona com Ary Barroso, que viajava constantemente para sua

cidade natal, Ubá, em Minas Gerais. Falando sobre a mata e a vegetação em geral, Tom

comentou que achava estranho como havia tanta grama nas encostas das montanhas. Ary

riu da inocência do amigo. “Isso tudo era floresta profunda! Na minha juventude foi difícil

atravessá-la para chegar ao Rio de Janeiro.”

Essa foi a primeira angústia ambiental que Tom sentiu. Pensar que as pessoas haviam

derrubado uma parte considerável da Mata Atlântica só para produzir carvão e construir uma

estrada era doloroso. Para Tom, essa destruição foi inútil e perversa.

A conversa sobre questões de sustentabilidade durou tantas horas que Tom acabou

perdendo o ônibus para Poço Fundo. Na manhã seguinte, ele viajou naquela direção depois

de pegar carona com o leiteiro, que fazia suas entregas de aldeia em aldeia em sua carroça

puxada por cavalos. Finalmente cansado e divertido depois da aventura de pegar carona

em alguns passeios diferentes, Tom conseguiu chegar a tempo para a festa de aniversário

de sua esposa, Thereza, que já estava há algum tempo com as crianças em Poço Fundo.

A consciência ambiental de Tom gerou outras surpresas desagradáveis. A mata do

sudeste de Minas Gerais, chamada Zona da Mata, havia sido totalmente destruída. Hoje

ninguém entende por que um lugar chamado Zona da Mata é totalmente desprovido de

árvores. O autor Rubem Braga realizou uma grande campanha pública para salvar as

florestas de seu estado natal, o Espírito Santo. Certa vez, Tom perguntou-lhe como havia

sido sua cruzada. Ele respondeu ironicamente: “Foi maravilhoso: pavimentaram todo o




terreno!”

Como todos os caçadores conscienciosos, Tom sempre foi consistente na defesa do mar,

das florestas e dos rios. Ele guardava verdadeiro rancor da sociedade moderna pela forma

como lidava mal com as questões de poluição. Antes de a palavra ecologia estar na moda, Antonio Carlos Jobim já era um ambientalista nato.

O que ele mais odiava era o cruel hábito anual de queimar a terra.

Poço Fundo ficava em um vale estreito, por onde passava uma forte rajada. Tom

 


cunhou-o como “vento redondo”. Ele explicou que o vento colidiu contra o topo

da montanha e uma de suas asas desceu até chegar ao fundo do desfiladeiro. A

população local ainda acreditava em fantasmas. Muitos juravam ter encontrado

éguas sem cabeça, míticos meninos negros de uma perna só chamados sacis e

lobisomens. Thereza achou engraçado. Ela dizia, porém, que ali havia uma




“identidade musical” única e que seu marido era capaz de absorvê-la.

Assim que chegou em Poço Fundo, Tom começou a trabalhar. Na pequena

varanda com piso de cimento, ele se sentava numa cadeira de vime ou na rede

e tocava violão. Dali ele podia observar o sol desaparecer bem cedo atrás das

montanhas e acelerar as sombras. Garrafas de cerveja o aguardavam enquanto

eles esfriavam nas águas frias e rasas do riacho que corria à beira do jardim.

Seus dedos moviam-se sabiamente pelas cordas de seu violão: “O fim da tarde

me atinge / A sombra gigante continua vindo de longe / O final da tarde me

atinge / A noite então despenca em meu coração”.

Ele gostava de trabalhar assim: escrever música e letra ao mesmo tempo. Ele

pedia a opinião de todos ao seu redor sobre seus versos. Essa também era a

sua prática com quase todos os seus parceiros.

O amplo pasto de uma área chamada Dirindi, situada na estrada para a vila de

Maravilha, inspirava Tom com suas chuvas ocasionais. As águas que vinham de

lá de cima seguiam as sombras criadas pelas nuvens velozes e levaram o poeta

a escrever sua aclamada canção “Dindi”: “e as águas deste rio, para onde vão,

não sei”. A chuva também levou Tom a escrever vários outros títulos. Enquanto

sua mãe reclamava de vazamentos nos beirais das roseiras, Tom escreveu

peças inesquecíveis como “Chovendo na roseira” (lançado em inglês como

“Double Rainbow”), “Caminho na pedra” e “Estrada branca” (lançado em inglês

como “This Happy Madness”).

“Corcovado” (lançado em inglês como “Quiet Nights of Quiet Stars”) também

foi composto lá, embora tenha resultado da frustração de Tom com o

desaparecimento da visão do Cristo Redentor de uma das janelas de seu

apartamento. Depois de passar uma temporada em Poço Fundo, ele teve um

susto em seu apartamento na rua Nascimento Silva: um novo arranha-céu havia

sido erguido, bloqueando a vista da montanha e da estátua acima dela. Muitas

outras canções marcantes ganharam vida em Poço Fundo, entre elas “Matita




Perê” e “Águas de março”. Até a melodia de “Chega de saudade” (lançada em

inglês como “No More Blues”) ganhou vida ali e mais tarde recebeu

 


Letra de Vinícius de Moraes.

Do outro lado do rio avistavam-se povoados de áreas conhecidas como Ventania,

Morro Grande, Glória e Roçadinho. O bairro de Boa Vista ficava à direita e Cachoeirão à

esquerda. Tom buscou força espiritual no outro extremo do terreno, em direção à cerca

que chegava a um ponto chamado Pedra das Flores.

De lá subiu o Morro da Buracada com os silvicultores Narciso e Zé Rego para espreitar

a nascente do rio local. Eles também contemplavam as copas grossas das velhas árvores

dentro da Caverna Noruega, onde o sol mal aparecia. Foi um momento, também, de

ouvir os pássaros, claro.

Certa vez, Tom passou por uma experiência mística muito significativa nas



proximidades de Poço Fundo. Tinha convidado o amigo Mário (vulgo Mário Saliva) para

passar um fim de semana com ele na casa de campo. Depois, combinaram ir caçar na

cidade vizinha de Sapucaia.

A viagem, que seria longa por uma estrada de terra através de uma densa floresta

que cobria as margens das duas pistas, permaneceria uma lembrança misteriosa para Tom.

Mario, ao volante, começou a acelerar. Sentado ao lado dele, Tom começou a se sentir

cada vez mais tenso. De repente, algo aconteceu. Tom sentiu que cada elemento dentro

de seu corpo estava se soltando. Ele agora viu um farol brilhando em ravinas vermelhas,

uma árvore inteira caída na estrada e estrelas congeladas que brilhavam em um céu azul

profundo. Do nada, parecia não haver separação entre ele e tudo ao seu redor. Ele era

tudo — o facho do farol, as ravinas vermelhas, a árvore, as estrelas distantes — e tudo

era Tom. Neste momento, seu medo cessou – todo ele, dentro de seu corpo e espírito.

Não havia mais medo da morte, porque não havia mais morte. Ele estava em tudo – mais

do que isso, ele era tudo e continuaria a ser assim para sempre.

Tom costumava dizer que tal experiência tinha sido tão intensa que era extremamente

difícil expressar em palavras. Foi indescritível. Ele se sentiu alterado para sempre depois

de passar por isso e sentir outra dimensão da vida.

Outro convidado do Poço Fundo foi João Gilberto, que esteve lá no momento em que

Tom sentiu vontade de gravar um segundo disco com seu companheiro pioneiro da

bossa nova. Na subida, João ficou obcecado em seguir um caminho alternativo, que

normalmente ninguém fazia. Então ele dirigiu por uma pista estreita que não era

destinada a carros. No meio da viagem, João avistou uma jararacuçu gigante e

venenosa . Ele parou o carro, saiu e correu atrás da cobra. Ele não fez exatamente




 


observe que seu carro estava avançando e mergulhando na lama profunda. Foi necessário

um trator para retirá-lo e rebocá-lo até Poço Fundo. Foi engraçado como o carro dele chegou

coberto de lama, mas os filhos de Tom enlouqueceram quando João abriu o porta-malas e

mostrou a víbora amarela morta com lindas marcas pretas nas costas.

Tom e João passaram uma semana trancados em um quarto que havia sido transformado

em estúdio. Choveu sem parar. Eles não queriam fazer uma pausa, nem mesmo para comer.

Thereza aparecia ocasionalmente com xícaras de café em uma bandeja de ágata vermelha.

Por toda a casa, os sons de diferentes guitarras subiam e desciam. Nos intervalos, todos

ouviam as vozes dos dois músicos trocando ideias enquanto a água do rio murmurava ao

fundo.

Quando a noite chegou, os músicos dirigiram-se ao bar do Hotel do Carlinhos, localizado




na pequena cidade de São José. Lá bebiam cerveja e cachaça de barril. Na manhã seguinte, Tom pediu à mãe que fizesse canja de galinha para acalmar seu estômago.

João voltou para o Rio. Poucos dias depois, Tom recebeu uma mensagem dizendo que

Aloysio de Oliveira já havia marcado sessões de gravação para ele na cidade. Tom desceu a

montanha às pressas com toda a música do seu novo disco em papel, pronta para ser

gravada por ele e João: O amor, o sorriso e a flor. Segundo Tom, tudo nesse novo álbum “foi montado em uma atmosfera de paz e liberdade dos pássaros”.

O apartamento alugado de Tom e Thereza na rua Nascimento Silva foi inesperadamente

colocado à venda. O proprietário, que queria vendê-lo aos seus inquilinos, disse a Tom:

“Você já é muito famoso e pode comprar o apartamento.

Estou oferecendo a você por uma pequena entrada e o restante será pago em cinco anos,

com uma taxa de juros de empréstimo igual à taxa básica de juros.”

“Neste momento não tenho a menor chance de adquirir o imóvel.

A fama é uma coisa, o dinheiro é outra.”

O homem concordou: “Você está certo. Mas para ficar rico, uma pessoa precisa contrair

algumas dívidas. Então sugiro que você faça algum trabalho em São Paulo, porque é lá que

está o dinheiro deste país. Então você volta e me paga. O apartamento será seu.

Coincidentemente, Tom logo foi convidado pelo produtor Carlos Thiré para fazer um

programa semanal na rede de televisão paulista Record. Chamar-se-ia Bom Tom, um

trocadilho com o significado do apelido do maestro em português.




 


Significava “Good Tom” e “Good Tune”. Para Tom foi o início de uma história que muitos

outros músicos conheciam muito bem: os voos de ida e volta entre o Rio e São Paulo. Eles

saíam de manhã e voltavam à noite. O sucesso do programa o tornou um marco na história

da TV brasileira. Entrevistou convidados e o assunto foi música, como sempre. Vários

talentos estiveram naquele programa com Tom, incluindo Nara Leão, Ronaldo Bôscoli,

Agostinho dos Santos, Silvinha Telles, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves e muitos

outros, até Vinicius de Moraes.

Os vôos semanais eram cansativos e Tom tinha medo de voar.

Ele pediu repetidamente à mãe que “mantivesse o avião lá em cima” em suas orações. Para

evitar voar com muita frequência, ele alugou uma casa no bairro do Brooklyn, em São

Paulo. Sua irmã, Helena, o marido e a filha haviam se mudado para Guaratinguetá, pequena

e acolhedora cidade daquele estado, entre as duas capitais, São Paulo e Rio.



Durante as férias dos filhos, Thereza decidiu passar um tempo na casa da cunhada. Tom

aproveitou essa situação. Agora ele pôde seguir para Guaratinguetá depois dos programas

de TV e aproveitar o clima agradável e a tranquilidade da cidade. Ele tinha prazer em sentar-se na grande varanda da casa. Ele assistiu ao pôr do sol lento e resplandecente atrás do

bosque de eucaliptos próximo – um tipo de crepúsculo muito diferente daqueles do Rio. O

sol nasceu e se pôs abaixo da perspectiva do olho humano. Aquele colorido horizonte

ocidental sugeria a proximidade do Planalto Central do país.

Os oficiais da base aérea da cidade aprenderam e ficaram entusiasmados com a

presença de Tom na área. Todo mundo queria conhecer Tom. Paulo, marido de Helena,

providenciou a disponibilização de um piano. Tom era um homem reservado e precisava

preparar seus programas de televisão, mas eventualmente aconteceram algumas reuniões

e a casa de Helena ficou mais movimentada e festiva do que nunca.

Houve também alguma comoção na base aérea e na casa de Helena, onde o grande

violonista Baden Powell passou algum tempo com um amigo seu, que por acaso era colega

de Paulo. O telefone não parava de tocar. Tom gostou da visita do ilustre convidado, mas

também teve que conversar com vários artistas associados ao programa de televisão.

(Naquela época, Tom já estava pensando em escrever “Capitão Bacardi”, uma música em

homenagem a seu cunhado, Capitão Paulo, que adorava rum.)

Mesmo sendo socialmente extrovertido, Tom guardava seu círculo íntimo e dificilmente

falava com outras pessoas sobre seus próprios problemas. Ele possuía grande carisma e

cortejava as pessoas ao seu redor. Ele também tinha um senso de humor peculiar. Quando ele




 


pretendia ser engraçado, ele sabia como impressionar as pessoas dessa maneira. O

reduzido número de pessoas que conheceu esse lado histriônico de sua personalidade

acreditava que ele poderia ser um comediante. Parado sozinho no meio da sala, por

exemplo, ele conseguia fazer uma mímica curiosa. Aos trinta e dois anos, ele parecia ter

vinte. Esguio, a pele do rosto ainda firme e macia, ele mantinha um ar infantil.

Após doze meses de muito trabalho em São Paulo, Tom teve a oportunidade de comprar

o apartamento que alugou durante anos no Rio, exatamente como o vendedor do imóvel

havia profetizado. Agora, em vez de reclamar do aluguel, Tom começou a reclamar do

pagamento mensal da hipoteca.

Vinicius de Moraes e Tom Jobim realizaram seu segundo grande projeto com a ajuda de

Bené Nunes. Nunes era amigo do presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek. O presidente

havia pedido a Nunes que indicasse o nome de dois compositores que pudessem escrever



uma sinfonia em homenagem à inauguração da nova capital do país, que deveria se

chamar Brasília, a Sinfonia da Aurora.

Nunes e Tom decidiram os aspectos formais do trabalho. Conhecido no meio político e

amigo de Oscar Niemeyer, Vinicius ajudou a galvanizar o projeto. Tanto ele quanto Tom

acabaram viajando diversas vezes para a capital emergente enquanto suas principais

obras ainda estavam em andamento. Precisavam sentir de perto o clima daquela obra

marcante no Planalto Central.

Em Brasília, Tom e Vinicius ficaram na casa temporária do presidente, apelidada de

“Catetinho”: uma casa grande construída com madeira local. Um dos operários da

construção civil de Brasília (chamados candangos) disse que era muito difícil subir o piano pelas escadas. Ele também comentou sobre os hábitos dos dois músicos: Vinicius ficava

a maior parte do tempo dentro de casa segurando seu copo de uísque, enquanto Tom

frequentemente convidava um dos trabalhadores para sair na mata e cantar para o jaó,

uma espécie de tinamou que vivia em grandes quantidades na região central do Brasil. O

companheiro de observação de pássaros de Tom costumava comentar como ele havia

ficado impressionado com a forma como os pássaros reagiam ao chilrear de Tom.

De volta ao Rio, Tom escreveu todo o tema da sinfonia em seu Welmar, um piano

vertical. Ele compôs todas as partituras para a orquestra. Enquanto isso, Vinicius preparava

o texto. Decidiram dividir a peça em cinco partes: “O Planalto Deserto”, “Humanidade”, “A

Chegada dos Candangos”, “Trabalho e




 


Construção” e “O Coro”.

Os ensaios correram bem e a orquestra estava pronta. O coral incluía as vozes de

Os Cariocas (conhecida banda de bossa nova e jazz), as cantoras que normalmente

acompanhavam a Orquestra Severino Filho, além de Lenita Bruno e Elizete Cardoso. A

fita foi gravada nos estúdios Colúmbia, no Rio, e enviada para Brasília. Era para ser

usado em outras ocasiões oficiais após o evento inaugural.

No Planalto do país, a apresentação musical ao vivo de Tom e Vinicius encantou o

público que compareceu à inauguração da capital. Mais uma vez a parceria exibiu uma

nova era na música brasileira: a combinação de texto poético, harmonia sinfônica e

canto coral.

Nem tudo correu bem na nova capital, porém. A inauguração da cidade teria sido um

espetáculo de iluminação especial e sons inusitados. O orçamento à disposição da



comissão do governo federal responsável pelo evento havia secado. O contrato com a

empresa francesa prevista para a produção de luz e som foi cancelado e, quando Tom

esperava o pagamento, foi informado de que o dinheiro que restava não era suficiente

para seus honorários e para os honorários da orquestra. Então, ele pediu à comissão

que pagasse aos integrantes da orquestra e ficou de mãos vazias. Ele argumentou que

era necessário fazê-lo, ou nunca mais poderia contar com aqueles músicos.

Com um charme irresistível, o presidente Kubitschek foi capaz de reatar seu

relacionamento com os músicos envolvidos nas festividades suborçamentadas da

capital brasileira. Foi celebrado por eles e até apelidado de “Presidente da Bossa Nova”.

Na verdade, Kubitschek se tornou o personagem central de uma conhecida canção

escrita por um cantor-comediante chamado Juca Chaves. Para Tom, as coisas também

estavam indo bem logo após o evento de Brasília.

No final de 1961 foi eleito o melhor compositor do ano pela Rádio Jornal do Brasil do

Rio de Janeiro.

A fama ainda não implicava dinheiro para Tom, então ele ainda reclamava dos

pagamentos da hipoteca devidos todos os meses. O produtor Bené Nunes ouviu muitas

das reclamações de Tom e decidiu pedir um favor ao presidente em nome de Tom.

A Cooperativa de Crédito Federal do país, dirigida pela administração Kubitschek,

transformou o empréstimo de cinco anos de Tom em um plano financeiro de vinte e

cinco anos, um privilégio considerável no Brasil naquela época. Tom nunca mais

reclamou, pelo menos não do pagamento da hipoteca.

Na verdade, Tom logo começou a reclamar de outra coisa. Ele sentiu




 


exausto, vazio por dentro. Depois foi para Poço Fundo descansar por uma semana. Ele dormiu

muito. Ao sair da cama logo se deitou na rede.

Tom dedilhava as cordas do violão por um tempo e respirava um ar inócuo.

Um dia ele confidenciou seus problemas a Helena: “Preciso encontrar outra profissão. Não sei

mais compor. A fonte secou.”

As coisas mudaram, é claro. Muitos anos depois, quando Helena terminou um de seus

livros e sentiu que havia perdido a vocação, Tom afirmou o contrário: “A fonte nunca seca”.

Apontando para o céu, ele acrescentou: “Está tudo lá. Ir para lá é tudo o que há para fazer.

Eventualmente os pais de Tom voltaram para o Rio, vindos de Poço Fundo, com muitos

problemas para enfrentar. O avô Azor, já bastante idoso, já não aguentava mais o frio da

serra. O negócio de frango estava operando no vermelho. A ração era muito mais cara do que

costumava ser e os lucros haviam reduzido a nada. Como sempre, quem ganhava dinheiro



eram os intermediários.

Nilza e Celso alugaram uma casa na rua Barão da Torre, paralela à Nascimento Silva. A

propriedade pertencia à família de Thereza, a propriedade Otero Hermanny. Nilza escolheu

aquela casa por causa das árvores do jardim da frente.

Azor, no entanto, perdeu a visão após uma malfadada operação de catarata. Ele nunca

reclamou daquela cirurgia fracassada. Tudo o que ele disse foi: “Teria sido melhor se as

coisas não tivessem dado errado”. Ele permaneceu lúcido, com uma mente rápida e curioso

sobre tudo ao seu redor.

Imediatamente após a mudança, Nilza contratou estudantes universitários para ler para ele.

Essas jovens logo foram cativadas por sua personalidade gentil e vigorosa. Tom o admirava:

“Meu avô é o único homem que conheço que é ao mesmo tempo emocional e muito estável”.

A única exigência de Azor era manter as janelas fechadas, pois a luminosidade excessiva

o incomodava. Ele costumava sentar-se na cama com um chapéu azul com viseira cobrindo

os cabelos grisalhos e protegendo os olhos. Paulo e Elizabeth, ainda crianças, passeavam

pelo quintal da casa dos avós. Velhas e próximas umas das outras, as árvores davam-lhes a

sensação de estar no meio de uma floresta secreta.

Enquanto isso, Thereza argumentou que o apartamento deles não era mais grande o

suficiente para acomodar, ao mesmo tempo, as brincadeiras das crianças e os músicos.




 


bagunça durante os ensaios.

Então, Nilza propôs a Thereza uma troca de casa: “Você, Tom, e o

as crianças se mudam para esse lugar, e nós, Celso, papai e eu, vamos para o seu apartamento.”

O negócio foi fechado, contra a vontade dos Otero Hermannys. Eles não gostaram da ideia de

alugar qualquer propriedade para familiares. Se as pessoas não pagassem o aluguel, pensaram, seria difícil fazê-las partir.

Mais uma vez, para consternação de Tom, eles tiveram que se mudar novamente. No meio daquela comoção – com móveis e mudanças indo e vindo – Tom fugiu de tudo. Ele entrou em seu Fusca e correu para um quarto de hotel em algum lugar.

Paulo, cunhado de Tom, e Gabriel, primo de Tom, marido de Lúcia, foram quem ajudou, mas não sem reclamar com Thereza da ausência do namorado. Paulo se perguntou: “Onde diabos está seu marido?”

Gabriel, por sua vez, disse ironicamente: “Quando precisamos nos movimentar, também sentimos vontade passar um dia ou dois em um hotel.”




Mas Poço Fundo ainda exigia visitas frequentes de Celso e Nilza. Tentaram encerrar o negócio de frangos e vender uma parte das terras. Eventualmente, Azor mudou-se para a casa de sua filha Yolanda. Ele completou oitenta e oito anos e ficou bastante fraco. Sua morte veio de repente. Era a madrugada do dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, de 1962. Helena – assustada com a

notícia que recebera logo após o falecimento de Azor – acordou o marido e disse-lhe sem rodeios: “O

meu avô faleceu. .”

A morte de Azor deixou um enorme vazio. Sua ampla inteligência e compreensão da condição

humana fizeram a diferença neste mundo. Tais características o transformaram em uma força

estabilizadora e em um ser inesquecível. Sua ausência foi assimilada de maneira triste e lenta. Do nada, parecia que sua risada ecoava pela casa ou, talvez, que sua figura estivesse sentada no banco do jardim. Sua bengala, incrustada em metal dourado, ainda estava pendurada no mesmo lugar.

Durante anos, Tom costumava dizer: “Lembro-me do meu avô todos os dias”.

O Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, a zona de bares do famoso beco sem saída da Rua Duvivier, em Copacabana, viveu seu momento mais glorioso naqueles primeiros anos da década de 1960.

Berço da bossa nova, o Beco das Garrafas estava repleto de inferninhos , das inúmeras tabernas e casas noturnas que ali iam surgindo, uma após a outra, enquanto novos estilos musicais ganhavam força no país. O nome original da área em português, que significa “Bul-de-Sac das Garrafas”, foi cunhado porque as pessoas que viviam em

 




prédios de apartamentos localizados na rua Duvivier costumavam jogar garrafas

vazias pelas janelas. Por não conseguirem dormir, tentaram intimidar, com as

garrafas quebrando, todos os foliões que assistiam a shows noturnos e agora

faziam tanto barulho lá embaixo.

Naquela época “Off Key” e “One-Note Samba” já haviam se tornado sucessos

nos Estados Unidos. A Bossa Nova atingiu a maioridade. Milhões de discos foram

vendidos e frequentemente tocados em estações de rádio em novas versões

lançadas por estrelas do jazz. Algumas gravações não foram nada bem feitas, com

pouco respeito pela estrutura musical ou pelas letras dos originais brasileiros.

Esses aspectos da “febre” incomodavam e preocupavam Tom Jobim. Várias dessas

versões inglesas nada tinham a ver com as suas homólogas portuguesas. Por isso

o próprio Tom buscou a melhor tradução possível para suas composições. Esse

foi o caso de “One-Note Samba”. Ele carregava a letra no bolso e ficava perguntando

às pessoas se a tradução estava boa. As mudanças eram feitas frequentemente

quando Tom encontrava um conhecido que sabia inglês melhor do que ele.

Novos originais em português foram escritos. Em 1962 Tom escreveu a trilha

sonora de Porto das Caixas, longa-metragem dirigido por Paulo Cezar Saraceni.

Com João Gilberto, Tom também contribuiu com música para um filme italiano,

Copacabana Palace. Tom achou importante produzir material encomendado. Isso

o pressionou e ele tomou isso como experimentação e prática para outros projetos.

Ele se dedicou totalmente a cada trabalho, e isso valeu a pena. O tema principal

do Porto das Caixas passou a ser uma composição premiada. Além disso, o filme

lhe deu a chance de ter mais um título na parada de sucessos do grupo vocal Os

Cariocas - “Samba do avião” (lançado em inglês como “Samba of the Jet”), que

acabou se tornando um dos mais famosos músicas em homenagem ao Rio de

Janeiro. As muitas caminhadas de Tom de Ipanema ao aeroporto Santos Dumont

renderam aquela ode de beleza e bom gosto à Cidade Maravilha.




Sucesso nacional, a bossa nova também ingressou nos círculos que conectavam

música e política no Brasil. Funcionários do Ministério das Relações Exteriores do

governo federal (Itamaraty) perceberam que havia uma chance de promover o país

por meio daquela nova onda musical. A oportunidade chegou com Sidney Frey,

produtor musical e dono de uma gravadora norte-americana, que visitava o país

sul-americano com bastante regularidade como fuzileiro naval mercante e gostava

muito da música brasileira. Frey desejava produzi-lo nos Estados Unidos. Depois

de assistir a uma apresentação de Vinicius, Tom Jobim, João Gilberto e Os

Cariocas na boate Bon Gourmet de Copacabana, ele propôs a estes

 


artistas nada menos que um concerto em 21 de novembro de 1962, no Carnegie Hall, um

templo sagrado para músicos internacionais de destaque. Nesse ínterim, Dora Vasconcelos,

cônsul brasileira em Nova York, também percebeu o interesse dos americanos pela bossa



nova. Ela sugeriu que o Itamaraty ajudasse a patrocinar o evento, fornecendo passagens

aéreas e hospedagem para vinte e dois músicos.

Sidney Frey ofereceu um coquetel a esses músicos no Copacabana Palace. De repente,

começaram a aparecer artistas que não haviam sido convidados. Frey lavou as mãos

desse excesso, mas disse que quem quisesse subir sozinho teria permissão para subir ao

palco.

Aloysio de Oliveira ficou apavorado. Ele estava planejando um concerto excelente e

bem ensaiado. Fey, por sua vez, aparentemente pensou que no meio de tantos artistas

descobriria alguns a quem poderia oferecer contratos de gravação.

Aloysio avisou Tom que todo o show seria caótico, que o nome de Antonio Carlos Jobim

poderia ser manchado no meio musical americano. Tom estava convencido.

Ele não iria. Além disso, estava preocupado com a crise entre os Estados Unidos e a

Rússia. A situação poderá piorar devido aos mísseis instalados em Cuba. Fortes temores

de um ataque com bomba atômica o assombravam e ao resto do mundo.

Houve uma pressão enorme para que Antonio Carlos Jobim fosse para Nova York.

O escritor Fernando Sabino, amigo próximo de Tom, disse-lhe que se ele não fosse seria

considerado “um brasileiro meio estúpido e subdesenvolvido”. Durante uma noite longa e

regada a uísque, Vinicius também tentou fazer com que o companheiro concordasse em

ir.

Na manhã de 21 de novembro, o filho adolescente de Tom, Paulo, saiu cedo para a

escola depois de ver o pai na varanda — apenas sentado ali, muito quieto. Não houve

nenhuma recomendação paternal, nenhum beijo de despedida. O menino não conseguia

se identificar com o que estava acontecendo.

Minutos depois o telefone tocou. Foi o embaixador Mário Dias Costa, do Itamaraty.

Tom disse a ele que não iria para Nova York. Não houve programação estabelecida para

a apresentação. Nada havia sido ensaiado. Aquele navio iria afundar. O embaixador, por

sua vez, confidenciou que o patrocínio do governo surgiu em grande parte por causa da

música de Tom. Se Tom não fosse com o grupo, isso poderia ser interpretado como um




insulto. O golpe final do diplomata foi: “Se o barco afundar, ele não te redime, Antonio

Carlos Jobim. Você é o capitão do barco. Nesse caso, você também pode cair, com as

devidas honras.”

 


Tom acabou acatando o apelo dramático do embaixador. Thereza fez a mala de Tom e

obrigou-o a não ignorar o triângulo de poderes que norteava sua vida. Os ângulos básicos

representavam razão e emoção. O terceiro, acima dos outros dois, representava a intuição.

Sem essa última capacidade ele poderia cometer erros trágicos. Tom confiou em sua

intuição durante toda a vida. Ele sabia que um artista que não fizesse o mesmo perderia

de vista o seu impulso criativo. Ainda no táxi carioca, a caminho do aeroporto, ele refletiu sobre esse dilema.

Quando Paulo chegou em casa, seu pai não estava à vista.

Poucos dias depois, Thereza recebeu uma carta do marido, descrevendo sua




medo de voar para Nova York:

O DC-8 que peguei era lindo. Suas asas tinham garras, como as de um grande pássaro. Com eles, ela manobrou e se opôs aos ventos. Que tremendo pássaro de lata! E me senti tão sozinho no que parecia ser um avião vazio.

De San Juan (Porto Rico) a Nova York a rota é uma linha direta sobre o Atlântico.

Pois bem, duas horas depois de decolar da ilha, o pássaro (à meia-noite) começou a pular para cima e para baixo. Estávamos a 35.000 pés – e surgiu a luz: “Apertem os cintos de segurança”.

Depois disso, todas as luzes se apagaram – é isso, pensei, o fusível está queimado [sua frase é seguida pelo desenho de dois olhos arregalados]. Aí o capitão começou a falar conosco bem devagar, como se estivesse com sono (que mentira!).

“Estou com alguma turbulência… hum, hum, hum… alguns ventos fortes, aproximadamente 200 milhas

por hora… hum, hum, hum… vindo do nordeste. Vamos diminuir nossa velocidade para zumbir, hum, hum...

tornar nosso voo mais confortável.”

Disse também que os ventos estavam contra nós, o que nos atrasaria um pouco. Os sons do fluxo do jato estavam mudando, assim como a velocidade e os solavancos. Da janela, enquanto toda a cabana estava na escuridão absoluta, vi duas grossas línguas de fogo lá fora. Eles pareciam desaparecer intermitentemente no escuro, enquanto pulsavam como o coração de um pássaro vivo respirando – e emitiam os sons de uma pessoa fazendo exercício respiratório depois de correr, bem perto do meu ouvido. A diferença era que você não conseguia ouvir a inspiração, apenas a expiração: hah-hah-hah...o som e a pausa tinham quase a mesma duração. Essa inspiração era bastante ruidosa, pela boca do pássaro, e seguia um ritmo rigoroso. O som coincidiu com a descarga de fogo [frase seguida de desenho de fogo saindo de três motores].

Nesse ínterim, mil anos se passaram. A eternidade. Fechei os olhos e vi

O rosto de Elizabeth com caxumba – tão fofo, como ninguém mais.

O capitão continuou sua conversa em câmera lenta, como se estivesse de pijama listrado e sentado em uma cadeira de vime. Muitas horas depois ele nos informou que chegaríamos à região de Nova York em 15

minutos. Era como uma montanha-russa sobre trilhos de plástico [frase seguida de vários pontos.….…

sugerindo o infinito].

Finalmente aquela “área de NY” apareceu. Mil luzes, Nova Jersey, Manhattan — o grande pássaro moveu as garras, empurrando o ar, quebrando-se e caindo. Em seguida, ele rolou pela pista de pouso com as turbinas invertidas (um fenômeno com o qual eu estava muito familiarizado). Agora no meu




 


No quarto pouso do dia (Brasília – Porto de Espanha – San Juan – Nova York), as 150 toneladas daquela locomotiva aérea pararam.

“Aeroporto Internacional Idlewild…”

O resto da história foi moleza... no Carnegie Hall.

Tom chegou a Nova York poucas horas antes do início do show. Teve tempo de passar

pelo Diplomat Hotel, vestir o smoking e pegar um táxi para o Carnegie Hall. Estava

chovendo fortemente. O teatro estava lotado, porém, e outra multidão apenas esperava

do lado de fora, frustrada porque os ingressos estavam esgotados.

Tom parou por um momento antes de entrar no teatro. Ele sentiu uma aguda sensação

de isolamento. Ele não ouvia mais vozes ao seu redor. Ele também percebeu que havia

se tornado inacessível a qualquer pessoa. Suas mãos estavam frias, seu rosto lívido e

seus lábios brancos – características típicas de sua reação a emoções fortes. Ele percebeu




rostos de entes queridos refletidos rapidamente na superfície da água nesta ou naquela

poça. Ele viu a mãe sorrindo para ele e lembrou como ele havia pedido a ela, antes de sair do Rio, que “mantivesse o avião lá em cima” em suas orações.

Tom então respirou fundo e cruzou a porta do Carnegie Hall. Procurou o aconchego do

camarim e os abraços dos amigos. Não conseguiu encontrar Aloysio e não houve tempo

para mais nada. O show estava prestes a começar. Ele não tinha como voltar atrás. No

corredor ele viu alguns colegas músicos, seus conhecidos, fazendo o sinal da cruz. Tom

sentiu um desconforto sutil no estômago e uma leve náusea. Correu de volta ao camarim

e procurou o analgésico e antidiarreico que tomava há muitos anos antes de subir ao

palco: o elixir paregórico. Quando se aproximava sua vez de se apresentar, ele pediu a

Leonard Feather que explicasse que não era cantor, apenas autor de “Off Key”, que já

havia se tornado um sucesso. Devido à confusão geral nos bastidores, Leonard acabou

deixando esse aviso de lado.

À luz do desastre que Tom esperava, as coisas na verdade não foram tão ruins. Ele

tocou e cantou sob o escrutínio de Stan Getz, Lalo Schifrin e Gary McFarland. O público

ficou emocionado com a nova música brasileira. Porém, os críticos americanos tiveram

reações mistas e, no Brasil, os críticos foram cruéis – certamente por despeito de pessoas

cujos interesses não foram atendidos pelos patrocinadores e organizadores dos eventos.

Tom ficou magoado com o feedback negativo em seu país de origem. Mais tarde, ele se

perguntou: “Como a imprensa brasileira, naqueles dias, poderia escrever as manchetes

da manhã de 22 de novembro em um programa que terminara à meia-noite de 21 de

novembro, em Nova York?”




 


Tornou-se evidente que havia interesses comerciais e questões de vaidade por trás

daquele ataque aberto ao programa. Apesar da falta de força organizacional, o evento

foi aplaudido de pé.

Em carta dirigida à sua família no Brasil, ele escreveu:

Fiz bem a minha parte, sozinho no “One-Note Samba”. Essa era a única música que eu

deveria cantar, mas tive que voltar ao palco três vezes e até cantei “Quiet Nights of Quiet Stars” duas vezes. Também acompanhei João Gilberto. Os espertos críticos americanos

foram generosos, mas enfatizaram a desordem do concerto. Eles discutiram os microfones

ruins que usávamos (os bons haviam sido reservados para as gravações do Sr. Sidney Frey)

e o caos com o qual tínhamos que lidar. O teatro estava lotado e o público, incrivelmente

doce. Não tive medo (depois daquele avião, nada assusta). Parecia que muito mais pessoas

não conseguiam ingressos e ficavam do lado de fora, reclamando, com certeza.




[. . .]

Ontem (11 de novembro) a Revista Show publicou matéria favorável à bossa nova em sua seção de música. Incluía um pouco de bobagem. Mais tarde li outro artigo, do New York

Times. Eles nos atacaram. A matéria termina dizendo: “Bossa nova, vá para casa”. Isto é muito desanimador. Bom, não quero passar nenhuma crise de saudade , ficar bêbado e

depois pegar o avião de volta. Não, agora não, depois de voar esses 10.000 km.

Na mesma carta, Tom catalogou dados sobre o bairro mais famoso de Nova York:

Uma população flutuante de três milhões e meio de homens e mulheres – o que equivale à

população da nossa aldeia, o Rio de Janeiro. Só a ilha de Manhattan, porém, tem uma

população fixa de nove milhões. Os jornais anunciam um aumento na criminalidade:

homicídios, 8%; roubos, 14%; estupros, etc.… um crime por minuto. As manchetes do New

York Herald Tribune são assim: “Cuba – 340.000 soldados estão em alerta para a invasão.”

Em sua carta, Tom também comentou a trágica queda de um avião da VARIG que

voava do Rio para Lima. Pode ter havido sobreviventes, mas todos os membros da

tripulação foram mortos. No dia seguinte ao desastre, o fotógrafo e aficionado por jazz

David Zing ligou e pediu a Tom que o acompanhasse em uma visita ao hotel onde

moravam os funcionários da VARIG, em Nova York. Ele pediu a Tom que trouxesse

seu violão para tocar e animar aquelas pessoas, que então se sentiram muito infelizes

pela morte de seus colegas. Eles queriam ficar bêbados e esquecer a tragédia.

Disseram que os tripulantes falecidos eram simplesmente os melhores da companhia,

os mais amigáveis, que tocavam violão e adoravam entreter os outros. Os funcionários

continuaram dizendo: “Só os bons morrem...”

Então eles pediram a Tom para tocar para eles, e ele escreveu mais tarde:




 


Foi a primeira e última vez que meu violão saiu do case. Um dos comissários de bordo sentou-se bruscamente e quebrou tudo. Havia um capitão de olhos azuis que continuava chorando. Meu violão, meu violão querido, agora parecia um avião VARIG caído: mil lascas, pedacinhos de madeira e barbante, e o braço torcido em um ângulo impossível. Uma das mulheres pendurou-o na parede. Substituindo um

quadro, meu violão ficou ali, estilhaçado e devidamente autografado. Lá ela ficou, tragicamente linda, mas também fiquei muito triste e voltei para o hotel bastante deprimida. Acho que voltarei ao Brasil de táxi

[uma foto de um violão torto e quebrado seguiu esta frase].

Em suas cartas seguintes, Tom voltou à questão dos acidentes aéreos:

A manchete do jornal dizia: “Semana dos Desastres”:

Dezembro – Tremendo desastre em Idlewild – radar de neblina desligado.

Segunda-feira – Um avião Visconde caiu… 40 pessoas mortas.

Terça-feira — Boeing 707 caído — Sem sobreviventes. Naquele mesmo dia… mais acidentes.…E eles




listaram todos os dias da semana com um total de 300 mortes – bruxaria! Acho que voltarei ao Brasil de barco ou de charrete.

Tom viajou para Washington, DC, e de lá enviou outra atualização: “Um cisne assobiando

de cinco quilos colidiu com um avião, matando dezessete passageiros. O pássaro

penetrou trinta centímetros no estabilizador da cauda e o avião caiu. Os jornais lá do

Rio também noticiaram uma colisão, de duas aeronaves sobre o Rio.”

Poucos dias depois, o marido de Helena enviou a Tom uma edição do semanário

brasileiro Manchete, que continha um artigo e muitas fotos dos recentes acidentes. A

peça jornalística funcionou como um estudo estatístico sobre os perigos do mundo.

Thereza também ficou bastante apreensiva.

Tom continuou enviando inúmeros detalhes de tudo o que viu ao seu redor. Thereza

esperava mais de suas opiniões pessoais sobre o show no Carnegie Hall, mas em vez

disso seu marido descreveu um restaurante javanês. Ele descreveu músicos como o

saxofonista Gerry Mulligan, que ela conhecia apenas através de álbuns LP:

Estive duas vezes na casa de Gerry Mulligan até as 6h. Ele tem quase a minha idade. Ele tem uma família de engenheiros – ele também seria um. Uma noite ele prestou muita atenção à nossa música e, quando descobriu a bossa nova, adorou. Depois, ao piano, tocou todos os arranjos do álbum mais recente. Milton Banana, João Gilberto e eu cantamos junto. Seu queixo caiu quando ele percebeu que conhecíamos todas aquelas músicas e que o amávamos de verdade. (Na verdade, Gerry é tão próximo de nós que certa vez carregou o violão de João pelas ruas de Nova York.) Ele tem sangue irlandês, cabelos ruivos e aquele ouvido especial que só João Donato possui. Mais tarde improvisamos “The Girl from Ipanema”,

“Só danço samba” (lançado em inglês como “Samba Jazz”) e “One-Note Samba” – ele acertou em cheio




 


fui embora e comecei a improvisar na hora – foi lindo demais!!! Imagine só o quarteto:

João Gilberto, Gerry, Milton e eu.

Além do apelo desfavorável do crítico, “Bossa nova, vá para casa”, houve também o

alerta do sindicato dos músicos: se as pessoas tocassem profissionalmente, seriam

deportadas. Os artistas brasileiros reagiram com raiva, mas também estavam determinados

a conquistar um nicho no cenário musical dos Estados Unidos.

Tom estava passando por uma fase difícil. Ele era altamente sensível não apenas aos

desastres aéreos, mas também aos obstáculos ao longo do caminho, especialmente às

críticas negativas. Todos os artistas brasileiros que participaram daquele show estavam

sentindo dores parecidas.

Por fim, a situação tomou um rumo positivo, graças aos esforços individuais de algumas

pessoas. A tenacidade também foi fundamental para essa mudança. Tom e outros foram



convidados para fazer outro show em Nova York, no Village Gate, no dia 3 de dezembro.

Ele também fez um programa de televisão com Gerry Mulligan, e um show em Washington,

DC, no Lisner Auditorium, no dia 5 de dezembro. foi um enorme sucesso – com um ritmo

frenético, ao estilo americano. Referindo-se ao povo dos Estados Unidos, Tom afirmaria

mais tarde, em entrevista na Faculdade Estácio de Sá: “Percebi que havia muita generosidade

naquela cultura. Sem roupa adequada para aquele tempo, vi um afro-americano parar de

tocar na orquestra, vir até mim e cobrir-me as costas com o seu próprio sobretudo e depois

retomar o seu trabalho.”

Poucos meses depois da experiência no Carnegie Hall, quase todos os músicos brasileiros

voltaram para casa. Tom, porém, continuou a ser procurado por compositores e estudantes.

Tornou-se amigo de Stan Getz e de sua esposa, uma baronesa sueca. Getz adorava a

música de Tom e já havia gravado algumas de suas canções. Tom conheceu outros músicos

famosos como Charlie Byrd e Cannonball Adderley. Queriam saber tudo sobre Antonio

Carlos Jobim.

Com o espírito genuíno de “não desistir”, Tom continuou lutando para ter sucesso nos

Estados Unidos. A poetisa e cônsul Dora Vasconcelos fez tudo o que pôde para que ele se

sentisse confortável. O pianista Thelonious Monk dizia agora que a bossa nova oferecera

algo especial ao tipo de jazz apreciado pelos intelectuais nova-iorquinos: ritmo, swing e calor latino. Porém, Tom estava cada vez mais preocupado com as novas versões em inglês de

sua música.

Com João Gilberto permaneceu como hóspede do quarto 1007 do Diplomat, hotel

localizado na 108 West Forty-third Street, próximo à Times Square, que lembrava




 


alguns brasileiros do antigo e boêmio bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Ambos os

músicos convidaram suas esposas, Astrud e Thereza, para se juntarem a eles. Orgulhoso

de seu inglês, Tom pedia lentamente a chave do quarto, “Um, O, O, Sete”, até o dia em

que o recepcionista o corrigiu com um sorriso: “Dez, O, Sete, senhor!”

Em sua primeira viagem ao exterior, Thereza e Astrud agora tinham que lidar com a

neve no chão. O que eles acharam realmente estranho, porém, foi o comportamento das

“mulheres de Nova York”. Os brasileiros não sabiam, mas eram prostitutas que

trabalhavam nas ruas da Times Square. Um amigo finalmente teve coragem de avisar

Tom e João que aquele lugar não era decente o suficiente para suas esposas se

divertirem. Então todos se mudaram para um apartamento na Rua Noventa e Quatro.

Thereza não ficaria feliz de qualquer maneira, pois sentia falta dos filhos e chorava muito

nesses dias. Ela queria voltar para o Brasil, mas Tom relutou em ir embora e tentou



explicar o porquê. Ele achava que estava apenas começando a luta por seus direitos.

Ele comprou vários dicionários e aprendeu a distinguir palavras com raízes latinas de

palavras anglo-saxônicas. Aos poucos foi conhecendo a forte presença de termos latinos

no inglês. Thereza insistiu na volta deles ao Brasil, mas continuou intransigente: “Minhas

músicas também são minhas filhas. Não posso abandoná-los agora.”

Anos depois ele relembrou essa luta em entrevista aos redatores da Editora Rio :

Meu relacionamento inicial com gravadoras americanas foi difícil – era, acima de tudo, uma

questão de personalidade. Nunca fui homem de sair pela estrada vendendo minha música e

discutindo meus lucros. Pode ser um pouco doloroso para eles ter que enfrentar um brasileiro

que entra no mercado americano como qualquer artista americano faria, lutando pelo que lhe é devido.

Meu domínio da língua inglesa surgiu há muito tempo, quando eu estava na escola primária e

assistia filmes de faroeste todos os dias. E aí uns caras queriam gravar uma música minha

falando de café, banana e coco. Um dia até chorei. Então comecei a lutar pelo que era meu.

Tom agora era constantemente solicitado para shows e entrevistas em Nova York,

mas ainda não era pago por isso. Ele não conseguiu ingressar em uma associação de

músicos. Ele não foi reembolsado nem mesmo pelos royalties das gravações americanas

de suas canções. Ele reclamou disso com todo mundo até que foi autorizado a ingressar

na Sociedade Americana de Compositores, Autores e Editores (ASCAP) por meio de

Ray Gilbert, letrista americano que havia trabalhado para Carmen Miranda e Aloysio de

Oliveira.




 


Tom percebeu o potencial de Ray e o valor de suas traduções e de seus novos parceiros.

Com a ajuda de Tom, Ray foi capaz de produzir versões de qualidade das letras de Tom. Ray

propôs a Tom e Aloysio a abertura de uma editora – a Ipanema Music. Concretizou-se, sem a

participação de Aloysio. Aloysio, por sua vez, fundaria a Elenco, gravadora carioca, em 1963.

Tom também teve a sorte de conhecer o letrista Gene Lees, que se tornaria um parceiro de

destaque em outras traduções. Seus estilos de trabalho eram altamente compatíveis.

De volta ao Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de Compositores e Escritores Musicais

(SBACEM) continuou a cobrar os royalties internacionais de Tom, mas não quis pagá-lo.

Argumentaram que havia uma cláusula de compensação no contrato vinculando os direitos

das músicas americanas tocadas no Brasil e os das músicas brasileiras nos Estados Unidos.

A SBACEM explicou que o número de músicas americanas tocadas no Brasil e o volume de

receitas provenientes daquele país para os Estados Unidos eram muito maiores do que as



músicas tocadas nos Estados Unidos e as receitas que fluíam para o sul. Resultado: Tom

permaneceu sem receber.

Tom teve muito cuidado para não permitir que os negócios atrapalhassem, para não deixar

que isso consumisse seu tempo com sua música. Ele sabia perfeitamente que a criação de um

artista, para ser boa, tinha que nascer da alma, de toda a vida — profunda e apaixonadamente.

Ele costumava comentar de forma agourenta: “A vela da minha vida está queimando

rapidamente”.

Ele sabia que as omissões de um artista - quando existiam - podem ser julgadas apenas

pelas forças divinas, e que o maior pecado do artista, o único que não deve ser perdoado e esquecido, seria aquele contra o Espírito Santo: negar o próprio talento. Ele estava ciente da Escala Divina dos oito favoritos: Deus, o Filho de Deus, o Espírito Santo, os anjos, os arcanjos, os artistas, os dementes e as crianças.

Ele corajosamente trilhou o caminho do herói. Seus maiores obstáculos, o eterno desgaste

do artista pela exposição pública, foram as apresentações no palco e a crítica. Muitas vezes

ele não se saiu bem contra essas forças negativas e recorreu ao fumo e à bebida em excesso.

Ninguém deveria ousar mudá-lo ou impedi-lo. Ele aprendeu com a natureza que a música

nunca existe sem harmonia e que era seu dever seguir o caminho harmônico em toda a sua

arte e vida.

Tom começou a trabalhar febrilmente na versão em inglês de “Garota de Ipanema”

(A menina do ipanema). A dificuldade era enorme. Havia muito o que discutir com o letrista

Norman Gimble, que não quis manter a palavra “Ipanema”. Ele costumava pronunciá-lo como

“Eye-Panama”. Algum tempo depois alguém chamou de “A Garota de Ipana”. Ipana, porém,

era o nome de uma




 


marca bem conhecida de pasta de dente nos Estados Unidos. Tom ficou seriamente

preocupado com isso. Sua música nunca poderia se transformar em “The Toothpaste

Girl”. Ele buscou uma atmosfera poética e distintamente carioca para essa versão.

Ele queria que as pessoas experimentassem o sentimento universal de um homem

quando vê uma linda mulher passar por ele. Quando Tom convidou Astrud Gilberto

para gravar uma promoção para editoras musicais, ela mostrou a Norman Gimble

como Tom achava que a música deveria soar em inglês. Tom ficou muito satisfeito

com o resultado. Eventualmente “A Garota de Ipanema” se tornou a segunda música

mais tocada na face da Terra. A primeira foi uma das músicas dos Beatles. Ele ria

desse fato, dizendo: “Mas eles eram quatro”.

Sua determinação foi fundamental para conquistar o respeito pelo seu trabalho. Em

1963 foi convidado para gravar The Composer of Desafinado, Plays pelo selo



americano Verve. No Brasil, o álbum foi lançado pela Elenco, de seu amigo Aloysio

de Oliveira. Esse lançamento marcou o início do relacionamento profissional de Tom

com o famoso arranjador Claus Ogerman. Tom sempre preferiu que os arranjos de

suas músicas fossem feitos por Claus, que até o convenceu a escrever sambas em

2/2 compassos. Músicos europeus e americanos estavam acostumados a tocar nesse

ritmo e praticamente ignoraram o 2/4, em que os sambas eram tradicionalmente

escritos no Brasil.

Esse álbum tinha doze músicas de Tom - entre elas, “The Girl from Ipanema”. O

disco recebeu cinco estrelas do crítico Pete Welding. Ele declarou que gostaria de ter

mais estrelas para atribuir a esse novo lançamento. Em Down Beat ele argumentou

que a música de Tom nunca foi pegajosa ou patética, e nunca caiu no trivial ou fácil

de fazer. Eles revelaram amor pela vida e cuidado pela humanidade. Ele também

disse que os solos de Tom possuíam uma estrutura rítmica e uma clareza melódica

tão maravilhosas que falavam sem esforço ao coração humano. Welding concluiu em

sua crítica: Se o movimento da bossa nova não rendeu nada além daquele álbum, já

rendeu o suficiente. Justificou, portanto, a existência da bossa nova.

Tom tocou violão e piano durante a reprodução. Ele lutou pelo direito de tocar

piano, porque os produtores queriam manter a imagem do latino associada ao violão.

Ele não pôde deixar de relacionar o intervalo de dez anos entre suas lutas para gravar

no Brasil, em 1953, e a atual, nos Estados Unidos.

Outros produtores solicitaram sua participação no álbum Getz/ Gilberto – e isso foi

uma tarefa difícil para ele! João Gilberto acreditava que Stan não deveria se intrometer




 


no trabalho com Tom, porque Stan não conhecia samba. Porém, nos ensaios, Stan fez

muitas perguntas e, como João não sabia nada de inglês, Tom teve que traduzir tudo.

João não escondia o seu temperamento e muitas vezes dava respostas grosseiras. Tom

gentilmente suavizaria a linguagem de João durante a tradução. Diante da cara desconfiada

de Stan, João percebeu que Tom não estava fazendo um trabalho minucioso na sua

interpretação e começou a gritar com seu antigo parceiro.

No dia da gravação parecia que o João não ia chegar de jeito nenhum. Tom ligou para

o hotel pedindo ajuda de Thereza. João estava quarenta minutos atrasado e isso era uma

afronta. Todos esperaram por ele. Thereza dirigiu-se ao quarto de hotel de João e disse

que iria de táxi ao estúdio só para explicar aos músicos que ele havia decidido não gravar

mais. Quando ela chegou lá, soube que ele havia chegado poucos minutos antes dela.

Antes do lançamento do álbum Getz/ Gilberto , João viajou ao exterior para fazer uma



turnê pela Itália. Ele esteve ausente por quase um ano. Os produtores americanos lançaram

um single com “The Girl from Ipanema” que vendeu mais de um milhão de cópias.

O LP foi lançado um ano depois, por questão de marketing. Tom e Thereza, por sua vez,

finalmente retornaram ao Rio de Janeiro após uma longa viagem em navio cargueiro em

julho de 1963, após oito meses em Nova York.

Tom e Thereza estavam de volta com os filhos. Foi um reencontro festivo. Porém, sua vida

familiar logo ficaria agitada devido aos repórteres que não paravam de assediá-lo dia e

noite.

Entretanto, Tom continuou a pensar que o seu trabalho nos Estados Unidos ainda não

tinha terminado. Havia muito a fazer, na verdade: garantir os direitos autorais e a qualidade das versões em inglês de suas músicas, monitorar a inclusão de seu trabalho em shows

ao vivo e saber quem era quem e onde estar naquele mercado musical internacional.

Ainda em 1963, Tom e Aloysio de Oliveira concordaram em gravar um disco que se

tornaria um clássico antológico da música brasileira: Caymmi visita Tom.

O propósito de Tom era prestar homenagem a Caymmi, um de seus mestres. Tom sabia

como Aloysio era um idealista que sempre se esforçou para fazer os melhores álbuns

possíveis na Elenco, na gravadora de Aloysio. O ganho monetário pode não ter sido dos

melhores, mas o legado da música brasileira deve muito a Aloysio de Oliveira.

No Brasil, abril de 1964 trouxe o fim de muitas leis constitucionais. O




 


as mudanças radicais na política da ditadura militar causaram dificuldades para todos,

especialmente para os artistas. Tom, portanto, considerou voltar aos Estados Unidos para

continuar sua carreira. No dia 16 de maio ele viajou inicialmente para Nova York para

consertar diversos problemas associados ao Corcovado, sua gravadora. Sergio Mendes o

procurou com insistência para fazerem um disco juntos. Acabaram gravando Bossa Nova

York, produzida pela Elenco, com Art Farmer, Phil Woods e Hubert Laws. Frequentemente

acompanhado por Stan Getz, Tom também trabalhou no disco de Gary McFarland,

Sympathetic Vibrations. Todos esses projetos foram concretizados rápido demais para o

gosto de Tom.

Retornou ao Brasil em 30 de julho de 1964, mesmo acreditando que precisava ficar

mais tempo em Nova York. No Rio gravou Caymmi visita Tom com acompanhamento

instrumental dos irmãos Dori e Danilo Caymmi e vocal inconfundível da irmã, Nana Caymmi.



No final de 1964, Tom foi para Los Angeles, onde inicialmente se hospedou em um

pequeno hotel chamado Sunset Marquis, na Alta Loma Road. Thereza só pôde se juntar a

ele um mês depois, porque precisava passar mais tempo com os filhos. Quando ela

chegou, eles se mudaram para uma pequena casa em Norma Place, sugerida por Ray

Gilbert. Tom continuou escrevendo versões em inglês de suas músicas com ele. As letras

que resultaram desta colaboração com Gilbert tornaram-se as sementes para as gravações

que se seguiriam - as que ele fez com Andy Williams, outras com Frank Sinatra e as de

Tom sozinho.

Assim que terminou as versões em inglês de “Dindi”, “Ela é carioca”

(She Is Carioca) e “Inútil paisagem”, Ray começou a trabalhar como uma espécie de

empresário de Tom. Ele estava contando para toda a cidade que Tom estava por perto.

A casa da Norma Place sempre esteve lotada de brasileiros que tentavam seguir o

caminho de Tom no mercado musical internacional. Foi também ponto de encontro de

quem estava com saudades do Brasil, como Aloysio de Oliveira e os integrantes do Bando

da Lua, grupo que havia tocado com Carmen Miranda.

Na varanda da casa havia uma estatueta com alguns querubins. Tom costumava dizer

que aqueles eram “Roberto Menescal e sua banda”.

“Havia uma grande expectativa no ar”, contaria Thereza a Do Um, um talentoso

percussionista que aparecia e ensaiava regularmente lá. Do Um responderia que a casa

precisava de mais ação. Ele viu Tom de pijama noite e dia e sem sair de casa. Então Dom

Um disse para ela: “Thereza: queime esse pijama! Eles têm o vírus da 'preguiça'. Caso

contrário, nada




 


vai acontecer aqui.”

Thereza continuou pensando no assunto. A sogra lhe confidenciou que o pai de Tom,

Jorge Jobim, tinha esse hábito e que ela gostaria que o filho não o repetisse. E agora,

olhando para a estatueta, ela se perguntou, ironicamente: “Essa síndrome do pijama é

genética?”

A cantora Nara Leão declarou muito gentilmente: “O que o pessoal da bossa nova gosta

mesmo é de usar pijama e falar ao telefone”.

Muito trabalho naquela casa foi feito silenciosamente. Os músicos brasileiros nos Estados

Unidos sabiam que Tom trabalhava meticulosamente nas versões em inglês de suas

músicas, mas não tinham ideia do quanto esse esforço o mobilizava. Isso continuou até que

Tom aceitou uma oferta: fazer o trabalho exclusivo de gravar um disco inédito, O Maravilhoso Mundo de Antonio Carlos Jobim, com arranjos de Nelson Riddle. Tom não queria outro




compromisso e continuou de pijama. Os músicos brasileiros, porém, continuaram a assediá-

lo, incentivando-o a trabalhar com eles. Artistas americanos também o procuraram. Parecia

que todos precisavam de um emprego e pretendiam mantê-lo com a ajuda de Tom.

Uma dessas pessoas era Tião Neto, baixista e amigo de Tom, que tocava com Jack

Wilson, um excelente pianista de jazz. Eles precisavam de um bom guitarrista que morasse

em Los Angeles para gravar com eles. Tião pensou em Tom e correu até a casa dele para

tentar convencê-lo a participar do projeto. Tom recusou, argumentando que seu contrato

exclusivo para outra gravação não permitia essa parceria. Jack sugeriu que Tom poderia

usar um pseudônimo. Tião veio com uma na hora: “Tony Brasil”. Foi assim que Jack Wilson

fez um álbum maravilhoso com composições de Henry Mancini e violão de Tom Jobim.

Essa colaboração serviu como um gesto de camaradagem entre vários artistas residentes

em Los Angeles da época.

Algum tempo depois, Andy Williams convidou Tom para participar de um programa de

televisão transmitido em todo o país. O sucesso deles foi tão grande que Tom foi convidado

a voltar lá mais duas vezes. Pouco tempo depois, ele também fez uma série de shows com

Andy Williams em Lake Tahoe.

Quando o lendário compositor Dorival Caymmi chegou a Los Angeles, ele imediatamente

adoeceu com gota. Thereza cuidou dele. Quando ele tentou fugir da dieta, ela ameaçou ligar

e reclamar com sua esposa, Stella, deixada para trás no Brasil. Thereza o ajudou

incansavelmente até que ele estivesse totalmente curado.

Caymmi concluiu que Tom era um sujeito muito sortudo por ter um talento tão extraordinário.




 


enfermeira especial em casa! A única razão pela qual Tom sentia dores nas pernas, disse Caymmi, era porque ele não seguiu o conselho da esposa.

Tom convenceu Andy Williams a fazer também um programa de televisão com Dorival Caymmi,

que estava então a elaborar uma versão em inglês do seu tema “Das Rosas” com Ray Gilbert. Essa música, sucesso absoluto no Brasil, virou “And Roses and Roses” nos Estados Unidos. Tom foi

extremamente prestativo e a nova versão foi a melhor possível. Tom tinha grande estima por aquele compositor baiano, um de seus maiores ídolos musicais. Ele estava ficando nervoso com o sucesso de Caymmi, embora parecesse depender de sua ajuda. Tom sempre o acompanhava nos ensaios

até chegar o dia da aparição na televisão. Nesse ponto, os sentimentos de Tom pelo amigo eram tão fortes que era como se o próprio Tom fosse ao ar. Segundo Thereza, Tom parecia mais um noivo prestes a se casar com Caymmi do que qualquer outra coisa. Curiosamente, no dia seguinte à

transmissão, os críticos escreveram que Andy Williams trouxe para seu programa um tipo de cantor verdadeiramente masculino.

Houve ocasiões em que Tom era quem recebia ajuda daquela seleção brasileira que ocupava




regularmente sua casa. Lulu, integrante do Bando da Lua que morava há décadas em Los Angeles, ensinou-lhe coisas simples: onde cortar o cabelo por um brasileiro e onde comprar roupas, por exemplo. O baterista João Palma levava Thereza às compras no Mayfair Market.

Quaisquer que fossem seus propósitos, dezenas de artistas brasileiros passavam por aqui: as

cantoras Wanda Sá e Rosinha de Valença, o percussionista Chico Batera, a bailarina Sigrid (prima de Thereza casada com o baterista Otávio Bailly), o arranjador Oscar Castro-Neves, o cantor e compositor Marcos Valle e sua esposa, a cantora Ana Maria Valle, e assim por diante.

Quando o aniversário de Caymmi se aproximava (e ele continuava sendo um convidado regular

do Norma Place), Tom e Thereza concordaram em organizar uma festa surpresa para ele.

Caymmi era agora o “Rei da Califórnia”, apelido cunhado por seus amigos expatriados devido ao seu status popular entre eles. A festa aconteceu na casa da duquesa Irene, brasileira de origem nobre que, mesmo assim, precisou trabalhar como cozinheira para sobreviver. Sua feijoada tipicamente brasileira (caldeirada de porco e feijão preto) estava soberba. Todos os artistas brasileiros residentes na região metropolitana de Los Angeles compareceram para torcer pelo seu ídolo.

Ao contrário do seu amigo mais novo, Caymmi não gostava de pijamas, pelo menos não em Los

Angeles. Ele costumava passear pela cidade, com bastante frequência, extraindo comentários originais

 





sobre o que ele observou. Ele apontou diferenças culturais flagrantes à sua maneira

peculiar e bem-humorada. Numa dessas andanças ele e Tom foram conhecer o Oceano

Pacífico. Eles fixaram seus olhos curiosos naquele corpo de água diferente. A praia

estava aberta às ondas fortes e ao céu azul distante. Eles tiraram os sapatos e as

meias, colocaram os pés na água e logo perceberam, para sua surpresa, como estava

frio. Bastante atordoados, ouviram Nelson Riddle comentar, ao sair do oceano, que a

água estava “simplesmente deliciosa”.

Os dois brasileiros também acharam estranho como as fases crescente e minguante

da lua apareciam em lados opostos de como aconteciam no Hemisfério Sul. Mais uma

diferença estranha que notaram foi como, no Hemisfério Norte, a água da pia girava no

sentido anti-horário ao descer pelo ralo.

Na esfera doméstica, aprenderam sobre a aplicação da lei mais rigorosa praticada

no Norte. Essa consciência veio de um incidente envolvendo uma simpática velhinha

que morava muito perto da casa de Tom e Thereza. O barulho que os brasileiros faziam

a incomodava, mas ela nunca reclamou. Em vez disso, ela apenas colocou um rádio

bem alto no parapeito da janela. Uma noite, porém, ela se cansou. Na cozinha, que

ficava em frente ao quarto do antigo vizinho, Thereza e Astrud Gilberto riam

distraidamente e conversavam alto enquanto mexiam panelas e preparavam o jantar

para Lulu, Dorival Caymmi e Do Um. As mulheres não ouviram ninguém entrar na casa

até que dois policiais entraram na cozinha.

Lulu afirmou que a reunião deles foi de pessoas acima de qualquer suspeita; nenhuma

das pessoas ali queria fazer mal. Ele então pediu desculpas à polícia, que informou aos

brasileiros que o chamado de protesto veio do vizinho por causa do barulho excessivo.

Finalmente, Tom e Thereza perceberam que o rádio alto que ouviam todos os dias era

a maneira que a velha senhora tinha de bloquear o som deles.

Tom também teve que aprender a pedir arroz em restaurantes locais que não o

ofereciam em seus cardápios regulares. Um dia lhe disseram que os chefs e seus




ajudantes de cozinha preparavam aquele alimento básico latino-americano apenas para

si. Como Tom tinha a tendência de comer regularmente no mesmo lugar, ele logo

encontrou uma maneira de pedir um pedido especial de arroz puro. Os atendentes de

mesa que já conheciam um pouco o cliente brasileiro achavam graça, mas infalivelmente

traziam para ele o prato principal que ele havia pedido e uma bandeja de arroz branco

e fofo, por conta da casa.

 


Tom foi gradualmente conhecendo mais músicos americanos. Entre eles estavam Henry

Mancini, Johnny Mandel, David Grusin, Clare Fischer e vários outros nomes do jazz. Na casa

de Roy Huggins conheceu Roger Vadim, Jane Fonda, Candice Bergen e Ben Gazzara. Era

uma festa atrás da outra nos finais de semana. Em uma delas alguém lhe ofereceu maconha.

Ele recusou. Ele não usava drogas.




Espantado, o anfitrião da festa olhou nos olhos dele e perguntou: “Isso significa que você se levanta e vai para a cama sentindo o mesmo?”

O nome de Tom já era conhecido e respeitado em diversos meios artísticos dos Estados

Unidos. De vez em quando alguém dizia que Frank Sinatra tinha vontade de gravar algumas

músicas de Tom. Esse tipo de boato já circulava desde as primeiras gravações de Tom, logo

após o histórico show no Carnegie Hall. O interesse de Sinatra poderia levar a excelentes

oportunidades para ambos num futuro próximo – talvez um álbum. Naquele momento, porém,

Tom não estava livre para assinar outro contrato.

Por enquanto, Tom estava ocupado melhorando sua produção vocal por meio de uma

série de exercícios caseiros. Thereza comprou para ele um gravador para isso. Ela passou

uma noite inteira montando os equipamentos, mas Tom odiava todas as máquinas e pediu a

João Gilberto os exercícios vocais escritos que o Dr. Pedro Bloch certa vez prescreveu para

o baiano. Houve uma melhora significativa na voz de Tom após o uso do método de Bloch.

Vários convites para trabalhar vieram de Nova York em pouco tempo. Quando as gravações

de Tom em Los Angeles terminaram, ele e Thereza viajaram de trem para o leste. Tom ficou

fascinado pelas paisagens de um mundo natural completamente desconhecido para ele

enquanto o trem atravessava uma vasta parte da América do Norte. Os desertos, os

desfiladeiros, a vegetação e os falcões o emocionaram. Ele ficou hipnotizado só de enfrentar

uma nova paisagem ou outra forma de vida tão diferente daquelas de sua infância. Influenciado por todas essas imagens, ele escreveu várias canções, incluindo “Mojave”, “Antigua” e

“Takatanga”.

Como Thereza precisava voltar ao Brasil, Tom decidiu passar um tempo com Vinicius de

Moraes em um hotel em Nova York. Tom reclamou que seu colega de quarto dormia demais

e mantinha a temperatura do quarto muito baixa. Vinicius dormia com o corpo fortemente

coberto por cobertores, exceto o traseiro nu.

Tom faria a mesma travessia do país no sentido oposto, Nova York-Los Angeles, com

aquele amigo e parceiro maravilhoso, Vinicius. Tom ficou novamente maravilhado com a

oportunidade de olhar para fora do bar do nível superior do trem.

Através das janelas de vidro embaçado, ele contemplou as múltiplas paisagens. Vinícius, em




 


por sua vez, olhou para toda aquela paisagem sem o entusiasmo de Tom. O poeta

reservava o seu gosto pelo whisky que apreciava ao máximo. Vinicius revelou-se um

companheiro bastante descuidado, na verdade. Ele logo partiria para Paris, onde

permaneceu por meses, enquanto Tom tinha que continuar transportando os pertences do

amigo de hotel em hotel ou de apartamento em apartamento nos Estados Unidos.

Tom voltou para Nova York novamente. Seu horário de trabalho ali era ininterrupto.

Numa igreja transformada em estúdio gravou Um Certo Sr. Jobim, com arranjos de Claus

Ogerman. A acústica era perfeita. Tom, no entanto, temia que em sua fantasia musical

estivesse cometendo uma heresia. Após a bela peça chamada “Zíngaro”, no final da

sessão de gravação, o viola di spala levantou-se e começou a aplaudir. Ele foi

imediatamente seguido por toda a orquestra.

Em seu hotel em Nova York, Tom pediu que sua cama fosse movida de modo a ficar



com a cabeceira voltada para o norte, um antigo hábito seu. À noite, em seu quarto, ele se sentia cansado de falar inglês o dia todo. Ele então começava a dizer em voz alta várias

palavras em português. Segundo ele, isso foi “para manter as mandíbulas no lugar”. Por

exemplo, repetia diminutivos e palavras terminadas com o ditongão nasal . Uma frase de

exercício aparentemente sem sentido resultaria em “Pão, feijão, alemão, João, me dá um

cafezinho que eu estou fraquinho sentado nesse banquinho”. (Uma tradução em inglês

pode ser “Pão, feijão, alemão, John, dê-me uma xícara de café porque estou muito frágil

neste banquinho”.)

Quando Tom finalmente começou a receber seus royalties, principalmente os de “A Garota

de Ipanema”, ele estava pronto para voltar ao Brasil. Ele sustentava o antigo sonho de

comprar um apartamento na Praia de Ipanema, de onde pudesse ver o oceano cor de

safira e sentir pelas janelas o cheiro de sua essência de sal marinho.

Meses antes de voar para o Rio, porém, ele quis comprar a prancha de surf mais luxuosa

que estivesse disponível para seu filho, Paulo. Para isso decidiu ver as pessoas surfando

nas ondas de Malibu e procurar aquela prancha perfeita nas lojas do bairro. Tom relembrou

os velhos tempos em que surfava nas ondas de Ipanema e compunha “Surfboard”, música

incluída em O Maravilhoso Mundo de Antonio Carlos Jobim. Ele comprou a prancha e

depois a despachou de trem para Nova York, de onde seria trazida de barco para o Brasil.

Ao retornar ao Rio, teve a alegria de contar aos amigos a reação dos músicos da

orquestra durante a gravação de Um Certo Sr. Jobim. Livre da nostalgia, Tom percebeu

então — apenas duas semanas depois de voltar para casa — que isso




 


havia mudado em sua vida como ele a conhecia. A imprensa e outras solicitações

profissionais, bem como amigos e fãs, não lhe deram descanso. Ele entendeu que

precisaria de uma casa que lhe servisse de refúgio, de refúgio. Um dia ele selecionou

vários anúncios de jornais imobiliários e percorreu o litoral olhando aqueles imóveis só

de fora, sem nunca entrar, até que se deparou com uma casa no final da praia do Leblon.

Todos na família acharam estranho que ele voltasse tão rapidamente, dizendo que

havia encontrado a pessoa certa. Afinal, ele havia estabelecido exigências rígidas para

que qualquer casa o agradasse. Além de um cantinho bem tranquilo para trabalhar, ele

queria uma saída de emergência pela qual pudesse “fugir sem ser notado”. Como seu

filho Paulo estava aprendendo flauta, tocando violão, ouvindo Beatles bem alto ou

ensaiando com Danilo Caymmi, Tom tinha dificuldade em conciliar todos esses horários

com os seus. Na verdade, Tom conversou com o vendedor da casa por apenas cinco



minutos. Depois subiu ao sótão e percebeu que poderia usá-lo como ateliê. Ele ficou

muito feliz ao saber que a propriedade tinha três portas de entrada para duas das ruas

vizinhas. Ele decidiu que compraria a casa imediatamente. Foi apelidado de “o Navio”

por causa de seus buracos em forma de vigia na parede frontal.

Rua Codajás, 108 – esse era o novo endereço, uma casa de esquina em rua tranquila

ladeada de figueiras, ao lado do canal do Leblon. Eram árvores volumosas com copas

generosas em forma de coração que ficavam douradas quando a primavera se

aproximava. As escrituras foram assinadas no dia 4 de janeiro do ano de 1966 da Graça

de Nosso Senhor Jesus Cristo. A família Jobim mudou-se imediatamente para lá.

Não era uma daquelas casas construídas para serem vendidas instantaneamente.

Proporcionava os refinamentos de conforto imaginados por um engenheiro francês que

projetou a casa para ele morar. Tom ficou encantado com as janelas que nunca

emperravam; eles sempre correram bem em suas trilhas. O material empregado em toda

aquela construção era de qualidade superior: mármore importado, corredores espaçosos,

interruptores que comandavam com um clique as lâmpadas de todos os andares,

torneiras fáceis de usar, ampla garagem e amplas bordas do telhado.

Tudo foi planejado para o bem-estar dos moradores. Isso simplesmente fascinou Tom.

Ele odiava os estilos de casa falsamente funcionais “modernistas”, como aqueles com

pratos e xícaras quadrados, pia baixa, torneiras redondas que escorregavam das mãos

ensaboadas, corredores estreitos sem corrimão e degraus altos.

Uma casa confortável coroava agora uma fase notável na vida profissional de Tom.

Sua produção musical em meados dos anos sessenta foi absolutamente




 


fantástico. Em 1965, por exemplo, conseguiu não só compor um grande número de

títulos, mas também arranjar harmonicamente temas que carregava nas malas, de ida

e volta, em viagens incessantes. Ele acabou lançando mais de cinquenta músicas

naquele ano. Em todo o mundo, foram mais de 150 gravações de suas canções

originais. Ele costumava dizer que trabalhava mais do que merecia. Se ele estivesse

em Nova York no inverno, havia dificuldades extras: as longas horas sentado, as

caminhadas excessivas ocasionais ou apenas o frio faziam suas pernas doerem.

Suas viagens agora eram mais intensas, apesar do medo de voar, que sempre o

obrigava a pedir à mãe “para acompanhar no ar”, por meio de suas orações, “aquele

pássaro de pescoço duro”. Nesse ínterim, Thereza e Tom pediram à irmã Helena e ao

marido dela, Paulo, que passassem um tempo na casa dos Codajás, para que

pudessem ajudar na criação de Paulo e Elizabeth. Helena comprou um livro sobre



Vincent Van Gogh para dar ao irmão antes de partir em outra viagem ao exterior. Já

havia começado a desfrutar de todas as comodidades e tranquilidade do Codajás,

mas agora mais uma viagem a Los Angeles era inevitável: iria gravar seu primeiro disco com Frank Sinatra.

Poucos dias depois, ele ligou para Helena da Costa Oeste para compartilhar suas

angústias: passara a noite acordado, sentindo-se infeliz devido à miséria de seus

aposentos na Califórnia e à solidão da vida daquele famoso pintor holandês.

Os avós Celso e Nilza ajudaram Paulo e Helena a cuidar dos filhos de Tom e

Helena. O adolescente Paulo pedia muitas vezes a Nilza que o levasse à praia do

Arpoador na hora do almoço para que ele pudesse surfar. E lá foram eles no barulhento

Gordini de Nilza, um carro sem silenciador e menor que a prancha de surf que

carregava na capota. A amiga de Paulo gostou de observar a cena: uma senhora

muito bonita, de cabelos grisalhos e rosto jovem, em seu carro pequeno estacionado

na calçada, esperando o neto.

Tom chegou da Califórnia no SS Brasil com uma prancha de surf nova e um piano

de cauda japonês. Celso o ajudou a conseguir essas valiosas importações através da

burocracia. Tom demorou um pouco para escolher e comprar aquele piano. Ele agora

entrou em pânico quando viu um guindaste levantá-lo com as pernas saindo da rede

que o trouxera em segurança até as docas. Ele pensou consigo mesmo: “Lá vai… meu

piano caindo no chão”.

De modo geral, porém, quando chegava a hora de Tom voltar para casa, ele logo

relaxava e se acostumava com o estilo de vida de sua cidade, o jeito carioca. Sentindo-

se perfeitamente em casa, ele olhava e aproximava-se das pessoas nas ruas. Na sua

infinita curiosidade, ele conversou com o senhor que administrava a banca de jornal

na esquina da praia. Tom ocasionalmente pegava um banquinho e sentava ao lado dele,




 


apenas folheando uma revista. Ele também aproveitou o tempo para fazer várias perguntas

ao farmacêutico do bairro, Sr. Correia, depois de ler as instruções dos seus medicamentos.

Ele passeava pelas ruas de Ipanema com muito bom humor. Ele sempre foi gentil com

quem o reconhecia e solicitava autógrafos. Tom gostava de brincar com as moças, e todo

o resto era legal para ele naquele mesmo cenário de sua infância longínqua.

Um dia, já em sua casa no Leblon, Tom ligou para Chico Buarque e pediu que ele

passasse para ver algumas surpresas. No seu novo piano, ele ficou muito entusiasmado e

mostrou-lhe “Zíngaro”, ainda sem letra. Antecipando-se à atividade especial daquele fim de

tarde, Thereza já havia providenciado a cerveja no freezer.

Tom repetiu o tema “Zíngaro” inúmeras vezes, e muitas imagens, palavras, sons e

harmonias chegaram aos dois músicos. Naquele momento eles estavam isolados no mundo

da criação. Para Tom e Chico não havia mais nada além do mistério da criatividade e os



dois compositores viraram sábios.

Chico Buarque gravou a melodia em fita para elaborar os versos em casa. Foi a primeira

vez que eles co-escreveram uma música. Essa era a sua maneira típica de compor:

colocava palavras em melodias já finalizadas. Nesse caso, seus versos ficaram prontos em

poucos dias.

As palavras da versão definitiva são excelentes. Tom, no entanto, teve muita dificuldade

em se libertar da imagem nostálgica de um violinista cigano que inicialmente o inspirou a

desenvolver esse tema. Na verdade, aquele cigano estava ele próprio a criar raízes num

mundo estranho e a sentir saudades do seu país natal. Foi assim, no entanto, que surgiu

uma das mais belas peças do cancioneiro brasileiro com seu novo título, “Retrato em branco

e preto”.

Apesar do conforto da nova casa, o verdadeiro local de descanso de Tom continuou em

Poço Fundo, com a cerveja gelada do Joe's Market e o frango grelhado que ele saboreou

sentado na irresistível rede pendurada na varanda da casa. Seus vizinhos do interior

traziam presentes, geralmente pequenos peixes de água doce, como a piaba, o lambari ou os acarás, para serem fritos e comidos com cabeça, escamas e ossinhos. Tom teria nove horas de sono regular naquela região.

No jardim, Tom empinava pipas caseiras com a linha enrolada em um molinete de pesca.

Suas pipas costumavam subir muito alto no céu quando o vento soprava de sudeste. Ele o

considerou “o único vento forte” naquela região. O




 


O vento leste ajudou a pipa a subir muito bem, mas de repente desapareceu, fazendo a

pipa pousar nas costas do Morro do Capim Melado. Os ventos norte ou sul não eram nada

bons. Tudo o que trouxeram foi chuva, calor ou frio.

Bem cedo pela manhã ele cantava para o inhambu (pássaro parecido com o tinamou

marrom). Ele voltou seu chamado para a beira do mato, perto da fazenda do Dr. Jairão,

pelo prazer de ouvir o chilrear dos pássaros e de certificar-se de que seus ouvidos ainda

estavam bons. Ele gostava tanto daquele estilo de vida descontraído de Poço Fundo que

temia que um dia a área pudesse ser tomada por uma manada de turistas desagradáveis

que poderiam destruir tudo. Tom costumava dizer que o maior risco era que os

desenvolvedores colocassem ali mesmo um pilar de um viaduto imaginário. Sua fantasia

lhe permitiu imaginar que os viajantes naquela ponte transcontinental que liga Lima, no

Peru, a Beirute, no Líbano, parariam seus carros e urinariam em sua cabeça. A imaginação



também correu solta entre seus vizinhos. Ele os ouviu dizer que ele havia se tornado um

homem tão rico que os bancos não eram mais grandes o suficiente para guardar seu

dinheiro.

Tom, por sua vez, comentava o pragmatismo dos americanos e a forma como eles

mudavam seu nome para algo mais curto e fácil. Quando ele chegou lá, ele era “Sr. Antônio

Carlos Jobim.” Então ele se tornou “Sr.

Antônio Jobim.” Mais tarde, ele foi chamado de “Sr. Jobim.” Agora ele temia que se

referissem a ele como “Sr. Jo Bim” e, no futuro, como “Sr. Feijões." Ele riu e comentou:

“Você pode imaginar meu prazer em me tornar Mr. Beans depois de todo aquele trabalho

para ter sucesso na América?”

Tom sonhava com um roteiro ideal em sua vida: Poço Fundo–Nova York. É claro que

não ignoraria o Rio de Janeiro – a Lagoa Rodrigues de Freitas com sua iluminação e águas

sedosas refletindo o Corcovado, além de Ipanema e seus bares.

Com três andares amplos, havia condições de conforto também em sua casa em

Codajás. No terceiro andar, sob um telhado tipo mansarda, ficava o velho piano Welmar,

que havia sido transferido para lá depois da chegada do piano de cauda Yamaha. Tom

gostava de compor em meio à agitação daquela casa. Ele nunca se isolou para trabalhar –

embora não gostasse quando as pessoas simplesmente faziam seus lápis apontados e

borrachas macias desaparecerem.

Muitas vezes Paulo levava ao terceiro andar os seus próprios amigos – um grande

número deles. Os jovens agora se juntavam às gerações mais velhas, e era como se todos

os músicos e todos os outros artistas da cidade entrassem regularmente nessa mesma situação.




 


moraram em Codajás: Danilo Caymmi, Ronaldo Bastos, Paulo e Cláudio Guimarães,

às vezes Joyce, Nelson Angelo e Milton Nascimento, Geraldo Carneiro, Glauber

Rocha, Naná Vasconcelos, Maurício Maestro, Eumir Deodato, Marcos Valle,

Egberto Gismonti, Beth Carvalho, e Conjunto 004.…

Muitos deles ficavam tocando e escrevendo músicas até muito tarde. Thereza

aparecia inesperadamente. Ela pode trazer algo como sopa quente para o filho e

os amigos dele. Foi inspirado nessas noites sob a mansarda à francesa que Danilo

Caymmi e Ronaldo Bastos compuseram a música intitulada “Codajás”.

Depois de sair de Ipanema, Tom agora estava disposto a evitar o assédio

contínuo da imprensa, mudando sua rotina no bar. Passou a frequentar regularmente

o Antonio's e o Luna, e depois a Plataforma, churrascaria de Alberico Campana,

mesmo dono do antigo Little Club and Bottles, dois espaços distintos daquele bairro



boêmio de Copacabana, o Beco das Garrafas.

O reconhecimento positivo do trabalho de Tom crescia a cada dia nos Estados

Unidos e na Europa, enquanto, no Brasil, alguns críticos ainda guardavam rancor

das diferenças entre o samba tradicional (escrito principalmente nas favelas do

Rio) e a música de Antonio Carlos Jobim. . Enquanto muitos comentaristas

escreviam gentilmente sobre suas canções, outros lançavam dúvidas e se sentiam

incomodados em defender as composições de um maestro muito apreciado no

exterior.

No Rio, a nova parceria com Chico Buarque fez sucesso e os inspirou a

produzirem mais músicas juntos. Eles foram convidados a participar do Terceiro

Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro. O festival compreendeu duas

rodadas competitivas. O vencedor da primeira fase representaria o Brasil na

segunda, a rodada internacional. A música “Sabiá” (lançada em inglês como “The

Song of the Sabiá”) estava praticamente finalizada, então eles chamaram o

Quarteto em Cy, um grupo vocal de quatro mulheres, para interpretá-la. Tom foi

assistir a apresentação sozinho porque Chico Buarque estava na Europa.

Tom nunca imaginou que acabariam vencendo a competição nacional. Ele dizia

que “Sabiá” não era uma música típica de festival. Quando os alto-falantes

começaram a anunciar o sétimo lugar, o sexto, o quinto… e “Sabiá” não tinha

aparecido, seu coração começou a bater fora de ritmo. Ouviram-se o quarto, o

terceiro e o segundo títulos, e então Tom ficou surpreso: “O primeiro prêmio vai

para 'Sabiá'”. Quase todo mundo vaiou imediatamente. Foi sem dúvida o grito de

zombaria mais longo e alto já ouvido contra uma música no Brasil. O




 


A arena do Maracanã estava lotada e o público vibrava. Era difícil imaginar que para ficar

mais tempo no Brasil e participar daquele concurso ele tivesse recusado uma oferta de

US$ 25 mil de Tony Bennett para gravar, com aquela lenda americana, uma música escrita

pelo próprio Tom.

Dori Caymmi acompanhou Tom pela saída dos fundos e tentou consolá-lo dizendo que

as vaias tinham motivação política. Ao passar pelo longo túnel entre o norte e o sul da

cidade, ficou sozinho e chorou “um pouquinho”, como disse mais tarde. Ao encontrar

familiares e amigos na casa do produtor de cinema Dico Wanderley, porém, Tom ficou

furioso. Assim que Chico Buarque soube do ocorrido na arena do Maracanã voltou ao país

para se solidarizar com o companheiro e acompanhar com ele a etapa internacional do

festival. Desta vez, ambos foram intensamente aplaudidos.

A Carreta Steakhouse de Ipanema era agora um dos pontos de encontro favoritos de Tom.



A mesa que Tom costumava usar era grande e havia um lugar reservado para outro cliente

habitual, por mais tarde que chegasse às reuniões: Vinicius de Moraes. O poeta, que já era

diabético, usava insulina para aquela doença e uma espécie de dieta para o colesterol alto.

Assim que entrou naquele lugar, porém, pediu seu “whiskyzinho”, como ele o chamava. Ele

logo pedia sopa de pernil ou ensopado de tripas, e seus amigos o repreendiam levianamente:

“Vinicius, cuidado com o seu colesterol...”

Ele respondeu, em inglês: “É o Dia do Colesterol!”

Muitas vezes o Tom pediu à irmã, Helena, para irem à Carreta num encontro, só os dois.

Eles compartilhariam velhas confidências e novos problemas em um bate-papo aberto e

agradável. Na primeira vez que estiveram lá, Teixeirinha, dono da churrascaria, aproximou-

se da mesa e Tom apresentou-lhe a irmã. Ao ver aquela mulher de pele clara e olhos azuis

profundos, o homem suspeitou que Tom estava brincando. Ele pensou que ela era

namorada de Tom. "Ela é francesa?" ele perguntou. Tom achou engraçado. Ele pediu a

Helena que colocasse as mãos próximas às dele sobre a toalha branca da mesa. Suas

mãos eram idênticas. Só então Teixeirinha acreditou que eram irmãos.

Em outra noite, o renomado cineasta Glauber Rocha convidou Tom para o papel principal

de sua próxima produção, Terra em transe. Tom recusou. Seu trabalho era música, e isso já bastava.

 




O bar que mais frequentava era o Antonio's, famoso reduto de intelectuais no bairro do

Leblon. Não gostava de falar de música e, rodeado de amigos, perseguia outros assuntos.

No meio deles ele não se contentava apenas com cerveja. Ele bebia muito uísque e

fumava muito. Ele era forte. Ele não ficou bêbado nem de ressaca. Essas qualidades

provavelmente lhe causaram danos, no final das contas, pois dificultaram-lhe avaliar o que

vinha prejudicando sua saúde há muito tempo.

A vida nos bares o expôs a uma variedade de situações incomuns. O que eram histórias

engraçadas acabou se tornando contos tragicômicos devido ao alto nível de álcool no

organismo de todos. Algumas foram realmente desconcertantes, como a noite em que a

polícia entrou no local com o objetivo de capturar e prender “subversivos”. A única razão

para isso era que os intelectuais da época eram fortemente contra a ditadura militar do

governo e ainda ousavam falar sobre as suas frustrações. Então, todo mundo foi preso,

menos um deles, Carlinhos de Oliveira. Certamente bêbado, ele acompanhou os amigos

até as viaturas da polícia, gritando que também queria ir para a cadeia. Seu nome, porém,

não constava da lista de procurados e a polícia continuava afastando-o. À medida que

Carlinhos gritava, o comandante da operação ficava cada vez mais impaciente com ele.

Ele se virou para Carlinhos e disse: “Pegue um táxi e venha atrás da gente, por favor. Meu carro você não entra.

Na verdade, Tom adorava histórias sobre situações engraçadas ou complicadas. Alguns

deles ele mesmo inventou por pura diversão. Uma delas era sobre uma viagem que ele

estava fazendo para Nova York. Um grupo de sequestradores barbudos e de cabelos

compridos, que pareciam hippies, invadiu a cabine e disse ao capitão para deixar seu assento.

Eles pilotariam o avião. O piloto – um homem forte, de meia-idade, com cabelo curto –

virou-se para o bandido que ocupava seu lugar e perguntou-lhe, com um forte sotaque

irlandês (que Tom imitou muito bem): “Como você pode pilotar o avião com esse cabelo?

em seus olhos?"

Tom aprendeu com a experiência e agora adorava divulgar o seu conhecimento sobre

as diferenças entre as suas duas bebidas favoritas. O primeiro copo de cerveja foi



excelente, mas o último da noite caiu quase insuportavelmente encharcado. O primeiro

copo de uísque tinha um sabor áspero, mas o último foi bebido maravilhosamente bem.

Ele argumentou que o uísque provocava raiva em alguns bebedores, como um amigo seu,

cineasta, que desabafava sobre seus problemas conjugais enquanto dava socos no tampo

da mesa. Certa noite, o homem acabou quebrando uma das mãos. Dias depois, Tom viu

o diretor de fotografia aparecer no bar usando um

 


elenco. Todos riram quando Tom – que temia machucar as próprias mãos, já que eram suas

ferramentas de trabalho – ofereceu ao amigo uma almofada para ele usar na próxima vez que

ficasse bravo.

Em outra ocasião, Tom estava acompanhado de dois amigos, o jornalista Carlinhos de

Oliveira e o poeta Paulo Mendes Campos. Já era tarde da noite e a conversa havia caído em




trivialidades. Eles discutiram sobre a pronúncia correta da palavra “Houston”. O jornalista, só para contrariar os demais, fez questão de dizer que o sotaque do poeta estava errado. Paulo

ficou tão furioso que pediu a Tom que ligasse para sua esposa, Joan, que era britânica. Ela saberia. O poeta era do tipo que se irritava facilmente quando bebia demais. Ele disse que

daria uma surra em Carlinhos se o jornalista não tivesse razão. Tom não gostava de brigas.

Ele se sentiu terrivelmente estranho, mas acabou ligando para Joan. Quando desligou, ele

ainda tentou fazer as pazes. Ele disse cautelosamente: “De acordo com Joan, parece que

Paulo estava certo…”

Carlinhos não esperou. Correu como uma bala pela calçada, mas Paulo não ficou muito

atrás. Os dois homens bebiam muito e fumavam, então logo ficaram sem fôlego. De vez em

quando eles começavam a correr de novo, só para ficarem sem fôlego mais uma vez, pararem

e depois se encostarem em uma árvore ou em um carro perto do meio-fio. Então, eles

amaldiçoavam um ao outro, enquanto Tom andava atrás deles.

Depois de um tempo, Tom gritou: “Já chega! A luta acabou. Declaro empate.”

Era hora dos três voltarem para casa e cuidarem de si mesmos.

 








 

Dificuldade

AS HOSTILIDADES TINHAM UM IMPACTO PROFUNDO em Tom. Um importante

jornalista que certa vez estava muito bêbado tarde da noite começou a dizer que o pai

de Tom havia cometido suicídio. Isso foi doloroso o suficiente para Tom, e ele decidiu

procurar informações sobre o verdadeiro fim da história de vida de seu pai. Durante

vários anos ele carregou dentro de si aquela dúvida dolorosa. Muitas vezes foi ao

hospital do Dr. Eiras. Tom pesquisava arquivos e perguntava sobre seu pai ao encontrar

médicos que poderiam tê-lo conhecido ou tratado. Foi suficientemente confortável para

Tom ouvir de sua mãe que seu pai não havia se matado. A família Jobim, que vivia

quase inteiramente no Rio Grande do Sul (estado mais meridional do país), afastou-se

ainda mais após a morte de Jorge e o segundo casamento de Nilza.

Foi o sobrinho de Jorge (e, portanto, primo-irmão de Tom), Dr. Raul Bittencourt,

psiquiatra e psicanalista, quem esclareceu a história. Por coincidência, aquele médico

era estagiário naquele hospital onde e quando Jobim estava internado. Ele poderia

dizer a Tom que os remédios que seu pai tomava para a depressão eram muito

poderosos e acabavam prejudicando seu coração. O médico confirmou o relato de

Nilza. Jorge morreu enquanto dormia após uma injeção de morfina que causou

insuficiência cardíaca. O próprio Raul foi chamado às pressas. Ele tentou salvar seu tio

por meio de reanimação cardiorrespiratória, sem sucesso.

Uma curiosa reviravolta do destino foi como Tom, em sua busca solitária por

informações sobre Jorge Jobim, descobriu que o pai daquele jornalista bêbado havia se

matado.

O fantasma do pai de Tom voltou para intrigá-lo em diferentes fases da vida. Desde

criança, Tom ouvia falar de uma meia-irmã mais velha, fruto de um relacionamento que

seu pai tivera antes de se casar com a mãe de Tom, Nilza. Mais tarde, ele recebeu uma

carta de um ator que afirmava ser seu meio-irmão paterno. Nilza ficou sabendo e

percebeu que o ator se parecia muito com Jorge. Entre os filhos de Jorge, aquele




homem era o que mais se parecia com o pai. Era uma situação nova para todos na

família. Helena estava curiosa para conhecer aquele meio-irmão, mas Tom

aparentemente não.

Em outra noite no Antonio's, Tom foi apresentado ao famoso jornalista esportivo

João Saldanha. Para surpresa de Tom, João declarou que era seu primo.

Seu nome completo era João Jobim Saldanha. Sua mãe era, portanto, Jobim. Desde

 


Tom continuou a ter pouco contato com o extenso clã Jobim, João passou a revelar os

traços pessoais dos mais próximos. Ele deu palestras sobre o alto nível geral de

inteligência entre os Jobim. O que foi surpreendente para Tom ouvir foi que no sul do

país as mentes inteligentes daquelas pessoas eram bem reconhecidas, mas também o

eram as suas doenças mentais. Eles não podiam viver em nenhum outro lugar a não ser

em hospícios, pois eram basicamente loucos.



Em casa, os problemas estavam se formando. Thereza não concordava com o estilo de

vida do marido. Ela se sentiu sozinha. Ela não bebia nem fumava e estava cansada de

segui-lo à noite. Nas festas privadas, as pessoas sempre o convidavam para tocar, e

mulheres atraentes cercavam seu piano, caindo de pernas para o ar.

Thereza permanecia sentada tranquilamente no sofá. Eles se separaram dessa maneira.

Preocupada com seu casamento, ela iniciou a psicanálise. Ela se ressentia do fato de

seu marido só trabalhar bem nos Estados Unidos. O Brasil, para ele, havia se tornado

um bar gigantesco.

Thereza o incentivou a fazer análises também. Eles eram felizes e se amavam muito.

Suas pequenas diferenças, comuns a todos os casais, logo foram deixadas de lado. Ela

tentou convencê-lo de que ele foi duramente atingido pela angústia que incomodava

tantos outros artistas, e que ele poderia lidar com suas tristezas de uma maneira muito

melhor se o fizesse por meio da psicanálise.

Após alguma resistência, Tom decidiu procurar um psicólogo. Por acaso, num bar,

conheceu um também escritor talentoso: Hélio Pellegrino. Por algum tempo eles

continuaram conversando e bebendo. Aí o Hélio disse: “Esse não é um bom lugar para

a gente fazer análise”.

“Então vamos para minha casa”, sugeriu Tom.

Trancaram-se na sala e continuaram bebendo uísque por horas a fio. Já quase

amanhecendo, Tom acordou Thereza e a convidou para participar da conversa. Hélio

queria que ela lhe contasse por que achava que Tom deveria fazer análise. Ela começou

a explicar que, por causa de sua infância tumultuada, Tom muitas vezes a confundia

com a própria mãe. Ele então esqueceria que ela era simplesmente sua esposa.

Hélio e Tom beberam muito e a madrugada estava prestes a romper. Tom de repente

pareceu deprimido. Hélio levantou-se para sair. Tom o levou até o portão.

Thereza ficou quieta na porta da frente e viu os dois homens sentados num dos degraus

da varanda. Hélio abraçou Tom, dizendo: “Acho que você precisa mesmo de psicanálise...

eu bebo e fico feliz. Você bebe e fica triste.




 


Entre vários outros profissionais recomendados por Hélio Pellegrino, Tom acabou

consultando a Dra. Catarina Kemper. Como era de se esperar, o tratamento de Tom foi

único — nada ortodoxo. Ele se abriu rapidamente com seu terapeuta alemão, um médico

famoso que morava em São Conrado. Ela recebia seus pacientes em sua própria casa.

Era um lugar isolado perto da mata com vista para o mar. Ela tinha um grande jardim e

dois cachorros grandes. Ele faria cinco anos de análise com ela.

Logo no início da primeira sessão, quando ele se abriu sobre os seus problemas,

Catarina o interrompeu: “Uma coisa é entender os seus problemas de forma racional.

Outra coisa é passar por eles emocionalmente.”

Seria isso?

Tom não se deitou no tradicional sofá freudiano. Na melhor das hipóteses, ele ficava

sentado em uma poltrona alertando sua terapeuta sobre os riscos que ela e ele corriam



por causa das vespas que haviam invadido o consultório onde se encontravam e por

causa das cobras que poderiam estar escondidas nos galhos e arbustos que cresciam

selvagens no local. os canteiros de flores do jardim.

Tom não era tímido na casa do Dr. Kemper. Muitas vezes ele nadava na piscina

daquela casa durante as sessões. Ela o seguiria ao longo da beira da piscina. Ela andava

de um lado para o outro tentando dedicar o máximo de tempo possível às suas perguntas

e fazendo todo o possível para que ele se questionasse. Se estivesse com fome, iria até

a cozinha do analista e fritaria um ovo.

Nesse ínterim, o Dr. Kemper tentou convencer Tom da conexão direta entre seu terror

por cobras e algumas de suas fantasias. Ela também argumentou que as vespas não

picavam a menos que fossem perturbadas. Em vez de procurar soluções para os seus

dilemas, ela apenas analisou aqueles “medos infantis”, como ela disse. Outro cliente dela

acreditava que Tom havia trazido algum soro antiofídico, só para garantir. Como Tom

havia profetizado, vespas atacaram o analista e uma das pacientes foi picada por uma

cobra que estava escondida debaixo de um dos carros.

Um dia, quando Tom chegou à casa da Dra. Kemper para outra sessão, ele notou uma

placa de “vende-se” na frente de uma casa ao lado da dela. Ele parou o carro e logo foi

recebido pelo dono da casa. Perguntou sobre o preço do imóvel, se as janelas abriam

para leste ou para oeste e de onde vinham os ventos. Assustado, o homem olhou para

Tom, pensando que aquelas não eram as perguntas habituais que se esperaria de

potenciais compradores. Cansado, ele confidenciou a Tom que queria vender sua casa

porque seu vizinho era um velho estrangeiro que, depois das seis da tarde, corria ao redor

da piscina usando roupas muito curtas.




 


roupas, seguido por dois cachorros que latiam incessantemente. A cena era frequentemente presenciada por toda a sua família, e ele já estava com vergonha de abrir as janelas.

Apesar das objeções daquele vizinho, o Dr. Kemper e Tom permaneceram amigos para sempre.

Ray Gilbert visitou novamente o Brasil. Ele e Tom dissolveram a parceria comercial de uma forma que deixou Celso e Nilza chateados. Gilbert voltou aos Estados Unidos como único proprietário de sua editora.

Na verdade, todos os erros comerciais de Tom pareciam ser repetidos por músicos brasileiros que também trabalhavam no exterior. Eles acreditaram na maneira de Tom administrar seus ganhos e todos acabaram perdendo.

Para Tom, uma nova grande oportunidade nos Estados Unidos estava prestes a começar quando o

telefone tocou no Veloso's Bar, num final de tarde. As pessoas ligaram para Tom e avisaram que era um homem falando inglês. Tom atendeu e do outro lado estava Frank Sinatra. Ele explicou que alguém na casa de Tom lhe dera esse número. Sinatra convidou Tom para gravar um álbum com ele, se estivesse disponível. Profundamente emocionado, Tom disse que estava planejando uma viagem para Los Angeles.

A resposta de Tom foi enfática: “Sua decisão é uma ordem”.




Eles fixaram datas e marcaram compromissos. Todas as despesas foram por conta do Sinatra.

Quando Tom voltou para sua mesa e contou aos amigos que acabara de conversar com Frank Sinatra, ninguém acreditou nele. Eles pensaram que era uma piada. Mais tarde, quando puderam absorver a notícia, houve uma pequena comoção no bar. Nunca uma pessoa de tanta importância ligou para aquele bar. Era um lugar modesto que aos poucos foi se tornando famoso por causa da presença de Tom.

30 de agosto de 1966, Los Angeles. Antonio Carlos Jobim foi hóspede do Sunset Marquis Hotel. Após a chegada de Tom, Frank Sinatra permaneceu muito ocupado e adiou a gravação. Sinatra disse a Tom para não se preocupar com os ensaios, sugerindo que Tom viajasse um pouco para descansar a voz. Sinatra explicou que, então, quando Tom voltasse, eles gravariam. Tom tinha seus medos, entretanto. Ele queria que o álbum fosse perfeito. Seria uma excelente perspectiva se Sinatra cantasse algumas músicas assinadas por Antonio Carlos Jobim.

Enquanto esperava, Tom trabalhou com Claus Ogerman, o arranjador do futuro disco. Satisfeito com a escolha, pois admirava muito o trabalho de Claus, Tom pediu um baterista brasileiro para o projeto: Do Um. À noite era hora do bar e Claus

 


estava sempre pronto para se juntar a ele. Eles se tornaram amigos íntimos.

Thereza veio para Los Angeles para ficar com ele. Enquanto esperavam o início




das gravações, chamaram o filho adolescente, Paulo, para ficar com eles. Nesse

período, Tom compôs “Wave”, com ajuda de Paulo na letra, e “Triste”

(Triste). Ele também pediu ajuda a Rosinha de Valença, para dominar seu ritmo

incomum de violão. Depois de um esforço exaustivo para aprender a técnica,

acabou escrevendo uma música sobre essa batida. Chamava-se “Batidinha”.

Junto com "Wave" e "Triste" foi incluída em um álbum solo que refletia muito bem suas impressões sobre Los Angeles, o Wave de 1968. Quando o projeto de

gravação com Sinatra finalmente começou, Paulo voltou ao Brasil.

O trabalho foi realizado no melhor estúdio disponível, com técnicos e músicos

escolhidos a dedo pelo produtor de Sinatra. Muitas pessoas queriam assistir a

essas sessões. Mas, além da equipe e dos artistas, ninguém além de Thereza e

Aloysio de Oliveira, amigo de Tom, pôde entrar. O maior cantor dos Estados

Unidos não queria mais ninguém por perto. Nada poderia dar errado.

Tom estava certo sobre lutar pela qualidade superior das versões em inglês de

suas canções, e agora se lembrava de sua conversa com um editor musical de

Nova York que duvidava dos sonhos de Tom de grandes realizações. Tom tomou

a atitude correta seguindo sua intuição.

Em 1967 o álbum Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim vendeu como

ninguém: sucesso total de crítica e público. No final daquele ano, Sinatra o

convidou para seu programa de televisão na NBC, que foi gravado em Nova York

e transmitido para todo o país. Tom teve a satisfação de tocar e cantar com Frank

Sinatra e Ella Fitzgerald. Na verdade, Sinatra abriu o show com uma versão de

“Quiet Nights of Quiet Stars”.

Mais uma vez, antes do final de 1967, Tom voltou a Nova York para gravar

Wave. O estúdio era o mais bem equipado e impressionante que ele já vira na

vida. Ele já esteve lá antes para gravar O Compositor do Desafinado, Plays.

Tom duvidava que as instalações realmente pertencessem a um estúdio de

gravação, pois ficava em uma casa magnífica em Nova Jersey, no centro de um

terreno enorme e com um jardim maravilhoso. No estúdio Rudy Van Gelder, a



acústica era perfeita. Cada músico gravou em uma seção diferente da sala

acarpetada, dividida por divisórias com biombos que impediam que o som de um

instrumento interferisse nos demais. Rudy não permitia a entrada de estranhos.

Usando luvas e sentado em uma cadeira giratória, ele se movia muito rapidamente

de um lado para outro enquanto coordenava sozinho tudo o que podia.

 


O trabalho estava indo bem. Tom gravou pela primeira vez sua música influenciada

pelas paisagens da Califórnia: “Mojave” e “Antigua”. Ele tocava violão, piano e cravo. No

entanto, ele cogitou suspender todo o projeto de retorno ao Brasil quando estourou a

Guerra dos Seis Dias entre árabes e israelenses. A imprensa americana não escrevia

sobre nada, exceto sobre aquela guerra. Infelizmente, Tom compartilhou seu protesto com

Thereza: “Agora que tudo estava indo tão bem, essa guerra tinha que acontecer!”

No meio de toda aquela ação no estúdio, Tom não apenas fumava e bebia café em



excesso, mas também sentia fome com frequência e pedia sanduíches de presunto defumado.

Como esperado, os músicos comendo sanduíches por todo o estúdio fizeram uma bagunça.

Rudy confidenciou a um amigo que a única razão pela qual ele permitiu comer e beber em

seu ateliê foi porque o homem no centro disso era um gênio como Antonio Carlos Jobim.

Em novembro, Tom voltou ao Brasil e contou à família (com algumas ressalvas) que o

frio o incomodava muito. Suas pernas doíam e ele mancava quando nevava. Ele consultou

muitos médicos no Rio. Ele carregava por toda parte sua pilha de radiografias antigas e

novas da coluna, tiradas desde aquele dia de sua juventude, quando ele sofrera uma

grande queda na praia. Ele acreditava que a dor nas pernas era resultado daquele

ferimento. Sem querer, ele influenciou seus médicos a explorarem nada além dessa

suposição.

Em 1969, um segundo álbum com Sinatra foi arranjado: Sinatra & Company. Como antes, Sinatra adiava continuamente as sessões de gravação e Tom aspirava a fazer outro disco

impecável. Certamente seria mais uma excelente oportunidade para o cantor e compositor

brasileiro. Enquanto esperava para começar, Tom passou algum tempo com músicos

americanos que queriam conhecê-lo.

Tom ficou hospedado no vigésimo andar de um grande hotel no centro de Los Angeles.

Como sempre, ele foi para a cama e acordou tarde. Num daqueles dias, quando o sol já

brilhava bem alto no céu, ele acordou pensando que tinha acabado de sair de um pesadelo.

Em seu quarto, escurecido pelas cortinas fechadas, sentiu a cama tremer. Assustado, ele

se levantou. Ao abrir as cortinas grossas percebeu que a água da piscina era ondulada e

o deck ao redor parecia bastante molhado.

Ele não entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Só quando ele se sentou na

cama e viu o lustre balançando para frente e para trás é que ele percebeu: era um pequeno

terremoto. Ele se dirigiu à porta de saída e encontrou um manual de instruções sobre o

que fazer em caso de terremoto. Para o seu




 


consternação, a única sugestão que tiveram foi que o hóspede ficasse no batente da

porta do quarto.

Sinatra ligou para Tom e o convidou para ficar alguns dias em sua casa. Ele também

queria saber se Tom tinha alguma música nova para um álbum. Tom respondeu que

tinha “apenas” 140 músicas novas para serem gravadas. Houve um breve momento de

silêncio ao telefone, mas Sinatra logo pediu para ver as partituras e ouvir as fitas, para

poder selecionar e familiarizar-se com as músicas. Dias depois, porém, sempre que

Tom tocava no assunto da gravação do álbum, Sinatra invariavelmente respondia em

espanhol: “Empesaremos mañana” (começaremos amanhã). O dia seguinte chegaria

e nada aconteceria. Tom apenas teve que esperar.

Ocasionalmente, Sinatra levava Tom para seus próprios shows em Las Vegas.

Usaram o avião particular de Sinatra. Ele apresentou Tom ao público como “o grande



compositor das Américas”. Sentindo-se estranho, Tom se levantava para agradecer ao

público pela ovação.

Numa dessas noites, Tom, que ainda tinha medo de voar, aceitou uma carona de

volta de carro de um amigo brasileiro, Carlos Sães, para a casa de Sinatra em Palm

Springs. Na descida começou a nevar e os dois brasileiros se perderam em estradas

secundárias desconhecidas. Se ficassem sem combustível, corriam o risco de morrer

no frio. Tiveram a sorte de encontrar um posto de gasolina, onde foram informados

sobre como continuar a viagem. O gerente do posto de gasolina os repreendeu e os

chamou de lunáticos.

Mais tarde, Tom descreveria a casa de Sinatra como um lugar maravilhoso. Ao redor

daquela mansão, num gramado muito verde, havia vários bangalôs para hóspedes.

Sinatra e Mia Farrow provaram ser excelentes anfitriões. As vistas eram soberbas e o

clima, simplesmente perfeito. Montanhas cobertas de neve podiam ser vistas ao longe

e, ao cair da noite, era necessário vestir roupas quentes.

Tom estava interessado em saber como Sinatra havia encontrado esse paraíso.

Ele explicou que tinha sido muito fácil. Ele ligou para um amigo seu, que era corretor

de imóveis, e pediu-lhe que encontrasse um terreno que fosse grande o suficiente para

a construção de seis casas. Eles devem estar longe o suficiente para que uma pessoa

em qualquer um deles não consiga ver nenhuma outra casa da propriedade. Na

verdade, seis amigos compraram juntos aquele mesmo terreno. Além disso, a

temperatura mais baixa daquele local especial não deve ser inferior a 45 graus e a

mais alta não pode ultrapassar os 82 graus. O negócio todo foi muito simples para Sinatra.




 


Os ensaios finalmente começaram depois que os dois músicos concordaram que o

brasileiro Eumir Deodato faria os arranjos. Para surpresa de Tom, Sinatra já havia

memorizado todas as músicas que escolheu e já sabia cantá-las. Os ensaios foram

rápidos e rigorosamente disciplinados. Os músicos eram excelentes profissionais e não

havia ninguém para incomodá-los no estúdio. Para alegria de Tom, tudo correu bem.

Ao retornar ao Brasil, ele ficou preocupado com os acontecimentos sinistros que se

desenrolavam em seu país. De fato, ele passaria por momentos sombrios naquele ano

de 1970. Em protesto contra a censura imposta pelo regime militar, boicotou o Quarto

Festival da Canção. Vários outros cantores e compositores fizeram o mesmo, incluindo

Chico Buarque, Marcos Valle, Sérgio Ricardo e Edu Lobo.

A polícia política acabou por prender Tom, para que fosse interrogado sobre assuntos

“subversivos”. Seu telefone estava grampeado e seu e-mail era rotineiramente violado.



Quando ele estava nos Estados Unidos, suas cartas para a família (e vice-versa) só

conseguiam chegar ao destino com a ajuda dos amigos que as entregavam em mãos.

Mais tarde ficaria sabendo que vários outros artistas (Vinicius de Moraes, por exemplo)

haviam passado pela mesma provação.

O respeito de Tom pelos Estados Unidos era cada vez mais profundo – um país que

recebia calorosamente e sem preconceitos artistas que vinham de todos os cantos do

mundo. Ele já se sentia um cidadão do mundo. Suas viagens para lá tornaram-se mais

frequentes do que nunca – algumas rápidas e outras mais prolongadas. Preferiu viajar

para o Hemisfério Norte quando era possível evitar o frio mais intenso, pois as dores

nas pernas pioravam gradativamente.

Nessa época, em suas viagens a Nova York, ele se hospedava no antigo e famoso

Adams Hotel, próximo ao Central Park. Quando voltou para seu alojamento tarde da

noite, suas pernas doíam insuportavelmente durante a curta caminhada do táxi até a

porta da frente, mas ele ainda não sabia de seus graves problemas circulatórios.

Sentindo pena da agonia de Tom no frio, o porteiro porto-riquenho o cumprimentava

em seu inglês com sotaque: “Sr. Jobim, vá para casa! Este é o país gringo!”

Quando voltou ao Brasil, se viu pressionado a comparecer a eventos que preferia

não ir. Eram festas nas quais ele não conhecia ninguém.

Nessas ocasiões, ele se sentia como se fosse um estrangeiro em seu país natal, mas,

uma vez que se tornaram história, ele inventou histórias divertidas sobre eles para

contar à família e aos amigos. Um deles dizia respeito a uma elegante celebração

numa casa que exibia na parede uma impressionante coleção de armas de caça. A anfitriã notou




 


O interesse de Tom nessas armas. Ela então colocou um especialmente raro em suas

mãos para ele ver em detalhes. Entretendo-se com isso, Tom se assustou quando de

repente disparou - e ele contou essa história com a expressão mais séria no rosto -

matando um dos convidados. A senhora chique cobriu discretamente a boca com uma

das mãos e comentou com leve angústia: “Que gafe, Tom!”

Ele continuou aproveitando as comemorações de Natal e Ano Novo no Brasil como

fazia na infância. Então ele estava muito envolvido e perfeitamente confortável com as

tradições. Ele raramente tinha uma piada para contar, mas adorava compartilhar aquelas

histórias que ele mesmo inventava. Na verdade, ele os repetiu inúmeras vezes enquanto

mudava sua maneira de narrar cada trama. Quando faltavam poucos minutos para o Ano

Novo, ele nunca se esquecia de comer uvas, assim como sua mãe lhe dissera para fazer,

para garantir a prosperidade.



As idas e vindas de Tom não tinham fim. Gravou o álbum Tide in New York, com arranjos de Eumir Deodato. Incluía algumas músicas novas que ele havia escrito naquela cidade.

Em junho de 1970, gravou também em Nova York o disco intitulado Stone Flower. Eumir

Deodato ficou mais uma vez encarregado dos arranjos, e o álbum se tornou um dos

lançamentos mais importantes de Tom.

Ele se afastou da bossa nova e criou muitas músicas que abriram novos caminhos

composicionais. Algumas delas contribuem para as faixas marcantes de Stone Flower:

“Olha Maria”, “Choro” e “Quebra pedra”.

(Quebra-pedras).

Tom foi convidado para compor a trilha sonora de um longa do diretor Lewis Gilbert

intitulado Os Aventureiros. Ele aceitou o trabalho e logo depois convidou Thereza para

acompanhá-lo em Londres, onde aconteceria a gravação. Ela levou os filhos junto, um

presente especial que Tom e Thereza podiam desfrutar agora, mesmo que fosse de forma

econômica. Mãe e filhos embarcaram em um navio de carga fria com confortáveis cabines

de passageiros.

Na primeira noite da viagem, o tripulante que recebia todos os passageiros na porta do

refeitório deu as boas-vindas aos Jobim. Assim, Thereza e Paulo entraram no salão de

braços dados. No dia seguinte, pela manhã, Thereza percebeu um certo desconforto

entre ela e os demais passageiros. Ela logo perceberia que a haviam confundido com um

puma, alguém que se casou com um homem tão jovem e bonito.

Antes de chegar a Londres, o navio atracou em Lisboa e fizeram um rápido passeio

por alguns pontos turísticos. A próxima parada foi Rotterdam, na Holanda,




 


onde o navio teve que permanecer mais tempo no porto para descarregar. Aproveitaram

a oportunidade para pegar um trem para Amsterdã e visitar o Museu Van Gogh. Eles

se reuniram com o compositor Ronaldo Bastos, que se tornou mais um integrante da

comitiva de viagens. Juntos, pegaram o trem de volta para Roterdã, o “Trem Azul” que

ficaria famoso pela canção de Bastos baseada justamente naquela viagem marítima na

Holanda.

Quando finalmente chegaram a Londres, Tom cumprimentou-os calorosamente e

mostrou-lhes a casa que a equipe de produção do filme alugou para eles em Tedworth

Square, 42, SW3, perto de King's Road, em Chelsea. No térreo ficava o estúdio; no

andar seguinte, sua nova casa. Porém, Tom reclamava constantemente da casa. Ele

disse que era como uma geladeira. Ele passou o máximo de tempo possível perto da

lareira. Dormia com pijama de flanela e um roupão de lã sob cobertores pesados.



Quando teve que descer para chegar ao estúdio, reclamou do frio que sentia.

Enquanto isso, Paulo curtia as minissaias e os hippies, as novidades da época. Ele

olhou, um tanto surpreso, para roupas tão estranhas e cabelos despenteados. Ele

estava curioso sobre aqueles indivíduos exóticos. Elizabeth, por sua vez, não saía muito

e preferia ficar em casa desenhando.

Os cantores e compositores baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, exilados na

Inglaterra pelos ditadores militares em seu país, reservaram um tempo para visitar Tom

e sua família. Eles vieram com suas respectivas esposas e foi um momento de muita

emoção para todos. Tudo o que conversavam era música. Ninguém mencionou nada

sobre seu exílio político. No entanto, a difícil situação que viviam pairava no ar. Apesar

da situação difícil, Gilberto Gil exibiu enorme vitalidade e Caetano Veloso parecia

tranquilo. Como sempre, Thereza foi até a cozinha preparar a sopa da noite para os

convidados – dessa vez com o único ingrediente que tinha na casa deles: couve-flor.

Quase todos os dias, Tom conversava com Chico Buarque ao telefone. Ele estava

exilado em Roma. Suas conversas eram intermináveis. Um dia eles concordaram em

se encontrar na Itália assim que Tom terminasse sua gravação em Londres. Porém,

como Thereza exigiu isso, Tom e sua esposa foram primeiro para Paris e essa viagem

ocorreu seis meses depois daquele telefonema.

Enquanto estavam na Cidade Luz, eles sempre iam ao mesmo restaurante, L'Aussac

à Paris, e Tom pedia a mesma comida, escargots e bife au poivre.

A única coisa que queria era ver Chico Buarque. Thereza se rebelou contra esse estado

de coisas. Ela ansiava por ir aos museus, passear e




 


conhecendo a cidade. Tom disse que poderia conhecer Paris muito melhor assistindo televisão do que andando pelas ruas.

O melhor que Thereza conseguiu foi uma visita ao Museu Nacional de Arte Moderna, para onde

Tom e Ronaldo Bastos (que, brincando, chamava Tom pelo nome de Antoine Charles) levaram ela

e Elizabeth. Depois de horas andando pelo museu com a filha, Thereza ainda estava indecisa entre ver mais arte ou descansar. Voltou à entrada do museu para só então perceber que Tom e Ronaldo não tinham ido a lugar nenhum durante todo esse tempo: nunca colocaram os pés dentro do museu e permaneceram sentados no mesmo banco perto da porta principal.

Enquanto Elizabeth viajava de volta ao Brasil, Ronaldo foi à Espanha, para se encontrar com

Paulo, que havia ido para lá com o pretexto de ter que comprar um violão novo. Tom e Thereza finalmente seguiram para Roma.

Chico Buarque e sua esposa, Marieta, acolheram Tom e Thereza com muita atenção, embora

também tivessem que prestar muita atenção às necessidades de sua filha recém-nascida, Maria

Luiza. Em Roma, Tom e Thereza também frequentavam apenas um restaurante e acabavam




comendo macarrão todos os dias. O dono do estabelecimento era um ator que fez pequenos papéis nos filmes de Fellini. Quando percebeu que seus clientes eram famosos, ele mesmo começou a

atendê-los.

Mais uma vez, Thereza pediu a Tom que conhecesse a cidade com ela. Com Chico e Marieta

os dois saíram uma noite e pararam o carro perto do Coliseu.

Thereza e Marieta foram na frente, andando mais rápido que os maridos. De repente, mendigos os cercaram e ameaçaram. Tom e Chico correram em direção às mulheres para ajudá-las. Thereza,

que carregava a câmera que recebeu de presente de Stan Getz, foi roubada. Ela perdeu todas as fotos que tirou em meses. Ela ficou tão decepcionada que, mais tarde, quando lhe perguntaram se ela tinha estado na Europa, ela respondeu que não.

Do Velho Continente, Thereza voltou para o Brasil e Tom voou direto para Nova York. Sempre

atento aos detalhes, percebeu que as estrelas do lado de fora da janela haviam trocado de lugar durante o voo. Ele ficou preocupado e decidiu perguntar sobre isso. Ele saiu da cadeira para falar com o copiloto. Na verdade, houve um problema. A aeronave estava voando de volta devido a uma falha mecânica.

Felizmente pousou em segurança.

Antonio Carlos Jobim sempre foi cuidadoso e receptivo às exigências de sua situação legal como residente nos Estados Unidos. Ele estava constantemente ciente de seus deveres e direitos e,

quando suas gravações terminaram, voou de volta ao Brasil.

 




Compôs a trilha sonora de Crônica da casa assassinada , longa de Paulo Cezar

Saraceni baseado no romance homônimo de Lúcio Cardoso. Um despertador ficava

no piano o tempo todo.

Marcou o momento de cada cena do filme. Foi extremamente desafiador definir cada

batida e sincronizá-la com as cenas. Como Tom estava atrasado na entrega de suas

composições, Paulo Cezar e seu irmão Sérgio (produtor do filme) combinaram uma

forma sutil de fazer Tom acelerar: Sérgio ia todas as noites na casa de Tom para vê-

lo trabalhar.

Depois de dois meses, Sérgio e Tom haviam consumido muito uísque e as

partituras ainda não estavam prontas. Sérgio pediu a Paulo Cezar que o substituísse

em uma missão que ele não tinha mais condições de cumprir: mesmo tendo que

estar no escritório pela manhã, ele ficou com Tom até as cinco da manhã! A esposa

de Sérgio já estava com ciúmes e imaginando que algo mais estava acontecendo

entre os dois homens. Paulo Cezar assumiu sim o papel do irmão. Quando a música

terminou, o nível de satisfação que compartilhavam compensou tudo. Tom foi capaz

de reutilizar várias músicas daquele filme em seus próprios álbuns futuros.

Tom também compôs a trilha sonora do longa-metragem Tempo de mar (Sea

Times), de Pedro de Moraes. A fotografia do filme simplesmente encantou o

compositor. As cenas lhe lembravam as montanhas ao redor de Mambucaba, no

estado do Rio. Lembrou-se da traineira nas águas transparentes de Angra dos Reis.

Novamente, ele manteria vários temas desta nova trilha sonora para os próximos álbuns.

Escrever para cinema sempre foi uma opção para Tom, desde o início de sua

carreira. Ao longo de sua vida acabou compondo trilhas sonoras para mais de vinte

filmes nacionais e internacionais.

Antes do final daquele ano de 1970, Tom ficou chocado ao saber da morte

repentina de seu primo (e ex-cunhado), Capitão Paulo, em 23 de outubro.

Ironicamente, o piloto morreu no Dia do Aviador em um acidente de carro na Via




Dutra, rodovia entre Rio e São Paulo. Ele foi vítima de condução imprudente de

terceiro. Paulo era um homem forte e em forma. Ele se manteve em forma por prazer

e pelas demandas específicas de sua carreira. Ele havia se aposentado da

Aeronáutica e aceitado o emprego de piloto de testes em uma indústria aeronáutica

em São João dos Campos, no estado de São Paulo.

Paulo estava divorciado de Helena desde 1968. Casaram-se jovens (vinte e três

e dezesseis anos, respectivamente). Vinte anos depois decidiram seguir caminhos

diferentes. Conheceu Manoel Malaguti em 1969 e se casaram no ano seguinte.

Enquanto Helena e Paulo continuaram amigos, Tom continuou gostando

 


ele muito. Ele e Paulo passaram muito tempo juntos desde a infância.

Tom ficou terrivelmente abalado com a notícia da morte de seu amigo especial. Ele

teve muita dificuldade em aceitar esse destino trágico. Ele pediu à irmã lembranças que



o lembrassem de Paulo. Ela deu a Tom uma espada que pertencera a Paulo e mapas

de aviões que ele usava em seus voos. Tom guardou esses objetos pelo resto da vida.

Além da profunda dor, Tom também sentiu uma enorme sensação de repulsa pelas

circunstâncias da morte de Paulo: uma vida estupidamente interrompida.

Paulo faleceu aos quarenta e sete anos, mesma idade com que faleceu o pai de Tom

e Helena, Jorge Jobim.

De modo geral, os críticos musicais irritavam Tom. Se ele desse uma entrevista e o

entrevistador não captasse exatamente o que ele queria dizer, ou, pior, se o entrevistador

distorcesse suas palavras, ele ficaria chateado. Tom foi apaziguado pela família e

amigos próximos que lhe disseram que ele era venerado por quase todas as pessoas

que gostavam de música. Seu sofrimento resultou principalmente de considerar as

críticas dos entrevistadores uma ofensa, mesmo quando elas não pareciam nada sérias

ou significativas. Essa reação exagerada fazia parte de seu ser.

No início da carreira já despontava como um escritor que fazia músicas diferentes do

samba tradicional. Tal característica afetou os críticos que acreditavam que o samba

era intocável. Uma facção significativa da esquerda argumentou que a música de Tom

era americanizada, ou, mais precisamente, norte-americanizada. Até mesmo seu

apelido, cunhado por sua irmã mais nova, era supostamente um nome americano

escolhido propositalmente como tal. Eles argumentaram que ele estava pervertendo a

cultura musical brasileira.

O mal-entendido era tão real que um certo crítico musical praticamente construiu sua

carreira em contínuas matérias atacando as obras de Tom, assim como um crítico da

Baía de Guanabara, anos antes, se promovera ao tentar aniquilar a destacada carreira

do compositor clássico Heitor Villa-Lobos. .

Dessa perseguição, a capa de uma revista sensacionalista anunciava, em letras

muito grandes, uma acusação infundada: Antonio Carlos Jobim sonegava imposto de

renda. Pela primeira vez ele declarou que entraria com uma ação judicial contra aquele

crítico. Seu padrasto o convenceu, porém, de que tal medida era exatamente o objetivo




da revista, obter maior publicidade. Celso, aliás, sempre

 


ensinou aos filhos que um artista deveria ignorar qualquer provocação da imprensa.

Ele alertou Tom, no entanto, para solicitar ao Ministério da Fazenda brasileiro um

documento reconhecendo que ele pagou seu imposto de renda nos Estados Unidos.

Em casa, a família respeitava as preocupações de Tom, embora não lhes fosse fácil

compreender como um homem como ele, tão superior em carácter e talento àquela falsa

imagem pública, conseguia sucumbir emocionalmente a tão pouco. Compartilhando as

desgraças do irmão, Helena o incentivou a seguir o conselho dado por Virginia Woolf em

Um quarto só seu, um livro que ela lhe dera no aniversário passado.

Woolf reagiu à noção generalizada de que um gênio deveria desconsiderar tais opiniões,

de que os gênios deveriam estar acima de se importar com o que se diz deles.

Infelizmente, são precisamente os homens e mulheres de génio que mais se importam



com o que se diz deles. É da natureza do artista preocupar-se excessivamente com o que

é dito sobre ele. A literatura está repleta de destroços de pessoas que deram importância

além da razão à opinião dos outros. Woolf também argumentou que esta suscetibilidade

era muito lamentável, porque a mente de um artista, para realizar o esforço prodigioso de

libertar-se completamente e libertar toda a obra que está dentro dele, deve ser

incandescente.

A mente de Antonio Carlos Jobim era implacavelmente incandescente. O jornalista

Carlos Lacerda soube captar esse brilho em um texto brilhante – tanto que o próprio Tom

declarou à família: “Este é o único texto sério que descreve quem eu sou”. O artigo “A vida numerosa e tensa de Antônio Carlos Jobim” havia sido publicado no semanário Manchete ,

de circulação nacional , em 1970.

Neste momento, em que me comprometo a escrever sobre Tom Jobim, hesito em fazê-lo. Para piorar as coisas, ele encontrou uma maneira sutil de pedir permissão para ler meus originais antes de serem publicados. Acima de tudo, hesito porque talvez nunca consiga transmitir nem uma boa medida da sua angústia nem o sentimento da sua inquietação. Ele não quer parecer uma pessoa cheia de ressentimentos, e realmente não é assim. Ele não quer ser retratado como um homem que não teme o sucesso ou a maior excelência de outros artistas – e, bem, a verdade é que ele também não foi superado.

Então, quem é este homem que parece tão tenso e tão enrugado, cujo riso é um clamor,

cujas mãos afiadas parecem estar prontas para quebrar tijolos invisíveis com um golpe de caratê?

Fui à casa dele e tudo se resumiu a música. Ele veio à nossa casa e novamente tudo girou em torno da música. Por baixo daquela música, muito acima dela, e rodeado por ela, senti uma certa angústia metafísica. Ouvi essas perguntas sobre a vida, principalmente sobre o seu significado.

Tom é um vencedor. Essa tem sido sua personalidade desde a infância, quando ele era




 


sob as asas de pais amorosos, o poeta gaúcho Jorge Jobim e a educadora Nilza Brasileiro de Almeida, que fundaram o Colégio Brasileiro de Almeida, em Ipanema, uma das melhores escolas de ensino

fundamental e médio do país. Ele é um vencedor desde os dias em que tentou a sorte em diferentes escolas de ensino fundamental e abandonou o primeiro ano da Faculdade de Arquitetura após romper com a namorada, Thereza Hermanny. Ela se tornou sua esposa e mãe de seus dois filhos e, sim, é sua esposa há vinte anos, vinte dos quarenta e três que ele viveu até agora.…

Faço uma pausa e penso nisso: quarenta e três anos de idade. Essa primeira informação me leva à minha coleção de revistas da Manchete , onde li a entrevista que Tom concedeu a Arnaldo Niskier há onze anos: “A música brasileira é bastante sombria, e nossas letras são, em geral, tristes – é isso que Ary Barroso , que considero o maior compositor do Brasil.” Estas palavras representam a

convicção, o desafio e o argumento sensato de um jovem e prolífico compositor. Segundo o Dicionário Biográfico da Música Popular de Sílvio Túlio Cardoso, nem mesmo Ary Barroso escreveu mais canções do que os mais de 200 títulos de Tom.




Mas já tem quarenta e três anos e já foi atingido por vaias desconcertantes, as zombarias que vieram de milhares de pessoas quando um júri de especialistas lhe concedeu o primeiro prêmio pela canção lírica “Sabiá” e ofereceu o segundo lugar a Geraldo Vandré pelo tema político “Para não dizer que não falei de flores”. Esta é uma canção de protesto disfarçada, que aumenta o seu poder – uma espécie de tímida “Guantamera”. É uma canção graciosa de gênero próprio: fácil de cantar em coro, altamente apropriada para festivais de música competitivos. Em outros locais e circunstâncias, as pessoas prefeririam uma canção de amor. Ali, onde acontecia o festival, o público era previsível.

“Sabiá” não é música para levantar o público; em vez disso, é uma música para levantar seus corações. É simplesmente uma obra-prima. Nele, o lirismo, especialmente o lirismo luso-brasileiro, decola rumo ao céu.

Hoje, Tom finge desdém pelas zombarias, mas não consegue me enganar. Ele revisita o estupendo

“Sabiá” ao piano e comenta como Villa-Lobos costumava dizer que era o compositor mais ridicularizado do Brasil. “Ainda não alcancei essa glória”, diz Tom, como se estivesse se recompensando. É o mesmo Tom Jobim, que afirmava ser “um artista marginal de sucesso”.

Basta observar os sinais da passagem do tempo para perceber os efeitos que as zombarias tiveram sobre ele. Naquela noite, no local, ele ficou pasmo. O que aconteceu?

O que estava acontecendo? Ele não conseguia entender isso. Foi a vaia, a vaia brutal explodindo, gritando e chiando, de uma multidão enlouquecida e descuidada que, em tempos de ditadura militar, puniu um compositor por suas próprias frustrações como órfãos de liberdade. Pela pele dos dentes ele não foi rotulado como reacionário de direita.

A propósito, sim, ele estava. Num livrinho altamente tendencioso sobre “a farsa da música brasileira no exterior”, a música de Tom é descartada como uma “venda” por seu sucesso nos Estados Unidos.

Não é samba; portanto, não é popular. Não é popular; portanto, não é brasileiro.

Estamos muito longe das lições que Vasco Mariz ensinou no seu magistral estudo A Canção Brasileira.

Em vez disso, o que parece valer a pena é apenas folclore. Ser compreendido por outras culturas é um crime. O regime é implacável. Esse é o cerne do nacional-fascismo na música.

Tom Jobim alcançou a maravilha de se tornar um compositor popular sem ser tipicamente pop. Sua música é sofisticada. Ao piano, quando cheguei à casa dele na Gávea, havia partituras de Brahms e

“L'après-midi d'un faune”, aquela peça desconcertante de Debussy que Nijinsky mais tarde imortalizou num balé. Logo após minha aparição, Tom interpretou Brahms. Não posso dizer que ele não jogou bem. Os ecos do pianista Nelson Freire




 


ainda permanecia. Tiveram a mesma mentora, Lúcia Branco. E Tom também teve outros, como

Tomás Terán, Hans-Joachim Koellreuter, Radamés Gnatalli, Leo Peracchi e Alceu Bocchino (não

deveriam perdoá-lo por conhecer música?). A interpretação de Tom foi hesitante, um tanto lenta, seguida por alguns ensaios na flauta. Afinal, ele também dominava esse instrumento. Na verdade, ele adquire uma aparência infantil quando sopra a flauta.

Aos poucos entramos numa conversa que não vale a pena reproduzir porque não faria muito

sentido. A direção que tomou, porém, é o que importa. Levou-nos ao centro das suas preocupações: o mundo em geral e para onde vai a vida humana – para onde vai? o que isso significa? e qual a finalidade disso?

Os dias da bossa nova – talvez leve, se não frívola – acabaram. Nasceu em abril de 1958 no LP

Canção do amor demais, gravado por Elisete Cardoso (Festa LDV 6.002), em que o violão de João Gilberto era o único elemento que marcava a batida inédita nos arranjos de “Chega de saudade”. e

“Outra vez”.




No ano seguinte, no dia 22 de setembro, três mil pessoas cumprimentaram a bossa nova ao vivo no Teatro de Arena, no Rio. Nos Estados Unidos, músicos que estiveram no Brasil para o Festival de Jazz do Rio revelaram a nova sonoridade a Stan Getz. O Itamaraty enviou uma equipe de músicos brasileiros para tocar bossa no Carnegie Hall, no dia 21 de novembro de 1962. Há quem diga que Tom esqueceu a letra em inglês de uma das músicas. Tom afirma que a grande maioria do público era brasileiro – o espírito de brasilidade estava, portanto, presente numa missão patriótica, no pulsar da saudade.

A música popular brasileira ainda ressentia o que o crítico Ari Vasconcelos chamou de “esforço”.

Nos teatros, nas serenatas e nas gravações mecânicas, “os vocalistas sentiam vontade de gritar”. Era música feita por gritos. A Bossa Nova, por outro lado, é música às escondidas. É música de um microfone oco. Seu tom é íntimo e confessional. Soa como um termo carinhoso e parece um cafuné brasileiro, o carinho suave na cabeça da pessoa amada. Também pode transmitir ironias sutis, talvez um pouco indigestas, como porco salgado do céu. A batida da Bossa Nova está realmente

conquistando o mundo. E... que tal Tom? O que ele fará agora, quando surgirem novos rótulos, como o Tropicalismo, o samba afro-brasileiro e a música do terceiro mundo?

Liberte-se também – a alma de Tom é, acima de tudo, livre! As pessoas não eram capazes de

empurrá-lo para qualquer rótulo ou confinar sua consciência ou sua inteligência. O preço dessa liberdade é a angústia. Tenso e educado — é assim que ele é agora. E daí? Como posso escrever alguma coisa sem revelar a sua condição como me parece, aqueles aspectos do jovem que deixa a juventude para trás e tem medo disso? Ele fala da filha como se ela fosse sua namorada, e ela é realmente muito bonita. Ele nem precisa falar do filho, pois esse jovem deus adora o pai. Ele estuda a área de arquitetura, que seu pai abandonou. Estuda piano, que o pai tentou deixar de lado para se casar - piano do qual Tom nunca desistiu por causa do padrasto, Celso Trota Pessoa, funcionário público exemplar, muito elogiado e estimado pelo secretário da Fazenda Mário Lorenzo Fernandez (e elogios dele foi considerada uma medalha de ouro bem merecida). Para resumir a história, Celso alugou um piano, empurrou Tom para o instrumento ao mesmo tempo em que aprovava o casamento

de Tom e permitia que o recém-casado morasse em sua própria casa com a condição explícita: nunca largar o piano como havia feito com seu filho. estuda arquitetura por amor à jovem professora Thereza, que trabalhava no Colégio Brasileiro de Almeida. E aí está Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, ao mesmo tempo vitorioso e torturado pelo destino. Onde estão as tardes preguiçosas de cerveja no Bar do Veloso, na Rua Montenegro, quando Ipanema não era o que é hoje, quando o Bar 20 estava em declínio, mas os bondes ainda circulavam em sentido único pela arenosa Rua Visconde de Pirajá?




 


Tom Jobim cantou recentemente com Frank Sinatra, e Sinatra gravou músicas de Tom Jobim.

Porém, isso nunca foi mencionado em nossa conversa - e essa foi a melhor coisa do nosso encontro.

Nem uma vez perguntei se Sinatra realmente pertencia à Máfia. Não consigo imaginar Francis Albert Sinatra sussurrando no ouvido de Antonio Carlos Jobim: “Ei, cara, aqui só entre nós: sou mafioso mesmo”. Sei muito bem que deveríamos ter falado sobre isso, pelo menos para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores, que é insaciável, como todos sabem. Mas para quê? Para Tom se defender, como tem feito, das acusações que recebe por simplesmente ter sucesso? Um comediante amigo dele disse certa vez: “O Brasil é um país tão miserável que quem ganha dinheiro também ganha complexo de culpa”. Deveria Tom ser culpado pelo seu sucesso mundial? Precisamos renegar “A Garota de Ipanema”?

eu não acho

então.

Quando a atriz Arlete Sales uma vez perguntou a Tom qual pergunta, entre outras, ele nunca tinha ouvido de pessoas que tivessem curiosidade sobre ele, perguntas que ele realmente gostaria de

responder, ele chegou a um ponto terrível: “Acho que as pessoas já perguntaram todas as perguntas.”




Com essa observação em mente, vou me afastar e deixá-lo avançar sozinho com suas análises.

Como todas as perguntas foram feitas a ele... não, devo lembrar que algumas de suas respostas ainda não foram dadas. Estes podem surgir sem quaisquer perguntas diante deles. São respostas para si mesmo, para sua inquietação, que Tom cria sem perceber: “Como diz o escritor Carlos Drummond (meu amigo), 'um poeta tem uma alma ressentida, e ninguém é pior do que ele nesse aspecto'. ”

O poeta itabira Carlos Drummond de Andrade é um dos favoritos de Tom, assim como o modernista português Fernando Pessoa, embora há menos tempo. Outro bardo preferido dele é o carioca Raul de Leoni, com seus sonetos Luz mediterrânea – os poemas favoritos mais antigos de Tom. Tom mantém esses poetas admirados em sua mente enquanto os lê, relê e se alegra com eles dia após dia. Quando ele terá coragem de encaixar esses poemas em melodias próprias, como fez com as de outro poeta carioca de especial estima, seu companheiro Vinicius de Moraes?

Tom abre: “Eles derrubaram as árvores. Eles mataram os pássaros. E nós? Qual é a nossa posição em relação a isso? Fernando Pessoa disse: 'O que sou hoje é a casa que perdi.' Ele é o mesmo poeta que escreveu: ‘Estou lúcido, como se estivesse pronto para morrer’”.

Agora temos preocupações ambientalistas. É a última coisa que eu precisava! Tom me cumprimentou com certa cautela e ansiedade. Ele foi cordial, sem dúvida. Mas o que realmente resultaria dessa conversa? Perguntei-lhe: “Para que servem aqueles óculos estilo Benjamin Franklin? É fadiga ocular ou algo mais?

"É sobre isso. Bem, eu também vejo essas bolinhas de luz, como moscas.”

Entramos no capítulo das lembranças e dos “pequenos infernos” em Copacabana, onde tocava para

ganhar o dinheiro do aluguel do apartamento. “Eu estava realmente obcecado com aquela taxa mensal de aluguel.”

Ele agora mora em uma casa, casa própria, com uma longa escada, jardim e loft, onde trabalha. Mas na época em que alugou um apartamento, um cliente, no bar escuro, pediu-lhe para tocar “The Third Man”. Para surpresa do cliente, Tom respondeu que não conhecia aquela música. Se ele soubesse, teria sido a terceira vez que tocou naquela mesma noite.

“Esse negócio de tocar em bares como um trabalho de verdade é horrível. Não voltei para casa até o sol nascer. Nasci em 1927. Durante anos tive que trabalhar aquelas perigosas horas de Copacabana, antes mesmo de existir o Beco das Garrafas.”




 


Suas palavras são muitas vezes incomuns e suas expressões, inesperadas. Aqui está um homem que raramente recorre ao lugar-comum. No seu rosto, a juventude ainda brilha, apesar das primeiras alterações da idade na superfície macia da sua pele.

“Morar no Rio é assunto de centauro. Somos metade pessoas e metade Volkswagen. Em 1962 eu

estava prestes a comprar meu primeiro Fusca, quando o Itamaraty, contra minha vontade, me enviou para tocar música em Nova York. Eu estava em casa onde crescem as palmeiras. Eu passava muito tempo vestindo meu pijama listrado e sentado em uma confortável cadeira de vime. Como seria essa experiência?

Para mim, os americanos estavam fora de cogitação. Eu estava no topo da lista, com trinta e cinco anos, sem saber muito sobre o mundo lá fora… mas bastante sintonizado com o nosso mundinho aqui no Rio.”

Eu o chamo de “romântico”: “Sua atitude em relação ao processo mundial de mecanização e

a destruição da natureza é romântica. Jean-Jacques Rousseau me veio à mente...”

“Não me considero um romântico”, Tom me interrompe. “É por isso: acho que os homens querem




destruir o mundo e eles o farão. No dia em que o enxofre começar a chover sobre nós, será outro tempo bíblico, não é mesmo? É possível que a nossa civilização seja verdadeiramente avançada, mas produza demasiada fumaça. Nuvens de fumaça sobem constantemente. É a mesma coisa no ABC industrial de São Paulo, no Rio, em Nova York e em Los Angeles... Então, é essa queima de carvão, o mar em perigo, os pássaros desaparecendo, e mais tarde, quando não houver mais árvores para ser cortada, vamos queimar a grama, se ela ainda pegar fogo. E tem a questão da erosão! O mundo desmorona e então as pessoas varrem o chão. A coisa toda está caindo em um poço sem fundo.”

Tom parece estar desenvolvendo mais segurança e se apegando a ela: “Não considero uma atitude romântica porque, por exemplo, ouvi o que aquele senhor que atravessou o Pacífico e agora o Atlântico tinha a dizer…”

“Thor Heyerdahl, o etnógrafo e aventureiro norueguês—” agora eu o interrompo…

parecendo professoral.

Ele diz que [Heyerdahl] não teve coragem suficiente para pular nas águas do Atlântico – “Estava tudo muito sujo”.

A sua assertividade torna-se gradualmente mais forte: “Quando aquele submarino nuclear afundou, os americanos ordenaram uma busca minuciosa por derrames de petróleo no oceano. Depois, as pessoas que começaram a caça ao petróleo nas águas em Nova Iorque e Miami seguiram até aos Açores, a Inglaterra e a Portugal continental. O relatório deles para aqueles que o encomendaram foi assim: 'Vocês estão brincando? Muito pouco do oceano como o conhecíamos ainda sobrevive. Há óleo por toda parte. E

também há batatas podres flutuando. Outro dia, um oceanógrafo declarou: 'Você acha que o oceano é infinito e que os peixes em alto mar não têm interação com a poluição que criamos por aqui?' Claro que está tudo errado. Todos os peixes se reproduzem em lagoas, rios ou plataformas continentais. Houve também aquele comandante francês que disse que só Deus sabe quantas espécies de aves já tinham desaparecido e que muitas mais estavam a caminho. E se, no futuro, dependermos ainda mais dos oceanos...”

Tom continua falando e eu continuo imaginando uma linha de contraste, que, como qualquer outro contraste, é uma forma de aproximar as partes que estão sendo analisadas. Uma das primeiras entrevistas que realizei foi com o compositor Heitor Villa-Lobos em sua casa na Rua do Senado.

Fumando um charuto enorme, só que menor que o próprio ego, Villa-Lobos falava de sua música e nada mais. Fez gestos largos para explicar como era ensinar canto coral da forma que ele mesmo afirmava ter inventado: manosolfa. Um dia, no Leme, o renomado pintor Cândido Portinari me cumprimentou dizendo:

“O Villa-Lobos já esteve aqui. Mas ele só fala da música dele e eu só gosto de falar da minha pintura.”




 


Tom Jobim, o novo Villa-Lobos, fala de tudo melhor do que de si mesmo. No entanto, em tudo o que ele fala – em todos os assuntos e em todos os sotaques – está a marca da sua preocupação pessoal, que é ocultada pelos contornos elípticos do seu discurso.

O que ele entende e o que está por trás de tudo o que diz é Tom Jobim – sua figura à sombra de suas preocupações.

“Acredito que a questão que realmente incomoda os americanos hoje é o que as pessoas chamam

de ecologia – isto é, a relação entre humanos, animais e o meio ambiente. As gaivotas são atingidas pelo DDT, assim como as pessoas. Os rios são como esgotos cheios de tóxicos e pesticidas que as pessoas aplicam nas plantas. Aqueles insetos que comiam ácaros não comem mais: os ácaros hoje têm um gosto horrível. Uma civilização que mexeu com o ovo da galinha é uma civilização perigosa.”

E então ele ri um pouco, sem descer muito. É um riso que para, como se sua boca sentisse remorso de rir ou de seguir o riso de outra pessoa.

para estancar.

"Voce sabe de alguma coisa? Um amigo meu perguntou-me: 'Você realmente acha que não há

tempo para uma pequena revolução?' Considerando a rapidez com que as pessoas estão destruindo




florestas hoje em dia, não creio que haja tempo. É petróleo, é uma árvore queimada – tudo suja o ar e devasta o meio ambiente. Não vejo nenhuma abordagem romântica nisso. Há poucos dias, numa

chácara de São José do Rio Preto, estava rodeado de uma grande quantidade de livros, como os do poeta Raul de Leoni e seus contemporâneos, quando vi um ensaio do Dr. denunciando os males do desmatamento, já lá, em 1940. E houve outros antes mesmo. Meu avô andava com o Marechal

Rondon, que demarcava nossas fronteiras nacionais, mas também falava de preservação do meio

ambiente.”

Tom Jobim tem o jeito peculiar de falar de questões transcendentais em tom coloquial e, de coisas triviais, em tom transcendental. Enquanto as suas palavras se reúnem desta forma sem precedentes, as suas imagens fundem-se como mariposas para um esplendor momentoso de luz intensa. Não se

deve enganar se em suas fotos a pele de Tom é morena e seu cabelo, escuro.

“Meu cabelo é castanho, mediterrâneo. Minha irmã e meu filho têm olhos azuis. Quando esse mulato branco nascido no Brasil, de cabelos grossos e olhos claros, quis ser compositor, todo mundo dizia que ele ia morrer pobre, doente de tuberculose, alcoólatra, etc. Eu ganhei...”

Aí pergunto: “Como é ter medo de viajar de avião?”

“Aterrissei no Aeroporto Internacional do Galeão a 370 km por hora. O que é realmente perigoso é dirigir na Avenida Brasil, no Rio.”

“Você era o capitão do avião?”

“Não, mas eu estava bem ao lado do capitão gaúcho que acabou sendo

sequestrado para Cuba.”

É assim que conseguimos iluminar nossa conversa. Caso contrário, a tensão seria insuportável.

“Sou brasileiro, mas escrevo música brasileira não por qualquer impulso nacionalista. Faço isso porque não sei fazer algo diferente. Se eu tentar fazer jazz, serei um idiota, já que qualquer negro no boêmio bairro da Lapa em Nova York se sairá melhor do que eu.”

“E a influência da música francesa no seu trabalho?”

Tom olha de lado. Ele não gosta muito dessa pergunta, mas sorri e diz maliciosamente: “Quando eu era pianista de boate, os caras vinham pedir músicas francesas. Eu sou




 


na verdade, daquela época.”

“Por favor, fale um pouco sobre sua peça Sinfonia de Brasília. Você leva isso a sério?

“Considero isso algo muito importante para mim. Naquela época, quando Juscelino era presidente, muita gente achava que o Brasil estava se desenvolvendo rápido. Eu, por exemplo, fiquei profundamente impressionado com aquele ambiente físico nas altas savanas. Tanto que acrescentei sons de pássaros, como os do jaó e das perdizes, à sinfonia. Acredito que a obra tem os seus elementos ultrapassados, o maneirismo da sua época. Não importa se o poeta Fernando Pessoa tem algum tipo de maneirismo; Drummond, outro poético ‘velho’, ou Villa-Lobos.…O que conta é que o todo é maior que a soma das partes.”

Ouvimos então aquela sinfonia em que Vinicius de Moraes recitava algo no sentido de “convocar as forças vivas da nação”. Mesmo assim, Vinicius é um grande poeta. Gosto mais da Sinfonia do Rio de Janeiro, que Tom escreveu com Billy Blanco. No entanto, o melhor da música de Tom ainda está para ser escrito. Eu sei muito bem que ele já fez muita coisa. Ele tem muito mais a fazer e sabe disso, mas às vezes se pergunta sobre isso.

Pergunto-lhe novamente: “Como você se sente ao ser vaiado?”




“Você quer dizer o episódio do Maracanã? Bom, é mais fácil agradar num tapete vermelho, como o do Jackson Flores, em Nova York. Pessoas ricas riem facilmente. Quanto mais as pessoas pagam para ir a um evento cultural, mais facilmente batem palmas. Eles não estão lá para vaiar.”

“Aquela vaia deixou em você uma cicatriz mais profunda do que você está disposto a admitir, não foi?”

“Lamento dizer que não sou um artista da mesma importância que um Villa-Lobos, que

orgulhava-se de ser o compositor mais ridicularizado da face da terra.”

“Sua música é popular, mas não trivial. Você diria que é erudito?”

Tom finge não ter ouvido nada. Então, eu continuo. “Na Alemanha, Schumann e

As peças musicais de Schubert eram cantadas na cozinha. Você está criando lieder brasileiro?”

“Quando você diz essas coisas, tenho medo de concordar com elas.”

“Sua música soará como outra coisa, se você adicionar violinos e flautas a ela. Ele vai

tem outra dimensão. Eu gostaria de saber o que você pensa sobre isso.”

“Não posso responder a essa pergunta porque detesto me exibir. Durante anos eu mantive minha boca fechada. Mesmo quando fui entrevistado não falei muito. Agora, porém, todo mundo está se gabando, até mesmo os pintores. Nosso tempo é uma feira de vaidades. Minha verdadeira dor, porém, é que as florestas foram destruídas e os pássaros foram mortos.”

Dois dias depois, num tom diferente e numa conversa diferente, Tom acusou: “Eles

querem destruir todas as coisas que eles próprios não podem criar.”

"Eles... quem?" Perguntei. Ele respondeu brincando:

“Você parece um cavalheiro americano com quem eu estava conversando. Eu estava me referindo a 'eles'

em nosso bate-papo. Então ele me perguntou a mesma coisa, 'Eles quem?', e continuou dizendo que 'eles'

não existiam. Além disso, ‘eles’ estão todos errados.”

"E você estava dizendo isso a ele..."

“Eu estava dizendo que o povo brasileiro agora tem o hábito de falar mal do Tom Jobim. Já era tarde para isso acontecer, mas se tornou realidade. Não comece a pensar que isso é algum tipo de paranóia, a ilusão da perseguição.”

Ele acrescentou: “Meu signo do zodíaco é Aquário. Eu poderia prever a atitude “deles”. No Brasil o os pobres não têm dinheiro para comprar discos e os ricos consomem Frank Sinatra e Brahms.”

Perguntei ao meu assistente de pesquisa sobre a natureza das pessoas nascidas em Aquário. Ela me informou que é um tipo humano com uma aparência atraente e bem formada. Enquanto o seu




 


a pele é clara, eles têm cabelos castanhos. Associados desde o nascimento ao elemento “ar” da natureza, sua personalidade é quente e úmida (que piada!). Seu temperamento é único, bizarro,

independente e revolucionário. Os indivíduos nascidos sob o signo de Aquário raramente se

submetem à vontade de outras pessoas. Eles são audaciosos e pouco convencionais. Nos seus

pensamentos e ações, manifesta-se um anseio irresistível de liberdade. Possuindo um sentido

pessoal de ética e uma filosofia própria, não devem ser julgados por padrões comuns. Distinguem-se pela originalidade das suas ideias e pela profunda justiça das suas atitudes, muitas vezes mal interpretadas por quem só sabe guiar-se por códigos de comportamento já estabelecidos pelo

caminho.

Embora possam parecer serenos e prudentes, são incrivelmente teimosos e tendem a se rebelar

contra aqueles que tentam impor seus caminhos. Quase sempre estão inclinados a meditações e

estudos, o que lhes garante sucesso em assuntos transcendentais. Eles são dotados de uma intuição poderosa. Uma inteligência brilhante, adaptável e engenhosa é o seu maior trunfo.




Uma boa dose de humildade esconde as suas virtudes. Um tipo curioso de dualidade íntima surge da sua sensibilidade – das suas excelentes habilidades para as artes, nas quais podem obter glória e fama. Eles são universalistas metafísicos e transcendentalistas. Optam por uma vida simples, sem ostentação. Este é o signo astrológico que cabe a Tom Jobim, um homem sob Aquário.

[Eu disse isso a ele outro dia] Fui comprar LPs na loja dos meus amigos em

Copacabana, Rei da Voz. Perguntei: “Você tem algum Tom Jobim?”

Disseram que tinham seu último lançamento, gravado nos Estados Unidos, Wave – aliás ,

um álbum incrível.

[Tom e eu não podíamos deixar Villa-Lobos de lado.] Nós o revisitamos através dos escritos do crítico Oscar Guanabarino: “Ainda muito jovem, Villa-Lobos produziu mais do que qualquer outro

verdadeiro artista no final de sua vida. O que ele quer é encher a folha de anotações sem saber o número exato de suas composições, que deveria ser estimado pelo peso das toneladas de papel,

consumidas mas desprovidas de qualquer valor fora do atual turbilhão de vulgaridade. Seu lema não é 'pouco, mas bom'. Em vez disso, é 'muito embora sem valor'. (…) Em geral, as suas peças não têm propósito. São um amontoado de timbres que nos incomodam como se os integrantes da

orquestra fossem canalhas, doentes mentais, como se tocassem pela primeira vez aqueles

instrumentos enquanto transformavam seus sons, com as próprias mãos, em chocalhos, rugidos e

latidos .”

“Imagine como deve ter sido para Villa-Lobos ser Villa-Lobos naquela época”, comenta Tom

Jobim, filho musical de Villa. Ele acrescenta: “Depois que você morre, eles constroem uma casa de bronze estátua.…"

“Você já morou na Tijuca?”

“Nasci e morei na Tijuca, mas nos mudamos para Ipanema quando eu tinha um ano.”

“A Tijuca é o último lugar do Rio onde ainda podemos ouvir piano nas ruas.”

“O piano é da época em que escrevíamos fantasma com aquele ph do português antigo – quando o fantasma assustava as pessoas.”

“Apesar de tudo que li sobre você, estou surpreso com o grau de sua maturidade, que em termos brasileiros não combina com seu temperamento. Você tem uma inteligência madura que difere da

sua sensibilidade. Você tem uma sensibilidade juvenil e uma inteligência madura – como é? Você adorna seus gostos e conceitos com o pitoresco e o fabuloso. No fundo, porém, você apresenta ideias moralistas... O que fez com que você amadurecesse dessa forma, intelectualmente falando?”

“O cataclismo, as calamidades pelas quais passei…”




 


“Estou falando sério agora, mas você está apenas se esquivando. Eu realmente gostaria de saber o que fez de você quem você é e o que o ajudou a amadurecer. De modo geral, os músicos são inocentes. Mas você não é.

“Sempre pensei no músico comum como inocente, mas também como um gênio.”

"E daí? Ninguém é mais inocente que o gênio.”

“Talvez sim.”

“Você mencionou, antes, sua experiência de trabalho naqueles 'pequenos infernos', sua luta com a conta mensal do aluguel do apartamento, etc. Você está preocupado com os aspectos materiais da vida. Você não tem medo de dizer algo que possa ser interpretado como “antiquado”. Você ousa ir contra as novas ondas de modas e estilos.”

“'Como a modernidade se tornou enfadonha! De agora em diante, sou para a eternidade. Esse é




um verso de Drummond. Não creio que devamos seguir todas as tendências, modas, etc., em tudo o que fazemos. Você disse algo sério e estou acostumado a expor meu caso. Dito a verdade: estou desiludido com tudo isso. Houve ondas contra Tom Jobim…Antonio Maria costumava dizer: 'Tom está competindo contra si mesmo. Ele consegue dez músicas nas paradas de uma só vez. Sua música é contra si mesma. Ele está produzindo demais. Ele está se esgotando. O que aconteceu, porém, é que eu tinha cerca de quinhentas músicas guardadas em uma gaveta desde o momento em que escrevi

música após música, mas nunca as mostrei a ninguém porque era muito tímido.”

Aos quarenta e três anos, o jovem Tom Jobim não é jovem demais para saber que a aceitação da vida como ela é implica a aceitação de muitas decepções. Ele afirma: “Os artistas sempre absorveram influências, e os únicos que não as têm são os mortos”.

Suas preocupações, porém, não parecem vir da recepção crítica de sua música. Novas músicas

suas continuam surgindo e vão melhorando gradativamente. Os críticos continuam a escrever e

pioram a cada dia. Eles o acusam de ter se americanizado? Isso não faz sentido. Os americanos afirmam que sua música teve fortes influências francesas. Os franceses, por sua vez, sabem muito bem desde o lançamento do longa Orfeu Negro (1958) o quão brasileiro ele é. Ele é o mais brasileiro possível desde Heitor Villa-Lobos. O que ele não conseguiu esconder é a sua formação musical. Seu amplo conhecimento de harmonia me envergonha. Isso me oprime.

Quando eu, um músico escondido, ouço alguém perto de mim fazer uma conversa de piano, sinto-

me como uma pessoa com deficiência visual que, por um lado, precisa de outra pessoa para descrever a beleza do céu e do mar, mas, por outro, por outro lado, sente que o mar e o céu são mais bonitos do que qualquer palavra possa sugerir.

O diálogo com Tom Jobim não pode continuar porque não caberia no espaço desta peça. Este

criador é uma criatura multifacetada: uma flor de astúcia e sensibilidade atingida pelo granizo, ferida por espíritos mesquinhos, mas ainda capaz de perfumar as mãos que a maltrataram. Tom Jobim sofre com a injustiça do mundo, com suas facetas reais e imaginárias.

Ele é uma alma feliz, creio, por causa daquela certeza íntima que guarda no seio como se fosse um cofre, cuja combinação só ele conhece (e Thereza, talvez). Mas ele também está inquieto –

inquieto à luz da investigação que a vida lhe impõe, inquieto face ao rumo que a sua vida e o mundo em geral estão a tomar dia após dia.

Sua inquietação se projeta no mundo em angústia ambientalista. É por isso que ele está tenso e desgastado. Não é de surpreender que tantas pessoas não se sintam confortáveis com a admiração que se sentem compelidas, ou de alguma forma obrigadas, a ter por ele. Poucas pessoas que conheço precisam e se beneficiam tanto desse tipo de estima quanto Tom. No entanto, mesmo




 


menos são as pessoas que são tão capazes quanto ele de renunciar a essa elevada consideração.

Ele tem esse gênio musical, mas, infelizmente, sua paz de espírito está ameaçada, pois ele é inteligente demais para ser apenas um artista. Inteligência não é corrupção. Pode ser um crime para o qual não há anistia.

O ódio contra a inteligência, por sua vez, não é uma virtude real, mas não chega a ser um vício. De qualquer forma, o ódio é incurável na maioria dos casos. Existem, de facto, casos de estupidez progressiva e intencional. Mas estes são raros e acabam lutando entre si e caindo mortos. O mundo raramente perdoa quem de fato cria alguma coisa – no caso de Antonio Carlos Jobim, a harmonia musical. E pior ainda será se essa pessoa conseguir desenvolver aquela invenção. O mundo será duro e não permitirá que essa pessoa siga seu próprio caminho em paz. Irá prosseguir com o seu apelo à obediência, em direcção às suas ambições mesquinhas, à sua astúcia mesquinha e à sua vilania em massa.

Eu sei que Tom não quer parecer amargo ou ressentido. Ele não tinha razão para ser assim – este criador, este homem vitorioso. Não é uma questão de dor; é uma angústia... um coração desesperado.

Ninguém é capaz de evitar esse sentimento, quer queira quer não: simplesmente aceitamos essa

angústia, da mesma forma que aceitamos a boca, os olhos e o nariz. Tom tem olhos que me




confundem. É por causa de sua angústia em ser e viver, que de alguma forma resolve as questões de sua situação e trauma e se liberta através de sua música.

Agora na sala, ele está sentado no banquinho em frente ao piano. Ele tira os óculos estilo Benjamin Franklin e passa uma mão sobre a outra. De alguma forma obscura, suas mãos lembram garras.

Poderíamos dizer que havia um falcão no piano. Sincopado e triunfante (por mais acre que tenha sido a encosta), o seu som emerge. Agoniza em seu ritmo até o momento em que decola nas asas de sua melodia pura, luminosa, simples, comovente e embaladora. E então Tom, agora liberado e renovado, apenas sorri. Seu rosto, enrugado, enrugado e tenso, parece imerso no mundo inteiro e profundamente mergulhado na música.

O jornalista Carlos Lacerda realmente capturou o espírito de Antonio Carlos Jobim.

Sentado ao piano, com seu jeito sutil, Tom enchia o espaço de doçura, os lábios soltos

formando um sorriso meio abstrato, a pele dos braços e do peito estremecia até o

pescoço. Sua pele ficava arrepiada quando ele tocava piano e se sentia inspirado. Esses

momentos não aconteceram quando ele se sentiu magoado pela animosidade dos

críticos.

Tom não era pessoa de guardar rancor de ninguém. Apesar da angústia, ele também

era um homem alegre. Quando conseguia sair daquele estado de desânimo – segundo

ele, seu “cubo de escuridão” particular –, citava Pablo Picasso: “Nasço de novo a cada

dia”. Seu poder de rejuvenescer era fantástico. Seu signo ascendente era Escorpião;

Tom, portanto, tinha uma fênix que renasceu das cinzas. Ele seguiu com sua verdadeira

fortuna: criar.

Em julho de 1972, Paulo Hermanny Jobim casou-se com Elianne Canetti. O casamento e




 


a recepção foi na casa dos pais, em Ipanema – uma cerimônia simples e graciosa. Todos

os membros de ambas as famílias estavam presentes, assim como seus amigos mais

próximos. Ela tinha acabado de completar vinte anos e Paulo comemoraria seu vigésimo

segundo aniversário no mês seguinte. Tom estava emocionado. Tocou “Marcha Nupcial”,

de Wagner, no piano do irmão de Elianne, Sérgio. Aperitivos salgados e doces seguiram

um brinde com champanhe aos noivos.

Sérgio, encarregado de tirar fotos, ficou tão nervoso que colocou filme usado na câmera.

Depois de tiradas e processadas as fotos, mostraram as imagens de Paulo e Elianne em

cima de outras fotos do gato da família de Elianne.

Nesse mesmo ano, durante a estação seca típica do inverno no sul do Brasil, Manoel

começou a construir uma casa para seu cunhado, Tom, em Poço Fundo. O ar frio nas

montanhas era penetrante – o céu, sempre de um azul profundo e livre de poluição. Tom



solicitou uma planta ao seu amigo de infância Wilfred Cordeiro. Foi um arquiteto que

trabalhou com o idealizador de Brasília, Oscar Niemeyer.

Foi difícil cumprir todas as exigências de Tom: o sol da manhã deveria brilhar nas

janelas do quarto; o lado sul tinha que ficar “cego” por causa do vento e da chuva de

verão; nenhum quarto deve ficar no térreo, para evitar problemas de umidade; as telhas

seriam grandes, em estilo colonial e sem forro por baixo; e o pilar deve se estender por

aproximadamente seis metros. Algumas telhas de vidro seriam usadas para fazer um

relógio de sol: seria possível saber as horas de acordo com a luz que brilha nas paredes.

Apenas os quartos teriam teto. Eles estariam a uma altura relativamente baixa para manter

as áreas aquecidas à noite. Construir vários degraus de tijolos na frente da casa evitaria a entrada de cobras na casa. O estúdio, por sua vez, ficaria voltado para o norte. Uma

grande janela ali, do chão ao telhado, permitiria a entrada de iluminação natural. O terreno

foi preparado por tratores com corte vertical para permitir um alpendre nos fundos, voltado

para o leste. Essa seção da casa seria mais baixa que o resto.

Tom queria uma casa com paredes grossas, uma fileira dupla de tijolos compactos que

pudesse durar por gerações futuras. Contando com os construtores locais, que tinham

muita experiência na construção de casas rústicas, e com a liderança do capataz Adão,

Manoel planejou um muro com pedras gigantescas para sustentar a parte alta da casa.

Thereza costumava comentar que seu cunhado estava erguendo uma fortificação de

proporções lendárias, como as do antigo Egito. Os trabalhadores, por sua vez, ficaram tão

impressionados com o tamanho do muro que lhes lembrou os trabalhos realizados pelos

escravos. Às vezes eram necessários três ou quatro homens para erguer e montar uma




 


pedra em seu lugar.

Quando os quartos foram finalizados e as paredes de tijolos começaram a subir, o

cunhado de Tom se deparou com o local de demolição de uma antiga casa de fazenda à

beira da Rodovia Rio-Bahia, em Pessegueiros, município de Teresópolis. Havia enormes

troncos de madeira cortada à mão e bem tratada e tábuas grossas e largas, exatamente

como Tom gostava. As matas eram os tipos de árvores madeireiras nativas brasileiras,

como a braúna, o ipê e a peroba. A grande maioria das peças tinha aproximadamente 12

metros de comprimento. Manoel comprou o lote inteiro.

Durante aqueles meses de construção, Thereza gostava de sentar-se no topo de um

muro de tijolos, ainda ao ar livre, só para sentir o toque do vento no rosto e nos cabelos.

Naquela época ela e Tom liam os livros místicos de Carlos Castaneda. Ela costumava

pensar que aquele era o seu lugar definitivo na terra. Poço Fundo era o local onde ela



preferiria ficar o resto da vida.

Tom, porém, teve que voltar aos Estados Unidos para cuidar dos negócios e gravar

mais um disco: o segundo volume de Stan Getz e João Gilberto, intitulado Getz/ Gilberto

2. Thereza, que vinha ajudando Manoel a manter o trabalho pista, acompanhou Tom

naquela viagem para o norte. De Los Angeles, poucos dias após a partida, Tom mandou

um recado para a equipe do Poço Fundo por meio de uma conversa telefônica com Celso:

o dinheiro acabou, então a construção deveria ser paralisada.

Como o grupo de trabalhadores estava muito unido e determinado a terminar o trabalho,

um dia Manoel levou um gravador para o canteiro de obras. Ele entrevistou o capataz,

Adão, e enviou a gravação para Tom, instando-o a permitir o prosseguimento da

construção. Seria uma pena desistir agora. No fundo da conversa estavam os sons dos

pássaros da região, que Tom conhecia e adorava. A fita foi enviada para Tom, ao qual ele

respondeu: “Em Poço Fundo tem tantos pássaros...”

Essa resposta enigmática foi interpretada como o desejo de Tom de continuar as obras.

Sem ninguém para ajudá-lo a decidir o acabamento da casa, Manoel teve que fazer

algumas escolhas sozinho. Ele fez uma plataforma elevada na sala para minimizar os

efeitos das paredes muito altas e desproporcionais. Aquele beliche era sustentado por um

enorme tronco de rouxinho . Com pedaços de braúna e pariju Manoel conseguiu construir uma escada que batizou em homenagem ao aviador pioneiro brasileiro Santos-Dumont.

Uma piscina estava no projeto, mas a estimativa que receberam de um




 


empresa especializada nesse negócio era astronômico. Então Tom anunciou que havia

desistido da piscina. Manoel ligou para Adão e eles próprios decidiram construir a piscina.

Na esperança de que Tom e Thereza decidissem que tipo de acabamento prefeririam ter na

piscina, eles não aplicaram epóxi ou cerâmica. Para surpresa de Manoel, Tom ficou

entusiasmado com a piscina quando a viu. Ele pensou que a água verde escura o lembrava

de um lago.

Um grande portão foi construído e colocado na entrada do lote, voltado para a estrada.

Sem explicar o porquê, Tom decidiu removê-lo. Só mais tarde Manoel entendeu o raciocínio

do cunhado. Tom não queria que ninguém soubesse onde ficava a porta de sua casa.

Tom nunca quis colocar abajures em casa. Ele preferia as lâmpadas nuas. Os hóspedes

não entendiam como é que uma casa tão bonita exibia lâmpadas descobertas penduradas

no teto por um cordão amarelo.



Em 23 de fevereiro de 1973 nasceu Daniel Canetti Jobim, primeiro neto de Tom e

primeiro filho de Paulo e Elianne. Era Carnaval, então. Tom e Thereza tinham ido bem cedo

para o Hospital São José naquele dia. Depois de muitas horas de trabalho de Elianne, Tom

e Thereza ficaram cansados e voltaram para casa. Ao entrarem em casa, porém, a notícia

também chegou: o bebê havia chegado, exatamente no dia do aniversário de Helena.

Até que sua própria casa fosse concluída, Tom alugou um quarto em uma casa de pau-a-

pique (apelidada de Cabana Dois) localizada à beira do rio. Quase todos os membros de

sua família tinham uma casa naquela área. Estavam, portanto, um tanto próximos um do

outro em Poço Fundo.

Às vezes, o primo de Tom, Marcello Madeira, organizava saraus em sua casa. Tocava

flauta muito bem e adorava acompanhar o pai no violão.

O tio de Tom era o guitarrista que permaneceu profundamente enraizado nas memórias de

infância de Tom. Clássicos do choro de Pixinguinha e outros, como “André de sapato novo”,

“Seu Lourenço no vinho” (Sr.

Lourenço no Vinho), “Subindo a serra” e “Cuidado, colega” encheram aquelas noites no

campo.

Tom continuou a ir para a cama e a acordar tarde. Gostava de trabalhar em Poço Fundo

no silêncio da noite. Durante o dia tinha prazer em contemplar e interagir com a paisagem.

Seu zelador, João Costa, foi orientado a não acordá-lo em hipótese alguma. Um dia, de

repente, um grande




 


uma fileira de carros transportando repórteres apareceu em uma das extremidades da

estrada de terra que se aproximava da casa. Pararam na Cabana Dois, onde Tom ainda

dormia. Os jornalistas exigiram ver Tom a qualquer custo. O feitor pegou sua foice e

marchou em direção ao portão, onde, com voz suave e fala com forte sotaque, avisou aos

recém-chegados: “Se algum de vocês entrar aqui, vou cortá-lo com minha foice”.

Apesar desse contacto rude com o zelador, os jornalistas ainda levantaram várias

questões. João informou que Tom e Thereza estavam lá sozinhos. Eles não tinham

convidados. Os jornalistas já estavam saindo quando Tom acordou um tanto assustado

com o barulho dos carros. Ele logo perguntou a João o que estava acontecendo. De volta

à tarefa de podar uma mangueira, ele respondeu: “Eles estavam atrás de um cara chamado

Sinatra...”

Naquela época Tom trabalhava obsessivamente em uma nova música, “Matita Perê”.



Ele havia alcançado a “perfeição” desejada. No entanto, do nada, um tema diferente veio

à sua mente. Enquanto cochilava, Thereza ouviu alguns daqueles acordes no violão e

então disse que o tema era excelente. Ele pediu um papel em branco, mas como ela não

encontrou nada melhor, ela lhe deu um saco de papel usado para guardar rolinhos.

Muito mais tarde, já de madrugada, Manoel e Helena ouviram alguém batendo na

janela. Eles se levantaram para abrir a porta. Foi Tom. Ele trouxe aquele saco de papel

com palavras escritas a lápis: os primeiros versos de “Águas de Março”. Ele então tocou

para eles a introdução e as primeiras frases da música: “Um pau, uma pedra / É o fim da

estrada /…/ A planta da casa / O carvalho quando floresce / Uma raposa no mato / Um nó

na floresta /…/ Um caminhão cheio de tijolos / na suave luz da manhã / O tiro de uma

arma / na calada da noite.”

Manoel disse a Tom que a nova música faria tanto sucesso que daria para pagar a

casa. Gratificado, Tom riu, tomou uma xícara de café quente e voltou para casa satisfeito

e animado.

Na manhã seguinte, Thereza comentou sobre sua ideia de que “Águas de Março” surgiu

como uma forma de relaxar e dar um tempo no “Matita Perê”. Tom ficou tão envolvido com

o novo tema que voltou imediatamente para o Rio, onde terminou a música inteira de uma

vez.

Na época, Tom ficou completamente encantado com a música “Construção”, de Chico

Buarque. Ele comentou a perfeição da letra, em que Chico empregou com maestria

palavras com últimas sílabas tônicas. Tom acreditava que seu amigo era como o cavaleiro

mítico de algum tipo de entidade de




 


a quem ele recebeu aqueles versos soberbos. Em relação à sua própria música, Tom

comentava: “Minhas composições também são misteriosas. Não sei de onde eles

vêm.”

Havia, de fato, algo especial entre Tom e Chico. Quando Tom morreu, mais de uma

década depois, Chico declararia: “Tudo que fiz na vida foi pelo Tom”.

Durante esses meses, Tom também esteve intimamente ligado à obra do romancista

Guimarães Rosa. Tirou uma folga no Poço Fundo, onde adorava usar pijama enquanto

cozinhava frango numa grelha redonda de ferro fundido que guardava na varanda. Ele

observou o rio passar, rugindo e espumando contra as rochas. Esse som lhe trouxe

paz. Na outra margem do rio ficava o pasto que terminava no sopé da montanha

Dirindi, que inspirou o compositor e poeta a escrever “Dindi”. O título da música,

portanto, não se refere ao nome de uma mulher, como muitos pensavam. Na verdade,



era o termo que Tom usava para designar aquela vasta beleza natural e seus segredos

em torno de Dirindi.

Quando Manoel e Helena iam ao Poço Fundo nos finais de semana, corriam para

ver Tom, que, durante anos, ficou obcecado pelo conto “Recado do morro”, de

Guimarães Rosa. Tom elaborou sua leitura dramática para outras pessoas ao seu

redor, prestando estrita atenção à entonação adequada da epígrafe do texto:

“Montanha alta e gigantesca - conte-me a história de seu destino. Abaixo, além dos

meus pés, não olharei. Muito acima de mim, não consigo ver…”

Todas as sextas-feiras, durante semanas a fio, Tom começava a ler aquela história

para os amigos, mas nunca havia tempo suficiente para terminá-la num determinado

dia. Na sexta-feira seguinte ele pegaria o livro e leria novamente a mesma história

para seu público especial, desde o início, sem nunca terminá-lo. Guimarães Rosa foi

uma das maiores paixões literárias que Tom já teve. Pode-se ver a influência de Rosa

em “Matita Perê” (Cuco Listrado), título que alude a esse pássaro, mas também a

antigos e lendários truques de estrada e ao folclórico elfo saci do Brasil, um menino negro perneta que prega peças nos viajantes:

No jardim de rosas

Onde residem os sonhos e os medos

Ao longo de manchas de espinhos e flores

atreva-se

Olerê olará, para me pegar se puder




 


Nas primeiras horas frias dos sonhos estranhos

João acordou com o latido alto do cachorro assustado

Ele reuniu seu juízo e abriu a porta

O sonho de João estava realmente vivo e não se encolheria

Talvez João devesse desaparecer

Talvez João devesse partir

Talvez João devesse mergulhar na escuridão

Onde nem mesmo Deus poderia enredá-lo

Entre a tintura da madrugada e a luz da manhã,

A viagem começa quando ele passa por nós, um dia antes

Enquanto isso, folhas de palmeira cobrem sua trilha

O chão na palma da sua mão é apenas o chão



E naquela manhã redonda de pedras altas no seu caminho

Ele cruzou os limites da servidão

Olerê, eu te desafio

Olerê

E à beira da perdição

Buscando a vida e encontrando a morte

Ao redor do quadrante norte da bússola

João, João

Um certo Chico chamado Antonio

Estava montando um cavalo moreno que não passava de um burro velho

Na barra de areia fria, já do outro lado do rio

Chegou Matias cujo verdadeiro nome era Pedro

Na verdade Horácio também conhecido como Simão

Um certo Tião naquela mata

Quem se chamava João

No jardim de rosas

Onde residem os sonhos e os medos

Lá, eu te desafio

Lerê, lará

Para me pegar se você puder




 


Depois de ser informado, ele mudou de direção

De norte a nordeste, de norte a norte

Testemunhando as meias-vidas das criaturas mortas adiadas

Lá estava ele, um João muito estranho

Na clara luz das águas

Na escuridão do deserto

Com mais nada a perder

É onde eu quero te ver,

Medo destemido

Através de sete caminhos que levam a setenta destinos

Setecentas vidas e sete mil mortes

Tinha aquele, João, João



E um dia claro estourou

E uma noite escura caiu

E a meia-noite atingiu seu coração

Olerê, eu te desafio

Olerê

Ele atravessou sete montanhas

Ele atravessou grossos talos de cana

A viagem inteira terminaria

No velho caminho onde a lama profunda te prendeu

Ali, tudo bem quando acaba bem

João se foi

No jardim de rosas

Onde residem os sonhos e os medos

Na clara luz das águas

Na escuridão do deserto

Quando Tom viajou para Nova York em 7 de julho de 1973, para gravar Matita Perê,

ele optou por pagar ele mesmo a produção do álbum. Ele tinha muitas músicas novas.

Entre seus familiares, ele dizia que, se não gravasse esses títulos, encerraria a carreira

aos oitenta anos ainda cantando “A Garota de Ipanema” em um circo de uma cidade

pequena cujo público o vaiaria.

Ele chamou seu amigo Claus Ogerman para fazer os arranjos e produzir




 


o novo disco. Tom passou a se dedicar exclusivamente à versão em inglês de “Waters of

March” que não empregaria nenhum termo de raiz latina, apenas palavras anglo-

saxônicas. Esses novos versículos acabaram virando tema de vestibulares no Brasil.

Algumas pessoas que conhecem muito bem os dois idiomas argumentam que a letra da

música em inglês pode ser considerada ainda melhor do que a original em português.

Nessa época também gravou “Rancho nas nuvens”

(Rancho nas Nuvens) e “Tempo de mar” (Sea Times).

Em meados da década, os acontecimentos políticos nos Estados Unidos, no auge do

escândalo Watergate, deixaram em Tom uma sensação de revolução nacional.

O presidente Nixon, porém, não renunciaria até 8 de agosto de 1974. Tom, então, cogitava

a possibilidade de retornar ao Brasil e gravar o álbum lá para escapar do clima tenso nos

Estados Unidos, mas os custos financeiros impossibilitaram isso. Então, Matita Perê foi



feito em Nova York. Ele ficou muito feliz em incluir “A Serra da Mantiqueira”, bela peça

escrita por seu filho Paulo. Nesse álbum, Tom canta e toca guitarra e piano.

Tom não esperou muito para voltar ao Brasil. Mais tranquilo aí, ele trabalhou na capa

do disco e pediu para Paulo fazer as páginas internas. Tom dedicou o novo lançamento

a três de seus autores literários favoritos: Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade

e Mário Palmério.

O lançamento do disco aconteceu no Clube Caiçaras, numa ilha encantadora da Lagoa

Rodrigo de Freitas. Era um lugar especial para Tom por causa do espelho escuro da água

e dos segredos de infância que ele guardava. Durante toda a noite, as músicas de seu

novo disco divertiram seus convidados.

O grande crítico norte-americano Leonard Feather escreveria mais tarde que

“Waters of March” foi uma das melhores músicas já escritas em inglês.

Certa noite, Helena e Manoel estavam jantando quando Tom apareceu de repente. No

momento em que viu a salada de quiabo com alho e cebola, da qual gostou muito,

anunciou imediatamente: “Vou dar uma mordida”.

E a mordidinha foi crescendo em frente ao tabuleiro do arroz branco, do robalo com

molho de alcaparras, e da batata assada com casca que o Tom adorava comer com muito

azeite salpicado por cima.

Depois do jantar, ele sentou-se no sofá. Ele estava de bem com a vida em geral.

Houve tempo para café e licor. O próximo item de seu cardápio era o uísque. Ele era

aquele homem gentil: gostava de coisas simples, mas também de coisas um pouco mais

sofisticadas. A conversa transcorreu facilmente. O sucesso crítico e comercial de “Waters




 


de março” tornou-se o assunto da cidade.

Helena disse a ele: “Você está tão bem agora, Tom...”

Manoel comentou: “Não é surpreendente diante do burburinho sobre 'Águas de Março'. Sua

irmã tem ouvido isso o tempo todo!

Tom sorriu e pegou outro cubo de gelo para seu uísque. De repente ele começou a falar, com os olhos brilhando muito: “Eu tinha reagido contra a forte ideia da Thereza de que seria indispensável abrir minha própria editora. Agora, dez anos depois, descobri que ela estava certa. Tudo o que eu recebia era uma pequena parte dos meus royalties. Fora isso, eu não tinha controle sobre versões internacionais de minhas músicas ou traduções arbitrárias de suas letras. Eu estava ocupado

resolvendo os problemas maiores das peças. Mas ainda resisti à forte ideia da Thereza.”

Manoel perguntou-lhe: “Por que você resistiu?”

“Bem… ela conversou com Albert da Silva, um advogado que ajudou o letrista Norman Gimble




a abrir seu próprio negócio. Eles combinaram os detalhes para abrir minha editora. Bastava ir até o escritório dele, ler os documentos e assiná-los. Mas eu ficava tão irritado em ir para lá que nunca fui. Achei que teria mais dores de cabeça do que vantagens.”

Helena disse acusadoramente: “Você sempre evitou quaisquer problemas de negócios”.

Tom respondeu: “Thereza ficou muito decepcionada. Então ela ligou para Albert e reclamou que

eu não queria assinar os papéis. Mas Albert, com seu jeito tipicamente solidário, aconselhou-a:

“Espere até que ele sinta a real necessidade disso. Tudo está pronto. Sempre que o Tom quer fazer isso, vocês vêm aqui. Não podemos forçá-lo a querer um editor. Thereza percebeu que Albert estava certo.”

— E Albert estava realmente em ponto, não estava? perguntou Manoel.

Tom concordou: “Sim. Decidi procurar um advogado depois de conversar durante meses com

editoras americanas representando editoras brasileiras. As pessoas estavam tentando lançar minha

música sem os devidos arranjos. Então chegou a hora de criar minha própria editora.”

“Corcovado, um grande nome”, acrescentou Manoel.

Tom continuou: “Foi quando o Aloysio de Oliveira apareceu na minha casa com o Ray Gilbert.

Ray me convenceu de que eu deveria ir para Los Angeles e abrir uma editora com ele. Ele

administraria minhas músicas lá, quando eu tivesse que voltar ao Brasil. Aloysio concordou. Aloysio estabeleceria uma marca no Brasil, Elenco,

 




e ajudaria a divulgar nosso material e se tornaria um terceiro sócio no negócio. Ray escreveu uma letra incrível em inglês para 'Dindi' e depois fui para Los Angeles com ele. Ele chamou um advogado para nos ajudar na montagem da nossa empresa, a Ipanema Music.”

Ele sorriu. “Quando estava pronto para assinar os papéis no escritório daquele advogado, fiquei totalmente atordoado. O homem caminhava, vez após vez, até a janela, onde fazia caretas horríveis, olhando para fora. Após cada careta, ele logo voltava à nossa conversa, parecendo mais calmo e no controle de suas emoções.”

Tom levantou-se e caminhou em direção à janela da casa da irmã, imitando o advogado

californiano, fazendo uma careta. Ele então resumiu sua história: “Aqui no Brasil, o Aloysio

conseguiu fazer um acordo com a Verve para que ele lançasse neste país meu primeiro disco feito nos Estados Unidos: The Composer of Desafinado, Plays. Esse foi o primeiro álbum da Elenco, lançado em 1964.”

Manoel comentou: “Aloysio é um excelente homem. Celso gosta muito dele.”

“Eu não tinha conseguido receber royalties da BMI por causa de toda a papelada, da burocracia.

Então entrei na ASCAP, você lembra, Helena? Era a associação tradicional de todos os figurões dos Estados Unidos, como Cole Porter, os irmãos Gershwin, Rodgers e Hart e Johnny Mercer.”

“Foi uma situação complicada aquela em que você estava.”

"Espere um segundo! Há mais bagunça. Fui burro o suficiente para não seguir os procedimentos adequados para registrar meus títulos protegidos por direitos autorais. Fui desleixado ao entregar meus originais. Na verdade eu não tinha registrado nenhuma delas antes de repassar aquelas

músicas para as editoras! Pior ainda foi a notificação que recebi da ASCAP depois de um ano de trabalho com eles: eles me informaram que não poderiam me pagar pelos títulos que estavam

registrados no BMI, e estes foram meus maiores sucessos: 'Off Key, ' 'Samba de Uma Nota',

'Meditação' e 'A Garota de Ipanema'. Na ASCAP, eles me aconselharam a me tornar membro do

BMI.

E lá fui eu de novo. Abandonei a ASCAP. Meu repertório teve que ficar dividido entre as duas agências e sofreu por causa disso. Quando eu já estava com a sensação de que um tornado tinha caído sobre mim, apareceu o Ray Gilbert me pedindo para desistir da nossa parceria, a Ipanema Music, e eu concordei. Essa minha decisão deixou a Thereza e o Celso muito chateados.”

“Você já perdeu alguma música?” perguntou Manoel.

“Não exatamente. No entanto, foi só depois de todas essas dificuldades que me dei conta da

necessidade de usar minha própria editora, a Corcovado. Eu fui capaz de manter




 


algumas de minhas peças, como as músicas instrumentais 'Batidinha', 'Capitão Bacardi', 'Wave'

e algumas outras. Mas perdi toneladas de dinheiro que deveria ter recebido com meus maiores

sucessos. Voltei para Nova York e, como disse, consegui entrar no BMI, por mais tarde que

fosse, por mais problemas que tive que enfrentar para entrar. Foi assim que me pagaram meus

royalties acumulados desde 1962. Agora você pensa por um momento. O dinheiro que recebi

correspondeu a 8% do total, que foi dividido entre editoras brasileiras, editoras estrangeiras que compraram os direitos subsidiários, além dos meus parceiros brasileiros e estrangeiros.”

“Que absurdo!” exclamou Helena.

“Foi com esse dinheiro que ganhei com 'Off Key', 'One-Note Samba' e 'Garota de Ipanema'

que pude comprar minha casa, sabe. Afinal, uma das melhores coisas que fiz na vida foi abrir o Corcovado Music. Finalmente consegui desabafar.”

Bebendo o resto aguado de sua última dose de uísque, Tom achou que era hora de se retirar:




“Vou dormir em casa. Estou cansado. E eu falei demais.

Foi a vez de Tom voar novamente para Los Angeles. Ele foi com Thereza e a filha deles,

Elizabeth, que logo se matricularia em uma escola no sul da Califórnia.

Lá, em Los Angeles, Tom gravou com Elis Regina e César Camargo Mariano. Ela cantou de

forma sublime o hit “Waters of March” em dueto com Tom. O disco ficou simplesmente

maravilhoso: composições de Tom interpretadas pela voz graciosa, harmoniosa e tecnicamente

controlada de Elis Regina. De volta ao Brasil alguns meses depois, Tom e Elis fizeram muitos shows juntos, tendo o dueto “Waters of March” como atração principal.

Ainda no Rio, Tom se aproximou de outro compositor: Edu Lobo.

Apresentado a ele por Vinicius de Moraes, Tom viu seu relacionamento com Edu se transformar

aos poucos em um possível projeto de gravação. Edu levou algumas de suas músicas novas

para a casa do maestro em Codajás e torceu para que algo acontecesse entre eles.

Edu explicou o material que havia escrito e tocou para Tom. Ficou evidente que Tom gostou

dos temas de Edu. Tom sentava-se ao piano e tocava-as. Quando Tom percebeu que poderia

melhorar a harmonia, ele foi muito sutil ao mudar um acorde. Ele se voltava para Edu e

perguntava: “Foi assim que você fez, Edu? Você é um génio. Essa música é linda.

Era como se Edu tivesse feito o acorde daquele jeito. Essa era a maneira delicada de Tom de

 




ajudando jovens músicos que o procuravam e cujo trabalho Tom admirava.

Quando Tom não estava interessado em determinado tema, ele caminhava até uma das

janelas e falava sobre pássaros que haviam pousado nas proximidades.

Durante essa fase da vida, Tom procurou o som de sua própria flauta. Telefonava para o

amigo Franklin Corrêa, ilustre flautista, e os dois saíam juntos à noite. Já às seis da manhã eles podiam ser encontrados no Del Rey Bar, em Copacabana. Os temas de suas conversas

giravam em torno da música em geral e das flautas em particular. Franklin também consertou

flautas muito bem. Com a palavra francesa luthier, que significa “fabricante ou reparador de instrumentos”,

Tom criou o termo fluthier e aplicou-o ao amigo. Às vezes ele convidava Franklin para gravar com ele. Muitos anos depois, Franklin gravaria um excelente solo de flauta com o neto de

Tom, Daniel, ao piano. Era uma música, com melodia de Tom, para um projeto do editor

musical e crítico Almir Chediak, chamado “Paulo voo livre (A lenda do homem-asa)”.

Sempre que tinha uma folga, Tom subia a serra, de volta ao Poço Fundo.

Ele estava passando por uma fase difícil em seu casamento e muitas mulheres o assediavam

em público. Encontrou descanso na poesia: Rimbaud, Baudelaire, Eliot, Bandeira, Drummond,

além de muito Neruda. Além disso, havia seu piano, seu violão e sua cerveja gelada. Ele

adorava conversar com qualquer pessoa por perto. Suas conversas eram longas e tratavam

principalmente de questões ambientais abrangentes, como os padrões dos ventos, os céus,

o universo, ou de questões locais e pragmáticas, como a necessidade de cobrir as moradias

pobres da região com palha ecologicamente correta.

Em 1975 ele voltou para Nova York no meio do inverno. Levou consigo novas composições

que considerou muito expressivas de sua trajetória musical em geral. Refletiu sobre o legado

que deixaria para a posteridade e sabia que em sua obra havia lacunas a serem preenchidas

e temas a serem desenvolvidos. Ele tinha plena consciência de que os únicos materiais

musicais que realmente sobreviveram foram as composições escritas. Exemplos claros dessa

realidade para ele foram os cancioneiros de Cole Porter e George Gershwin.

Agora que estava frio, as dores nas pernas de Tom pioraram. Ele mal conseguia andar




um quarteirão. Para tornar as coisas mais problemáticas, ele deixou o Brasil com uma

infecção nas unhas que parecia nunca sarar. Ele não sabia que o problema era consequência

direta da má circulação sanguínea. Seus pés estavam sempre frios.

 


Uma noite ele estava num bar com Albert Goodman, biógrafo de Elvis Presley.

O escritor percebeu que algo não estava certo com Tom, pois ele se curvava com muita

frequência para esfregar as mãos nas pernas, aparentemente tentando aquecê-las.

Tom, então, contou a Albert sobre sua preocupação: “Quando acordei hoje, meu pé

esquerdo não tocava o chão. Parecia um sintoma de uma lesão no pé equestre. Fiz uma

massagem nele e foi assim que foi possível ficar de pé e andar novamente.”

Albert Goodman propôs levar Tom imediatamente ao Hospital Mount Sinai.

Um amigo dele, um dos médicos mais conhecidos da cidade por suas habilidades

diagnósticas, trabalhava lá. Tom aceitou a oferta. Ele ligou para Thereza e pediu que ela



lhe enviasse todas as radiografias que havia tirado das costas. Assim que chegaram,

Tom e Albert dirigiram-se ao consultório médico.

Tom descreveu o médico como um homem muito baixo que mancava de uma perna.

Ele sofria de artrite. No início da consulta, Tom começou a contar sobre sua queda na

praia, mas o médico o interrompeu e pediu que tirasse a roupa. De cueca, ele foi instruído

a atravessar o escritório e, em seguida, agachar-se e ficar em pé. O médico observou

atentamente os movimentos de Tom e percebeu como seu paciente não conseguia se

levantar rapidamente. Ele disse a Tom para se deitar na cama. Com o estetoscópio,

mediu o pulso de Tom na virilha e disse laconicamente: “Trabalho de angiologista”.

Tom não entendeu primeiro e fez perguntas. O médico apontou para as pontas de

cigarro que Tom havia deixado no cinzeiro e informou-o friamente: “Força inadequada”.

Dias depois, o angiologista disse a Tom que ele precisava ser operado. Ele teria que

substituir várias artérias, até mesmo as femorais. Aloysio de Oliveira havia sido operado

com sucesso por aquele médico. Tom pediu algum tempo para pensar sobre isso. Ele

temia qualquer tipo de cirurgia e procurava secretamente algum outro tipo de tratamento.

Mais uma vez Tom financiaria sua própria gravação: Urubu (Black Vulture), com arranjo

e regência de Claus Ogerman. De um lado do álbum estavam músicas que ele compôs

há muito tempo, “O homem” e “Arquitetura de morar”. Também foi incluído “Valse”

(Dance That Waltz), escrita por Paulo Jobim. Os músicos que acompanharam Tom e a

vocalista brasileira Miúcha eram da Filarmônica de Nova York.

No final de um dos ensaios, eles aplaudiram Tom de pé. O




 


O álbum foi uma obra-prima que a crítica brasileira nunca discutiu – nem criticou nem

aplaudiu. O maestro Radamés Gnatalli foi o único a incentivar Tom a continuar nesse

caminho. Um dia, quando seu cunhado, Manoel, o desafiou a desenvolver o tema de

“Saudades do Brasil”, que acabou se tornando uma obra sinfônica hipnotizante, Tom

comentou dolorosamente: “Não há reconhecimento disso. música no Brasil. De que

adianta sentir saudade da minha terra natal se ninguém mais sente o mesmo?

O que todos esses críticos querem é destruir Tom Jobim! Eu me pergunto se valeu a

pena pagar por esse disco com meu próprio dinheiro. O que os críticos me deixaram foi

dor de cabeça.”

No Rio, apesar de tudo, Tom estava decidido a fotografar uma espécie de urubu-preto

– um urubu – conhecido como jereba, “o caçador”, para seu novo álbum.

Ele tentou não pensar muito em seus problemas de saúde. Ele acreditava que, se parasse



de fumar, desfaria parcialmente os danos causados às suas artérias. Na realidade, ele

temia a sua própria consciência dessa grave condição. Por outro lado, porém, Tom ficou

muito feliz ao ver a continuidade de sua vida através do nascimento de mais uma neta,

Dora Canetti Jobim, em 6 de maio de 1976. Ela era uma garotinha bonita, serena, de

olhos azuis, que se juntou à família e trouxe ao Tom um espírito renovado num mês tão

lindo naquela parte do mundo.

Tom convidou o fotógrafo Januário Garcia para trabalhar com ele. Partiram de carro

para a Grota Funda, um lugar no interior que Tom conhecia bem. A busca foi longa. Em

seu velho e grande carro, que ele havia apelidado de “Baleia Branca”, eles perambulavam

por toda a região sem ver um único urubu -jereba para fotografar.

Percebendo que não restava muito combustível, Tom parou em um posto de gasolina.

Suado, ele enfiou metade do comprimento de seus longos cabelos, parecidos com os

dos nativos brasileiros, sob o chapéu-panamá. Enquanto Tom permanecia sentado,

Januário, um negro alto e magro, com sua câmera com teleobjetiva longa pendurada no

pescoço, desceu do carro e se aproximou do atendente, perguntando: “Você viu algum

jereba, aquele urubu diferente? , por aqui?"

O jovem trabalhador ficou paralisado de medo. Ele baixou os olhos para o chão,

pensando que estava sendo agredido. Ele nunca tinha ouvido falar de abutres jereba .

Quando Tom contou aquela história associada ao álbum Urubu , ele nunca deixou de

se separar.

Na contracapa do novo lançamento, Tom publicou um de seus textos mais apelativos:




 


Jereba é um abutre importante, como qualquer outro abutre, aliás. Entre eles, os abutres, notam-se, no entanto, certas prioridades. Jereba é quem chega primeiro aos olhos do gado. Não tem privilégios.

Até tenta substâncias venenosas. Sua prioridade é correr riscos. O que não toca é intocável. Jereba é um abutre importante, e por isso ganhou vários apelidos: Peba, Urubupeba, Urubu-caçador, Urubu-buscador, Urubu-buscador, Urubu-cobra, Urubu-figueira, Urubu-da-terra queimada, Urubu-camiranga,

Urubu-ministro. Aura de Cathartes é o seu nome científico. Não se deve confundi-lo com o Rei Urubu ou com o Urububu. Não é pomposo, mas também não é comum. Só se parece com ele mesmo. Não

é Urubutinga, nem Urubu-marinho, Capirá, Cabeça-amarela, ou o famoso Urubu-Chacareiro, que voa

baixinho sobre fazendas e quintais. Não come nada além de manga. Isso não existe. É uma mentira de falsos caçadores segurando rifles aposentados em cadeiras de balanço. Porém, não é apenas um nome em uma lista de pássaros, como o Dream Vulture, nem é uma expressão de azar, como o Bat Abutre.

Na realidade, você, jereba, não é o culpado pela devastação do mundo. Perdiz de corcunda dupla

– seus ombros solenes se destacam tão alto por causa de suas asas longas. Com as mãos cruzadas atrás das costas, com suas respeitáveis narinas perfuradas, com seu olhar sério e com seu controle sobre assuntos impossíveis, você se senta à mesa como um rei.




No chão você não se move muito bem. Com suas pernas fracas, você é desajeitado, mutilado — o mais feio de todos os abutres. Sem propósito, as coisas vão passar. Você matará com fezes ácidas a árvore onde dorme ou esperará outro dia de sol. E chegará o dia com seu ar quente em que o vento o obrigará a voar para longe.

Naquele velho dia, as asas serão aquecidas e a jereba mergulhará no ar. O sopé da montanha, o final do morro (onde começa uma nova encosta) e vários contrafortes ficarão azuis ao longe, enquanto a jereba se elevará acima da chaminé do dia. Urubupeba – o estofamento daquelas asas de chumbo, peças de prata velha e manchada, dedos tocando o vento, adivinhando suas tendências – Mestre

Abutre. Grandes asas abertas cavalgarão em bolhas de ar quente para emergir das ravinas. Papagaio tolo e pipa tola, jereba os vê enquanto oscila, flutua, desliza para cima, sem propósito, sem qualquer desejo de vagar à deriva, flutuantemente - com certeza! Ele permanece lento, um tanto atento, meio adormecido nas pernas do vento e consciente do que está por vir. É um aquário no céu.

Sua música imita o vento. Hiss… Suas asas agora estão curtas, encontrando rastros de ar. Bloco preto compacto, seu bico pregado no ar voa em velocidade letal em direção a uma parede de aço azul

— e adeus, meu violão, esse mundo é meu. Nas lentes dos seus olhos a águia se esconde. Não há nada como asas na abertura dos céus. “E você penetrou e saiu pela serra sem passaporte” (Pablo Neruda).

Abutre Buscador e Abutre Descobridor – você que sabe, lá de cima, o que se esconde aqui na floresta e quais perfumes continuam subindo ao topo do mundo. Você sabe o que há de bom na queima de terras e o que a destruição das estradas tem a nos oferecer.

Eterno vigilante de um tempo imperecível e guardião de dois absurdos, a vista lateral de um abutre havia sido esculpida ao longo dos milênios e estava gravada em uma antiga parede rochosa.

A vida ficou presa por um fio tenso por um momento. Não foi nada demais. Foi apenas emprestado.

Tudo é um testamento.

 




Paulo fez os desenhos das páginas internas do novo disco e Tom acrescentou a música “O

boto”, peça difícil que ele canta com a irmã de Chico Buarque, Miúcha. Anos mais tarde, Tom confidenciaria a Daniel, seu neto (e pianista como ele): “Devo estar muito longe quando escrevi aquela música. Quem entende 'O boto' já está numa dimensão superior.”

De volta ao Brasil, Tom poderia ter precisado do apoio de seus amigos em assuntos não

profissionais. Então, decidiu procurar Dorival Caymmi. Ele soube que o baiano estava

“escondido”, apenas passando um tempo longe de tudo em seu apartamento no Posto Salva-

vidas Seis, na praia de Copacabana. Tom foi lá ver o amigo sem ligar primeiro. Tocou a

campainha e Dorival abriu a porta de sandália e bermuda. Tom disse apenas: “Vim buscar você”.

Dorival respondeu: “Então eu vou”.

Vestido como estava, desceu no elevador com Tom e entrou no carro. Eles dirigiram pelo

Rio, sem rumo. Finalmente pararam no Parque Guinle e sentaram-se na relva para observar os

pássaros. Mais tarde sentaram-se no Bar Bem, em São Conrado, onde conversaram e beberam

cerveja por horas a fio. Tom estava procurando conselhos sobre seus problemas de saúde.

Tentando acalmá-lo, Dorival fez a seguinte observação: “Ninguém está tão saudável que não

vá morrer, e ninguém está tão doente que já esteja morto”.

Quando voltaram para casa já era muito tarde da noite.

Um mês depois, Tom ligou para o filho, Paulo, e os dois combinaram de se encontrar em um

bar no Leblon para conversarem em particular. Eles se sentaram em uma pequena mesa no canto.

Paulo percebeu o olhar angustiado do pai. Ele já sabia que seus pais não estavam bem e que o relacionamento deles estava por um fio.

Paulo esperou ansiosamente pelas palavras do pai. Lentamente, depois de algumas doses

de uísque, Tom se abriu. Seu casamento foi arruinado. Ele estava se sentindo bastante infeliz e não queria ferir os sentimentos de Thereza. Ele não sabia como enfrentar a situação. Paulo

ouviu o pai desabafar aquela história. Paulo também sentiu a angústia. Foi difícil para ele: “Bem, pai… nenhum de vocês merece isso. É muito sofrimento.”

“Eu não queria que fosse do jeito que é. Não sei como isso aconteceu. Isso é

complicado lidar com essas questões. Você entende, filho?

"Eu faço."




 


“Não sei o caminho de volta. Cada palavra que eu digo, sua mãe ouve algo

caso contrário, outra palavra.

Ele exibia um sorriso triste, apertando os lábios um contra o outro, um novo tique nervoso que adquiriu recentemente.

Paulo ficou quieto. Ele esperava que seu pai continuasse.

“Nossas emoções nunca mais serão as mesmas. O cristal quebrou em pedaços.

Foi isso que aconteceu: quebrou.”

O filho de Tom observou mais profundamente a tristeza no semblante do pai, a tristeza que tomou forma nas linhas inchadas daquele rosto. Tom envelheceu muito nos últimos meses. Em voz baixa, quase como um sussurro, Paulo disse: “Um dia, pai, você encontrou Pixinguinha no centro da cidade.

Você me ensinou o que aprendeu com ele: o principal é ser feliz.”

Sem pressa, Paulo encostou-se no desconfortável encosto da cadeira daquele barzinho inusitado

do Leblon. Ele perguntou abruptamente: “Por que você e mamãe não se separam?”




Esse momento de separação ainda não havia chegado, mas chegaria em breve. As circunstâncias

para isso já existiam, silenciosa e furtivamente, e a crosta da crise estava pronta para atacar. Essa é a chamada hora irremediável. O tempo da dor foi se configurando na escuridão, no espírito e na carne. Não se materializou no pequeno gesto de colocar uma aliança na mesinha de cabeceira. O

momento da separação ainda se escondeu, por mais algum tempo, na sombra de lágrimas maiores.

Antes de saírem do bar, ficaram parados e ofuscados pela intensa luminosidade daquela hora.

Lentamente, Tom abriu a mochila de couro pendurada no ombro. Ele deu ao filho um pedaço de papel dobrado. Paulo enfiou-o no bolso e despediu-se do pai ali mesmo.

Sozinho em seu carro, Paulo leu a letra de uma nova música, “Pássaro solitário”

(Pássaro Solitário).

Poço Fundo continuou sendo um refúgio para ambos, Tom e Thereza, e eles se esforçaram muito

para que as coisas dessem certo. Tom se transformou em outra pessoa enquanto estava lá. Muitas vezes ele voltava ao Rio e Thereza ficava mais tempo, sob o pretexto de cuidar das plantas. Ela tinha um talento admirável para jardinagem. Aos amigos íntimos, ela se referia com muito charme como

“Burla Máxima”, um jogo de palavras em português que evocava o

 





nome do famoso paisagista Burle Marx e o verbo burlar (falso). Ela passava longas horas na varanda, sentindo a iluminação diferenciada do local, até que a noite caiu rapidamente, enquanto o céu ficava roxo.

Cada vez mais fechada em si mesma, Thereza sofria em silêncio. Seu casamento acabou.

Ela não conseguia encontrar forças para lutar por isso. Mas ela não se importou de ficar sozinha em Poço Fundo. À noite ela fazia ioga. Mais tarde, ela dançou sozinha no estúdio de Tom.

De volta ao Rio, Tom mal ficava em casa. Sua vida agora era contabilizada em termos dos

bares que ele mais frequentava. Ele continuou bebendo muito.

Lembrando Neruda, que dizia que em seus versos cruzou diversas vezes os Andes, Tom brincou

sobre seu hábito de “dormir ou compor enquanto caminhava”.

O problema do casal era insuportável para ambos. Eles estavam juntos há trinta e seis anos,

vinte e nove deles como casal. Eles tinham dois filhos, mas não havia nada que pudessem fazer a respeito. Seus obstáculos eram esmagadores.

Nesse ínterim, Tom estava prestes a completar cinquenta anos. Bené Nunes procurou

Thereza, para que organizassem uma festa surpresa para ele. Triste, ela respondeu: “É melhor

você falar com ele. Nem sei se ele ainda mora aqui.”

Nilza ligou para Thereza uma semana antes de seu aniversário. Ela queria saber se Thereza

iria preparar um jantar especial na casa deles. Thereza foi muito reservada: “Não sei, Nilza. Eu não fiz nenhum plano.”

"Então você fala com ele primeiro." Houve uma pausa ao telefone. “Você me conta mais tarde o que você decidir.”

Thereza esperou Tom chegar em casa naquela noite. Ela estava deitada na cama quando

ouviu o som do carro dele estacionando na rua. Ele não usava mais a garagem. Ela olhou para o relógio: três da manhã. Ele demorou um pouco para subir até o quarto deles. Ele devia estar bebendo água ou comendo alguma coisa. Na cama, ela tentou retomar a leitura do livro, mas

era muito difícil se concentrar.

Ela ouviu os passos dele na escada e depois a maçaneta.

Ele entrou na sala e pendurou a mochila na cadeira sem dizer uma palavra a ela. À luz de

sua expressão facial e do olhar, ela sabia que ele havia bebido muito. Ele entrou na cama com roupas normais, até mesmo com sapatos normais. Ela permaneceu quieta até ouvir a respiração

dele mudar de ritmo para sono. Roncando levemente, ele manteve um dos braços sobre os




olhos. Ela iria

 


tenho que esperar até o dia seguinte para falar com ele. Teria que ser entre goles de café, antes que ele saísse da mesa e desaparecesse novamente.

Inquieta, ela teve mais dificuldade em adormecer. Por um tempo ela pensou em tomar um

tranquilizante. Ela apenas se virou para o outro lado da cama para tentar dormir um pouco.

Mais tarde naquela manhã, tudo o que ela lembrava era que talvez tivesse ouvido o relógio

bater cinco vezes.

Ela acordou sentindo-se ansiosa. Ela dormiu por apenas duas horas. Tom continuou

dormindo. Ela pegou seu roupão e desceu as escadas. A luz do sol entrava pelas cortinas. Já havia esquentado um pouco naquela época. Ela sentiu o cheiro de café e foi direto para a

cozinha. Rail, o criado deles, estava fazendo café perto da pia. A empregada percebeu que

Thereza havia dormido mal, como havia acontecido nas noites anteriores.




Thereza sentou-se sozinha à mesa da sala de jantar, onde tomou chá quente. Ela acabou

passando a manhã inteira em casa, esperando Tom acordar. Quando ele desceu para o café

da manhã, ela sentou-se à mesa novamente. Ele acrescentou mel à sua xícara de café. Esse

era o seu hábito. Ele cortou uma fatia de queijo. Quando ele ia se levantar, Thereza o

interrompeu: “Espere um pouco. Quero falar com você."

Tom olhou para ela e ela percebeu que não sabia mais como se conectar com ele. Ela

acrescentou: “Sua mãe ligou ontem à noite. Ela perguntou se eles poderiam jantar com você

no seu aniversário.

Embora irritado, ele consentiu: “Claro”.

“Você não vai esquecer, vai? Será muito desagradável se você não aparecer.”

“Nunca deixo de comparecer a nenhuma reunião.” Irritado, ele acrescentou: “Nunca guardei

minha mãe esperando.

Desta vez ele se levantou e foi em direção à sala. Thereza ouviu os acordes de uma

melodia que nunca tinha ouvido antes. Ela permaneceu à mesa por mais alguns minutos.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

A empregada começou a tirar a mesa. Ela fingiu não ter notado o que estava acontecendo.

Ela continuou lavando a louça e cantando, desafinada, como sempre. Os acordes vindos do

estúdio cessaram repentinamente. Ela ouviu a porta principal da casa se fechar. Tom saiu

novamente sem se despedir.

Thereza confirmou o jantar com Nilza e passou a tarde ligando para familiares e amigos

mais íntimos.




 


25 de janeiro de 1977 – o jantar estava marcado para as oito horas. Nilza e Celso chegaram na hora certa. Nilza ainda era bastante forte. Seu cabelo prateado curto, ela tinha linhas faciais delicadas e olhos azuis oceânicos atentos. No mês seguinte, também dia 25, ela completaria

sessenta e sete anos. Ela circulava livremente pela casa do filho. Ela e Celso gostavam muito de Thereza. Foi um relacionamento fácil e íntimo. Eles estavam sempre juntos.

Às nove horas a casa estava lotada e Tom ainda não havia chegado. Bastante irritada,

Thereza fez o possível para que todos se sentissem em casa conversando com todos. Na sala,

uma mesa excelente foi lindamente montada.

Talheres e xícaras brilhavam intensamente. No meio da mesa havia um buquê de rosas

amarelas, exatamente o que ele gostava.

Às dez, Thereza e Nilza resolveram servir o jantar. Havia constrangimento no ar. Na grande

mesa estavam sentadas dezoito pessoas. Rail, bem vestida com seu uniforme azul, trouxe

cada uma das bandejas de saladas e carnes sem demonstrar qualquer emoção. As vozes




baixas dos convidados sugeriam o quanto todos se sentiam estranhos naquele momento.

Depois da sobremesa e do café, eles voltaram para a sala.

Eram onze e meia quando Tom finalmente apareceu. Ele estava sem camisa. Em vez disso,

usava um colete que Thereza nunca tinha visto antes, óculos escuros de armação brilhante e o tipo de chapéu pontudo que costuma ser distribuído em festas infantis. Ele vinha da casa do

Antonio, onde outros amigos haviam preparado uma festa diferente para ele.

Tentando fingir que nada havia acontecido, ele foi direto ao piano e tocou “Parabéns pra

você”. Todos cantaram junto com ele e lhe deram presentes. Percebendo o quão cansado ele

estava, a família de Tom começou a ir embora. Nilza beijou Tom e depois Thereza. Nilza se

emocionou ao confidenciar: “O que mais quero na vida é a felicidade de vocês, meus filhos”.

Thereza trancou as portas externas da casa e subiu rapidamente para

quarto. Tom continuou tocando piano até altas horas da madrugada.

No dia seguinte, ela arrumou uma mala grande e a deixou em pé, na saída principal. Quando

Tom acordou e desceu, perguntou para que servia aquela mala. Ela aproveitou o que restava

de suas forças para dizer: “A mala é sua. Todas as suas roupas estão lá. Acabou. Não aguento mais essa situação.”

“É do jeito que você quer?”

“Quem quer assim é você.”

"Eu nunca disse isso."




 


“É necessário dizer isso? Tentei falar com você. Mas você sempre evitou isso.

“Eu nunca evito nada.”

Ele subiu novamente, como se tivesse deixado algo para trás. Enquanto isso,

Thereza pediu a Rail que colocasse a sacola no carro de Tom.

As coisas não foram tão fáceis, porém, e o último episódio do drama não terminaria assim. Durante semanas a fio, Tom ainda guardava a sacola no porta-malas do carro e viajava de casa para os bares e voltava para casa. Ele não sabia bem que caminho seguir. O velho caçador não se perderia na floresta. Na floresta, Tom não conhecia o medo. Mas na selva de concreto, suas dores eram piores e muitas vezes não cicatrizavam.

Manoel trabalhava no centro da cidade. Em seu escritório, ele começou a receber telefonemas de amigos e conhecidos que lhe contavam que Tom tinha bebido demais.

Quando um dos interlocutores foi longe demais, atacando Tom, Manoel pediu que ele fosse comprar um disco de Tom Jobim e ouvisse seus últimos sucessos. Mas Manoel estava realmente preocupado.

Ele sabia do momento delicado que seu cunhado estava passando.




Chegou então o dia em que um amigo de Manoel marcou um encontro com ele. Eles se trancaram naquele escritório no centro da cidade. Manoel não queria acreditar no que ouvia: Tom estava

literalmente dormindo nas grades. Manoel achou que a história estava exagerada.

“Nunca vim aqui para falar do seu cunhado. Agora estou lhe dizendo

o que eu sei, e é isso”, disse aquele homem. Ele acrescentou: “Vamos conversar sobre negócios”.

Eram quatro horas quando Manoel pediu ao seu gerente que fechasse ele mesmo o escritório às

seis porque ia sair mais cedo. Manoel pegou seu carro e partiu em peregrinação pelos bares da zona sul do Rio. Em Copacabana ele checou o Alcazar. Tom não estava lá. Em Ipanema procurou-o na Garota de Ipanema (novo nome do antigo Veloso). Manoel decidiu caminhar pela praia até chegar ao Leblon, onde tentou encontrar Tom no Degrau, Diagonal, Alvaro's e Real Astória, sem sucesso. Manoel entrou na rua Bartolomeu Mitre e de repente viu o carro de Tom com a marca de ferrugem em cima do para-lama traseiro.

Sim, lá estava: Moby Dick, a baleia ferida, como Tom a chamava.

Manoel entrou na escuridão de um barzinho próximo. Viu Tom sentado em uma mesa nos fundos

com o jornalista Tarso de Castro e o cineasta Joaquim Pedro de Andrade. Manoel sentou-se sozinho numa outra mesa não muito longe deles. Tom notou-o e pareceu surpreso. Manoel fez um gesto

sugerindo que precisavam

 




para conversar em particular, então Tom sentou-se com ele.

“Disseram-me que você está dormindo nas grades e que não vai mais para casa. O que

está acontecendo?"

Tom olhou de lado: “Thereza me expulsou”.

“Mas como é que você está vivendo agora? Dormindo em bares? Helena quer que você

fique conosco enquanto decide o que fazer da sua vida. O que você não pode fazer é isso, se expor dessa forma. Eu também quero que você se mude para nossa casa e nos faça companhia

até que você desfaça a bagunça em que está. Viver em bares definitivamente não é certo.

Tom aceitou o convite e seguiu o carro de Manoel até casa. Ele então passou a morar com

a irmã e o cunhado por algum tempo. Todas as noites jantavam na Churrascaria Carreta. Eles

voltaram para casa mais cedo e Tom conseguiu dormir bem. Ele estava levando um estilo de

vida mais tranquilo, algo que não fazia há um bom tempo. Essa calorosa recepção e aceitação

foram muito importantes para ele naquela fase da sua vida.

Mas todos na família estavam muito preocupados – especialmente Nilza. Ela queria que o

filho se mudasse para a casa dela, mas Tom ficou com Helena e Manoel. Quando as pessoas

souberam onde ele estava “escondido”, o telefone de Helena não parava de tocar. Helena ficou

encarregada de filtrar essas ligações. Na verdade, ele pediu ajuda a ela de todas as maneiras, desde fazer café até fazer ligações.

O novo local de encontro de Tom agora era a casa dela. A cantora Miúcha e o produtor de

cinema Dico Wanderley foram os convidados mais assíduos.

Pouco depois, Thereza ligou para Celso: “Você me casou com o Tom. Agora você tem que me

separar dele.

Sentindo-se um tanto constrangido, Celso não pôde recusar a tarefa. Nilza ficou muito triste.

Aquele casamento para o qual tanto contribuíram e confiaram foi extinto.

Celso não suportava ver Nilza deprimida. Ele não era do tipo que cedeu facilmente, no entanto.

Ele era um homem de ação e logo tomou as providências necessárias para a separação judicial

do casal. A audiência foi marcada poucos dias depois de ele entregar a documentação ao

cartório.




Thereza pediu que Helena e Manoel a levassem à sessão do tribunal. Tom iria lá com Celso.

Naquela manhã quente e ensolarada, Tom entrou na sala e encontrou sua irmã, que estava

esperando por ele. Ele estava lívido. Sua expressão era de profunda tristeza. Ele disse a ela em voz baixa: “Isso não é

 


o que eu pretendia.”

Helena beijou-o na bochecha e falou com ternura: “Mas você foi longe demais...”

Ele não respondeu. Manoel juntou-se a eles. Assim como eles, ele estava pronto para partir.

Rail, criado de Tom, atendeu o interfone: Celso estava chegando. Ele e Tom saíram

rapidamente. Helena ligou para Thereza para avisar que iriam buscá-la em quinze minutos.

Quando chegaram à casa dos Codajás, Thereza os esperou no portão. Ela sentou-se no banco

de trás do carro, inclinou o banco para trás e não pronunciou uma palavra. Manoel deixou-os

na entrada principal do tribunal e foi procurar um lugar para estacionar o carro.




Tudo aconteceu muito rápido. Chamaram Thereza, sozinha, primeiro. Então pediram a Tom

que fosse ao escritório. O juiz perguntou formalmente se havia alguma chance de reconciliação.

Ambos monossilabicamente disseram não.

Tom e Celso simplesmente desapareceram. Manoel e Helena levaram Thereza de volta

para sua casa. Assim como na descida, ela sentou-se no banco de trás, colocou os óculos

escuros e recostou-se no encosto de cabeça. Pelo retrovisor, Manoel viu as lágrimas rolarem

abundantemente pelo seu rosto.

O fim daquele casamento foi chocante, principalmente no mundo musical, onde as pessoas

viam Tom e Thereza como exemplo de casal feliz. Ninguém poderia ter imaginado a separação

deles – apesar dos problemas e dificuldades comuns de todo casamento. Entre os amigos

casados mais próximos, havia um clima de insegurança e perplexidade. Na cabeça deles,

Tom e Thereza eram uma só pessoa. Alguns chegaram a comentar que a música “Trocando

em miúdos”, de Chico Buarque e Francis Hime, foi inspirada na separação de dois seres da

vida real cujo intenso amor um pelo outro havia desaparecido.

 








 

Renascimento

APÓS A SEPARAÇÃO DE THEREZA E TOM, Nilza estava decidida a trazer o filho para

morar com ela e Celso. Ela foi até a casa de Helena e recolheu todos os pertences que

Tom havia pedido para ela levar. Ela arrumou uma sala inteira com locais específicos para

seus objetos pessoais. Com um espírito prático, ela inventou uma espécie de armário

atrás da porta daquele quarto, onde Tom poderia guardar com segurança e ordem todos

os seus medicamentos prescritos, e havia alguns.

A saúde de Tom continuou a piorar. Ele tentou todos os tratamentos alternativos possíveis

para evitar a cirurgia. Ele acreditava no estilo de vida e no poder dos índios nativos americanos descritos pelo aclamado e misterioso escritor Carlos Castaneda. Afinal, Tom já havia visto

diversos fenômenos que escapavam ao raciocínio formal ou científico.

Ele continuou a passar muitas noites conversando e tocando violão na casa de sua irmã.

No entanto, era na sua churrascaria preferida, a Carreta, que Tom era mais visto – quer à hora do almoço, que se prolongava até ao final da tarde, quer à hora do jantar, que não terminava antes da madrugada.

Nas conversas, Tom se abriu para Helena sobre toda a sua vida: seus sucessos e

desencantos, mas também suas histórias sobre uma jovem que conheceu no Luna Bar. Ela

era esquiva e, coincidentemente, tinha um nariz que lembrava o de Thereza. Seguindo os

mesmos caminhos que o levaram a se aproximar de Thereza, ele agora buscava aquele novo

amor de sua vida. Ele a levou para passear na Floresta da Tijuca.

A beleza da área os envolvia: o Lago das Fadas, o Lago da Solidão e todo o mistério da mata ao seu redor. Eles, da mesma forma, estavam sendo envolvidos pelo amor misterioso que

emergia entre eles. Tom leu para ela seus poetas favoritos, cantou suas músicas favoritas e

compartilhou passagens dos escritos de Castaneda. Tom também copiou e deu a ela um belo

poema de Raul de Leoni. Em outras ocasiões, Tom e Ana, esse novo interesse amoroso,

acabavam conversando por horas, a noite toda.

Helena perguntou-lhe um dia: “Você gosta mesmo dela?”

Ele respondeu: “Sim, eu quero”.

"Você está apaixonado por ela?"



“Estou, mas não sei se ela gosta de mim. Eu tenho dado a ela meus álbuns para ver

se ela conhecer o meu interior.”

 


“Leva tempo para conhecer você por dentro”, respondeu Helena com um sorriso.

“Eu falei com ela sobre você. Eu gostaria que você a conhecesse.

“Sempre que estiver tudo bem para você. Qual o nome dela?"

“Ana. Ana Beatriz.”

Uma semana depois, Tom ligou para convidar Helena para almoçar. Ele iria buscá-la em menos de uma hora.

“Só nós dois?”, ela perguntou a ele.

"Não. Gostaria que você conhecesse Ana.

Na hora marcada, Helena o esperava no hall de entrada do seu prédio. Ele chegou em poucos

minutos. Passaram pela praia de mar azul e verde, onde os fortes ventos formavam inúmeras




ondulações de espuma. Aquele grande mar de safiras era deles, de Tom e Helena, desde que

nasceram. O tempo abafado, porém, turvou o céu branco. As janelas do carro estavam fechadas e o ar condicionado ligado. De repente, Tom abriu as janelas e exclamou: “Aproveite o cheiro do oceano, irmã Nena. E tire esses óculos escuros. Eu quero ver seus olhos azuis. Dê uma olhada na vida brilhante! Ele então sorriu.

Helena sempre ouviu o irmão falar sobre seus olhos. Era uma espécie de obsessão para ele. Seu psicoterapeuta diria que Freud havia explicado tudo isso. Nilza e Mimi também tinham o que os brasileiros chamam de olhos claros. Helena ficava sem graça quando Tom a apresentava assim: “Você conhece minha irmã? Ela tem olhos azuis."

Outras vezes, ele dizia: “Se eu tivesse esses olhos, estaria em Hollywood”.

Ela retrucava: “Mas quem está em Hollywood é você!”

Chegaram na entrada de um restaurante muito elegante em Copacabana. Eles entraram no prédio

alto e subiram até o último andar. Daquela altura a única coisa que se via era o oceano. Mais uma vez, o oceano – visto de cima, através do lado interno das enormes vidraças, parecia um corpo de água remoto e nebuloso em uma pintura muito antiga.

Helena e Tom sentaram-se e conversaram por algum tempo antes de Ana aparecer.

Helena viu quando a porta do restaurante se abriu e um rosto jovem apareceu. Por alguns segundos, aquela jovem pareceu inquieta e hesitante antes de entrar.

Quando finalmente se dirigiu para a mesa, Helena percebeu que provavelmente era ainda mais jovem do que imaginava. Ela tinha apenas dezenove anos e era muito

 




boa aparência. De pele clara e longos cabelos escuros, ela realmente se parecia com Thereza.

Estatura mediana e esbelta, ela sentou-se à mesa, visivelmente constrangida.

A conversa girou em torno de familiares de ambos os lados. Ela era uma mulher tímida e

muito quieta. Um certo ar de desamparo pairava em seu rosto.

Mais tarde, quando já se conheciam melhor, Ana contou a Helena o que havia pensado daquele

primeiro encontro: que era tudo uma brincadeira que Tom poderia estar pregando nela. Ana

suspeitava que Helena não fosse irmã de Tom por causa de sua aparência nórdica. Depois do

almoço combinaram de se encontrar novamente na casa de Helena.

No Luna Bar, Tom e Ana se encontravam quase sempre na companhia dos amigos noturnos

de Tom. Foram muitos, como os jornalistas Tarso de Castro e José Carlos de Oliveira; o pintor Ângelo de Aquino e sua namorada, Ana Lúcia, amiga de infância de Ana; as atrizes Tessy

Callado e Marta Alencar; os atores Hugo Carvana e Antônio Pedro; o compositor Chico

Buarque; o economista e intelectual Ronald Chevalier, o banqueiro e produtor que mais investiu nas artes no Rio. Esse grupo ocupava quase todas as mesas do bar. Todos sentiam falta de

Vinicius de Moraes, que agora morava na Bahia com a mulher, Gesse.

Na casa de Helena e Manoel talvez não houvesse horas suficientes da noite, dado o

entusiasmo que compartilhavam enquanto conversavam com Ana e Tom. Ana confidenciou a

Helena que a música “Ângela” foi escrita para ela. O título homenageava Ângelo, o pintor, que a apresentou a Tom.

Por aproximadamente dois anos, Tom e Ana tiveram um caso de amor platônico.

Muitas vezes Tom a deixava em casa e voltava para o bar. Quando isso aconteceu, a piada

entre os seus amigos foi: “Esta noite devemos, mais uma vez, celebrar a vitória dos valores

espirituais sobre questões concretas”. Todo mundo riu.

Quando Vinicius voltou da Bahia foi com uma grande surpresa. Ele já era casado com outra

pessoa, uma argentina chamada Marta. Quase diariamente, Tom e Ana frequentavam a casa

deles. Era uma casa pequena e muito agradável na Gávea. Com suas charmosas mesas

antigas com tampo de mármore em um pátio frontal, parecia um bar ao ar livre. Além dos filhos de Vinicius, que sempre compareciam, vários amigos frequentavam regularmente – entre eles,




o violonista e compositor Toquinho, que era sócio de Vinicius, e o industrial Zequinha Marques da Costa, com sua esposa Regina.

De manhã, deitado numa enorme banheira, Vinicius costumava perguntar

 


para um gim e tônica. Acima da borda da banheira, um pedaço de madeira servia de

prateleira onde ele colocava o copo e os livros que ali lia durante horas. Sempre bem-

humorado e gentil, ele amenizava os efeitos das maldades do álcool e do tabaco com

o uso de diminutivos: “Um pouco de uísque, por favor...um cigarrinho, por favor...”

Seu temperamento era fácil e doce. Ele também usou diminutivos para chamar

seus amigos. Tom, para ele, sempre foi Tonzinho.

Zequinha era um amigo tão íntimo na casa de Vinicius que, quando o poeta

preparava seus banhos quentes na banheira tipo jacuzzi com sais perfumados, ele

também tirava a roupa e se juntava a Vinicius na água. Eles ficavam lá por horas




apenas bebendo e conversando até a água esfriar demais.

Após o retorno de Vinicius de Moraes da Bahia, novos projetos foram surgindo. Um

convite veio de Miúcha, que iria gravar um disco, sob a direção de Durval Ferreira, de

clássicos antigos, como aqueles sambas e baladas de Ary Barroso e Custódio

Mesquita. Ela queria que Tom tocasse um trecho, mas quando ele se juntou ao piano,

Chico Buarque ficou muito entusiasmado com o disco da irmã e escreveu duas

músicas para ele: “Maninha” e “Olhos nos olhos”. Olho). Tom também se interessou

tanto pela ideia do álbum emergente que se ofereceu para tocar e cantar com Chico

e Miúcha em todas as faixas. O ambiente de trabalho era alegre e resultou nos já

clássicos Miúcha & Antonio Carlos Jobim.

Nesse ínterim, outra grande oportunidade estava surgindo para Tom. Fazia quinze

anos que ele não fazia show no Rio. Aloysio de Oliveira conversou com Mário Priolli,

dono do maior espaço de shows ao vivo do Rio no final dos anos 1970, o Canecão,

propondo um show com várias estrelas e uma orquestra. Seria um grande risco para

o produtor. Priolli aceitou sem hesitação, porém. Ele sentiu que poderia se tornar um

evento histórico.

Assim, Aloysio convidou Tom, Vinicius, Miúcha e Toquinho para serem as atrações

principais. Ele também montou um coro familiar que incluía Ana (namorada de Tom)

e Elizabeth (filha de Tom), além de três irmãs de Chico Buarque, Pii, Cristina e Bahia.

A orquestra seria dirigida por Edson Frederico, e toda a programação seria dirigida

por Aloysio de Oliveira.

Os músicos começaram a ensaiar e os jornais a criar grandes expectativas para o

concerto. Houve, então, um forte frisson na cidade: o reencontro dos dois ex-sócios,

Tom Jobim e Vinicius de Moraes, cantando suas canções, era aguardado com

entusiasmo. Seria uma oportunidade incrível para




 


velhas histórias de amor e novos relacionamentos amorosos, bem como para sonhos

apaixonados perdidos e recuperados, se misturarem. Tudo isso correria sob a sonoridade

doce e sedutora de dois artistas que se tornaram símbolos de sua cidade, pois muitas

vezes evocavam as mulheres amantes e o próprio Rio de Janeiro, seus temas preferidos.

Na noite da estreia, longas filas se estendiam ao redor e além do Canecão. Eram

pessoas que esperavam por ingressos extras daqueles que poderiam ter sido forçados a

faltar ao show por um motivo ou outro. No vestiário, o bom humor de Vinicius amenizou a

ansiedade que afetava todos os demais.

A famosa barriga de cerveja de Tom – que ele chamava de “barrigose” (brincando,

“barrigose”) – continuava a incomodá-lo.

Vinicius estava escalado para fazer a abertura do show. Para o pânico de Tom e Aloysio,

o poeta avisou o companheiro: “Tonzinho, estou completamente bêbado, mas vou me



recuperar da farra no palco”.

Aloysio começou a orar e o público aplaudiu com entusiasmo quando Vinicius subiu ao

palco. Vestido de branco, começou a dançar dando as costas para o público, que gritava

sem parar: “Poetinha”.

Vinicius sentou-se em um banquinho alto e a primeira coisa que fez foi pedir um copo de

uísque a Pepe, o gerente do camarim, homem querido entre os artistas locais. Pepe entrou

no palco com dois copos em uma pequena bandeja. Entregou um deles para Vinicius e

colocou o outro em cima do piano Yamaha, que Tom trouxera de casa.

Vinicius começou contando histórias de sua vida como artista e diplomata, para deleite

do público. Ele também recitou alguns de seus versos e outras anêses.

Quando Toquinho e Miúcha se juntaram a ele, os aplausos foram mais intensos.

Algo no ar sugeria que a entrada de outra pessoa era aguardada com ansiedade. Foi

Antonio Carlos Jobim, claro. Quando Vinicius o chamou, o público delirou. Eles aplaudiram-

no de pé que durou vários minutos. Vestido todo de branco, Tom estava bronzeado e

radiante.

Sorrindo, ele fez uma reverência ao público e dirigiu-se ao piano com sua vivacidade

irresistível que encantava a todos. Ele estava muito nervoso, no entanto.

Helena e Manoel, sentados numa mesa ao lado do palco, encheram-se de orgulho e

alegria. Olhando para o irmão, Helena lembrou-se do avô Azor. Tom herdou a sedutora

combinação de ternura e virilidade. Ela percebeu como seu irmão poderia, agora, provar

mais uma vez que era filho e amigo íntimo da cidade que exaltava em sua música. Homens

e mulheres o respeitavam e amavam




 


como um ícone vivo de um estilo de vida ideal.

Houve um silêncio profundo quando Tom finalmente sentou-se ao piano e o maestro

Edson Frederico ergueu os braços. Tom estava prestes a começar a jogar.

Infelizmente, Tom começou com um acorde errado. Ele e a orquestra pararam

imediatamente. O silêncio do público foi ainda mais profundo. Tom inclinou ligeiramente

a cabeça em direção ao microfone e disse, em voz baixa: “Peço desculpas”.

Depois de um segundo de perplexidade, o público bateu palmas freneticamente.

Mais uma vez com sensibilidade, Tom saiu vencedor. Ele era carioca e brasileiro,

mas havia se tornado um cidadão do mundo.

Tom tocou algumas de suas músicas mais bonitas. Toquinho o acompanhou no

violão enquanto Miúcha e Vinicius dividiam a voz com ele. A grande maioria do público

cantou junto com eles. Foi muito comovente testemunhar o seu desejo de se misturar



com os artistas e a sua intensa reverência pelo trabalho dos artistas.

Houve muito tempo para Tom e Vinicius conversarem entre as músicas. Foram

conversas inteligentes e divertidas. Eles próprios, bebedores pesados, tentavam,

brincando, enganar uns aos outros enquanto trocavam sugestões de medicamentos

prescritos para problemas de fígado. Certamente fizeram o público rir muito com

histórias inventadas na hora. Tom relatou passagens de sua vida, e assim satisfez a

curiosidade de seus fãs que adorariam conhecê-lo mais intimamente.

Apoiado em sua resiliência sobre-humana, Vinicius continuou bebendo uísque. O

copo de Tom no piano, porém, continha chá gelado. Era da mesma cor do uísque.

Então, quando Tom ergueu o copo e virou-o para o público dizendo que era chá, eles

se separaram. Eles não podiam acreditar que era verdade.

Quando o concerto terminou, o público não só aplaudiu intensamente os artistas,

como era de esperar, como também cobriu o palco com rosas vermelhas. O ator

Carlos Eduardo Dolabella caiu de joelhos e nessa posição ficou batendo palmas por

um bom tempo.

Após o show, todos os artistas e seus amigos saíram para comer e beber no

Restaurante Concorde, na Praça General Osório. Tom, Ana e Vinicius eram tão

frequentadores do local que seus nomes ficavam gravados nos pratos que usavam.

Geralmente saíam do Concorde ao nascer do sol. Certa vez, Vinicius ficou até as

nove da manhã. Ele estava contando histórias sobre um de seus vários casamentos.

Quando a maioria das cadeiras estava apoiada de cabeça para baixo em cima




 


nas outras mesas, um último garçom mordeu a língua e continuou servindo Vinicius e

amigos. Quando os boêmios terminaram e finalmente foram embora, o sol brilhava sobre as

barracas de um movimentado mercado de rua. Eles riram ao imaginar como aquele garçom

seria recebido ao chegar em casa naquele horário da manhã.

O show foi planejado para durar quatro semanas. Em vez disso, durou oito meses. Foi

gravado ao vivo e o álbum rapidamente se tornou um sucesso absoluto.

O mesmo programa teve uma exibição altamente positiva durante um mês no Anhembi,

conceituado teatro de São Paulo.

Eles levaram o show também para a Argentina, sob contrato com Mário Priolli para uma

passagem por um cassino em Mar Del Plata. Lá também foi um caso de bastante sucesso

junto ao público. Ao retornarem ao Brasil, Tom contava em tom de brincadeira que nunca

conseguiam almoçar naquela cidade. Eles foram para a cama e acordaram tarde demais.



Quando estavam prontos para comer, por volta das três da tarde, todos os restaurantes

estavam fechados. Era hora da sesta. Um garçom, vestindo roupas tradicionais gaúchas e

com um guardanapo de pano pendurado no antebraço, informou aos músicos brasileiros:

“Agora não há nada. Tudo está desligado. Você terá que esperar algum tempo. Começamos

de novo às sete.

Se a banda insistisse, o garçom respondia, agora um pouco irritado: “A cidade inteira está

fechada!”

E a banda passou fome até as sete.

De volta ao Rio, Tom estava na Churrascaria Carreta tomando cerveja com os amigos,

quando o guitarrista Luiz Roberto Oliveira começou a conversar com entusiasmo com o

compositor Sérgio Saraceni sobre um cirurgião paranormal que ele havia consultado. Seu

nome era Lourival de Freitas, também conhecido como Nero. As pessoas contaram histórias

incríveis de suas curas. O médico usava ervas e operava seus clientes usando música como

anestesia. Tom parou de conversar com os outros para ouvir o que Luiz Roberto dizia.

Na saída do restaurante, Luiz Roberto perguntou a Tom se ele gostaria de conhecer

Nero. Tom disse que sim, muito mesmo. Quando Luiz Roberto informou ao médico sobre o

interesse de Tom, Nero hesitou: “Tom Jobim? Nossa, de jeito nenhum...” Depois de alguma

pressão, porém, ele concordou em ajudá-lo, em sua casa.

Um dia, Luiz Roberto e Tom foram almoçar na casa da mãe de Tom e de lá seguiram em

direção à casa de Nero, que fica em frente a uma pracinha no bairro classe média de

Laranjeiras. Quando os dois amigos se aproximaram da casa do médico, Tom apontou para

um senhor parado na porta de um prédio de apartamentos e disse: “É ele ali, não é?”




 


E foi. Luiz Roberto ficou um pouco chocado com a intuição de Tom.

Tom conversou muito tempo com Nero sobre sua condição médica: suas artérias

obstruídas e sua falta de ar. Nero prescreveu tratamento com resinas de algumas

árvores amazônicas. Ele prometeu “proteger” seus órgãos com esses remédios

naturais e prolongar sua vida. Ele era profundo conhecedor da área de cura natural e

das plantas nativas da região amazônica. Com suas ervas ele seria capaz de ajudar

Tom a parar de fumar e beber, um grande passo para a melhoria de sua saúde.

Ainda morando com Nilza e Celso, Tom começou a seguir os conselhos de Nero e

a tomar os remédios prescritos. Pareceu a Tom que algum tipo de ser da floresta

havia entrado em seu corpo. Durante semanas ele acordou, tomou café da manhã,

caminhou e foi para a cama sentindo-se “encantado”. Tudo o que ele pôde dizer sobre

isso foi: “Oh meu Deus...” E ele dormiu muito bem, tomou café da manhã e dormiu de



novo, o dia todo. Ele jantou e voltou a dormir. Sua família acompanhou sua transição

com apreensão. Em pouco tempo, porém, uma cor rosada apareceu em seu rosto.

Era um tom que sinalizava um grau de vitalidade que Tom nunca havia demonstrado,

mesmo na primeira infância.

Obsessivamente, Tom agora tentava acompanhar Nero onde quer que ele

trabalhasse. Tom então testemunhou uma variedade de fenômenos ignorados ou

negados pela ciência convencional. A cirurgia sem dor ou perda sanguínea foi

realizada ao som de violão. Nero obteve resultados bem-sucedidos ao usar lâminas

de barbear comuns, agulhas de costura, facas comuns e canivetes, sem a devida esterilização.

Até mesmo alguns pacientes terminais foram curados dessa forma. Ajudando Nero,

Tom ocasionalmente tocava violão para fins anestésicos do médico. Foi tudo

surpreendente.

Com a perda de dez quilos e o abandono do fumo e do álcool depois de tantos

anos, a leveza de ser e o comportamento alegre de Tom voltaram. Seu inchaço foi

reduzido e seus traços faciais estavam bem definidos novamente. Ele parecia tão

mais jovem do que antes de iniciar o tratamento que as pessoas pensaram que ele

havia se submetido a uma cirurgia plástica.

Empolgado com a recuperação do pai, Paulo se interessou profundamente pelas

questões que envolviam o problema de saúde de Tom. Paulo passou muito tempo

conversando com Nero. Ele queria saber tudo sobre a vida daquele homem e ficou

tão imerso nela que acabou escrevendo o seguinte texto sobre o “feiticeiro”.

Conheci Lourival de Freitas quando ele cuidava do meu pai. Ele me disse que quando ele estava




 


com cerca de dez anos, dois fatos estranhos provocaram uma mudança radical em sua vida. Certa vez, ele estava bebendo água de um riacho quando viu a imagem de Nero, o imperador romano,

emergir na superfície do riacho. Essa imagem de repente entrou em seu próprio corpo e se misturou à sua personalidade. Não muito depois, enquanto trabalhava para um proprietário de terras sem

escrúpulos em sua plantação de bananas perto da cidade litorânea de Angra dos Reis, o menino viu seu chefe se contorcer de dores abdominais insuportáveis. Foi uma reviravolta nos intestinos.

Aconteceu no campo e Lourival não hesitou. Com o canivete que trazia consigo, o jovem Lourival abriu a barriga do homem e salvou sua vida. Só Deus sabe como!

A avó do menino era uma cigana russa que lhe ensinou tudo o que precisava saber sobre ervas. À

medida que envelhecia, seus poderes paranormais ficaram mais fortes. Lourival me contou que quando operava seus clientes, encarnado por Nero, não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Porém, quando trabalhava com ervas, ele era um botânico especialista.

A maioria das pessoas que o procuravam eram pacientes terminais que acabaram falecendo. Essa

falta de sucesso, segundo ele, criou uma dívida em seu carma, que ele teve que pagar ajudando os outros. Nero, da mesma forma, pagaria pelos horríveis feitos históricos que o tornaram famoso.




Eu gostava de ervas, e perto da casinha que herdei do meu avô em Poço Fundo, plantava tudo que era útil para a saúde, fosse como tempero ou remédio: boldo, alho-poró, capim-limão, alecrim, erva-doce, manjericão e arnica. Era mesmo uma cabana de pau-a-pique, o que eu tinha lá, com alguns abacateiros e tílias, além de duas daturas, macho e fêmea. Eu ainda não sabia muito sobre plantas naquela época.

Um dia meu pai me pediu para levar Lourival para Poço Fundo. Saí de casa cedo, peguei-o e subi as montanhas em um dia lindo, apesar de um pouco de neblina. Basicamente, nosso único assunto de conversa eram ervas. Ele ouviu, mas permaneceu um pouco quieto. Quando estávamos perto da

cidade de Soberbo, ele me pediu para parar o carro. Vimos algumas pessoas coletando ervas em uma área rochosa e Lourival pediu algumas delas. Ele sugeriu que eu experimentasse um deles. Era uma vassoura, com um gosto muito amargo que durou muito tempo. Ele me disse que era uma erva de primeira linha, mais potente que as outras porque crescia nas rochas. Ele disse que já havia tentado sozinho, como tudo o mais que prescreveu.

Assim que chegamos em Poço Fundo mostrei para ele o que havia plantado. Lourival não

demonstrou o menor interesse pelas ervas que eu tinha ali, mas agachou-se debaixo de um abacateiro e começou a coletar gramíneas e arbustos ao seu redor: erva-aranha, brotos de chuchu, borlas de milho e quebra pedra – quase tudo selvagem lhe foi útil.

Seguimos em direção à casa do meu pai (também em Poço Fundo), onde ele pediu um galho de

urze. Mais tarde, ele colheu de um canteiro abandonado uma erva que eu havia ignorado e preparou um chá para meu pai. Papai bebeu e passou o resto do dia urinando abundantemente. Lourival coletou o material em um frasco e observou como estava turvo. No decorrer de um único dia, meu pai estava visivelmente perdendo peso. Quando sua urina ficou completamente limpa novamente, Lourival

começou a dar-lhe seiva de ômeca das árvores centenárias da Amazônia. Foi difícil conseguir esse material. Ele a recebeu por meio de contatos que tinha no Exército e na Aeronáutica, únicos elos entre os madeireiros daquela remota bacia hidrográfica e o Rio de Janeiro. Certa vez, eles ficaram sem omeca. Então, Lourival pediu ao meu pai que tentasse encontrá-lo em Nova York. Papai conseguiu comprá-lo. Veio num frasco com um rótulo que dizia algo como: “Para pesquisa. Não use em humanos!

Papai tomou essa seiva durante anos. Tinha cheiro de mata natural, e ele até pensou que Lourival estava envernizando todo o corpo por dentro.

Diferentes tipos de resina ômeca forneceram a Lourival diversas substâncias para extrair e destilar em casa. Ele queria que eu escrevesse um livro descrevendo as dez mil substâncias que ele




 


feito dessa seiva. O que me importava, porém, eram as ervas mais simples, caseiras, e tinha medo de me envolver naquela loucura que assustava tanta gente. Eu nem comecei esse livro. Talvez esse conhecimento tenha sido preservado de alguma forma por Mônica, sua esposa na época, ou por outra mineira, que teve um filho dele e afirmou ser

uma feiticeira.

Em outra visita ao Poço Fundo, Lourival deu colheres para nossos dois filhos, Daniel e Marcela, segurarem.

Sem tocar em nada, ele dobrou aquelas colheres, assim como outros paranormais faziam. Suas mães estavam em dúvida, no entanto.

Lourival tinha tantas outras histórias para contar. Uma delas era sobre um curandeiro da vila de Mazomba, perto da zona onde nasceu, que por acaso era muito mais poderoso do que ele. Quando ele se sentou perto da beira de uma fogueira, sapos pularam em sua direção e ele os devorou. Certa vez, um fazendeiro brigou com ele.

Com apenas uma olhada no gado do homem, ele matou todos eles.




Meu pai tinha suas próprias histórias sobre Lourival, o Feiticeiro. Durante o tratamento de Lourival, viajou para Nova York para gravar o disco Terra Brasilis . Naquela época, meu pai acordava vendo imagens vívidas de gigantescas árvores amazônicas que se estendiam de Manhattan até o céu.

Em maio de 1978, Tom saiu da casa da mãe e viajou para Nova York em lua de mel com

Ana. Eles ficaram no Adams Hotel por três meses. Lá continuou trabalhando e, entre outras

músicas, escreveu “Você vai ver” e “Falando de amor”. Os amigos de Tom apareceram. Claus

Ogerman sempre ligava para Tom quando ele estava naquela cidade, mesmo que estivesse

no aeroporto. Tom disse que ele havia se casado novamente e estava muito feliz. Ele havia

parado de fumar e beber. Uma noite, Claus convidou os noivos para jantar. Depois de ser

apresentado a Ana, Claus gentilmente ofereceu-lhe um frasco de perfume chamado Opium.

Rindo, ele deu a Tom uma garrafa de Coca-Cola. Perto do final daquela agradável reunião,

Noel declarou a Tom: “Se você a ama, eu também a amo”.

Tom ficou comovido com a demonstração de amizade de Claus e a total aceitação de

seu relacionamento com Ana.

Tom e Ana voltaram para o Rio e passaram a morar no Marina Hotel. Das janelas da suíte

podiam contemplar o mar cor de safira.

Antes de embarcar em uma turnê pela Europa com aquele show apresentado no Canecão

(hoje contratado com Franco Fantana), Tom estava pronto para gravar um novo disco com

Miúcha: Tom Jobim & Miúcha. Eles começaram a gravar, mas a RCA passou a reter o

financiamento para o salário dos músicos. Tom considerou isso um insulto pessoal e decidiu

suspender as sessões de gravação.

Tom e Ana viajaram para a Europa no Concorde, a mais nova paixão de Tom.




 


Mais tarde, de volta ao Rio, ele seria bastante reservado ao comentar o sucesso desses

shows no exterior. Por outro lado, ele falou aberta e apaixonadamente sobre aquela nova

aeronave: sua beleza e velocidade, além de seu cockpit inovador, que subia e descia na

decolagem e no pouso. Aquele avião, dizia ele, não era o comum “pássaro de pescoço

duro”, como dizia Guimarães Rosa. Ana e Tom também falaram com entusiasmo sobre os

passageiros com quem conversaram naquele avião: o bailarino Mikhail Baryshnikov e o

músico Michel Legrand.

Assim que a banda chegou ao aeroporto Charles De Gaulle, Vinicius de Moraes

conheceu Gilda Mattoso, que trabalhava para Franco Fontana. Foi amor à primeira vista.

Voltariam ao Brasil já casados.

O show de abertura da turnê foi em Paris. Foram dez apresentações no famoso Olympia,

seguidas de apresentações em diversas cidades da Itália e da Suíça. O show já



comemorava um ano completo de sucesso, entre salas de concerto do Brasil e da Europa.

Em uma apresentação na capital francesa, Baden Powell, o guitarrista brasileiro mais

conhecido na Europa naquela época, subiu ao palco e tocou com Tom, Vinicius de Moraes

e o restante da banda itinerante.

As viagens pela Europa foram muitas e, muitas vezes, em ônibus pequenos e

desconfortáveis. Eles formaram um alegre grupo de artistas, no entanto. Infelizmente

Vinicius já estava doente, com diabetes. A turnê deles teve que ser suspensa duas vezes por causa disso.

Seu açúcar no sangue estava alto. Ele se medicou, mas outras complicações estavam

surgindo.

Até sua morte, dois anos depois, Vinicius não mudou seu estilo de vida. Ele repetia

incessantemente: “Desejo permanecer vivo enquanto, e somente se, puder continuar

fazendo o que faço”.

Em dezembro de 1978, Tom e Ana alugaram uma casa na rua Peri, no bairro tranquilo do

Rio chamado Jardim Botânico, onde morariam por seis anos. Eles pretendiam ter casa

própria, porém, um lar que planejariam com amor e carinho. Tom dizia, sério: “Guimarães

Rosa tinha razão. Deus está nos detalhes."

Eles examinaram várias propriedades naquele distrito, e Tom ficou especialmente

encantado com uma rua específica em uma colina. O terreno continha uma mangueira

centenária e sua extremidade dava para as terras protegidas da Floresta da Tijuca. Ele

estava animado: “Esse lugar é maravilhoso. A casa deve ser construída em local seco,

ventoso e ensolarado.”




 


Subiu diversas vezes ao topo do lote com Lourival (Nero). Examinaram tudo o que puderam,

como as correntes do vento e as direções dos pontos cardeais. Lá de cima, Tom ouvia os sons da selva que ele conhecia tão bem: os guinchos dos macacos, a percussão dos bicos dos

tucanos, os cantos dos pássaros, o zumbido dos gafanhotos e o canto crepuscular dos sapos.

Junto com Ana, Tom conheceu a primeira moradora daquela rua, Maria Clara Mariani. Eles

tornaram-se amigos; e Tom, como esperado, fez perguntas incomuns: “Em que ponto exato do

céu Vênus surge quando a noite cai?

O vento sudeste faz muito barulho quando sacode as janelas? Caiu algum galho daquela árvore

no telhado da sua casa? Você ainda vê voando aquela enorme e lenta borboleta azul com vitral?

Tom e Ana compraram o imóvel.

A biblioteca musical de Tom precisava ser organizada novamente. Há muito tempo sua ex-

mulher, Thereza, fazia o possível para manter os materiais em ordem. Mas Tom não cooperou.




A sua imaginação levou-o a pensar que os arquivos cheiravam a morte. A extensão de suas

obras, porém, realmente exigia limpeza. Ficou muito difícil encontrar peças específicas em suas pilhas caóticas, agora que Thereza mudou tudo para sua nova casa. Tom sentiu pena de si

mesmo: “Já fui casado com um arquivista”.

Ana respondeu: “Bem, agora você está casada com um anarquista”.

Contrataram uma curadora do museu, Vera Alencar, amiga da irmã de Tom. Suas funções

eram construir um arquivo com catálogos de suas partituras, cartas, artigos, fotografias, notas de premiação, curriculum vitae e assim por diante.

Depois de vários meses, tudo estava completo e Tom ficou muito satisfeito com o arranjo.

Sua vida agora era muito mais fácil. Antes de se acostumar a usar o arquivo, porém, ele

ocasionalmente solicitava a ajuda de Vera, não importando onde ela estivesse. De vez em

quando ela tinha que ajudá-lo porque, depois de usar qualquer material, Tom nunca o colocava

de volta no lugar.

Em janeiro e fevereiro de 1979, toda a família lamentou a morte de João Lyra Madeira, tio

de Tom, cuja experiência no violão clássico o impressionou muito. Ele teve um ataque cardíaco fatal em 15 de janeiro, três dias depois de completar setenta anos. Nilza e Celso mudaram-se imediatamente para a casa de Yolanda para ajudar a viúva. Dezoito dias depois, porém, foi o

muito mais que padrasto de Tom, Celso Frota Pessoa, quem faleceu. Ele teria sido

 




sessenta e nove anos em algumas semanas. Nilza ficou em estado de choque por cerca de

um mês e continuou morando com a irmã.

Em março de 1979, Tom foi convidado para se apresentar em um evento comemorativo do

décimo aniversário da agência do Banco do Brasil em Nova York. Então decidiu gravar as

últimas músicas de seu segundo disco com Miúcha naquela viagem.

Ainda profundamente abalado com a morte do padrasto, voou para os Estados Unidos

com Ana, Miúcha, Aloysio de Oliveira e o compositor Oscar Castro-Neves. Chico Buarque

e sua esposa, Marieta, integraram o grupo. Tom e Chico compuseram uma abertura para a

tradicional polca carnavalesca que Helena cantava com frequência no Poço Fundo: “A

turma do funil”.

Ao serem retomadas as gravações, Aloysio se encontrou com o produtor André Midani

e lhe contou sobre o projeto. Midani decidiu financiar o projeto antes mesmo de ouvi-lo.

Novas músicas foram adicionadas ao álbum, como “Dinheiro em penca”; “Sublime

tortura” (Tortura Sublime), escrita por Bororó; “Triste alegria”, de Miúcha; e “Turma do funil”.

O baixista de jazz Ron Carter também foi convidado a participar das gravações. Também

houve tempo para gravar músicas para alguns singles. Tom, por exemplo, tocou flauta

maravilhosamente na versão portuguesa de Aloysio de “The Midnight Sun”, de Lionel

Hampton.

Os brasileiros voltaram para casa quando o projeto foi finalizado, exceto Tom e Ana, que

ficaram mais tempo para fazer Terra Brasilis, álbum duplo com Claus Ogerman, responsável pelos arranjos e direção orquestral.

Aloysio produziu o disco e Paulo Jobim desenhou sua bela capa. Por sugestão de Claus, a

voz graciosa de Ana conduz os vocais em uma das faixas, “Você vai ver”.

Quando Tom e Ana voltaram ao Rio, no final de agosto de 1979, esperavam um filho. Perto

de uma das janelas francesas de seu estúdio na Peri Street, Tom podia sentar-se ao piano

e contemplar um bando de pequenos pássaros mergulhando em um pequeno lago para

tomar uma bebida e tomar um banho rápido. Seus olhos pousavam calmamente nos pés

de manacá que cresciam no muro lá fora. Flores roxas e brancas exalavam um perfume



muito doce quando a noite estava prestes a cair. Os dedos de Tom percorriam o teclado e

a vida corria suavemente.

 


Os amigos continuaram vindo visitá-los. Foi um ambiente festivo constante com Chico

Buarque e sua esposa, Marieta, além dos artistas de cinema Lucélia Santos e Marco Nanini.

Lourival (Nero) também era frequentador assíduo por lá. Na verdade, durante dois anos

seguidos, Tom e Ana tiveram contato intenso com ele. Nero afirmou que estava

“reconstruindo” Tom. O feiticeiro gostou de descrever cada um dos órgãos internos de Tom.

Depois acrescentava: “Fiquei muito triste pela Ana quando ela teve que carregar uma

sacola cheia de remédios atrás do marido”, querendo dizer que sempre que Tom viajava,

sua esposa tinha que trazer uma sacola cheia de remédios.

Certa vez, Nero pediu permissão para ler o destino de Ana na palma da sua mão.

Tom e Ana também frequentavam o apartamento de Lourival em Laranjeiras. Na primeira



visita lá, Lourival a cumprimentou com um buquê de flores.

Em 30 de outubro de 1979 nasceu João Francisco Lontra Brasileiro de Almeida Jobim.

Resolveram acrescentar “Brasileiro de Almeida” ao nome do filho em homenagem ao tio de

Tom, Marcello Brasileiro de Almeida, porque o aniversário de João era exatamente igual ao

de seu tio-avô. Outra razão era que Marcello não tinha tido filhos, e o sobrenome do avô

Azor morreria se Tom não o passasse para João.

Vinicius de Moraes havia sido convidado para ser padrinho de João em seu batismo, mas

o poeta não pôde comparecer por problemas de saúde. O tio de João Francisco, Paulo, e

Ana Lúcia (amiga de infância de Ana) foram seus padrinhos.

João Francisco era um bebê forte e bonito. Sua semelhança com seu pai era marcante.

Tom achou estranho ter outro filho aos cinquenta e dois anos. Fixou os olhos curiosos nos

movimentos desajeitados daquele bebê no berço. Às vezes, o pai entusiasmado deitava-se

no sofá e começava a imitar o bebê. Ana costumava chamá-lo de “homem-bebê”. Os sorrisos

brilhantes de Tom irradiaram por toda a casa. Eles estavam todos muito felizes naquela casa.

Na virada, os Jobim fizeram uma grande festa. Ninguém conseguia montar uma mesa

festiva tão lindamente quanto Ana. Tom tocou a noite toda. Bem ao lado dele, Vinicius

cantava junto. Sua esposa, Gilda, também estava lá, assim como vários amigos em comum.

João Francisco tinha dois meses. Ana ocasionalmente tinha que subir para amamentá-lo.

Tom e Ana voltaram a passar uma temporada em Poço Fundo. Numa quarta-feira à noite,

quando Helena ligou para Ana para perguntar se iam passar lá




 


no próximo fim de semana, Ana disse que não podiam porque Tom tinha compromissos

no Rio que não poderia adiar. Como de costume, Helena e Manoel saíram da cidade

rumo à casa de campo na noite de sexta-feira. Para surpresa deles, porém, Tom

chegou com Ana e o bebê no sábado, na hora do almoço. Helena e Manoel ficaram

curiosos para saber o que havia acontecido, se Tom havia conseguido cancelar

alguma gravação ou algo assim. Ele lhes disse que o agente de Frank Sinatra o

procurara. A cantora norte-americana se apresentaria no Rio no fim de semana

seguinte. O agente queria que Tom tocasse uma ou duas músicas com Sinatra.

Quando Tom perguntou ao agente quanto ele receberia para jogar, ele disse: “Nada”.

Seria a participação gratuita dos convidados. Tom não lhe deu uma resposta definitiva

e decidiu ligar para Sinatra, que não retornou nenhuma ligação. Decepcionado, Tom

optou por ir para Poço Fundo. Ele comentou: “Se Sinatra tivesse me chamado, como



meu amigo, é claro que eu jogaria de graça. Mas o agente dele ergueu um muro entre

nós, impedindo minha participação.”

Tom seguiu rigorosamente as prescrições de ervas de Nero. Ele manteve distância

de beber e fumar. Outros velhos hábitos também mudaram. Ele agora foi para a

cama e acordou cedo. Ele trabalhou a manhã toda no piano.

Sua alimentação também foi transformada. Ana cuidava da alimentação dele e ele

comia bem: saladas e legumes cozidos. Ele evitou alimentos gordurosos, mas teve

dificuldade em cortar completamente os ovos. Ele aprendeu que os ovos das galinhas

que circulavam livremente pelo quintal continham menos colesterol do que os dos

incubatórios convencionais. Então mandou construir um galinheiro no quintal de sua

casa de campo. Quando ele não ia ao Poço Fundo num determinado final de semana,

alguém tinha que buscar os preciosos ovos para ele. Ele gostava de ir pessoalmente

à cozinha fritar seus dois ovos. Ele comia a clara de ambos os ovos e a gema de

apenas um deles. Ele não pôde resistir.

 








 

Perda

EM SUA CASA DE CAMPO, Tom costumava chamar familiares e amigos para se

juntarem a ele ao piano, onde demonstrava suas mais novas peças. Mesmo que não

estivessem prontos, ele repetiu diversas vezes os temas, temas que apareceriam em álbuns futuros.

Ele continuou pedindo a opinião de todos ao seu redor. Em visita por lá, em Poço Fundo,

Vinicius de Moraes não foi exceção.

Naquela época, apesar da saúde debilitada, o poeta deixou claro o quanto desejava

continuar vivendo tão intensamente como sempre. Vinicius ainda estava se recuperando

de um AIT que sofreu em seu último voo vindo da Europa. Ele causou preocupação a um

grande número de pessoas, pois seus velhos hábitos extravagantes permaneceram os

mesmos: banhos de sauna, natação, exposição intensa ao sol, cigarros, uísque e

alimentação pesada. Ele desprezava qualquer dieta de controle de peso. Ele continuou a

ser o mesmo ser humano lindo que sempre foi. Para as pessoas ao seu redor, ele era

como um de seus próprios poemas encantadores.

Os médicos o diagnosticaram com hidrocefalia, mas ele brincou com a má notícia: “Só

pode ser por causa de muito gelo que coloquei no meu uísque.

Nunca bebi água sozinho.”

Era Carnaval então e, como nos anos anteriores, todo o grupo de familiares e amigos

se reuniu em Poço Fundo. Entre outros convidados regulares estavam a arquivista Vera

Alencar e seu marido, Luís Eduardo. Por alguma razão, porém, a excitação desta vez

parecia maior do que nunca. Havia entre eles uma frase de efeito que soava como uma

afirmação verdadeira sobre a pura natureza da alegria: “O verdadeiro Carnaval está no

planalto!” Essa frase fazia alusão à casa de Tom no Poço Fundo, construída no alto de

um planalto.

No domingo, segundo dia daquela festa de carnaval de 1980, Vinicius resolveu nadar.

Manoel e seu genro, Danilo Caymmi, ajudaram-no a entrar e atravessar a parte rasa da

piscina. Mais tarde ajudaram Vinicius a sair da água. Aceitando o fato de que era muito




difícil para ele se movimentar, o poeta disse à esposa, Gilda: “Não posso ficar aqui me

sentindo assim”.

Os amigos de Tom notaram a tristeza repentina no rosto do querido anfitrião. Depois

que Vinicius e Gilda partiram para o Rio naquele dia, Ana perguntou ao marido o que

estava acontecendo. Tom pronunciou uma declaração profética: “Essa foi a primeira vez

do Vinicius em Poço Fundo. Foi o último. Ele veio aqui para se despedir de

 


nós."

Enquanto visitava a filha Sonia na Califórnia, Helena ouviu a notícia pela televisão. Era 9 de julho de 1980: “Morreu no Brasil a grande escritora de 'A Garota de Ipanema'”. Ela ficou terrivelmente assustada. Ela pensou que eles estavam falando sobre seu irmão. Era Vinicius de Moraes, sócio e grande amigo do Tom (e dela também).

Segundo acordo entre os dois, Tom não compareceu ao funeral de Vinicius. Sentou-se à mesa da Churrascaria Plataforma ainda de manhã e voltou a beber. Acompanhado de Vera Alencar, ele bebeu mais naquele dia do que jamais havia bebido de uma só vez.




A missa do sétimo dia foi celebrada em uma capela da Gávea, a Igreja da Divina Providência, na Rua Lopes Quintas. Ficava bem ao lado da casa de campo onde Vinicius nascera. Depois de várias noites sem dormir, Tom apareceu naquela cerimônia para seu velho amigo.

Durante aquela semana Tom tocou “Soneto de separação” diversas vezes em seu piano. Ele havia

escrito a música para acompanhar um belo poema de Vinicius. No terceiro dia após perder o amigo, Tom concordou em ser entrevistado por um jornalista. Como sempre fazia com os outros, abriu

graciosamente as portas de sua casa ao jovem escritor.

Eles se sentaram para conversar um pouco. Tom acendeu um charuto (era permitido dois por dia) e depois colocou-o no cinzeiro. A conversa centrou-se na existência ou falta de vida após a morte e na imortalidade da alma. O repórter então perguntou a Tom: “Onde você acha que Vinicius está agora?”

Um estalo alto ecoou pela casa – o pesado cinzeiro de cristal havia quebrado

dois. Chocados, eles se entreolharam. A entrevista acabou.

Durante meses a fio, Tom teve dificuldade para adormecer. Ele e Ana conversaram até tarde. Ela tentou tudo o que pôde para consolar o marido. Foi outra perda dolorosa para ele. A perplexidade da morte confundiu seu espírito.

O “Poetinha” (apelido de “Pequeno Poeta” que emoldurou a imagem de Vinicius para a eternidade) foi a pessoa mais importante do Brasil para desmistificar preconceitos contra a cultura popular.

Drummond dizia que Vinicius foi um dos poucos poetas que realmente conseguiu viver como poeta.

A morte e a destruição no meio ambiente continuaram a preocupar Tom. Mais tarde, enquanto

estava nos Estados Unidos, ele ficou muito chateado com o desmatamento que estava acontecendo em

 




Brasil e em outros lugares do mundo. Ele citou um artigo que leu em uma revista americana.

O artigo capturou uma conversa entre um capitão, pilotando um avião comercial sobre a

Amazônia, e seus controladores de voo. O piloto disse aos controladores de voo que toda

a floresta estava literalmente em chamas. Naqueles anos, porém, algo mais acontecia na

região: grandes empresas ali se instalavam.

Tom ficou furioso quando, para construir uma usina hidrelétrica, as pessoas criaram um

enorme lago engolindo as árvores muito antigas e altas de uma parte da floresta amazônica.

Madeira muito valiosa foi perdida. Além disso, as toras submersas produziam gases que

não eram bons para a vida aquática e representavam uma boa medida de risco para os

velejadores.

Quando voltou ao Rio estava obcecado por essas questões. Ele disse a todos: “Hoje

está provado que as habilidades da humanidade para destruir superam a capacidade da

natureza para resistir. Se Deus permite a destruição de três milhões de árvores na

Amazônia, sem motivo algum, é porque Ele as faz crescer novamente em algum outro

lugar, onde também deve haver macacos, flores e águas profundas. É para lá que irei

quando morrer.”

Nesse mesmo ano, 1980, Tom lançou Terra Brasilis, no Marimbás Club do Rio de Janeiro.

Também co-escreveu “Eu te amo” com Chico Buarque, tema musical do longa-metragem

homônimo do cineasta do Cinema Novo Arnaldo Jabor.

Em 1981, Tom estava nos Estados Unidos quando a lenda do jazz Ella Fitzgerald gravou

um álbum inteiro dedicado ao seu trabalho. Foi muito gratificante para Tom ouvir sua música

cantada pela voz que ele admirava desde a juventude.

Voltou ao Brasil, onde aceitou o convite de Aloysio de Oliveira para gravar um disco com

o talentoso compositor Edu Lobo. Virou mais um disco clássico: Tom & Edu, Edu & Tom.

Depois de muitos anos, os talentos extraordinários de Tom foram agora reconhecidos

por unanimidade pela crítica do seu país natal. Independência e liberdade nortearam sua

carreira artística. Sem dúvida ele foi um pioneiro. Ele nunca abandonou suas convicções




mais poderosas. Brasileiro – sempre brasileiro de coração – Tom tinha seu país no norte da

bússola de sua alma: onde quer que fosse fora do Brasil, ele olhava para o céu, abria os

braços e movia a mão direita para o leste e a esquerda para o oeste . Bastava-lhe apontar,

em seguida, uma direção específica, e dizer em voz baixa, quase num sussurro, mesmo

que estivesse

 


sozinho: “O Brasil está aí!” Assim, ele levou suas raízes para terras estrangeiras. Foi

essencial para suas vitórias não deixar para trás suas raízes. Ele explicou sua escolha: “Não acho que deva procurar um tipo de música mais universal. As raízes são muito importantes

para mim.”

Ele comentou modestamente: “Eles querem me levar para o Japão, mas eu não irei. Não

vou para uma parte diferente do mundo só por dinheiro. Eles não conhecem minha música.”

Meses depois ele voltou a falar do Japão. Ele tinha acabado de chegar de Los Angeles




em um avião que fazia uma rota através dos Andes: “Havia tantos japoneses a bordo que até

as asas do avião cansaram”.

Depois de outra viagem, ele confidenciou: “Agora estão me oferecendo um piano Yamaha.

Posso escolher qualquer um deles na fábrica.”

Foi a primeira vez que sua família percebeu que Tom estava realmente indo para o Japão.

Ele chegaria lá em breve e veria como seu nome era conhecido e respeitado no outro lado

do globo.

No Brasil, uma geração mais jovem de críticos já compreendia a magnitude e a eminência

da obra de Antonio Carlos Jobim. Tárik de Souza, um dos mais sérios e competentes desses

críticos, declarou: “Assim como Radamés Gnatalli, Tom criou um tipo de música de câmara

com formatos populares. Sua ascendência brasileira declarada reúne o compositor de choro

Pixinguinha [e] as lendas do samba-canção Ary Barroso e Dorival Caymmi. Os sambas de

Tom, com suas complexidades e estruturas harmônicas requintadas, dificilmente podem ser

tocados em uma caixa de fósforos, como um samba tradicional. Suas canções incorporam

modernidade em formas tradicionais.”

Durante alguns anos, Tom tentou cuidar melhor de sua saúde. Frequentava uma academia

perto de sua casa, a Academia Coelho. Lá ele fazia exercícios leves e tomava banhos de

sauna e ducha. Como não suportava ficar muito tempo dentro da sauna, acabava entrando

e saindo com frequência para tomar banho. Ele também estava, dessa forma, molhando o

chão e as pessoas ao seu redor. Então, um dia, um colega alemão avisou-o, num tom muito

professoral, que entrar e sair com demasiada frequência era terrivelmente prejudicial à saúde.

Como ele era bastante preocupado por natureza, Tom não aceitou o conselho levianamente.

Certa manhã, porém, ele entrou na sauna e viu o alemão profundamente adormecido. Teve

a coragem de acordá-lo e informá-lo de que esse hábito de dormir era muito mais perigoso

para a saúde do que as idas e vindas de Tom.




 


Sua rotina era sair da academia e ir direto para sua churrascaria preferida, a

Plataforma. Como veterano, contava com favores e um tratamento muito especial

por parte dos maîtres e garçons. Ratinho e Esquerdinha eram, aliás, os servidores

preferidos do Tom. Certo dia, Tom apareceu com o cabelo ainda molhado da

academia. O ar-condicionado o incomodava, então ligou para Ratinho e pediu que

ele secasse o cabelo. Quando Ana chegou não acreditou no que viu. Os outros

clientes também não conseguiram. Eles apenas olharam e riram da cena: um garçom

secando o cabelo de Tom com uma toalha. Calmamente, o maestro bebia cerveja

em uma taça de vinho tinto. Ele apelidou aquela bebida de “pipoca”. Quando não

pedia carne vermelha ou camarão, pedia frango grelhado e desossado, que chamava

de “frango estragado”.

Os pensamentos de Tom vagaram pelo seu passado. Revisitou os tempos na



garagem da rua Sadock de Sá, quando era adolescente e já fascinado pela música

revolucionária de Heitor Villa-Lobos. O som nativo do Brasil tornou-se uma obsessão

para ele. Tom se identificou com Villa-Lobos e quis conhecer o homem que inovou a

música brasileira. Naquela época, Tom considerava Villa-Lobos o futuro. Tom

imaginou todas as possibilidades musicais daquele mestre brasileiro.

Anos depois, quando alunos da Faculdade Estácio de Sá entrevistaram Tom, ele

esclareceu essa ligação com Villa-Lobos:

Villa-Lobos – acho que ele era um gênio. Estive três vezes na casa dele, naquele apartamento onde ficava o conhecido bar-restaurante Vermelhinho, em frente à sede da Associação Brasileira de Imprensa. Conheço bem o trabalho dele. Numa dessas ocasiões em que estive lá eles estavam comemorando o aniversário de alguém. Léo Peracchi me levou para vê-lo. Lá estava ela, Arminda, fazendo com que todos mantivessem certa distância do Villa. Ninguém poderia sequer parar naquele limite que ela, a segunda esposa de Villa, havia estabelecido.

Perrachi fez grande parte da orquestração das peças para Villa, que, aos setenta anos, não tinha forças nem tempo para elas. No seu pequeno apartamento encontrei uma pequena orquestra interpretando uma das sinfonias de Villa. Os músicos foram acompanhados por uma soprano com sua voz poderosa. Em uma sala diferente, as pessoas conversavam e um rádio alto tocava. Enquanto isso, Villa-Lobos sentou-se ao piano e escreveu novas músicas.

Cheguei perto de Villa-Lobos, agora envolto na fumaça do seu charuto, e

perguntou-lhe, toda aquela ação não o incomodou.

“Meu filho”, respondeu ele, “o ouvido externo não tem nada a ver com o ouvido interno”.

Essa afirmação ficou na minha cabeça por muito tempo.

Tom costumava reclamar: “Onde está a memória deste país?” Quando ele foi para




 


no Teatro Municipal, admirou uma placa de bronze em homenagem a Villa-Lobos. Um dia,

porém, quis mostrá-lo ao compositor de choro Pixinguinha. Almoçariam no Assyrius,

restaurante vizinho àquele teatro no Centro do Rio. Para consternação de Tom, a placa

não estava mais lá. Perguntou a várias pessoas que trabalhavam no Teatro Municipal,

mas ninguém sabia de nada.

Tom ficou realmente enojado com a falta de respeito pelo maior compositor do Brasil.

Ele ficou chateado, por exemplo, porque as notas de Villa-Lobos não estavam facilmente

disponíveis no Rio para ele e outros estudarem. Quando Tom precisou de partituras para

uma das peças de Villa-Lobos, teve que bater na porta da Embaixada da França naquela

cidade. Ele procuraria informações sobre a editora europeia que publicava aquele artigo e

o encomendaria. O material chegaria pelo correio muitas semanas depois.

Para sua surpresa, Tom descobriu que nas livrarias de Nova York era mais fácil obter



material sobre música brasileira do que em qualquer lugar do Brasil.

O negócio da música apresentou outros problemas para Antonio Carlos Jobim.

Houve acusações mesquinhas de plágio contra ele; essas acusações eram ridículas e

absurdas. Um deles se tornou um processo, no entanto. Tom ganhou o caso, não sem

muito aborrecimento. Ele foi capaz de rir de algumas das outras acusações. Ele comentou:

“Stravinsky disse que as pessoas só podiam roubar das pessoas que amavam. Picasso,

porém, foi mais longe: 'O talento pede emprestado, o génio rouba.'” Tom acrescentou

então: “Se estou vivo, é natural que seja influenciado.

As influências afetam a todos. Eu não sou feito de vidro.”

Antes de a ecologia se tornar uma palavra da moda, Tom já havia se tornado um

ambientalista. Quem acompanhou seu caminho e prestou atenção às suas inúmeras

entrevistas percebeu que ele era muito consistente. Ele sempre lutou pela preservação

das florestas brasileiras. Ele denunciou incansavelmente a extinção de várias espécies.

Em “Borzeguim”, uma de suas mais belas canções, ele escreveu: “Não quero fogo, quero

água, deixe a grama crescer em paz, (…) deixe o índio viver...”

Ninguém amava mais o seu país do que ele. “Sou brasileiro, como fica claro até no

meu nome de família, Brasileiro”, afirmava com muito orgulho. Os aforismos que

pronunciava nem sempre eram engraçados. Alguns transmitiram grande tristeza: “O Brasil

não gosta de si mesmo”, “O Brasil não conhece o Brasil”,

“O Brasil está de cabeça para baixo” e “O Brasil não é para iniciantes”. Muitos desses

ditos ficaram famosos. Imbuídos de comédia ou de melancolia, sempre revelaram grande

inteligência. Alguns aforismos de Tom foram coletados e publicados por Renato Sérgio na

revista semanal Manchete:




 


A fase em que estou agora diz que é hora de não ficar calado.

Nessa idade comecei a olhar para trás. Suspeito que a nostalgia esteja tomando conta.

Sou o subproduto de um lar desfeito, da separação dos meus pais quando eu tinha um ano de idade.

Estou em casa. Na verdade, levo uma vida muito monástica, mas saio todos os dias para beber.

Qual monge não gosta de beber?

Se eu deixar este planeta maravilhoso para trás agora, é bem possível que alguém diga isso

Eu fugi do IRS.

O drama dos artistas é que eles lutam para serem reconhecidos e, quando o são, compram

óculos escuros e se mudar para uma casa escondida em algum lugar no topo de uma montanha.

Siga a direção oposta da seta. Em sua direção você encontrará tudo

já desfigurado.

O ouro do Brasil é a sua juventude.



O importante é permitir que as pessoas sigam sua profissão. Não adianta forçar alguém a tocar baixo se essa pessoa nasceu com a boca certa para flauta.

Oitenta por cento do meu trabalho não tem nada a ver com bossa nova.

Como diz o poeta Carlos Drummond de Andrade, dado que já é bastante tarde,

sinto que pertenço a este lado da fronteira.

Foi nesse exato momento que os bandidos já tinham ido dormir e os inocentes

as pessoas ainda nem haviam chegado ao local do crime.

Sem falsa modéstia: sou o homem mais modesto do mundo.

Acho que devo muito da minha música à beleza do Rio.

Viver no mundo de hoje significa compartilhá-lo com muitas pessoas. Como posso encontrar tempo para escrever uma autobiografia? E tem mais: deve ser muito doloroso!

Pelo que eu sei, a única coisa nova todos os dias é o nascer do sol.

A fumaça saindo de uma chaminé já foi um símbolo de progresso. Hoje é poluição.

Há aqueles que são escolarmente perfeitos. Eles não são criativos, no entanto.

O futuro se foi: um dia desses acabo morto numa superestrada da Amazônia,

como um cuco listrado empalhado.

Stravinsky, Debussy, Chopin e Villa-Lobos foram meus mestres. Eles me pagaram em dinheiro musical e espiritual – não em investimentos em certificados de depósito, nem em moeda estrangeira forte.

É como disse Chico Buarque outro dia: os artistas brasileiros não ficam bem no Brasil até morrerem.

A Bíblia diz que Deus separou o homem de suas criações. Ninguém é dono do seu próprio trabalho.

O desejo me poupou, graças a Deus.

O Mal pode servir ao Bem de diversas maneiras.

O lugar onde quero morrer é aqui. É mais confortável morrer em português. Como posso explicar a um médico estrangeiro, em inglês, que estou com uma dor no peito que salta nas costas?

Tudo o que desejo é viver em paz e ser compreendido como um aprendiz de ternura.

Não pensei na morte até o falecimento de Vinicius.




 


O filho mais novo de Tom, João Francisco, cresceu rapidamente. Ele era um menino robusto.

Aos dois anos, Tom seguiu o ritual que Lourival lhe ensinara. Tom pegou seu rifle de caça e seu canto de pássaro juriti e seguiu em direção à mata.

Ele encontrou um bom lugar e começou a chilrear. O juriti deu a volta por cima. Tom o matou e voltou para casa. Ele foi para a cozinha e cozinhou o pássaro. À mesa partilhou com João

Francisco. Eles comeram juntos. Tom passou a vitalidade e sabedoria do pássaro para seu

filho. Era “alimento energético”, segundo os índios dos livros de Carlos Castaneda.

Tom considerou então ele, João Francisco, iniciado na vida, e relembrou os versos de Chico

Buarque: “Hoje é dia de graça / Dia que homenageia tanto a presa quanto o caçador”.

Em 1982, o cineasta Luiz Carlos Barreto convidou Tom para escrever a trilha sonora de Gabriela, longa dirigido por Bruno Barreto. As filmagens seriam feitas em Paraty, próximo a Angra dos

Reis. Os papéis principais seriam feitos por Sonia Braga e Marcelo Mastroianni. Então, Tom




teve vontade de visitar o local das filmagens. Ficava bem perto de Mambucaba, onde ele caçava há muitos anos. Já conhecia Sónia Braga e admirava o seu trabalho.

Assim que foram apresentados, Tom começou a se sentir em casa com Mastroianni. Parecia

haver uma afinidade entre eles, como se se conhecessem há muito tempo. Ali, no local, o ator italiano parecia ser o mais brasileiro de todos – uma pessoa comum que se encontraria nas ruas do Rio. Para personificar o personagem Nacib do romancista Jorge Amado, ele usou um terno

de linho branco. O casaco curto vinha acompanhado de gravata colorida e chapéu panamá.

Para tornar a caracterização mais vívida, ele fumou um cigarro de palha. Quando as filmagens

terminaram, Mastroianni deu a Tom aquele chapéu panamá como lembrança.

A beleza da narrativa de Amado em Gabriela, Cravo e Canela e a pungência daquele

romance entre Nacib e Gabriela absorveram Tom a tal ponto que ele compôs uma de suas

canções mais impressionantes: “Gabriela”. Com a voz deliciosa de Gal Costa, Tom conseguiu

misturar música e palavras em perfeita sincronia com a ação e o significado do filme. Foi mais uma peça notável do período pós-bossa nova de Tom – outro sucesso.

Antonio Carlos Barbosa Lima, violonista clássico brasileiro radicado nos Estados Unidos há

décadas, veio visitar Tom no Rio. Barbosa Lima fez um álbum

 




com músicas de Tom Jobim e George Gershwin. Tom ajudou a gravar sua música.

Tom transcreveu as partituras para violão clássico. Uma reunião festiva ao ar livre nas

instalações comerciais dos amigos de Tom, Freddy Rosenberg e Simon Weglinski, marcou

a passagem do guitarrista pela cidade.

Nesse ínterim, houve uma pressão cada vez maior para que Tom se apresentasse na

Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Ele continuou a aproveitar a vida no Rio com a

esposa e o filho. Lembrou-se dos comentários de Castaneda sobre os inimigos do homem:

quando jovem, o homem tem força de vontade para estar ocupado, mas não sabe fazer

muita coisa; quando fica mais velho e já sabe muito, luta contra a própria indolência.

Tom gostava de sua casa na Peri Street. Ele se importou tanto com isso que deixou o

carro na calçada. Ele não queria machucar a avenca que crescia na parede da garagem.

Apreciava uma decoração simples, misturando móveis modernos com algumas peças

coloniais brasileiras. Ele acordava cedo e continuava de pijama enquanto estudava e

tocava piano. Ele olhou para os pássaros tomando banho no pequeno lago que havia no

pátio de sua casa. Ele atendeu todos os telefonemas, mesmo reclamando. Quando Ana

lhe pediu um favor, ele respondeu, em inglês: “Seu desejo é meu desejo”.

Muitas vezes ele almoçava em casa. À tarde ele voltou ao piano.

Quando a noite caiu, os sapos começaram a cantar e os amigos de Tom começaram a

aparecer.

Uma noite, quando ia sair de carro, ele morreu de medo. (Aliás, a identificação da placa

do seu carro o fez pensar que gaguejava: EE 0099.) Quando ele estava saindo de casa,

dois estranhos se aproximaram e o pararam. Um deles sacou uma arma e apontou para

ele. A mão do agressor tremia e seu enorme nervosismo era evidente. Tom fez o possível

para permanecer perfeitamente imóvel. Os agressores o revistaram. Abriram sua mochila

e levaram todo o seu dinheiro. Tudo foi feito em questão de segundos e os dois indivíduos

saíram correndo.

Tom voltou para casa. Ele compreensivelmente perdeu todo o interesse em sair. Ele




disse que o mais assustador era o medo estampado no rosto dos agressores. Ele concluiu:

“Tenho medo daqueles que têm medo”.

Durante uma requintada cerimônia para 1.400 convidados na Sala de Recital Cecília

Meireles do Rio Tom recebeu o prestigioso Prêmio Shell Music como melhor compositor

de música popular do ano 1983. Subiu ao palco com Olívia Byington e

 


Radamés Gnatalli. No início de sua carreira conquistou diversos títulos como

arranjador. Nessa fase de sua vida, os prêmios vinham para o compositor Jobim.

Aliás, o Prêmio Shell abriu uma série de homenagens e reconhecimentos a

toda uma vida dedicada à música popular brasileira. Suas canções levaram o

nome do Brasil a vários cantos do mundo. O apreço por sua música atingiu um

nível tão alto no exterior que a mídia começou a veicular comentários marcantes

de nomes ilustres das artes. Um deles era do ator inglês Peter Sellers. Ele



declarou ao The Sunday Times, de Londres, que a música de Antonio Carlos

Jobim estava entre as dez coisas mais elegantes do mundo.

Os amigos de Tom que viajaram pela Europa, Estados Unidos e Japão

retornaram ao Brasil contando sua satisfação ao ouvir sua música em bares,

teatros e táxis de todo o planeta.

No final de 1983, Tom, Ana e o filho, João Francisco, foram convidados para

passar o réveillon e as férias na Bahia. Tom tinha emoções confusas em relação

à ida para a Bahia: medo e desejo, além de outros sentimentos ambíguos e

místicos. Amigos comemoraram o Ano Novo na casa do grande romancista Jorge

Amado e de sua esposa e escritora Zélia Gattai, no bairro do Rio Vermelho, em

Salvador. Lá, Tom e Ana se encontraram com o contista Fernando Sabino; sua

esposa, Lígia Marina; além da viúva do romancista Graciliano Ramos, Heloísa

Ramos; o talentoso pintor Carybé; e muitos outros amigos e familiares do casal

anfitrião.

Tom e Ana aproveitaram para visitar Caetano Veloso e sua esposa, Dedé, no

bairro de Ondina. Durante aquela estadia na Bahia – que Tom acabou apreciando

– os Jobim e os Velosos combinaram de ir ao Santuário do Gantois, onde

visitariam a Ialorixá Mãe Menininha, sacerdotisa do Candomblé, religião afro-

brasileira. Bastante idosa, ela estava sentada em seu quarto quando as visitas

chegaram. Mãe Menininha, porém, era muito falante.

Tom aproveitou a oportunidade para sentar-se perto da famosa curandeira,

esperando que uma mão dela em seu rosto curasse sua contínua dor de dente.

Ela olhou para Caetano e perguntou se Tom era estrangeiro. Caetano sorriu e

avisou que Tom era carioca. Mãe Menininha comentou que Ana possuía uma

alma antiga – filha da entidade de candomblé Nanã – e beijou sua mão. Depois

desse encontro, Tom reclamou com Caetano que a dor de dente não havia passado.

Numa daquelas noites em Salvador, Tom e Caetano acabaram tocando e

cantando juntos até altas horas da madrugada. O carioca mostrou ao baiano o quanto




 


gostou de uma das primeiras composições de Caetano, “Meu coração vagabundo”.

O baiano, por sua vez, confessou ao carioca que “Chega de saudade” foi o maior

acontecimento estético de sua vida. Esse encontro foi sem dúvida um dos momentos

mais importantes da história cultural do Brasil.

Caetano disse ainda que a excelência nos arranjos de Tom para João Gilberto

nunca foi igualada pelo trabalho de nenhum outro artista e que arranjadores de todo

o mundo respeitaram e seguiram as mesmas linhas melódicas que Tom criou.

Caetano afirmou com perspicácia que “para a música ser boa, o músico tem que

ser grande e o ouvinte não pode ser medíocre”. Anos depois confessou que se

sentiu um pouco intimidado na presença de Tom Jobim: “Com suas piadas e sua

ironia, ele sempre foi como alguém que 'dissipou' a solenidade de sua própria

existência ao se desmistificar. Tom brincava o tempo todo para poder lidar com as



dimensões monumentais de seu caráter artístico e para que outras pessoas

pudessem manter um relacionamento próximo com ele.”

Certa vez, Caetano resumiu o quão significativo e auspicioso foi para sua geração

ter Antonio Carlos Jobim como um de seus membros: “Chico Buarque escreveu

obras-primas com Tom. Seu trabalho ganhou vitalidade em vez de intimidação

devido à estatura grandiosa do maestro. Quando se considera a história da evolução

de uma forma de arte, a parte dourada dela geralmente reside no passado. No caso

do Brasil, tivemos gigantes musicais na década de 1930. Tom, porém, que

inicialmente pertencia à geração imediatamente anterior à nossa, também era um

de nós. Ele representou um raro “ouro” contemporâneo em nosso presente, não em

nosso passado. Ele era melhor do que o melhor antes dele. Ele era maior que o

maior. Ele foi o maior de todos.”

De volta ao Rio, virou rotina Tom, Ana, Helena e Manoel parar para almoçar em um

pequeno restaurante chamado Gota D'Água, na cidade de Teresópolis, a caminho

de Poço Fundo. Localizado na Praça Santa Thereza, aquele negócio pertencia a

Ivan Matta Machado, economista, e sua esposa Márcia, professora de literatura. O

casal chegou a uma fase da vida em que percebeu que era hora de largar o

emprego e trocar o Rio por uma pequena cidade na serra, onde experimentariam

um novo estilo de vida.

De onde costumavam sentar-se no restaurante, Tom e sua família foram

entretidos por dezenas de pombos que voavam pela igreja próxima. Ao entardecer,

os enormes e coloridos vitrais brilhavam com a luz do interior da




 


santuário. No ambiente aconchegante de Gota D'Água, as paredes exibiam diversos

textos e fragmentos literários, além de fotos de diversos artistas, incluindo a lenda

do choro Pixinguinha com um sorriso aberto e acolhedor.

O prato de assinatura do restaurante era a truta que Ivan produzia na sua quinta.

O antepasto era sempre delicioso: queijos de Friburgo, amendoins grandes

torrados, batatinhas conservadas em potes, além de torradas de alho e parmesão.

Eles ofereceram uma variedade de coquetéis de frutas caseiros e cerveja bem

gelada. Márcia e Ivan se juntavam à mesa dos Jobim e, a partir daquele momento,

longas e interessantes conversas foram travadas com entusiasmo por todos. Houve

uma espécie de duelo adorável entre Ivan e Tom, sempre que ambos homens de

colossal poder de memória começavam a recitar versos de Arthur Rimbaud,

Charles Baudelaire, TS Eliot, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e



Fernando Pessoa.

Quando a tarde passou lentamente e a noite caiu, a conversa não parou; nem o

riso ou o encanto de tudo isso. Quando outros clientes habituais apareceram,

também participaram do recital de poesia, aplaudiram e imediatamente se tornaram

membros do animado grupo.

Um dia um carro tocando música muito alta passou pelo restaurante. A letra da

música naquele momento dizia curiosamente: “O pescador gosta mais da sua rede

do que do próprio oceano”. Ivan parecia chateado com aquele barulho atrapalhando

a conversa na mesa de Jobim e com a falta de sentido das letras que ouvia. Um

pescador não pode gostar mais da rede do que do mar — Tom riu e argumentou

que o versículo realmente fazia sentido. Ivan nunca contestou Tom, mas desta vez

ficou curioso: “Como é que um pescador pode gostar mais da sua rede do que do

oceano?”

Bastante divertido, Tom respondeu: “O cara está falando da outra rede, da rede

de televisão da vida dele, a Rede Globo”.

Paulo Jobim, que era um músico talentoso e um arquiteto talentoso, co-projetou

com a colega arquiteta Maria Elisa Costa a casa que se tornaria a nova casa de

Tom. Eles observaram todos os desejos de Tom, exceto um. Quando a construção

já estava avançada e a parte estrutural finalizada, Tom percebeu que o teto de

concreto era muito baixo nos quartos. O assunto se tornou uma obsessão para ele,

e ele começou a reclamar do desconforto futuro que teria que enfrentar. Ele

continuou dizendo que o teto baixo esquentaria sua cabeça e que ele não

conseguiria tirar a camisa sem bater nas mãos




 


no concreto logo acima dele.

Em seu próprio ateliê, ou na casa de Chico Buarque, Tom levantava os braços e pulava,

contando ao amigo suas angústias por causa do teto baixo de sua nova casa. Disse a

Chico que em sua nova casa queria espaço suficiente para fingir que era o príncipe Pedro

de Portugal, que libertou o Brasil enquanto viajava a cavalo. Em 1822, o futuro imperador

da única monarquia sul-americana desembainhou a espada e ergueu-a bem alto antes de

gritar em desafio: “Independência ou morte!” A piada era que sem um teto alto em casa, o

próprio Tom não teria independência. Da mesma forma, ele também não teria espaço para

tirar o chapéu na hora de cumprimentar as pessoas em seu cavalo. A empregada de Chico

Buarque já tinha começado a falar com ele sobre Tom como se ele fosse meio maluco.

Nesse ínterim, Tom procurou uma solução para seu dilema. Depois de muitas perguntas,

ele resolveu o problema de uma maneira pouco ortodoxa. Ele encomendou trinta e dois



guindastes hidráulicos para levantar a laje de concreto. Foi um risco total, mas conseguiram

levantar e apoiar a peça pesada até o nível que Tom desejava. Todos ficaram aliviados

com o final bem-sucedido daquela aventura.

Tom e Chico Buarque continuaram trabalhando juntos. Antes do final daquele ano, 1983,

escreveram temas musicais para a longa-metragem Para viver um grande amor, de Miguel

Faria. Satisfeito com o desenvolvimento do seu trabalho criativo, Tom conseguiu recordar

uma antiga valsa, “Imagina”, que compôs quando era adolescente e estudou com Lúcia

Branco.

Logo depois desse trabalho, Tom voou para Nova York para cuidar dos negócios. Ele

só poderia viajar para os Estados Unidos no verão, evitando assim o inverno de Nova York,

que não tolerava mais. Em três meses estava de volta ao Rio e só então, no início de 1984, foi nomeado, pelo antropólogo e vice-governador Darcy Ribeiro, o novo conselheiro cultural

do estado do Rio de Janeiro.

Dessa forma, Antonio Carlos Jobim tornou-se o segundo conselheiro de sua extensa

família Jobim. Olhando para a fotografia de José Martins da Cruz Jobim, que Tom guardava

em cima do piano, lembrou-se das contribuições do ancestral como vereador do império e

fundador da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1912.

Tom continuou sob pressão para se apresentar em vários países do mundo. Ele finalmente

concordou em jogar na Áustria. O Maestro Peter Guth ligava para ele com frequência para




 


eles poderiam preparar a apresentação. Tom tocava acompanhado pela ORF Sinfonietta

de Viena. Essa proposta o preocupou. A questão era o fato de ele se apresentar com

músicos que, talvez, não tivessem tido contato próximo com a música brasileira. Ele

expressou sua preocupação a Peter e disse que levaria consigo o cantor e flautista Danilo

Caymmi e seu próprio filho, Paulo Jobim, que tocaria violão. O maestro da Europa acedeu

e os ensaios começaram. Tom, porém, não ficou satisfeito. Ele continuou pensando

seriamente sobre o que estava em jogo com o tipo de público que esperava na Áustria.

Resolveu então chamar Tião Neto para o baixo e Paulo Braga para a bateria. Ele

pensou que com aqueles músicos no palco sua voz teria melhor suporte. Mais uma vez,

Tom convenceu Peter a permitir que ele trouxesse esses dois outros artistas. Como o

desafio era tocar com uma orquestra, Tom pensou que os instrumentos de sopro seriam

uma excelente adição, mas percebeu que seria impossível trazer muito mais pessoas para



Viena. Em um dos ensaios ainda no Rio, ele olhou para Ana e implorou: “Vem cantar

comigo”.

A voz de Ana deu uma nova luz ao grupo. Percebeu que tinha feito a escolha certa:

substituir os instrumentos de sopro pela voz de Ana e, dessa forma, complementar os

arranjos. Naquela mesma noite de ensaio, Tom estendeu o convite à filha, Elizabeth, e a

Simone, esposa de Danilo Caymmi, que de qualquer maneira estava sempre com ele nos

ensaios. O refrão estava então totalmente formado. Danilo deu a Tom dois colares de

candomblé para usar no pescoço, para serem protegidos pelas entidades afro-brasileiras

Oxalá, o criador, representado pelas contas brancas, e Oxóssi, o senhorio da floresta,

pelas azuis turquesa.

Tom ainda era insaciável. Ele ligou para Peter para solicitar mais artistas. Depois de

muita discussão, Peter concordou em deixar Tom usar outros seis instrumentistas

brasileiros. Foi criada a Banda Nova. Nos dez anos seguintes eles atuariam e alcançariam

grande sucesso em todo o mundo.

O grupo viajou para Viena e tocou com a ORF Sinfonietta na Wiener

Konzerthausgesellschaft. A performance fez tanto sucesso que sua repercussão se

espalhou por toda a Europa. O grupo foi imediatamente convidado para fazer dois shows

em Roma.

Em outubro, a Banda Nova se apresentou no Teatro Municipal do Rio. Tom então

convidou as três últimas pessoas para se tornarem membros permanentes da banda: o

violoncelista Jacques Morelenbaum, sua esposa e cantora Paula e a cantora Maúcha Adnet.

Tom gostava de ensaiar com o grupo em sua casa, num ambiente relaxante e às vezes

cômico. João Francisco ficou emocionado ao observar os artistas.




 


Ele gostou especialmente quando interpretaram “Gabriela” e “Águas de Março”,

mas foi a batida de “É na corda da viola” que o fez correr para ouvir a música.

Tom foi duro no refrão. Ele os fez procurar Heloísa Madeira, uma treinadora vocal

qualificada.

Enquanto isso, as obras da nova casa foram concluídas. Sem demora, a família

se mudou. Agora puderam aproveitar o ar puro que vinha da área protegida da

Mata Atlântica, ali perto. Quase todas as janelas da nova casa davam para o

Morro do Corcovado com sua estátua de Cristo, vários morros que Tom conhecia

tão bem e a Lagoa Rodrigo de Freitas, sua namorada, que ele preferia chamar

pelo nome original Tupy-Guarany, Sacopenapã. A praia de Ipanema, banhada

pelo mar de safiras, também estava à vista.

No final de 1984, um grande número de amigos se reuniu em Poço Fundo. As



crianças gritavam de alegria na piscina e, na varanda, a criada da família, Nininha,

servia canapés com molhos picantes que Ana costumava comprar no Rio para os

amigos em ocasiões especiais. Silas, outro ajudante, continuava trazendo cerveja

gelada do mercado de Joel. Tom estava eufórico. Ele entrava e saía de casa

repetidamente. Num determinado momento ele sentou-se ao piano e tocou alguns

acordes. Inquieto, ele já estava de volta à varanda com os amigos nos minutos

seguintes.

De repente, ele pediu a todos que se juntassem a ele ao redor do piano.

Começou a tocar e cantar uma música nova, “Passarim”. Ele ficou arrepiado nos

braços e no pescoço ao descrever com emoção as nuances desta ou daquela

frase da melodia e da letra. Aos poucos aquela música foi cortejando cada pessoa

daquela casa e, num crescendo, todos acabaram aprendendo e cantando junto:

“O passarinho teve vontade de empoleirar / Mas não conseguiu e logo saiu

voando / Desde que aquele tiro acertou ele mas não o matei / Passarinho, diga-

me, explique-me / Por que é que eu também não poderia estar mais feliz / Onde

está meu querido querido / Aquele que deleitava meu coração solitário / Aquele

que iluminou meu noite sombria...”

Quando a gravação do novo álbum, intitulado Passarim, foi finalizada vários

meses depois, a filha de Tom, Elizabeth, desenhou uma bela capa para ele.

Em 1985, com a Banda Nova, Tom retornaria ao Carnegie Hall, templo sagrado

da música em Nova York onde sua carreira nos Estados Unidos havia sido iniciada

em 1962. Com seus colegas músicos cantou para um público de três pessoas.




 


mil pessoas, em sua voz delicada e no perfeito controle de sua própria música.

Após a apresentação, os espectadores retribuíram os artistas com uma longa ovação. No dia

seguinte, os críticos americanos elogiaram o show por unanimidade. George W. Goodman, do

New York Times, comentou sobre o surgimento e as influências da bossa nova na música popular americana.

Ao retornar ao Rio, Tom teve que lidar com uma irritante acusação de ter vendido sua música

“Waters of March” para a Coca-Cola. Ele aparentemente nunca se sentiu tão profundamente

insultado. À família, ele reclamou ruidosamente da distorção dos fatos feita por quem o indiciou:

“Ninguém neste mundo inteiro consegue vender uma música. Um músico escreve uma peça e

ela se torna um presente dele para toda a humanidade. Isso é muito diferente de eu dar permissão para a Coca-Cola usar uma de minhas músicas em seus comerciais! Se eu quisesse ganhar

dinheiro com marketing, teria vendido todo o meu trabalho para empresas de cigarros. Vou lhe




dizer uma coisa: recebi várias ofertas tentadoras deles por muito dinheiro. Para mim, porém, é uma questão de consciência: nunca aceitei dinheiro para ajudar a vender cigarros.”

Então Tom acrescentou sombriamente: “O Brasil não ama os artistas brasileiros”.

Já se sentindo melhor com todo o incômodo, ele conversou com um repórter por telefone.

Quando o jornalista lhe perguntou novamente sobre aquela loucura, Tom respondeu ironicamente:

“Mas eu achava que os brasileiros adoravam beber Coca-Cola...”

Mesmo assim, no ano de 1985, o trabalho de Tom receberia uma boa medida de

reconhecimento oficial e popular. Sua Sinfonia de Brasília , co-escrita com Vinicius de Moraes, foi apresentada novamente na Praça dos Três Poderes, na capital do país. Radamés Gnatalli

tocou piano e Alceu Bocchino regeu a orquestra especialmente montada para a ocasião, na qual

Antonio Carlos Jobim receberia o título de Grande Comandante das Artes e das Letras do

governo francês. Jacques Lang, então ministro da Cultura da França, concedeu-lhe a honra.

Sua agenda de apresentações e produção permaneceu lotada. Ainda naquele ano, tocou

como convidado no Festival de Montreux, na Suíça, e escreveu a música “Pato preto” para um

documentário norueguês sobre brincadeiras infantis em todo o mundo. Escreveu a trilha sonora

de O Tempo e o vento, longa-metragem baseado no romance homônimo de Érico Verissimo, que trazia a letra de Ronaldo Bastos em “Um certo Capitão Rodrigo”. Também compôs a música do

filme Fonte da saudade , de Marco Altberg , com roteiro de Júlia Altberg baseado em

 




Romance Trilogia do Assombro , de Helena Jobim .

Tom percebeu mais uma vez que seu prato estava cheio demais: “Trabalho mais do que

mereço!”

Ainda sobrou tempo para bater um papo no Mercado Cobal, no Leblon, ou visitar a cervejaria

Universidade do Chope. Sem falhar, ele também conseguiu ir à Plataforma às 13h todos os

dias, sempre que estava na cidade.

Este restaurante tornou-se sua segunda casa. Aproveitou a passagem por lá com amigos

inseparáveis, como o ator José Lewgoy e o romancista João Ubaldo Ribeiro, o cineasta Miguel

Faria, o corretor de seguros Geraldinho Dutra e o empresário italiano Alberico Campana. Aliás, esse homem de Ascoli Piceno, dono de várias casas noturnas no Rio desde a década de 1960,

foi o grande cúmplice de Tom quando Tom precisou esconder que estava bebendo. Pediram

ao garçom que levasse cerveja para Tom no banheiro ou guardasse copos para ele na mesa:

um cheio de refrigerante, o outro com cerveja. Em caso de “perigo”,

Tom empurrou o copo de cerveja para o lado da mesa de Alberico e guardou apenas o outro

copo para si. Se alguém perguntasse o que ele estava bebendo, ele erguia o copo e respondia:

“Experimente. É Coca-Cola!”

Só muito mais tarde é que Ana aprendeu esses truques. A essa altura, ela já havia se

tornado amiga de Alberico, e ele se tornaria padrinho do segundo filho de Ana e Tom.

Na Plataforma, Tom fazia todo tipo de negócio. Ele deu entrevistas, trocou dólares e muito

mais. Tanto Alberico quanto os garçons que atendiam Tom, Ratinho e Esquerdinha atendiam

a qualquer pedido de Tom. Eles até afastaram aqueles que o estavam assediando. Tom já

havia se acostumado com um roteiro específico: Cobal, Universidade do Chope e Plataforma.

Ele o cunhou como “Triângulo das Bermudas”.

Em poucas semanas, dois eventos radicalmente diferentes abalaram a vida emocional de Tom.

Primeiro, ele e Ana decidiram se casar. Seria na própria casa deles. Às quatro da tarde, ligou para o amigo Marco Altberg: “O que você ia fazer hoje?”

“Nada realmente importante”, respondeu Marco.

“É que eu e Ana vamos nos casar às sete. Gostaríamos que você e seu




querida Juju para sermos nossas testemunhas. O juiz virá aqui.

Foi assim que aconteceu em 30 de abril de 1986 – de uma forma muito simples, como eles

 


desejava. O filho de seis anos, João Francisco, assistiu ao casamento dos pais.

Champanhe, flores e muita alegria marcaram a ocasião.

Em segundo lugar, Tom perdeu prematuramente o seu primo Marcello Madeira, aos

quarenta e nove anos. Com o coração partido, ele relembrou os dias que passaram juntos

no Poço Fundo, quando Marcello tocava flauta, inundando o vale com sua música

enquanto caminhava pela estrada de terra que levava à casa de Tom. Notável

instrumentista e químico, também fabricava suas próprias flautas em sua casa, no complexo do Poço Fundo.

Com a esposa, Heloísa, fundou o grupo musical renascentista Kalenda Maia.

Tom lembrou-se, igualmente, da própria mãe, Nilza, e da irmã dela, Yolanda, mãe de




Marcello. De cabelos grisalhos, os dois viajaram sozinhos para Poço Fundo. Eles se

revezavam no volante e aproveitavam a animada companhia animal de Natasha, uma

pastor belga que não conseguia deixar de latir para cada caminhão que passava pela

estrada.

Lúcia, irmã mais nova de Marcello, fez o possível para consolar a mãe, Yolanda,

que respondeu: “Depois de perder meu marido e meu filho, nada me afeta”.

Em 1986, Tom aceitou o convite para fazer três shows na Califórnia. Dois deles eram

diurnos, na vinícola de Paul Masson e Robert Mondave. Em Los Gatos, onde estavam

hospedados, Ana teve a segunda gravidez confirmada. Tom estava radiante com a notícia.

O Greek Theatre, em Los Angeles, foi o local do próximo espetáculo.

Caminhando pelas ruas daquela grande cidade do sudoeste com os outros integrantes da

banda, Tom apontou para um dos ralos. Ele se lembrou dos tempos difíceis de muitos

anos atrás e fez uma observação irônica sobre o alerta que tantas vezes ouvia, de que a

vida como músico o transformaria em um pobre bêbado que viveria nas ruas: “Quando

comecei minha carreira, eu morava no esgoto. Nos dias em que minhas partituras eram

vencidas, tudo o que eu precisava fazer era esticar o braço e as pessoas pegavam minha

partitura e a levavam para o estúdio de gravação.”

Aquele ano continuou a trazer muitas tribulações. Sempre tentando ser solícito com

todos, Tom passava por uma fase difícil. Ele se sentia muito cansado com muita

frequência, pois trabalhava além de seus limites. Os convites para concertos no

estrangeiro choviam constantemente, mas acabou por recusar diversas excelentes oportunidades.

Quem mais sofreu com suas quedas foram os demais integrantes da banda,

principalmente sua amiga e empresária, Gilda Mattoso. Quando ela lhe passava uma

proposta, ele não dizia sim ou não imediatamente. Todos ficaram em suspense,

aguardando sua resposta. Foi uma luta livre. Quando ele finalmente concordou




 


para assumir um projeto, era difícil fazê-lo assinar todos os documentos. Ele odiava toda

aquela papelada e pediu a Ana que lesse os documentos e lhe dissesse se deveria ou

não assiná-los. Eles discutiriam, então, os termos do contrato. Ele entendia as questões-

chave do acordo comercial que estava prestes a assinar, mas, compelido por uma

espécie de superstição, teve que fazer primeiro todo tipo de perguntas a Ana.

Ainda naquele ano, Tom finalmente saiu com a Banda Nova para uma turnê no Japão.

Os concertos foram surpreendentemente bem frequentados e deram-lhe uma ideia do

quanto a sua música era admirada naquele país. Ele ficou fascinado pelos diferentes

aspectos daquela sociedade oriental – seus templos, suas esculturas e seu povo. A

Banda Nova utilizou trens de alta velocidade em vários trechos de sua viagem. Numa

dessas viagens, um membro do grupo avistou uma vaca pela janela e reagiu gritando:

“Uma vaca!” Então, todos os outros membros da banda também olharam pela janela



para contemplar a imagem incomum de uma vaca no Japão.

Deviam estar com muita saudade do Brasil.

Nos meses seguintes, Tom trabalhou em novas músicas, como as maravilhosas “Anos

dourados”, para as quais Chico Buarque escreveu a letra, que dizia respeito à juventude

dos anos 1950. Aquele bolero animou a todos e logo se tornou mais um grande sucesso

adicionado à trilha sonora de uma minissérie escrita por Gilberto Braga para a Rede

Globo. Foi quando Tom recebeu a Medalha de Mérito do governo federal do Brasil.

No lado negativo, 1986 terminou com preocupação com a saúde de sua mãe. Nilza

Jobim teve um infarto enquanto caminhava com a irmã, Yolanda, pelas ruas de Ipanema.

O Ano Novo trouxe, no entanto, ânimos renovados. Ela se recuperou rapidamente, pois

Ana e Tom planejaram uma grande festa para o dia 25 de janeiro, quando ele completaria

sessenta anos. Poucos dias antes de seu aniversário, Nilza já estava novamente com

boa saúde. Ela decidiu, contra a vontade dos filhos, dispensar a enfermeira que sempre

a acompanhou. Um dia, quando Nilza se levantou do sofá para sentar à mesa com

Yolanda, ela caiu e aparentemente fraturou o fêmur.

Era domingo – difícil encontrar o médico de família e amigo Almir Joaquim Pereira.

Eles a levaram para o hospital. Ela reclamou de fortes dores nos ombros. Os médicos

encontraram uma rachadura no ombro, além da fratura no fêmur. Deram-lhe anestesia

local, mas durante a cirurgia ela reclamava de fortes dores no ombro. Então, eles deram-

lhe anestesia geral.




 


Naquele mesmo dia, de volta ao quarto do hospital, ela ficou completamente confusa.

Ela não teve permissão para voltar para casa nos próximos dois meses. Ela nunca mais foi

a mesma. Tom e Helena prestaram-lhe o melhor cuidado que puderam, mas a sua

recuperação foi impossível. Muito triste com a saúde debilitada da mãe, Tom não aceitou

nenhuma comemoração pelo seu sexagésimo aniversário.

Nilza tinha então setenta e sete anos. Sua irmã, Yolanda, estava prestes a completar

oitenta anos e não podia cuidar dela. Tom e Helena se encontraram para discutir como

poderiam ajudar a mãe. Combinaram que ela iria morar com Helena e Manoel. Tom contratou

uma fisioterapeuta e enfermeiras para ajudar Helena a cuidar da mãe.

Em 20 de março de 1987 nasceu Maria Luiza Helena Lontra Jobim – “minha última paixão”,

como dizia Tom. Antes de levar a esposa ao hospital, ele sentou-se ao piano e começou a

tocar. Almerinda, uma babá que atendeu três gerações da família Jobim, entrou no ateliê de



Tom e perguntou-lhe com gentileza: “Então, senhor Jobim, quantas vezes o senhor vai

passar por isso de novo?”

Engasgado, ele apenas sorriu.

Sua irmã e sua enteada Simone ajudaram Ana na cesárea. A menina era linda, com

traços muito delicados. Maria Luiza estava registrada em cartório de Copacabana. Helena e

Alberico foram convidados para serem as duas testemunhas. O seu batismo ocorreu no

Mosteiro de São Bento. Danilo Caymmi e Helena foram padrinhos de Maria Luiza.

Vinte dias após o nascimento do filho mais novo, Tom embarcou com Jacques

Morelenbaum para Nova York, para mixar o álbum Passarim. Em setembro de 1987, foi

lançado no Brasil.

Vera Alencar e Jairo Severiano produziram um álbum-presente especial e um livreto com

músicas de Tom para o conglomerado industrial brasileiro Odebrecht. Tom concordou em

gravar o disco desde que o trabalho fosse feito em sua própria casa. Vera e Jairo não

tiveram problemas com esse ou qualquer outro pedido do maestro. Quando ele e o restante

da Banda Nova terminaram o trabalho de estúdio, Tom ficou totalmente satisfeito com o

resultado. Ele confidenciou aos amigos mais próximos que o álbum foi uma das melhores

gravações entre todos os seus discos.

Tom voltou a Nova York para participar da comemoração dos 25 anos da bossa nova.

Estava cansado de tantas viagens longas, estado geral agravado pelos danos emocionais

das recentes mortes na família e pela doença da mãe. Ele apareceria em Chico Buarque e




 


O programa de televisão de Caetano, no entanto. No mesmo programa juntou-se a

Ástor Piazzolla, compositor que modernizou o tango argentino.

Antes de se mudarem para Nova York, Tom e Ana elaboraram um livro intitulado

Ensaio poético . O volume foi produzido em tempo recorde. Com texto dele e fotos

dela, ficou pronto em quatro meses.

Tom estava cada vez mais próximo da literatura naquela época. Ele contribuiu com

prosa e poesia para esse livro. No longo poema “Chapadão”, por exemplo, ele usou

rimas e métrica para elaborar, de maneiras peculiares, sobre sua esposa, sua casa,

literatura e música. Descreveu a jereba, outras aves, a natureza em geral, a ecologia, o amor e a amizade. O poema não deixa de esboçar o autorretrato de Tom.

Tom, Ana e seus dois filhos acabaram se mudando para Nova York. Eles moraram

três anos em um apartamento que compraram em Manhattan. A vista do vigésimo




segundo andar era deslumbrante. Tom escolheu aquele local por causa disso. Dessa

nova perspectiva ele pôde visualizar, de um lado, os majestosos e famosos edifícios

da cidade. Do outro lado, ficava o Central Park, repleto de árvores e pássaros que ele

aprendeu a reconhecer e comparar com os brasileiros.

As maravilhas eram muitas: a neve, o outono e as cores das folhas – a sua

exuberância, que distinguia com bastante clareza as diferentes estações do ano. No

entanto, com seu jeito bem-humorado, Tom costumava minimizar o esplendor do

parque, chamando-o de “o tanque de água da cidade”. Ele nunca se cansava de

observar falcões e falcões voando e pombos fugindo deles.

O típico pôr do sol ali se transformou do rosa ao vermelho, ao roxo e, logo, ao negro

profundo da noite. A cidade estava então totalmente iluminada, um mosaico de vidro

cintilante com a ponta iluminada do Empire State Building. A ampla sala de estar e

jantar do apartamento também serviu de estúdio para Tom. Um piano de cauda

Steinway ficava no centro, com duas estantes contendo um bom número de livros,

dicionários, fotos e discos.

Todas as manhãs Ana saía do apartamento para as aulas de fotografia. Ela estava

aprendendo muito. Era isso que ela gostava de fazer. Tom se preocupava

excessivamente com Maria Luiza – como ela lidava com as mudanças de temperatura,

tanto do sistema de aquecimento quanto do ar-condicionado. Foi necessário um

umidificador para ajudá-los a lidar com o meio ambiente, mas não limpou a fumaça

dos charutos de Tom. Ele teve que fumar nas escadas do prédio para não prejudicar seus




 


crianças.

João Francisco chegou mais cedo da escola. Por muitos anos ele foi filho único.

Coincidentemente, Tom também teve um menino e uma menina do primeiro casamento,

e a diferença de idade entre Paulo e Elizabeth era a mesma de João Francisco e Maria

Luiza, oito anos. João Francisco tinha um sentido de humor muito parecido com o do pai.

Ele diferia do pai, porém, no sentido de que Tom tinha sido uma criança muito

contemplativa, mas esse filho era nervoso e intenso. Tom gostava de fazer coisas com

ele. Ele o levou ao cinema, ao zoológico e juntos empinaram pipas no Central Park.

Ensinou João Francisco sobre as aves e incentivou-o a perceber a mudança das

estações no Hemisfério Norte. Mesmo assim, João Francisco sempre quis voltar ao Brasil.

Tom mal havia se estabelecido em Nova York, ainda em 1988, quando recebeu pela

BMI, sua agência licenciadora desde 1959, o título de Grande Artista e Compositor.



Logo depois ele seria homenageado com um Certificado de Honra concedido a ele pelo

Conselho Interamericano de Música. Apresentando-se novamente no Carnegie Hall, ele

ajudou a comemorar o vigésimo quinto aniversário de “A Garota de Ipanema”.

As notícias do Brasil também foram propícias. Seu álbum Passarim alcançou vendas

excepcionais e ganhou o prêmio Disco de Ouro.

Houve mais, do lado pessoal: Isabel Canetti Jobim, outra neta, nasceu em 22 de

março de 1989, uma semana depois do show de Tom no Carnegie Hall. Era uma morena

bonita de olhos verdes, filha caçula de Paulo e Elianne, outra afilhada de Helena.

Mais tarde naquele ano, porém, um acontecimento trágico obrigou-o a viajar

imediatamente para o Rio. Sua mãe faleceu e essa perda o derrubou por um bom tempo.

Nilza sucumbiu a uma pneumonia no dia 17 de novembro, três meses antes de completar

oitenta anos.

Tom, então, disse à tia e madrinha Yolanda: “Agora você é minha mãe”.

No mês seguinte, no dia de Natal, o tio e padrinho de Tom, Marcello (irmão mais novo

de Nilza e Yolanda), também teve um infarto e faleceu aos setenta e oito anos. Seu

nome ainda é lembrado nos bares cariocas e nas agências culturais e profissionais SESC

e SENAC, onde atuou como diretor por muitos anos.

Apesar de seu enorme sucesso, Tom permaneceu inseguro em relação ao seu trabalho.

Recebeu royalties através de seu procurador e amigo Danilo Rocha. Tom sentiu-se tonto




 


quando o assunto da conversa era dinheiro, contratos e oportunidades de negócios.

Ana estava preocupada com aquela situação. Ela tentou organizar os assuntos

monetários do marido. Altamente objetiva por natureza, ela queria que Tom

estivesse totalmente no comando de sua carreira e totalmente consciente de seus

próprios talentos musicais, para que pudesse se beneficiar e ser reconhecido de

acordo com o que já havia sido feito. Em 1990, após muitos anos de trabalho,

conseguiu reunir todo o seu material e abrir sua própria editora musical: a Jobim

Music. No início dividiram as instalações de um prédio comercial no Rio de Janeiro

com a Arvoredo, produtora de eventos especiais do autor Jael Coaracy e sua amiga

Ana Lúcia.

O escritório ficava num prédio chamado Quartier de Ipanema. De suas janelas

dava para contemplar um pedaço da paisagem da infância de Tom: a Praça da



Paz, onde nos dias muito quentes de verão ele, quando menino, cochilava em

bancos à sombra de oiti ; e a Igreja de Nossa Senhora da Paz, com suas torres

erguidas contra um céu quase sempre azul.

Tom estava ficando cada vez mais calmo em relação ao lado comercial de sua

vida. Com a esposa cuidando da empresa, ele percebeu que poderia viver

perfeitamente dos seus royalties sem depender da renda de tantos shows. Um advogado, Dr.

Sílvia Gandelman, foi contratada para ajudar os Jobims nos meandros jurídicos de

um universo tão complexo. Elizabeth, filha de Tom, também colaborou na editora.

Dado o seu rápido desenvolvimento, a Jobim Music logo foi ocupando todo o

conjunto de escritórios daquele prédio de Ipanema.

Em 1990, Antonio Carlos Jobim foi eleito membro da Academia Nacional de Música

Popular da América do Norte. Seu nome foi adicionado ao Hall da Fama, onde se

juntou aos de Cole Porter, George Gershwin, Irving Berlin e Michel Legrand.

A pedido dele e de Ana, Helena viajou para Nova York para cuidar de João

Francisco e Luiza enquanto seus pais faziam uma turnê pela Europa com a Banda Nova.

Em San Remo, Itália, dividiram o palco com Caetano Veloso, encerrando o show

com “Chega de saudade”. Lá receberam o Prêmio Tenco.

Helena ficou com a família do irmão mais uma semana após o retorno de Tom e

Ana. Não houve pausa para Tom, no entanto. Várias vezes naquela época, ouvia-

se no apartamento o zumbido do aparelho de fax. Foi o crítico musical e historiador

Almir Chediak que enviou os dados para Tom revisar antes da publicação do

Songbook de Tom Jobim .




 


Certa tarde, no pátio de seu apartamento, os dois irmãos apreciaram o pôr do sol atrás

dos altos arranha-céus de Nova York. Tom tinha algo a dizer sobre aquela visão: “Aquela

sombra vermelha assustadora no oeste, que sempre achei fantástica, é causada pela

poluição – foi o que o professor de inglês de João Francisco lhe disse”.

Num dia de vento, ele relembrou a inspiração que o levou a escolher o nome da filha

mais nova, Luiza. Ele argumentou que o nome continha elementos do vento: Lo-eee-zzzz-

aa. Helena olhou para o irmão. A imagem dele permaneceria impressa em seus olhos: seu

perfil bem formado e aparado contra a iluminação que diminuía ao seu lado.

Tom continuou pensativo: “Acho interessante como o vovô Azor teve quatro netos,

Marcello, Lúcia, você e eu. Marcello e eu já fomos músicos. Você e Lúcia seguiram

carreiras literárias. Ela é realmente uma grande poetisa.

Era verão e a noite os engoliu lentamente. O céu estava agora inteiramente roxo com



uma única estrela brilhando. Com a mente ainda vagando pela questão das carreiras, Tom

acrescentou: “Quando amamos o que fazemos, encontramos os meios. O amor fornece o

poder. Ao mesmo tempo fico pensando...”

Antes que ele pudesse terminar a frase, um pássaro escuro voou de repente pela grade

do pátio e o interrompeu. Abrindo os braços e dando-lhe um meio sorriso, apontou para o

pássaro e citou João Guimarães Rosa, o romancista modernista que melhor descreveu o

sertão, o mítico sertão do Brasil: “O sertão está em toda parte”.

Diversas formas de homenagem e reconhecimento de excelência foram concedidas a

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nos meses seguintes. A BMI produziu um

conjunto de três CDs para comemorar seu quinquagésimo aniversário. Elas incluíam as

canções mais reproduzidas na face da terra, e sete escritas por ele estavam entre elas. Só

“A Garota de Ipanema” já vendeu mais de 3 milhões de cópias.

De volta ao Brasil com a família, Tom se juntou a Chico Buarque e Milton Nascimento

para a inauguração da Universidade Livre de Música. Foi nomeado chanceler daquela

instituição e, posteriormente, presidente da sua diretoria executiva.

Nesse mesmo ano, Tom foi convidado para fazer um show gratuito marcando o ano de

426 de Janeiro

existência da cidade do Rio. O show aconteceu nas areias brancas de




 


Ipanema, na Ponta do Arpoador, a praia de sua infância. O palco, erguido ali mesmo

na areia, abrigava o piano do próprio Tom. Danilo Caymmi ficou encarregado de

distribuir os canais sonoros para todos os artistas que tocariam juntos naquela noite

tão especial. O número de pessoas presentes foi enorme. Muitas pessoas sentaram-se

na areia ou nas pedras do Arpoador. Outros apenas ficaram meio imersos na água,

enquanto uma grande lua brilhava no céu claro.

O público parecia enlouquecer a cada título tocado. Por muitas músicas incluídas na

programação evocarem a cidade do Rio, elas acabaram recontando uma parte

convincente de sua história. Quando Tom e Banda Nova interpretaram “Samba do

avião”, houve uma coincidência incrível: um ônibus São Paulo-Rio, com todas as luzes

acesas, estava descendo para pousar no vizinho Aeroporto Santos Dumont. Voando

baixo sobre o palco, fez com que as pessoas se sentissem ainda mais ligadas



emocionalmente àquela peça musical primorosa, uma canção popular que parecia ter

ganhado o título de hino da cidade do Rio.

Terminado o espetáculo, Antonio Carlos Jobim ficou tão emocionado com o

entusiasmo do público que pegou o microfone e declarou: “Quando eu morrer, quero

que meu coração fique enterrado na areia desta praia”.

No dia 25 de janeiro de 1991, Tom Jobim e a Banda Nova se apresentaram para vinte

e oito mil pessoas na Arena Ibirapuera em comemoração ao seu aniversário e ao

aniversário da cidade de São Paulo. O show foi produzido por Roberto de Oliveira.

Ele e sua esposa, Pinky Wainer, cujos pais eram o eminente jornalista Samuel Wainer

e a autora Danuza Leão, tornaram-se amigos íntimos de Tom e Ana.

O show foi maravilhoso. Ao sair da arena, Tom foi assediado de forma tão

avassaladora por torcedores que a polícia foi obrigada a intervir, para que o maestro

pudesse retornar ao seu hotel. Perto do final da noite, aconteceu um jantar em uma

das churrascarias mais famosas de São Paulo. Foi realizado em sua homenagem pelos

tios de Ana, Michel e Suzana Etlin.

Após mais um retorno ao Rio, Tom recebeu o título de doutor honoris causa da

Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Apresentou-se no Teatro Rio Centro com a

família Caymmi e recebeu convite para tocar com Sting no Carnegie Hall. O objetivo

deste evento foi arrecadar fundos para a ONG de Sting, a Rainforest Foundation.

Gilberto Gil, Caetano Veloso e Elton John também subiram ao palco. Os chefes

indígenas Raoni e Redcrow, nascidos no Brasil e nos Estados Unidos, também foram

convidados do evento.




 


A rotina de trabalho de Tom continuou pesada. Foi necessário viajar frequentemente aos Estados Unidos, como se essa viagem fosse tão simples quanto ir até o escritório da Jobim Music em Ipanema.

Ele reclamava com o amigo Alberico da Plataforma: “O que mais desejo hoje em dia é ficar sozinho no meu cantinho”.

As maiores emoções de Tom estavam novamente em uma montanha-russa naquela fase de sua vida.

Ele era profundamente apegado à filha Maria Luiza – Lulu. Ele estava particularmente apaixonado por seus misteriosos olhos verdes. Com aqueles olhos que, segundo ele, tinham a sombra do caldo da cana, de um lago e do vegetal tropical conhecido como chuchu, ela trazia algumas das maiores alegrias do seu dia a dia. Teve também um prazer muito especial em conversar com João Francisco e alertar sobre os perigos do álcool, do cigarro e das drogas. Além disso, Tom lhe disse que gostaria que seu filho não andasse de motocicleta e que aqueles que gostavam de excesso de velocidade eram bastante tolos: “As máquinas eram muito pesadas e o corpo, muito frágil”.

Ele costumava dizer: “Vejo muito de mim no João”.

Elizabeth e Paulo também estiveram em sua vida. Tom sempre foi genuinamente apegado e




orgulhoso de seus filhos. Ele também estava entusiasmado com a carreira musical de seu neto. Pela primeira vez, o jovem Daniel subiu ao palco – trouxe para ele a marca registrada das mãos do avô nas teclas do piano e a semelhança de suas vozes.

Paulo, primeiro filho de Tom e primeiro seguidor musical da família, também iniciou sua carreira muito cedo. Ele se tornou um profundo conhecedor da música e adquiriu um nível extraordinário de sensibilidade, o que contribuiu para suas composições marcantes. Ele fez muitos arranjos para os álbuns de seu pai. Ele também estava trabalhando no Songbook de Tom. Ele estava encarregado de transcrever e garantir que todas as partituras de Tom fossem publicadas estritamente da maneira que o maestro pretendia que fossem para piano e voz. Paulo também incentivou o filho a seguir aquela carreira mágica e desafiadora e ajudou a quebrar aquela velha maldição brasileira, o ditado popular que lançava um feitiço desagradável: “Que Deus lhe dê um filho que será músico!”

Essa era a vida de Tom naquela época: grandes sucessos, títulos de honra e perdas irreparáveis.

Seu dia a dia era sereno e disciplinado: acordava cedo e saía

 


comprar pão na padaria Século XX, em frente à sede da Rede Globo. Mantinha conversas

animadas com a sogra Dorita, que, como ele, gostava de procurar a raiz das palavras.

Tom passou a usar um anel engastado com uma pedra escura, que pertencera ao falecido




marido de Dorita, o coronel Lontra, que, por coincidência, fora colega de escola do

primeiro marido de Helena.

Semi-sério, Tom diria: “Estou usando este anel para ver se consigo impor respeito por

mim em casa”.

Depois do café da manhã, ele leu as notícias enquanto a luz do sol entrava na ponta

dos pés em seu estúdio. Ele sentou-se ao piano, elaborou escalas, tocou peças de outros

compositores e escreveu novas músicas. Quando Maria Luiza acordou, tomou café da

manhã e logo entrou no estúdio. Lá ela frequentemente criava coreografias graciosas ao

som de seu pai no teclado. Ele sorriu e comentou: “Ela é um gênio. Esta criança é um

gênio.”

Quando ela se cansava, ela se sentava em uma mesa ao lado dele e fazia desenhos.

Mais tarde, Maria Luiza contaria para tia Helena um sonho que teve: “Meu pai apareceu

de repente, e eu cheguei bem perto dele perguntando: 'Onde você estava, papai, que

senti tanto sua falta?' Aí, tia Helena, ele respondeu assim: ‘Essas cores, querida. Eu

estava nessas cores. Depois de dizer isso, ele simplesmente desapareceu, sorrindo.”

Quando João Francisco, por sua vez, pensava no pai, dizia: “Ele é como a luz da nossa

casa”.

Aproximadamente às onze da manhã, Tom continuou a partir para o Triângulo das

Bermudas. O melhor chopp do Rio de Janeiro, segundo ele, foi lá, na Universidade do

Chope, sua primeira parada, onde uma hora passou tranquilamente e ele contou muitas

histórias para os amigos mais próximos. Ele gostava de abrir uma nova história assim:

“Naqueles tempos em que eu era velho...”

A próxima parada foi no Mercado Cobal. Às vezes comprava rúcula e rabanetes

pequenos. Ele também selecionava minúsculas folhas de agrião. Para ele, frutas, legumes

e peixes pequenos eram mais saborosos do que os grandes. Quando Maria Luiza estava

com ele, ela bebia água de coco no mercado, enquanto o pai tomava outro copo de

cerveja acompanhado de alguns petiscos.

Preocupada com a saúde dele, Ana ficou chateada ao saber que Tom estava comendo




canapés de calabresa. Assustada, ela disse a ele: “Mas Tom, eu não sabia que você

comia calabresa!”

 


Sem perder a calma, ele respondeu: “Eu também não sabia”.

À uma da tarde teria chegado à Churrascaria Plataforma.

Seus bons amigos, com suas conversas inteligentes e divertidas, estavam esperando por ele.

Naquele estabelecimento, Tom ficou sabendo de tudo o que acontecia naquela cidade. Às vezes

trazia sopa de pé de bezerro e de joelho no caminho, no Bar Bracarense, e partilhava com os companheiros de bar.

Depois de voltar para casa, era hora de fumar um charuto, fazer uma massagem nas costas

e tirar uma soneca no sofá. À tarde, ele estava novamente ao piano. Ele não gostava mais de sair à noite. Ele assistiu televisão ou leu alguma coisa. Com as persianas de bambu do estúdio levantadas, ele pôde ver a estátua do Cristo Redentor contra o céu noturno do Rio.

A maior produtora de cerveja do Brasil, a Brahma, agora enviava gratuitamente a Tom Jobim




um barril de cinquenta litros de seu principal produto todas as semanas. Ele teve que ligar e pedir que reduzissem o tamanho daquela “gentileza” para um barril de dez litros. O comentário que fez ao cunhado Manoel disse tudo: “Agora que bebemos muito pouco, mandam cerveja de graça.

Porém, quando éramos jovens, poderíamos ter sido proprietários daquela empresa se o dinheiro

que gastamos na cerveja deles fosse usado para comprar suas ações.”

Tom tornou-se cada vez menos a favor de turnês e apresentações. Ele simplesmente não queria

mais sair de casa. Ele habitualmente falava sobre seu cansaço.

Muitas vezes, porém, ele aceitava convites. A pressão sobre ele foi enorme e ele cedeu.

Em julho de 1991, por exemplo, viajou com a Banda Nova para Recife, em Pernambuco, para

fazer duas apresentações no Teatro Guararapes. Ana estava animada para mostrar ao marido

um lado da família que morava lá. Ele nem saiu do hotel, exceto para ir até o local do show. Ele se recusou a fazer qualquer um dos passeios que sua esposa propôs. Ele passava todo o seu

tempo livre na frente da televisão. As apresentações foram, novamente, um grande sucesso,

mas Ana ficou com o coração partido. Tom nunca conheceu os parentes locais, nunca fez um

passeio de barco e nunca foi à praia com ela e João Francisco. Tudo o que ele fez foi ir até a janela simplesmente para vê-los brincar e nadar.

De volta à rotina carioca, Tom e Ana logo estavam na Plataforma para almoçar, onde um

jornalista pernambucano residente na cidade perguntou a opinião de Tom sobre a cidade do

Recife. O queixo de Ana caiu ao ouvir a resposta do marido: “Recife é deslumbrante! As praias são lindas, com águas mornas. Os passeios de barco nos encantam. Minha esposa tem família

lá. É o clima ideal para viver!”




 


Mais uma homenagem marcante veio a Tom Jobim, quando a Escola de Samba Mangueira

(também conhecida como Estação Primeira) escolheu sua arte como tema central do samba-

enredo de Carnaval de 1992 , intitulado “Se todos fossem iguais a você” (lançado em inglês como “Somebody to Light Up My Life”) – nome exato da primeira música que ele escreveu

com Vinicius de Moraes, em meados da década de 1950.

Após questionamentos iniciais, os dirigentes das escolas de samba foram até a casa de

Tom para oficializar o convite. Dona Neuma, dona Zica, José Maria Monteiro, Percy e todos os demais altos dignitários da escola estiveram presentes e conversaram com Tom.

Ele disse-lhes que era uma grande honra aceitar o convite. Ele acrescentou que conhecia os

sambas antigos e sempre foi fã da escola. O encontro acabou sendo uma grande celebração.

Tom tocou sucessos da Mangueira e todo mundo cantou junto.

Tom se ofereceu para ajudar de todas as maneiras que pudesse. Por exemplo, participava




dos ensaios das escolas de samba e gravava um disco com os percussionistas da Mangueira.

Os lucros seriam doados à escola.

Poucos dias depois, Tom esteve presente na sede da Estação Primeira para presenciar a

inauguração da nova ala da escola, “Amigos de Tom Jobim”

(Amigos de Tom). Foi uma cerimônia muito charmosa. Cinco porta-bandeiras (dançarinos

que seguram bandeiras) executaram sua magistral coreografia em homenagem a Tom.

Jovens e muito bonitas, aquelas mulheres pareciam verdadeiras princesas que dançavam

como se levitassem sobre o pátio da escola.

Tom ficou genuinamente emocionado com o convite da Mangueira. Durante algum tempo,

essa honra pareceu ser o único assunto de suas conversas diárias.

Os preparativos para a seleção dos figurinos foram iniciados e atingiram o auge quando

ocorreu um entusiástico ensaio na Churrascaria Plataforma.

Os organizadores distribuíram camisetas, faixas e faixas de cabelo nas cores verde e rosa,

cores oficiais da escola, para quase todos os convidados. Em ritmos frenéticos, os

percussionistas da escola subiram ao palco e fizeram com que todos compartilhassem o gosto

pelo samba. Naquele clima marcante, a imprensa ouviu pela primeira vez o samba-enredo de

1992 da Mangueira.

Nesse ínterim, Tom e Chico acabaram compondo uma peça própria que revisitava as

antigas tradições carnavalescas da escola: “Piano na Mangueira”.

Passadas as grandes emoções daquele período de preparação, o gerente José Maria

chamou Tom para que voltasse ao galpão da Mangueira, onde fica o




 


carros alegóricos estavam sendo construídos. Ele mostrou a Tom como cada um daqueles carros

alegóricos homenageava e levou o nome de uma das músicas de Tom Jobim. Tom também pôde

ver o carro alegórico principal, no qual ele próprio montaria no desfile. A enorme altura daquele carro alegórico o impressionou, então ele queria saber como subiria nele.

“É também por isso que te convidei aqui”, explicou José Maria. “Eu quero te ensinar como

chegar lá.”

Tom sorriu, um pouco preocupado. Ele não vacilou, no entanto. O flutuador foi

montado na traseira de um caminhão velho.

No grande dia do grande desfile, num Sambódromo lotado, Tom não conseguiu conter as

lágrimas quando os carros alegóricos e os grupos fantasiados da escola, incluindo mais de três mil dançarinos, começaram a avançar. . Lá estava ele, bem no topo do carro alegórico principal.

Mais de 100.000 espectadores o aplaudiram. Ele nunca havia sentido nada parecido em toda a




sua vida.

Quando o desfile da Mangueira terminou na Praça Apoteose, dezenas de jornalistas tentaram

ansiosamente ser os primeiros a entrevistar Tom. Sem saber do risco envolvido, começaram a

subir na alta estrutura do carro alegórico. Tom percebeu que o carro estava prestes a capotar. Ele começou a gritar e implorar para que saíssem, mas ninguém o ouviu. Totalmente angustiada, Ana correu em direção ao carro e ajudou a evitar qualquer tragédia.

No dia seguinte, assim que acordou, Ana ficou surpresa ao ler alguns dos

manchetes extragrandes de jornais, como esta:

ANA LONTRA PROTEGE MARIDO DE SAMBA-ENREDO!

Não foi possível a presença de Helena e Manoel no desfile. Em Poço Fundo, porém, assistiram

a todo o evento ao vivo pela televisão nacional. Todos os integrantes da Banda Nova participaram do desfile. Tom estava vestindo um terno todo branco, de pé ou sentado ao lado do piano, no topo do carro alegórico. Ele segurava seu chapéu panamá enquanto cumprimentava um público imenso

e alegre.

Helena chorou durante todo o desfile. Surpreso com as lágrimas intermináveis dela, Manoel se

perguntou: “Você está tão emocionado porque seu irmão está desfilando no Sambódromo?”

Ela respondeu simplesmente: “Não é só isso. Eu posso sentir que algo maligno está

 




irá acontecer."

Manoel ficou preocupado. Ela era altamente perspicaz e ele sabia que sua esposa era

capaz de prever acontecimentos.

Depois do carnaval, Manoel se comprometeu a ficar em Poço Fundo.

Helena voltou para o Rio, porém. Ela já planejava os detalhes de um livro de entrevistas

que realizaria não só com nomes de destaque da música, do teatro, da literatura, da

política, das ciências e da imprensa, mas também com o povo comum que frequentava a

noite carioca. Seria um livro cuja ampla abrangência poderia refletir o novo momento da

história do Brasil, o período que se seguiu ao fim da ditadura militar.

Helena e Tom concordaram que ela o entrevistaria e colocaria esse texto no início do

livro. No final do volume haveria uma entrevista com Helena, conduzida por Tom. Todas

as conversas aconteceriam em uma mesa de bar durante o happy hour. Os acordos com

uma editora já haviam sido feitos e o título do livro era A Hora Violeta.

Que ano incrível de reconhecimento coletivo foi 1992! Em pouco tempo Tom foi convidado

para fazer o show de abertura da Expo Mundial em Sevilha, Espanha. Uma honra ainda

maior para ele foi o chamado para se apresentar no Mosteiro de Gerônimo, em Portugal.

Helena seria convidada de Tom naquela viagem à Europa.

Nesse período, Tom também recebeu o convite para tocar no Rio de Janeiro em uma

ocasião muito especial: em setembro, a cidade sediaria a cúpula ambiental chamada Expo

Rio 1992. Quase todos os chefes de estado do mundo inteiro se reuniriam para discutir

questões ecológicas. problemas. Tom estava programado para jogar com seus amigos

Sting e Gal Costa, e Plácido Domingo e Wynton Marsalis.

No feriado nacional de 21 de abril, Helena levou duas amigas para Poço Fundo, onde

seu marido, Manoel, as esperava. Tom, Ana e as crianças também seguiram nessa

direção. Quase toda a família estava reunida naquele fim de semana de quatro dias.

Foi um feriado perfeito. Tom estava extremamente feliz ao piano em seu estúdio.

Todos pareciam encantados com a oportunidade de ir para o campo, principalmente as




crianças, que estavam soltas e livres das restrições impostas pela grande cidade onde

viviam. As pessoas gritavam ou riam alto e inesperadamente, banhavam-se nas cachoeiras

da região, ou cavalgaram muito além das fronteiras dos complexos. Os peixes que as

pessoas pescaram, os múltiplos cheiros e rajadas de vento,

 


a chuva e o correr do rio, além de todas as plantas daquele lugar mágico, sobreviveram

como marcas indeléveis na memória das pessoas ali reunidas. De qualquer forma, o fluxo

da vida sempre foi fácil em Poço Fundo. O corpo e a alma descansavam naquele canto do

mundo: não havia compromisso para ninguém, seja qual for.

Helena e suas amigas decidiram descer a serra e voltar ao Rio no dia 21 para evitar os

típicos engarrafamentos de fim de feriado. Tom também partiu para o Rio, logo depois da

irmã. Manoel, por sua vez, teve que ficar no campo.

Poucas horas depois, Tom, já em casa, recebeu a notícia do acidente de Helena. Ao saber



da gravidade dos ferimentos de sua irmã, ele se desesperou. Ficou quinze dias internada

na unidade de terapia intensiva, entre a vida e a morte, no Hospital das Clínicas de

Teresópolis. Houve muitas fraturas ósseas e seu baço teve que ser removido. O cinto de

segurança salvou sua vida. O motorista do carro que bateu de frente com o carro da amiga

de Helena simplesmente fugiu.

Quando Tom foi ver o cunhado, Manoel lhe disse: “Há semanas que Helena falava

comigo sobre a morte que rondava ela. Eu sabia sobre seus instintos, mas não tinha ideia

de onde a morte poderia estar vindo.”

Durante a luta de Helena para sobreviver, os médicos prepararam Tom para o pior. Ele

solicitou uma corrente de orações. Ele implorou por isso aos católicos, protestantes e

espíritas. Ele instou Danilo Caymmi a invocar o candomblé baiano para salvar a vida de

Helena. Na cidade de Salvador, os fiéis tocavam tambores em seu nome.

Todos os finais de tarde, à hora do Angelus do entardecer, Tom e Ana acendiam uma

vela e concentravam os seus pensamentos em Helena enquanto olhavam a sua fotografia

em cima do piano de Tom. Era a mesma foto que Tom carregava na carteira e gostava de

mostrar aos amigos. Ele implorou pela vida dela.

A jornada de Helena até a recuperação total foi lenta e dolorosa. Depois de dois meses

internada, ela voltou para seu apartamento no Rio. Com ajuda de fisioterapia intensa, ela

conseguiu sair da cama.

Os dois shows na Europa aconteceram logo, em maio. Houve, primeiro, a apresentação

em Sevilha. O próximo show seria em Lisboa. Portugal cativou todo o grupo com uma

recepção calorosa e uma hospitalidade amorosa. O acordo de patrocínio que pagou Tom

e Banda Nova para tocarem na Europa incluía uma conferência de imprensa. Tom

considerava essas entrevistas formais tensas




 


momentos e ele preferiu manter sua energia mental para os shows em si. Houve também o

convite para toda a trupe jantar na casa do Embaixador Luiz Felipe Lampreia. Temendo a

animosidade de Tom, sua road manager, Gilda Mattoso, e Ana não souberam como informá-

lo sobre aquele jantar planejado em sua homenagem. Intelectuais, personalidades políticas e

diplomatas portugueses esperavam ali pelos artistas brasileiros.

Após a coletiva de imprensa, Tom, Ana, Gilda e o embaixador embarcaram em uma

limusine. O caminho deles passava por bairros encantadores, mas Tom percebeu que aquele

não era o caminho para o hotel. Então, ele perguntou: “Para onde você está me levando?”

Gilda respondeu imediatamente, sem dar a Tom outra chance de revelar seu

desconhecimento do acontecimento: “Para jantar, Tom. Você não se lembra que estávamos

indo para a casa do embaixador?”

E Ana acrescentou rapidamente: “É claro que o Tom se lembra!”



Tom não conseguiu acrescentar mais nada.

Enquanto se aproximavam da casa do embaixador, Tom já se sentia muito

confortável. Tudo ao redor era atraente e de bom gosto.

Foram servidos vários pratos de bacalhau. Eram receitas de diferentes regiões de Portugal.

Tom e o embaixador tornaram-se amigos.

Dificilmente poderia haver local mais apelativo para esse concerto em Portugal. O Mosteiro

dos Jerónimos, mais conhecido, em português, como Mosteiro dos Jerónimos, é uma

magnífica construção manuelina de muitos esplendores do gótico tardio.

Junto às docas do rio Tejo, servia as gentes e os barcos que partiam para alto mar em viagens de descoberta. No interior da Igreja de Santa Maria, situada no mesmo complexo, encontram-se as lápides do viajante Vasco da Gama e do poeta Luiz Vaz de Camões. Embora a

apresentação de Tom e Banda Nova estivesse marcada para um pátio interno, a história

impregnou todo o edifício e seu elemento sagrado potencializou as emoções dos artistas

brasileiros.

O desempenho foi esplêndido. Enquanto durou, a banda foi banhada pela luz da lua cheia.

O público português ouviu, extasiado com cada música.

Eles sabiam que o fruto de suas próprias raízes estava no palco.

Houve uma presença notável da intelectualidade portuguesa no concerto, dignitários como

o presidente de Portugal, Mário Soares, e a sua esposa, Dra.

Maria de Jesus, e o presidente da Universidade Nova de Lisboa, Manuel Soares




 


Pinto Barbosa e sua esposa, Helena Meneses.

Toda a estadia no país ibérico agradou muito ao Tom. Em Lisboa viu semelhanças

entre aquela cidade e a zona antiga do Rio de Janeiro. Os paralelepípedos e os pardais

voando e saltando pelas ruas aproximaram as duas cidades em sua mente. Ele também

reviveu imagens do passado ao relembrar como as caravelas haviam partido daquela

cidade cinco séculos antes em sua jornada para descobrir o Brasil.

Após retornar daquela viagem à Europa, Tom recuperou as forças, mas voltou a se

preocupar com sua saúde. Cada viagem se tornou uma enorme demanda de energia

dele. Ele não podia mais depender de Lourival. O curandeiro havia falecido. Tom não

seguiu a recomendação dos médicos de caminhar todos os dias e sentiu muitas dores

nas pernas.

Em casa, depois do jantar, passeava no jardim e contava os passos à volta da piscina.



Ele escreveu os números em um pequeno caderno. Era sua maneira de tentar caminhar

uma distância maior a cada vez. Sentindo-se um tanto desesperado, ele olhou para as

pinturas de sua filha Elizabeth dentro da sala e murmurou: “São muito boas”.

Ele conversou com poucas pessoas sobre suas dores. Seus nervos ciáticos também

o incomodavam, mesmo quando estava sentado ao piano. E então houve a compressão

que ele começou a sentir no peito. Nenhum de seus amigos sabia de nada sobre isso.

Diante deles ele continuava alegre, agradável — e sempre espirituoso.

Naquela época, Tom começou a falar sobre si mesmo na terceira pessoa. Ele dizia:

“Deixa eu ler o jornal para ver se falam de Tom Jobim”.

Ou então, “Tom trabalha demais...”

Ele se tornou cada vez mais vulnerável a qualquer crítica. Ele até cunhou um novo

apelido para si mesmo: “Lamentável Tony”. Quando dava entrevistas, ficava preocupado

demais com o fato de suas palavras serem distorcidas. Seu sofrimento sob o escrutínio

dos críticos se aprofundou. Ele sentiu que foi tratado injustamente. Ele repetiu: “Há

pessoas por aí que não me perdoam pelo meu sucesso”.

A cidade do Rio de Janeiro parou quando ocorreu a Rio-92. Ambientalistas de ONGs

tiveram suas reuniões no Aterro do Flamengo. No Riocentro, os chefes de estado se

reuniram. Durante uma semana, as discussões centraram-se na importância de




 


a sustentabilidade do meio ambiente e o futuro do mundo.

No último dia do evento, Tom se apresentou no estádio de remo localizado às margens da

Lagoa Rodrigo de Freitas – mais uma vez numa paisagem de sua infância.

A sempreviva, flor abundante nas savanas brasileiras (conhecida nos Estados Unidos

como “evergreen”), foi a inspiração para Tom lançar o manifesto ecológico Forever Green.

Outros shows continuaram chegando. Depois de muitos anos sem aparecerem juntos no

palco, Tom e João Gilberto se apresentaram em um show no Carnegie Hall em comemoração

ao trigésimo aniversário da bossa nova. Eles se uniram novamente em apresentações no

Teatro Municipal do Rio e no Palácio de São Paulo. Esta última apresentação foi filmada por

Walter Salles Jr. e Bonitinho e transmitida nacionalmente pela Rede Globo como especial de

televisão intitulado João e Antonio.

Em 1993 gravou um programa especial de televisão com Milton Nascimento para a Rede



Bandeirantes. Foi outra grande oferta para seus fãs. O piano de Tom juntou-se à voz poderosa de Milton. O renomado cantor vinha se dedicando a um amplo programa de educação musical

em seu estado de Minas Gerais.

Outra apresentação o levou a Brasília e foi desastrosa. Tom reclamou de quase todos os

detalhes. O espetáculo foi produzido em condições muito precárias, para sua profunda

decepção. Na volta, ele e a banda pegaram o vôo para o Rio. O avião decolou normalmente

e atingiu a altitude de cruzeiro para que o sistema de controle de cruzeiro fosse iniciado.

Porém, naquele momento havia um nível perceptível de desconforto entre os passageiros:

eles reclamavam do calor a bordo. Do nada, uma comissária de bordo passou correndo por

eles em direção à cabine do capitão. Todos notaram sua agitação e a fumaça que começou a

sair da cauda da aeronave. Foi um pânico total. Toda a banda, agora em desespero, chorou

e orou.

Calmo e com cara de pôquer, Tom disse aos músicos: “Se o avião cair, sentirei pena de

vocês, jovens que estão apenas começando suas carreiras. Já passei por tudo o que existe

para ser vivido.”

Para alívio de todos, o avião pousou sem nenhum acidente no aeroporto de Brasília. A

área estava lotada de caminhões de bombeiros e ambulâncias. Antes que percebessem,

todos os passageiros estavam em outra aeronave rumo ao Rio novamente.

Tom continuou a evitar bebidas espirituosas. O vinho era sua bebida agora - e ele o consumia




 


moderadamente. Ele trazia a sua própria garrafa para Plataforma. Sua mudança de hábitos

ajudou seus amigos a mudar os deles. Começou uma competição entre eles: quem descobriria

os melhores vinhos do Brasil e do exterior?

Nesse ínterim, seu apego apaixonado à filha Maria Luiza ficou ainda mais próximo. Houve

muitos carinhos, muitos bonecos e vários passeios pelos espaços infantis da cidade. Todas

as manhãs aconteciam os rituais de seus encontros cerimoniosos: ela exibia seu progresso

na música e na dança, e ele se sentia jovem novamente através dela.

Diversas formas de homenagem continuaram chegando a Tom Jobim como homem

famoso. O Festival Free Jazz do Rio, por exemplo, organizou um concerto em sua

homenagem apenas com sua música nas mãos de destacados músicos dos Estados Unidos

e de Cuba. Entre eles estavam amigos como o saxofonista Joe Henderson, os pianistas

Herbie Hancock e Gonzalo Rubalcaba, a lendária cantora e pianista Shirley Horn e o baixista



Ron Carter. Também estiveram presentes a cantora brasileira Gal Costa e o guitarrista Oscar

Castro-Neves, músico que acompanhou de perto o desenvolvimento da carreira de Tom,

tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Tom, que havia sido candidato a uma vaga na sacrossanta Academia Brasileira de Letras,

decidiu retirar-se dela para apoiar a candidatura de Antônio Callado, um dos maiores

romancistas do Brasil. Tom não escondeu o interesse em pertencer àquela instituição no

futuro.

Nesse mesmo ano, Tom participou das filmagens de Três Antônios e um Jobim , que teve

como foco a obra e a vida de Antônio Callado, do lexicógrafo Antônio Houaiss e do ensaísta

Antônio Cândido. Rodolfo Brandão dirigiu o trabalho, com algumas filmagens acontecendo

no museu onde trabalhava a ex-arquivista de Tom, Vera Alencar. Ela também se dedicou

totalmente ao projeto. Os diálogos foram tão extraordinários que foram transcritos em um

livro.

Tom também regressou a Lisboa como convidado do governo português, onde no meio

de pompa e circunstância recebeu o título honorário de doutor honoris causa da Universidade

Nova de Lisboa.

Havia mais demandas para viajar, pois seus compromissos eram numerosos. Suas

reclamações sobre sua agenda lotada e cansaço também não tiveram folga: “A carga do meu

barco continua grande e pesada...”

Em abril de 1994 ele estava de volta ao Carnegie Hall para se apresentar com Pat Metheny

e Herbie Hancock e comemorar o quinquagésimo aniversário do selo Verve. Mais tarde isso




 


À noite, ele pegou um táxi para seu apartamento em Manhattan. Tom conversou com o

motorista durante toda a viagem, como era seu hábito. O motorista, por sua vez, ficava olhando para ele pelo retrovisor. De repente, o motorista perguntou-lhe: “Você é professor?”

Tom achou a pergunta engraçada, mas respondeu sem rodeios: “Não.

Eu não sou professor.”

O motorista acrescentou então, sem hesitação: “Você está um pouco dissipado demais para

ser professor. Agora eu sei... Você é um músico – um compositor!”

Então, impressionado com o espírito de observação daquele homem, Tom concluiu: “Sim,

sou um compositor e você é um bom psicólogo”.

Mais reconhecimento estava reservado para ele. A BMI concedeu-lhe o Prêmio Latino por

“Desafinado”, também conhecido como “Off Key”, uma das canções mais tocadas no ano

anterior. De volta ao Rio, o maestro recebeu a Medalha Pedro Ernest.




Enquanto isso, Ana fez duas viagens pelo litoral do Brasil, fotografando a Mata Atlântica.

Ela fez aproximadamente duas mil fotos do Rio Grande do Sul ao Ceará. A partir dessas fotos ela selecionaria as que incluiria no livro que preparou com Tom, Visão do paraíso. Era um livro para mostrar o esplendor da floresta e denunciar a sua destruição. Tom começou a escrever

seus próprios textos para o volume. Ele então comentou com desgosto: “Restam apenas oito

por cento da Mata Atlântica!”

A epígrafe do volume diz: “Toda a minha obra é inspirada na Mata Atlântica”.

A convite de João Araújo, Tom começou a gravar o álbum Antonio Brasileiro nos estúdios Sony e Som Livre. Chamou Dorival Caymmi e Sting para gravar com ele. Tom havia escrito uma

música para sua filha de sete anos e optou por gravá-la em dueto com ela: “Samba de Maria

Luiza”.

Em seguida veio uma oferta para que ele fizesse um concerto na cidade sagrada de

Jerusalém. A agente que organizou o evento foi Lilian Schutz, uruguaia que morava há muitos

anos em Tel Aviv. Fã incondicional de Antonio Carlos Jobim, ela vinha tentando há muito tempo trazer Tom para Israel.

Muitas vezes Gilda Mattoso foi à casa do Tom ou à Plataforma na tentativa de fazê-lo aceitar a oferta. Ele quase sempre mudava de assunto:

 




“Jerusalém – a Terra Santa... hum... muito longe... muito tempo de avião.”

Nesse ínterim, Lilian Schutz enviava ansiosamente várias mensagens de fax implorando

por uma resposta, já que a programação do festival de Jerusalém precisava ser definida.

Finalmente, logo no dia do prazo, ele concordou. Ele assinou o contrato, mas disse a

Gilda: “Vocês me levam a lugares tão estranhos...”.

Em maio de 1994, Tom embarcou em um avião para Paris, onde relaxou por três dias

antes de seguir para o Oriente Médio. Ana e o resto da banda voariam direto para

Jerusalém alguns dias depois. Quando Tom e Gilda chegaram ao aeroporto de Tel Aviv,

brasileiros e israelenses de uma escola de samba os esperavam para cumprimentá-los.

Apesar do cansaço, Tom não ficou aborrecido. Acabou até ensaiando alguns passos de

samba com o grupo antes de entrar no carro que o levaria a Jerusalém, pelo deserto.

Assim que chegaram ao hotel, o carro teve que continuar circulando. O Sheraton foi

isolado por motivos de segurança. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Warren

Christopher, estava jantando lá. O bom humor de Tom morreu ali mesmo.

Horas depois, o resto da banda chegou. Tom abriu a porta do quarto e comentou

novamente: “Vocês me levam a lugares tão estranhos!”

No dia seguinte, antes dos ensaios, Tom participou numa conferência de imprensa com

outros músicos de fama internacional, mas 70 por cento das perguntas foram dirigidas a

ele. Os jornalistas queriam saber mais sobre a bossa nova, sua batida diferente e assim

por diante. Tom, como sempre, foi paciente e gentil com todos eles.

O concerto aconteceu em um lugar extraordinário chamado Piscina do Sultão. O

cenário de fundo consistia nas antigas muralhas que cercavam a cidade de Jerusalém. A

apresentação começou no final da tarde. Em meio às oliveiras daquela paisagem

desértica, Tom tocou seus acordes iniciais enquanto o sol se punha e dava um brilho

alaranjado a todo o ambiente – a areia, as paredes e o público.

Imediatamente após a apresentação, o prefeito de Jerusalém homenageou o maestro

Antonio Carlos Jobim. O dignitário subiu ao palco para oferecer ao artista brasileiro uma




chave simbólica da cidade.

No dia seguinte, o fotógrafo Sérgio Zallis fez uma proposta para o Tom: “Hoje vou te

levar na Churrascaria Plataforma desta cidade”.

Era um restaurante muito bom com uma vista fascinante.

Depois do almoço eles notaram um pomar de oliveiras e Zallis decidiu tirar uma foto de

Tom nele. Talvez por coincidência, Tom escolheu uma árvore específica, entre

 


milhares de outras árvores, para ficarem paradas e serem fotografadas. Quando o fotógrafo

e o maestro se aproximaram da árvore perceberam que ela tinha uma pequena placa. Dizia

que a árvore foi plantada ali pelo extraordinário pianista Arthur Rubinstein como uma

homenagem ao povo de Israel.

O baixista Tião Neto, amigo de longa data de Tom, aproximou-se do maestro e disse-lhe:

“Não existem meras coincidências.”



Na volta ao Brasil, Tom retomou o exaustivo trabalho de gravação de seu próprio texto para

o livro Visão do paraíso. Gravou seu material em casa e na cidade de Paraty, onde

conversou com Sérgio Vahia, experiente caçador e amigo juvenil de Tom. Sérgio também

era primo-irmão de Ana e amigo íntimo de seu pai. Terminadas as fitas, a professora Helena

Martins as transcreveu.

Tom ficou cada vez mais obcecado pelas palavras e pelas belezas de ambos

Rio de Janeiro e seu país em geral. Então ele escreveu:

A cidade do Rio de Janeiro é bastante espalhada: você vai para um lugar e vai parar em outro. É o caso da floresta que temos dentro dos limites da cidade: a Floresta da Tijuca. É o maior bosque urbano do mundo – repleto de cachoeiras, riachos, flores e tudo mais.

O imperador Pedro II do Brasil ordenou o reflorestamento da Floresta da Tijuca. Ele solicitou a compra e plantio de espécies nativas que não crescem mais ali. Os cafeeiros tomaram conta da área.

Ainda hoje você ainda encontra algumas daquelas árvores no meio da selva. Você vê muitas árvores nativas brasileiras lá, mas também muitas árvores exóticas, como o macaco das Índias Orientais.

Muitas espécies vieram da Ásia e da África, e muito eucalipto foi importado da Austrália.

Foi por falta de água na cidade que Dom Pedro planejou aquele reflorestamento. A água do

Aqueduto da Lapa escasseava nos arcos que alimentavam o Centro do Rio.

Essa água tinha origem na mata da Tijuca, onde a nobreza ia ouvir o timanou do matagal.

Às seis da tarde, hora do Angelus, a Marquesa de Santos subiu os morros em sua carruagem até o alto da Serra da Tijuca para poder observar o poleiro e o gorjeio do timanou. Esse pássaro não usa o dedão de trás, apenas os três da frente, para pular.

Na hora de empoleirar-se, escolhe um galho grosso, um tanto nivelado, e ali encontra o equilíbrio com a ajuda das escamas na parte posterior das patas.

Certa vez, Chico Buarque me deu um conselho: “Você deveria parar de falar do macuco (o timanou) porque os jornalistas inevitavelmente irão distorcê-lo para macaco (macaco) ou maluco (lunático)”.

Posso dizer, porém, que o macuco é uma galinha selvagem de grande porte, da família Tinamidae.

O Rio de Janeiro é uma cidade feliz por ter uma joia como a Floresta da Tijuca! Aquela névoa maravilhosa e aquelas cores – o pastel nas árvores, o bege nela – aquele tom fantástico.

E, depois, tem o bairro da Gávea. A palavra gávea significa “mirante”, o ponto no topo do mastro mais alto do navio. É aquele ninhozinho em que a pessoa sobe para ver a terra que tem pela frente, como fez alguém para descobrir a terra do Brasil. Na verdade, da Serra da Gávea,




 


pode-se ver tudo ao seu redor: o mar, Copacabana e o Jardim Botânico. Tudo isso é da região da Gávea – de Ipanema também.

“Ipanema” é um nome que se originou em São Paulo. Pode-se comprovar isso reconhecendo que a maior parte dos proprietários de imóveis ali, em Ipanema, são daquele estado. Em uma das línguas indígenas brasileiras, o Tupy-Guarany, a palavra aparentemente significa “água ruim”, “água sem peixes” – um rio sem peixes que existe em São Paulo. E tem outra Ipanema, uma cidadezinha de Minas Gerais. Não é como se a nossa Ipanema tivesse água ruim, ou como se não tivesse peixe; pelo contrário, Ipanema tem muitos peixes e muitas espécies de peixes.

A Lagoa Rodrigo de Freitas, por sua vez, era duas vezes maior do que hoje. Seu nome original era Sacopenapã, que significa “grande agrupamento de garças”.

Ipanema está completando cem anos. O Barão de Ipanema, membro da nobreza rural de São Paulo, comprou uma fazenda aqui no Rio, à beira-mar, e se chamava Ipanema.

Um neto daquele barão, mais conhecido como Barãozinho, costumava passear e beber uísque conosco no Veloso's Bar, hoje Garota de Ipanema Bar. Barãozinho estava sempre lá para bater um papo, quando seguíamos a linha chinesa do Partido Comunista.

Eu tinha dezoito anos quando vi pela primeira vez pescadores lançando rede de arrasto na praia de Ipanema. A rede de arrasto continuou chegando às águas rasas naquela manhã maravilhosa.




A água estava totalmente límpida e a rede cheia de cavalas. Eu nunca tinha visto nada parecido, principalmente por causa de todos os dentes do peixe à mostra. Era como se os aviões existissem antes de serem inventados; aqueles peixes pularam alto enquanto tentavam escapar da rede. Então, os próprios pescadores pularam na rede. Fiquei impressionado com a coisa toda.

Eu era apenas um menino e ficava pensando nisso.

Na praia aprendemos sobre uma variedade de coisas. Por exemplo, existem águas que correm para o sul e águas que correm para o leste. Já as águas do sudeste trazem chuva. Houve um tempo em que apostávamos (e às vezes ganhávamos) num jogo de adivinhação baseado na previsão do tempo. Outro dia eu estava conversando com um amigo meu, José Pedro de Oliveira Costa, e estávamos comentando sobre pássaros, grandes e pequenos. Um pássaro só voa contra o vento e só pousa contra o vento. Quando você vê um pássaro em cima de um poste, seu bico aponta para o lado de onde vem o vento. Esse pássaro é como uma manga de vento em um campo de pouso. É como um avião que só consegue decolar correndo contra o vento.

Os peixes são iguais; eles nadam contra a corrente. Nas Ilhas Cagarras, por exemplo, as águas do sul correm para leste. Os peixes da ilha estão sempre próximos da zona onde as ondas batem nas rochas. Mesmo avançando, eles se posicionam e nadam contra o vento. O mar do outro lado da ilha, onde a água é parada, não tem peixe nenhum.

Pássaros e peixes, penas e escamas – a busca pela sobrevivência continua. Quando um peixe nada com a corrente, ele se move mais rápido que a água. Quando um pássaro voa com o vento, ele voa a uma velocidade maior que a do ar; é isso que sustenta o pássaro no ar.

A relação do homem com as aves em terra é diferente daquela no oceano. Em terra, os pássaros temem as pessoas que atiram neles. No oceano, porém, as gaivotas são amigas dos pescadores. Os pássaros mostram aos pescadores onde estão os peixes, porque avistam de cima o que os homens não conseguem ver.

Para você ver peixes aqui, a noite tem que ser sem lua. É o que chamam de prateado, quando as imagens na água ficam fosforescentes. Mesmo assim, porém, a magnífica gaivota conhecida no Brasil como carapirá enxerga muito melhor lá de cima do que as pessoas dos barcos.

Com a mesma visão vertical que os humanos não podem permitir, a magnífica fragata desce dos céus.

Quando mergulha e mergulha, o pescador lança as redes e pega os peixes. E, então, ele dá alguns peixes para as gaivotas. É uma parceria fantástica, uma ligação amigável que difere da relação do homem com as aves em terra. Muitos pássaros comem




 


colheitas do homem, enquanto que, na selva, o homem dispara contra elas.

A superfície do mar está constantemente turbulenta. É por isso que nenhuma criatura viva se preocupa com isso: simplesmente balança demais. É só o homem que tenta se equilibrar nisso. As pessoas eventualmente afundam nos níveis mais profundos do mar e têm que escalar as paredes da água para sobreviver. Os peixes, por sua vez, nadam abaixo da superfície da água, voam acima dela e não sentem nenhuma emoção em saltar para cima e para baixo no mar aberto. Um albatroz ou uma gaivota podem pousar e permanecer flutuando na superfície da água por um momento. Porém, eles logo se levantarão, porque aquele não é um lugar para ficar ou viver. Esse local é apenas para balançar.

Em sua música, Antonio Carlos Jobim utilizou todo o conhecimento e toda

identificação que ele tinha com a natureza.

Um dia, no Rio, Tom contou a Ana que havia um pouco de sangue na urina dele.

Ele também informou sua irmã sobre isso. Há semanas ele reclamava de algo que

chamava de “um pouco de cistite”. Ele estava bebendo chá e esperando que fosse

suficiente.




Ana imediatamente o trouxe para fazer um exame de urina. O resultado demorou

a chegar, quase um mês. Nesse ínterim, a vida continuou, mas a ansiedade

crescente de Tom era evidente.

Ele havia se comprometido a acompanhar Frank Sinatra em uma música do novo

disco de Sinatra, antes do final daquele mês de outubro. Tom também iria gravar

com Joe Henderson em Nova York logo depois.

Com o filho Paulo Jobim, Tom organizou uma sessão de gravação em um estúdio

na Barra da Tijuca, bairro litorâneo do Rio. Tom tocava piano e voz, enquanto Paulo

tocava violão. Pai e filho fizeram a introdução de “Fly Me to the Moon” em cima da

gravação feita em fita que receberam de Sinatra.

Semanas depois, em conversa com o cunhado Manoel, Tom comentou: “Gravei

aquele corte nas piores condições de toda a minha vida. Tudo o que fiz foi

improvisar, porque já fazia algum tempo que não conseguia urinar.”

Dr. Roberto Hugo, médico de cuidados primários de Tom, ligou para ele e disse

que precisava conversar com ele pessoalmente. Os resultados do teste haviam

chegado. Apreensivo, Tom comentou com Ana que achou estranho como o Dr.

Roberto Hugo quis compartilhar pessoalmente aquele resultado com ele: “Será que

tenho alguma coisa errada?”

E Ana o consolou: “Claro que não, Tom”.




 


Tom foi atendido pela massoterapia profissional da Célia. Depois foi a vez da Ana, e ela

adormeceu no meio.

Às dez da noite chegou Roberto Hugo. Ele subiu rapidamente as escadas de entrada e logo

se sentou à mesa redonda da sala de jantar. Depois de algum tempo de rodeios, o médico

explicou a gravidade do estado de Tom: câncer na bexiga.

Tom levantou-se da cadeira sentindo-se um tanto desorientado. Ele caminhou em direção

ao seu quarto e, com muita delicadeza, com sons familiares para ela, acordou Ana. Ela

perguntou o que estava acontecendo. Ele contou a ela que Roberto Hugo estava na casa deles.

Tom perguntou a ela: “Você não quer falar com ele?”

Ana percebeu imediatamente sua infelicidade. Ela se levantou e disse: “Claro que sim”.

Desceram juntos as escadas e sentaram-se com o Dr. Hugo. Ele relatou a Ana os resultados

dos exames. Ela congelou da cabeça aos pés. Tentando disfarçar suas emoções, ela



perguntou: “Tem certeza disso? Que tipo de teste comprova isso?

Dr. Hugo respondeu que não havia dúvida alguma. Os resultados impressos estavam em

suas mãos.

“Estou absolutamente certo dos resultados, mas também estou absolutamente certo de que

o tumor é muito recente. Não parece que esteja lá há muito tempo.”

Tom e Ana se entreolharam. Tom deu um meio sorriso e disse

sem jeito: “É isso, dona Ana...”

Ana tentou se defender daquele susto assustador agindo de forma objetiva: “Vamos para

Nova York amanhã”.

Tom segurou a mão dela e sentiu como ela estava gelada. “Coitadinho… você está em

pânico.”

Então Ana o tranquilizou: “Mas vai ficar tudo bem, Tom. Tenho certeza!"

No estúdio ela ligou para o Dr. Júlio Messer e explicou em termos gerais o que sabia sobre o caso. Ela terminou de dizer: “Vamos viajar amanhã. Marque uma consulta para Tom com um

especialista em quem você confia.”

Tom e Dr. Hugo entraram no estúdio. Ana pediu ao médico para conversar com o Dr.

Júlio Messer. Após a conversa dos dois médicos, Dr. Hugo minimizou os perigos da situação.

Informou a Tom e Ana que ele e o colega concordaram que a doença ainda era recente.

Dr. Hugo despediu-se deles, lamentando ter sido o portador de más notícias.

Tom e Ana ficaram sozinhos. Ela retomou os preparativos ligando para




 


Elizabeth e solicitando sua ajuda: para cuidar dos filhos e cuidar da casa por alguns dias.

Elizabeth consentiu imediatamente e avisou Ana que estaria lá no dia seguinte.

Totalmente impressionados com a notícia chocante, Tom e Ana dirigiram-se para o deck ao

lado do estúdio. Debruçando-se sobre a amurada, olharam em silêncio para a estátua iluminada

de Cristo no Morro do Corcovado, a paisagem que Tom tanto amava.

“Lamento muito deixar João Francisco e Maria Luiza. Eles ainda precisam muito de mim...”

“Nada vai acontecer, Tom. Nós o pegamos cedo o suficiente.”

Que noite infernal eles tiveram.

Eles viajaram para Nova York na quarta-feira, e já na sexta-feira ambos estiveram no consultório médico para que o tumor fosse localizado. Nos dias seguintes, Tom enfrentou uma infinidade de testes, e ambos viajaram por territórios emocionais desconhecidos onde nunca haviam estado.

Tom estava, portanto, se preparando para a cirurgia.




Tom não foi capaz de cumprir um de seus compromissos profissionais. Ele teve que explicar

a Joe Henderson que devido a problemas de saúde ele não poderia gravar.

Mesmo assim, Tom continuou escrevendo novos materiais e editando outros para o livro Visão do paraíso.

Os editores ficaram frenéticos com a viagem repentina de Tom e Ana a Nova York.

Dezenas de mensagens foram trocadas. No Rio não tinham ouvido a história completa sobre o

problema de saúde de Tom. As notícias sobre isso começaram a chegar à mídia e o telefone

não parava mais de tocar. Para todos os efeitos, Tom tinha vindo a Nova York para fazer um check-up.

Sozinhos em seu apartamento, Tom e Ana tentaram consolar um ao outro. Eles estavam tão

unidos que dormiam de mãos dadas. Muitos amigos começaram a visitá-los. Eles fizeram o

possível para distraí-los. A cantora Maucha Adnet, que hoje mora em Nova York, esteve sempre

presente. Animada, ela conversou e demonstrou seu carinho por Tom. Ela fez uma massagem

nele enquanto tentava lhe oferecer força e boas vibrações. O baterista Paulo Braga também

aparecia com frequência e fazia Tom e Ana rirem de sua visão bem-humorada da vida. Para

Paulo Braga, por exemplo, a diferença entre a bossa nova e os demais tipos de música é que “o baterista da bossa nova fica todo suado quando sobe no palco, depois de mil aventuras no

trânsito e algumas brigas com a esposa. À medida que vai tocando, aos poucos vai se acalmando na aparência, e acaba saindo do palco todo seco

 




e legal." No rock, acrescentou, “acontece o contrário. O baterista sobe ao palco todo seco e fresco, mas depois deixa tudo molhado e transfigurado.”

Tom gostou de ouvir essa comparação. Empolgado, o baterista concluiu: “Bossa nova é

euforia controlada. É frugalidade de notas. É um tipo de guerra de guerrilha.”

Às vezes, Ana parava em Chinatown e comprava lagostas e camarões fresquinhos. Ela

preparou deliciosos jantares e convidou amigos, como o professor Sérgio Canetti e o

baterista Duduka da Fonseca, marido de Maúcha, que também tocou com a Banda Nova

em Sevilha, no Mosteiro dos Jerônimos, e no último disco de Tom, Antonio Brasileiro. Tom aproveitou essas reuniões para deixar de lado seus problemas de saúde por um tempo. Ele

se sentava ao piano e entretinha seus convidados.

Uma noite Tom tocou “Maracangalha” de Dorival Caymmi com um arranjo diferente e

requintado feito por Mário Adnet. Ele disse a Maucha: “Essa música é em sua homenagem.

Diga ao seu irmão que esse arranjo da música dele animou meu coração.”

Quando Tom ia dormir, Paulo Braga não parava de contar histórias e de fazer rir Maúcha,

Duduka, Sérgio e Ana. De repente, ele olhou o relógio e disse: “Bossa nova também é

saber a hora certa de partir. Vamos permitir que a primeira-dama cuide do maestro.”

Pela manhã, Ana passeava pelo Central Park. Tom não suportava ficar sozinho por

muito tempo. Então ele se dirigiu ao hall de entrada para esperá-la.

Enquanto ela estava fora, ele conversava com um homem ilustre: Alberto Arroyo, a primeira

pessoa a usar o Central Park para correr. Ele entretinha Tom generosamente. Aos oitenta

anos ele estava em excelente forma e corria todos os dias. Ele fez cabeceiras para Tom

ver. De ótimo humor, ele levou Tom até um muro de pedra no Central Park, onde lhe

mostrou uma placa com seu nome. Ele foi colocado ali, em homenagem a ele ser o corredor

pioneiro, pela Prefeitura de Nova York.

No Rio, Maria Luiza estava muito chorosa. Ela sentia muita falta dos pais e não

aguentava mais. Ela implorou incansavelmente para ser levada para Nova York.

Elizabeth ligou para Ana e se ofereceu para levar a menina para ficar com os pais. Helena

e Manoel substituiriam Elizabeth no cuidado da residência carioca de João Francisco e de




Tom e Ana.

Assim que chegou a Nova York, Maria Luiza adoeceu com catapora.

Tom entrou em pânico: “Isso é tudo que eu precisava agora: eu mesmo pegar catapora. EU

 


não me lembro se tive isso na infância.”

Ele ligou para tia Yolanda. Ela o acalmou. A catapora foi a única

doença altamente infecciosa que ele já teve quando criança.

Aqueles eram angustiantes quarenta e cinco dias antes da cirurgia. Tom mitigou a

turbulência em sua mente e espírito através de suas interações próximas com Maria Luiza.

Ele a levava para passear no Central Park sempre que podia. Eles também visitaram o vizinho

Metropolitan Museum of Art. Apreciaram especialmente a sua secção dedicada à cultura

egípcia. Eles passaram muito tempo no museu, observando atentamente cada detalhe.

Outra rotina era a visita diária de um clérigo evangélico, o reverendo Zeni. Eles leram



salmos juntos. Depois disso, Tom pareceu deixar o mundo inteiro para trás e tocou piano por

horas a fio. Do pequeno pátio adjacente à sala de estar, ele contemplava os pontos turísticos de Nova York lá fora, enquanto sentia falta das vistas que costumava ter das janelas de seu estúdio no Rio.

Ele queria voltar para o Brasil. Nos momentos mais otimistas, ele e Ana

fez planos para o futuro.

Ele chegou a dizer que depois de descansar um mês em Poço Fundo voltaria a entrar na

selva, como fazia na juventude, para mais uma vez deixar a música buscá-lo. Isso nunca

aconteceu. Após dez anos de trabalho, com mais de 160 apresentações, a Banda Nova foi

silenciada de vez, e o grande cineasta e escritor Arnaldo Jabor escreveu: “A morte do Tom

não foi simplesmente uma árvore derrubada. Foi o fim de uma floresta inteira.”

 


Desfecho

ELE Atravessou a porta nos fundos da casa. Os criados formaram uma fila para a despedida.




Eles nunca tinham feito isso antes. Achei estranho. Impacientemente, meu irmão entrou no

carro. Ana estava atrasada. Ele saiu do carro, apertou a mão de cada um dos criados, me

abraçou com força e depois me beijou uma segunda vez.

Ele comentou: “Se Ary Barroso e Villa-Lobos morrerem, eu também posso morrer”.

Eu congelo. Ana chegou lá, então. Eles entraram no carro. Tom inclinou a cabeça para fora

da janela e disse ao meu marido: “Cuide dos meus filhos”.

Continuei olhando para o carro que descia a rampa sem pressa. O grande

portão abriu e fechou novamente. Ana acenou em despedida.)

Em sua última tarde no Rio, meu irmão passou um tempo em seu ateliê antes de se despedir

dele. Ele parou no meio da sala e examinou longamente cada objeto ali: os dois pianos, a

pintura azul de um anjo de Elizabeth e o desenho emoldurado que Paulo fez da capa que ele

desenhou para o álbum Terra Brasilis .

Tinha mais: livros, dicionários e um globo que emitia luz azul à noite.

Ele se dirigiu para a porta de vidro que dava para o jardim. Por segundos ou frações de

segundo, ele notou a água parada na piscina, depois se virou para as janelas que davam vista para o vale da cidade. Admirou Ipanema, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o mar e as montanhas

de sua infância.

Era quarta-feira, 30 de novembro, quando Tom viajou para Nova York. Ele ficou apenas

descansando em seu apartamento por quatro dias. Paulo estava lá para acompanhar o pai.

Todas as manhãs, Tom e eu conversávamos ao telefone. Tom foi internado no hospital na

segunda-feira. Na noite anterior à cirurgia do pai, João Francisco e Maria Luiza estiveram mais próximos de Manoel e de mim do que nunca. Não me lembro muito dos dias que antecederam

aquela segunda-feira, mas sei que fui à Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Atravessei

a praça em frente bem devagar — era a praça da minha infância e de Tom. Dezenas de

pombos que ali viviam voaram. Dentro do santuário, senti o mesmo ar fresco da escuridão

perfumado por lírios e cereus, como sentíamos no passado. Ajoelhei-me diante da imagem de

São Judas. Fechei os olhos e concentrei meus pensamentos: implorei pela recuperação do

meu irmão e implorei pela proteção dele, para que ele não sofresse. Caminhei pela nave

silenciosa. A igreja estava quase completamente deserta. Os vitrais, os santos estáticos e as




Estações do

 


Esculturas em cruz acompanhavam o grande Cristo em pé sobre uma enorme cruz de madeira.

Passei algum tempo diante das imagens em tamanho real de Jesus e sua mãe.

Depois pensei que tinha sido melhor para a nossa mãe ter falecido cinco anos antes. Dessa

forma ela não teria que passar por tantas dores que todos nós estávamos passando.

Mais tarde, o telefone tocou na cozinha. Eu respondi. Era Tom: “Você acha que Deus me

ama?”

“Meu irmão, Deus te adora!”

Algum tempo depois, Ana me contou que Tom estava radiante e passou o dia inteiro

dizendo aos amigos que o visitavam: “Minha irmã disse que Deus me amava”.

Tive uma premonição negativa quando nos despedimos: “Ciao. Mando um beijo para você.

Tudo vai ficar bem.



E ele simplesmente respondeu: “Ciao… minha irmã”.

Não acreditei no meu próprio pressentimento. Eu continuava certo de que ele voltaria.

Terça-feira, 6 de dezembro de 1994 – sete horas daquela manhã, Antonio Carlos Jobim era

submetido a uma cirurgia no Hospital Mount Sinai, em Nova York. Ele tinha um tumor maligno

na bexiga, um carcinoma de terceiro grau muito agressivo e invasivo. Ele era um paciente de

alto risco com sistema circulatório comprometido.

Lá no Rio, João Francisco e Maria Luiza ainda dormiam. Como se fosse um dia normal, a

casa seguia a sua rotina, no seu ritmo normal. Os criados faziam suas tarefas: Nivaldo varria o jardim e Assis, que já havia lavado o carro de Ana, agora puxava a mangueira em direção ao carro do meu irmão. Eu podia vê-los daqui, da pequena varanda do quarto principal. Muito em

breve, eu sabia, o motorista da família chegaria em seu Fusca com a cozinheira Tilde e as

compras. Andei pela casa e pelo jardim. Sentei-me ao lado da piscina de água azul. Quando a governanta Marleide abriu as janelas do estúdio, a laca preta de um dos pianos brilhou. As

teclas amareladas de marfim ainda estavam lá. A morte não existia.

Manoel e eu tomamos café da manhã em silêncio. Os criados também ficaram quietos.

Subimos as escadas até o sótão. Lá em cima estava tudo desarrumado: tapetes enrolados,

móveis amassados, uma mesa redonda com cadeiras invertidas em cima e as estantes que

guardavam os arquivos do meu irmão. O piano Welmar, no qual Tom compôs “A Garota de

Ipanema”, também estava lá – a capa estava fechada e,




 


a madeira, fria. Num canto da sala vimos o relógio antigo que pertencera à minha mãe.

Ficamos ali, no terceiro andar da casa, rodeados de arbustos que

obedeceu ao vento e continuou chicoteando as pequenas vidraças da sala.

Às duas horas almoçamos com Maria Luiza, João Francisco e minha neta Marcela.

Conversamos um pouco sobre uma variedade de coisas leves.

Atrás de todos nós, porém, havia uma sensação de escuridão pesada. Atendemos muitos

telefonemas de familiares e amigos que pediam novidades.

A noite chegou. As moscas haviam voltado ao seu zumbido rotineiro em torno das

lâmpadas da casa, e a vista do jardim tornou-se obscura e enevoada, quase onírica. Aí a

Ana ligou: “A cirurgia correu muito bem. Tom ainda está na sala de recuperação, mas é

rotina.”

A primeira grande expectativa foi cumprida. Eu estava exausto. Assistíamos televisão,



enquanto Marcela lia. Aí João Francisco e Maria Luiza adormeceram no sofá. Às dez,

Manoel levou Maria Luiza para cima. Acompanhei-o com João Francisco encostando a

cabeça sonolenta ao meu lado. Marcela parecia assustada, com os olhos arregalados,

assim como o vovô Azor. Todos dormíamos no quarto do meu irmão.

Quinta-feira, 8 de dezembro. Bem cedo, Manoel levou Maria Luiza e sua prima Chloé para

serem vacinadas contra meningite. Quando voltaram, vários veículos de imprensa já

haviam estacionado no portão da casa. Encantada com o zumbido dos carros e das vozes,

Maria Luiza sorriu e perguntou: “Tudo isso está acontecendo só porque eu fui me vacinar?”

Manoel subiu as escadas apressado quando o telefone começou a tocar. Marleide

atendeu e disse ao meu marido que a ligação era de Ana para ele. Achei estranho como

minha cunhada escolheu falar com meu marido, e não comigo, como ela estava

acostumada a fazer. Parado ao lado da porta, ouvi-o: “Mas isso acontece às vezes. Eu sei

eu sei. Acontece. Aconteceu com meu tio e ele se recuperou. Eu sei eu sei. Eu ouço você,

Ana. Acalme-se, ele voltará.

E os médicos? E Paulo? Me ligue de novo então... por favor, ligue de novo. Eu estarei

esperando."

Ele se virou para mim: “Seu irmão ficou inconsciente. Ele teve uma parada cardíaca.”

Comecei a tremer, senti frio e náusea também. Comecei a suar frio. Olhei de lado. O

jardim não era o mesmo jardim. Nunca seria.




 


Manoel me abraçou e me disse coisas que pareciam não fazer sentido: “Ele será

salvo... Ele está no melhor hospital do mundo... Seu coração vai bater de novo”.

(Onde está Deus? Eu tinha quatro anos e Tom-Tom oito. Estávamos sentados no

banco em frente à nossa casa na Constante Ramos. Era de tarde. Nossa mãe havia

saído e eu estava com frio. Meu irmão pegou Tirei o suéter e coloquei-o em volta dos

meus ombros. Ele então disse: "Ouça meu coração. Você já ouviu como ele bate

fazendo barulho?" Encostei minha cabeça em seu peito e ouvi o "baque-baque, baque-

baque. ” O coração do meu irmão bateu lindamente.)

Minha enteada, Simone, chegou acompanhada do neto do Tom, Daniel. Ela

percebeu que alguns de nós ainda não sabíamos o que realmente estava

acontecendo. Ela fez um gesto disfarçado para Manoel, mas eu vi. Eles entraram no

quarto do meu irmão e imediatamente fecharam a porta atrás deles. Eu vi, no entanto.



Corri em direção à porta, com Daniel me seguindo. Abri aquela porta e entrei na sala.

Simone e Manoel estavam no fundo da sala, que de repente ficou muito grande. Ao

lado da cama do meu irmão, eles tentaram fazer uma ligação. A nora de Tom,

Elianne, também apareceu com Elizabeth. Eles olharam para mim e perguntaram: “O

que há de errado?”

A voz que saiu de mim eu não conseguia me reconhecer. Lá fora, o mundo ficou

mudo. Nada se mexeu. Não havia vento – na verdade, não havia ar. Manoel deixou

o telefone de lado. Ele veio em minha direção. Naquele momento percebi o que

estava acontecendo. Eu não aguentava, no entanto. Elianne e Marcela me seguraram.

Manoel me agarrou com firmeza em seguida. Daniel também tentou ajudar...enquanto

meus joelhos dobravam. Não havia mais poder em meu corpo. Comecei a gritar: “Eu

quero meu irmão! Eu quero meu irmão!

Meu marido disse: “Você precisa se controlar. Muito em breve a televisão e a rádio

divulgarão a notícia. Devemos chamar o João Francisco e a Maria Luiza para prepará-

los.”

Como eu poderia contar para Maria Luiza que o pai dela acabara de morrer? João

Francisco ainda dormia. Quando ele acordasse, a vida teria mudado, o mundo teria

explodido. Eu me perguntei: como as pessoas falaram comigo quando meu pai

morreu? Como eles me contaram? Luiza ainda era tão pequena. Ontem ela estava

reclamando da falta dos pais. E João Francisco? Agora, nunca mais – mas quem

pode lidar com o “nunca mais”? “Quem fica órfão ainda jovem passa a vida sem um

dos braços”, escreveu Pedro Nava.

Coloquei Maria Luiza no colo enquanto me sentava na poltrona do quarto dos pais

dela. As crianças não deveriam sofrer. Apoiei a cabeça de Maria Luiza na minha




 


peito e acariciou os cabelos lisos e sedosos que herdara do pai.

Ela notou que algo estava no ar. Ela olhou atentamente para mim e perguntou: “A que horas

meus pais chegarão?”

Tudo que eu sabia era que ela precisava sentir o calor do meu corpo. Ela perguntou novamente:

“Papai chegará agora?”

Enquanto a acariciava, falei em tom baixo e carinhoso: “Mamãe chegará amanhã”.

“Que tal papai?”

“Pai... eu não sei. Ele não está muito bem.”

Senti seu pequeno corpo estremecer contra o meu.

“Ele não vem?”

“Talvez ele não consiga voltar… Seu coração está muito fraco neste momento.”

"Ele irá morrer?"



“É possível que ele morra... Talvez Nosso Pai Celestial o esteja chamando agora.”

“Mas eu não quero que ele vá morar com Nosso Pai Celestial! Não, eu não.…”

Então choramos juntos, nos abraçando. Nossas lágrimas se misturaram. Seu pequeno rosto

pálido, agora subitamente frio, apoiou-se no meu. Depois de um tempo, ela levantou a cabeça e me olhou fixamente, como se me procurasse no fundo dos olhos. Ela parecia adulta e disse: “Já sei que papai está morto”.

“Ele precisava descansar. Ele estava muito cansado. Sua mãe, porém, chegará aqui em breve.

Ela se agarrou ao meu pescoço e começou a chorar de novo – choro baixo, sem soluços,

apenas imóvel em meus braços.

Manoel já havia conversado com João Francisco. Ele abraçou o tio, chorando intensamente, e

repetiu: “O que vai acontecer comigo agora? O que vai acontecer comigo agora?”

Ele soluçou por muito tempo. Manoel também chorou. Ele disse: “Eu ajudarei a cuidar de você

– sua tia, seu irmão e sua irmã mais velha também. Sua mãe está voltando... e sempre estaremos juntos.”

João Francisco não parava de chorar. Ele estava sufocando com as próprias lágrimas.

 




As redes de televisão começaram a transmitir suas primeiras reportagens. Antonio Carlos Jobim

estava morto. Nosso maior compositor estava morto. Meu irmão estava morto. As notícias da

morte geralmente correm muito rápido. Parentes e amigos apareceram rapidamente. A casa

estava lotada e a rua lotada de carros grandes, caminhões de mídia, câmeras e repórteres.

Os amigos do João entraram. Trancaram-se no quarto dele e choraram com ele. Os amigos de

Maria Luiza também chegaram. Eles ficaram surpresos. O telefone não parava de tocar.

No dia seguinte, Ana me contou que quando meu irmão voltou da anestesia geral, sua pele

não estava brilhando como depois da primeira cirurgia. Dessa vez ele parecia ter sido atropelado por um trator. Todo inchado, picado e conectado a vários tubos, ele ficou arrasado.

Ele foi colocado na sala de recuperação por algumas horas. Quando ele voltou, ficou surpreso:

“Então, eu não morri...”

Cedo naquela noite, eles o levaram para seu quarto. Nas primeiras horas ele parecia bem.

Ele até brincou com o médico: “Doutor, eu te amo!”

O oncologista ficou feliz como uma criança: “Você está completamente curado”.

Tom ligou para Ana e sussurrou para ela ao lado da cama: “Sabe qual é a primeira coisa que farei quando sair daqui?”

Ela presumiu que ele mencionaria algo como ir a um bom restaurante ou beber um vinho

maravilhoso. Meu irmão acrescentou, porém: “Vou àquela loja na Quinta Avenida onde posso

comprar lentes de contato azuis. Vou chegar ao Brasil exibindo meu corpo esbelto e olhos azuis.”

A noite seguinte foi um caos. Quando ele teve sua primeira falta de ar, já passava da meianoite. Paulo ajudou o pai a sair da cama e empurrou o tripé de soro para trás enquanto andava pelo quarto. Paulo levantava e abaixava os braços do pai na tentativa de ajudá-lo a respirar melhor. Tom estava muito nervoso.

Ao se sentar na cama do pai, Paulo percebeu que a respiração de Tom estava péssima. Então,

ele apertou o botão de emergência e disse: “Espere um segundo, pai”.

Ele correu para o corredor e encontrou uma enfermeira, que o seguiu de volta ao quarto de

Tom.

"Senhor. Jobim, você tem que respirar”, disse a enfermeira.

"O que está acontecendo?" perguntou Tom com bastante raiva.




A enfermeira explicou uma série de coisas que só irritaram Tom: “O que

 


você está me dizendo que eu já sabia. Gostaria que você me contasse o que não sei.

Paulo, deu tudo errado...”

A enfermeira disse a Tom para soprar um pequeno balão, mas foi difícil para ele.

Ele alertou Tom sobre o risco de contrair pneumonia. Quando um dos médicos entrou

na sala, Tom perguntou sobre esse risco: “Essa é uma possibilidade”.

“Vocês me deram anestesia geral, mas eu não quis. Nem meu filho nem minha

esposa queriam que fosse assim.”

Depois que o médico e a enfermeira saíram da sala, Tom pediu a Paulo que

diminuísse a dosagem da anestesia. Paulo tentou dobrar o tubo, mas foi muito difícil. A

anestesia peridural, injetada gota a gota, prejudicou suas funções vitais. Tom tirou

todos aqueles tubos. A enfermeira voltou e os reconectou.



A secreção que agora o afligia e impedia sua respiração normal era consequência

da anestesia geral. Tom implorou por um vaporizador de ar quente. Foi assim que ele

tratou seus filhos. A enfermeira disse que nunca tinha ouvido falar de tal coisa. A

secreção em seus pulmões piorava gradualmente. Tom ficou mais agitado enquanto

procurava ar para respirar. A enfermeira deu-lhe uma máscara de oxigênio frio com

remédio para dormir. Tom se acalmou e adormeceu. Ana havia voltado para o

apartamento deles em Manhattan, pois o quarto do hospital estava frio e ela tossia com

muita frequência.

Sentado na cama ao lado da do pai, Paulo não conseguia dormir. Ele se lembrou da

conversa que teve com o cirurgião antes da operação. O cardiologista havia declarado

que o caso do pai era gravíssimo. O entupimento de suas artérias era tão generalizado

que as pontes de safena não funcionavam. Paulo ainda achava que seu pai conseguiria

viver mais alguns anos. Ele parecia ter encontrado uma maneira de controlar sua

doença arterial, mas Paulo temia que os efeitos colaterais da anestesia geral pudessem

ser demais para ele.

O médico explicou então: “O estresse causado pela anestesia peridural pode ser

mais perigoso para o coração do que a anestesia geral”.

Paulo ligou para o cardiologista de Tom. Ele disse a ele que seu pai estava com

dificuldade para respirar novamente e que estava com medo de todo aquele estresse

em seu coração. Paulo, então, adormeceu bem ao lado de Tom. Paulo acordou no

meio da noite quando a enfermeira negra e corpulenta, de quem Tom gostava muito,

voltou. Seu pai abriu os olhos, olhou para ela e disse, mais uma vez: “Então, eu não morri...”

Paulo ficou aliviado e adormeceu novamente. Quando ele acordou, era quase




 


alvorecer. Havia duas enfermeiras na sala. Tom estava tentando sair da cama. Uma das

enfermeiras havia colocado e trancado as grades de segurança da cama.

“Onde você quer ir, senhor Jobim?” ele perguntou.

"Eu quero ir à praia! Para chegar perto da praia… para respirar… o mar

aroma… para respirar.”

Tom estava chateado. Mais uma vez ele tentou se libertar dos trilhos, mas não conseguiu.

Paulo também tentou libertá-lo, mas não conseguiu. Ele queria conduzir o pai pela sala mais

uma vez – ele levantaria e abaixaria os braços de Tom ajudando-o a respirar, como antes. Atrás dele, Paulo bateu nas costas de Tom para limpar seu sistema respiratório. Paulo perguntou à

enfermeira por que não usavam sonda para aspirar aquela secreção. A enfermeira saiu da sala

e voltou rapidamente com o remédio que havia dado a Tom antes para desobstruir os tubos

respiratórios.




A morte de Tom foi rápida. Paulo, ainda atrás do pai, não viu seu rosto. Ele viu que a

enfermeira estava com o rosto confuso. Demorou apenas um segundo. Tom nem sequer emitiu

nenhum som. Quando o deitaram na cama, seus olhos já estavam voltados para trás. Ele

desmaiou e teve uma parada cardíaca. Uma equipe de médicos entrou na sala. Eles tentaram

ressuscitá-lo. Eles bateram no peito dele e cortaram uma artéria femoral na virilha. Através

dessa artéria inseriram um tubo até o coração.

Paulo ligou novamente para o cardiologista. Ele também ligou para Ana, que dormia no

apartamento dela. A parada cardíaca de Tom durou vinte minutos. Eles conseguiram ressuscitá-

lo. Sua respiração foi retomada através do ventilador.

Um dos médicos comentou: “Ele está à beira de um ataque cardíaco. Vamos

opere-o e dê-lhe um bypass.

O pensamento imediato de Paulo foi preocupar-se com o comprometimento da circulação

sanguínea do pai, especialmente no cérebro. A pressão arterial sempre cai durante a cirurgia.

Ele estava com medo de que seu pai não recuperasse a consciência. Então, ele perguntou ao

médico: “O que vai acontecer com ele depois da cirurgia?”

Em vez de responder à sua pergunta, o médico perguntou a Paulo: “Há quanto tempo

última parada cardíaca?”

“Vinte minutos.”

Entretanto, o electrocardiograma continuou a indicar que um coração

o ataque era iminente. Paulo se perguntou o que restaria do pai.

O segundo ataque cardíaco de Tom foi mortal. Não houve nem tempo para ele




 


chegar à UTI. Os médicos sugeriram a realização de uma autópsia, mas Paulo e Ana recusaram.

Ana fechou os olhos. Ela chorou muito alto e soluçou fora de controle

repetindo: “Você é meu Deus agora... você é meu Deus agora”.

De joelhos bem ao lado da cama do pai, Paulo ergueu as mãos orando e chorando:

“Aquele que habita no abrigo do Todo-Poderoso, à sombra do Todo-Poderoso,

descansará.…Porque o Todo-Poderoso iluminará os anjos sobre você. , para que eles

possam protegê-lo ao longo do caminho.”

Sem emoção, um dos médicos disse: “Ele parecia ser um homem forte, mas

ele era realmente frágil.

O avião que trouxe seu cadáver chegou ao Brasil na madrugada do dia seguinte.

Brasília declarou luto oficial de três dias. No trajeto do aeroporto ao Jardim Botânico,

um caminhão de bombeiros passou pelas praias da cidade com o caixão de Tom



coberto pela bandeira brasileira.

Ao longo de todo esse percurso, uma dolorosa Via Sacra, as pessoas acenavam,

choravam ou cantavam suas canções. A procissão chegou às onze horas ao antigo

casarão do jardim botânico, onde aconteceria o velório de Tom. Nós, familiares,

solicitamos alguns minutos para ficarmos a sós com ele. Do lado de fora veio o zumbido

de vozes de um grande grupo de repórteres e de uma longa fila de pessoas que vieram

se despedir.

Alguém descobriu o caixão e pude ver meu irmão pela última vez.

Rodeado de flores, ele vestia roupas brancas. Seu rosto estava sereno e suas mãos

cruzadas sobre o peito. Aproximei-me, sentindo-me estranho e incapaz de compreender

aquela realidade. (Foi difícil, Tom? Quantas vezes falamos sobre a vida e a morte, o

medo do desconhecido e o significado do sofrimento? Em tantas ocasiões concordamos

que a maior bênção seria uma morte rápida.)

Aproximei-me do corpo do meu irmão, agora profundamente adormecido. Com os

lábios cerrados falei com ele: “Você saiu muito cedo, meu irmão. Não consigo aceitar

essa perda. Eu poderia me resignar a isso? Você faleceu no auge, porém, em plena

posse de suas habilidades mentais.

“'A vitalidade da música brasileira vem de todos os seus artistas iluminados' – foi

Caetano Veloso quem colocou dessa forma. Você não toleraria a vida com dor ou sem

seus poderes.

“O ditado popular diz que 'longa é a dor do pecador, e breve é a pontada do trovador'.

Quão breve foi sua dor? Quanto tempo durou? E




 


onde você está agora? Isso é bom? É ruim? Ou nada mais é do que um sono profundo?

“Vendo você assim – imóvel, falecido – penso no eufemismo com que um amigo meu fala da

morte: 'Desde aquela data ele não atende mais nossas ligações'.

"Então é isso. Não importa se eu repito seu nome... indefinidamente. Eu me inclino para

beijar seu rosto. Meus lábios acham sua pele fina tão estranha. A morte é assim, frieza ou

quietude?”

Eles fecharam o caixão. Ansiava por ver meu irmão mais uma vez, só mais uma vez, para

me despedir. Foi inútil, no entanto. Eu havia perdido a noção do tempo. Eu não sabia agora

quantos minutos se passaram entre meu último beijo e a abertura das portas de entrada,

quando tantos amigos e fãs começaram a entrar.

Nada além do silêncio foi deixado dentro de mim.

À medida que a tarde avançava, o ar frio e perfumado do Jardim Botânico filtrava-se pelo



salão principal. Tia Yolanda, com quase noventa anos e lúcida, aproximou-se de mim.

Apoiada pela filha Lúcia, ela me beijou e se despediu. Seus olhos estavam secos e assustados.

Correram rumores sobre o adiamento do enterro para o dia seguinte. Ainda havia muita

gente na fila para se despedir de Tom. Conseguimos colocar na frente da fila um velho afro-

brasileiro que soluçava e dizia: “Esse homem é um santo. Sua música adicionou muita alegria

à minha vida. Por favor, traga-me para perto dele. Eu preciso tocá-lo. Ele era deficiente visual.

Preocupados com a multidão que esperava para ver Tom, pensamos seriamente em fazer o

enterro no dia seguinte, mas Manoel sabia que não aguentaríamos uma noite inteira no velório.

Maria Luiza tinha visto o pai, como queria. Ela voltou para casa depois, seguindo o conselho de um médico e de um amigo. Muito choroso, João Francisco ficou por perto.

Não me lembro de nenhum detalhe do cortejo fúnebre. Tudo o que sei é que li uma inscrição

em latim no topo de um portão de ferro: “Revertere ad Locum Tuum” (Regresso ao seu local de origem). Então, é isso? É essa a razão pela qual nascemos e vivemos nossas vidas lutando?

Eu me vi andando por uma rua muito longa e arborizada.

Fui acompanhado e auxiliado pelo meu neto Marco, pelo irmão da Ana, Rafael, e pelo Biel, meu primo. Minha filha havia chegado de Belo Horizonte. Ela e Marcela também se juntaram a nós.

Num determinado momento, dois helicópteros lançaram pétalas de rosas vermelhas sobre o

túmulo do meu irmão.

 




Vivemos toda a nossa vida para este momento. Sem qualquer medo ou vergonha,

chorei agora enquanto caminhava em direção ao túmulo. Continuei apertando contra o

peito o buquê de violetas que havia recebido de uma alma bondosa anônima. Eles

tingiram meu coração de roxo. Jornalistas e fotógrafos subiram o mais alto que puderam.

Suas fotos de lanterna me confundiram. Um dos fotógrafos colocou a câmera no chão e

começou a soluçar. O caixão caiu.

Em Nova York, um dos elevadores do prédio onde morou Antonio Carlos Jobim fica

parando no vigésimo segundo andar. Segundo o porteiro, “dois homens vieram aqui

resolver o problema do elevador que sobe constantemente até o andar do Sr. Jobim. Eles

não encontraram nada de errado nas máquinas.”

Eu acreditei. Eu precisava acreditar. Também imaginei que poderia continuar a ouvir

indefinidamente a sua música e a sua poesia: “Um golfinho casado com uma sereia

planeia uma viagem de avião […] e uma alma desaparecida quer voltar...”

A alma desaparecida queria voltar. Sonhei com ele ontem. Ele disse

eu: “Meu barco chegou ao cais.”

Vejo você mais tarde, meu irmão.

Na casa branca da família, no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, o carteiro

chorava ao entregar uma infinidade de telegramas. Na terceira noite, o pintor Veronese

estava sentado nos degraus que conduziam ao portão principal. Ele escondeu a cabeça

entre os joelhos. O segurança particular do bairro se aproximou e o interrogou.

O pintor disse: “Você não precisa se preocupar com nada. Acordei no meio

da noite e não conseguia voltar a dormir. Eu gostei muito daquele homem.

O segurança entendeu: “Entendo. Muitas pessoas passaram por aqui, pessoas que

querem ver a casa dele.” O guarda tirou o chapéu e coçou a cabeça.

“Sabe, o senhor Jobim sempre me deixava um pão na barraca.”

Ana mandou para Thereza um pequeno chaveiro dourado, com a imagem de um tordo

em relevo desenhado por Paulo. Nilza deu aquele chaveiro ao filho quando a música dele




ganhou o Festival Internacional de Música do Rio. Tom manteve as alianças de seu

primeiro casamento penduradas naquele presente especial. Thereza ficou emocionada e

comentou: “Foi um gesto lindo da Ana”.

No piano de Nova York, uma partitura permaneceu intacta – a última música que ele

tocou nos dias que antecederam sua internação no hospital.

Meu sobrinho disse que a música é linda: “Nunca haverá outro você”.

 


Da janela do apartamento de Tom, Paulo notou um falcão branco. O pássaro

subiu em círculos, cada vez mais alto nos céus. Os olhos de Paulo acompanharam

o vôo até se tornar um ponto lívido no firmamento.

Invisível ao olho humano.

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